24 de julho de 2007
Pocilga Literária
23 de julho de 2007
Onívorofertório
. fazendo com tripas, coroação
boas intenções ao molho pardo
visceral é faltar três refeições ao dia
.
pedo-fagismo lambe-dedos
.
quem são essas pessoas que se alimentam de outras?
vamos comer fora, auto-flambado, mais um tibetano!
sobre as ruas roem as sobras
.
barrigadas de sensaboria frugal
refém são de massas mero palativo
.
... moralmente, onde a fome nos serve...
ao sugo siciliano o nosso prato mais caro nada
...quando expira, esteticamente, o banquete...
balas perdidas que não acham doces bárbaros
...a vingança gulosa, como se cruamente...
.
é voraz como degusta o comensal
o mal passado é apenas o aperitivo
.
filé mignon da crítica literária
à força de um es-quar-te-ja-men-to se desfaz a união?
hoje foi dia da carcaça, amanhã será do conservador!
.
tele-culinária anti-coagulante
.
ovelha podre ou maçã negra
fundamentos da violação carismática
a nossa veia democrática em sangria
18 de julho de 2007
Contra a Poesia
.
Algo como um sacerdócio que me marcou profunda e indelevelmente ao buscar ser um poeta experimental, levando uma vida experimental. Tudo o mais que existe, eu perdi. Posso me considerar o maior derrotado, perdedor, na medida em que fui extraviado da vida normal, morna e confortável, de toda a gente; sem deixar o convívio dessas gentes e de ser eu mesmo mortal. Carrego esse dom como um aleijão, um horrível terceiro braço que quando não está escrevendo serve para me mutilar; sou mais de um agora, mas esse outro ente terrível que também sou eu, eu carrego comigo para outro e um lado como irmão siamês que me dita o melhor da vida, e me interdita ao tentar desfrutar dela. E eu um dia QUIS tudo isso. Sou um iniciado, agora que tudo está terminado.
.
Já não acredito em Deus ou no Diabo, além (ou aquém) do mal e do bem; se há outra forma de vida fora da Terra, é inteligente o bastante para não vir se perder por aqui; não tenho esperanças de revolução alguma que nos redima ou melhore o mundo, sendo mais do que um pessimista ou niilista, um cínico; entrei em um processo sem volta de transgredir quaisquer limites que me impunha antes a minha humanidade perdida. Como outros como eu, cruzei as portas da percepção, olhei de frente o cintilante conteúdo das latrinas; fui a autêntico ladrão de fogo e antena da raça; recebi a visita do anjo torto que me madou ser gauche na vida, experimentei em mim todos os venenos, fiz-me louco e vidente com um completo e racional desregramento de todos os sentidos; inalei perfumes de carcaças e cabeleiras; morri muitas mortes difíceis como partos sangrentos; viajei o mundo em busca de mim e perdi meu tempo procurando por mais lembranças. Morro pré-natal pois nasci póstumo. Tenho vários livros escritos que ninguém ainda pôde publicar. A Poesia é um tipo de monstro de vanguarda, defendei-vos dela vos fazendo gárgulas... ponde uma carranca na linha de frente do vosso analfabetismo poético. Olhai e não passeis!
.
Não queirais ser poetas, vos vaticino o futuro e assim vos aconselho. Não busqueis ser mais profundos, toda Arte é completamente inútil. A Poesia não está nos livros, está na vida, não a reproduzais, gozai-a. Não queirais criar mais Beleza escrita, que tanto mal faz a quem a aprecia, que rapta e mantém cativos àqueles fetichistas que sem nenhuma ingenuidade a idolatram. Mantende-vos puros e afastados disso, é um perigo e vossa felicidade pode estar em risco. Sede simples, nascerdes humanos já foi algo demasiado complexo para uma única existência, a ataraxia deve ser o caminho mais certo para a felicidade. Não vos inflijais tal ônus; sabeis que vós não preciseis de nada disso, ainda que a própria Poesia vos diga ao pé do ouvido que precisa de vós. Eu vos admirei e invejei em segredo pelo que não sois. Estas palavras não querem formar uma peça artística, não são obra de ficção; não querem servir outros, apenas a vós mesmos... por amor de vós, deixai-as calar profundamente em vossos corações e tende em mente que podem ser um último aviso. Não vades por aí... hipócritas leitores!
27 de junho de 2007
Espelho... espelho... nosso
Suma, de quaisquer raízes desistaEis que falta-me o chão e me ufano
Já não é eco da maldição narcisista
A total ditadura do rosto humano
.
Egóticos, voyeristas ignaros
São tudo que sempre evitei
Saí só para comprar cigarros
E foi que nunca mais voltei
.
Tarde, eu mesmo já não me acredito
O poema é apenas isso que você leu
Leia melhor apenas se achou bonito
26 de junho de 2007
Cor(ou)Ação
Paixão mesmo, das que apenas existem, a que sinto. E saudades. De tudo aquilo nosso. Sabes. Bocas, bravezas, brincadeiras, bravatas. Falamos gostoso, bem gostosinho... quase gozo. Supér mais que fluo... Vou. Soube de e por ti de istos e aquilos. Re-imagino. [T {(tê) são}]. Beber uns goles nos refazendo companhia. Juntos. Alugar ou não há? A ir, indo ainda. Divagandando. Vamos sim vadiar sim vamos sim viajar. Sertodo errrado. Vê nus... amar-te. No pequeno anel só cabe teu nome. Até não mais quero poder; quero até não poder mais. Você. É... transar é que é... bom... só contiguamente: a minha mente contigo. Amo. Por quê? Por que não? Exclamo? Interrogo! Rogo e clamo... por. Ruma o de sempre e como nunca, a cada e de todas as vezes por uma. Encontrar alguém assim na vida é se perder assim na vida de alguém. Ó... Eu aqui tenho um mal de amor e é muito longe o que sinto; bem aí!
25 de junho de 2007
Perfídiáfano
Eu vou te contar tudo o que está acontecendo.Hoje quando acordei, a primeira coisa que fiz foi finalmente olhar umas fotos minhas de infância que estavam com a minha irmã, que as deixou comigo quando veio aqui. Eu ainda não as tinha visto. Em algumas delas estou naquela idade na qual não se pode saber se o bebê é menino ou menina, nem tampouco é possível reconhecer já muitos traços da aparência que tenho hoje. Pensei no que a tua avó me disse imediatamente após pensar aquilo. Uma das fotos trazia uma mulher meio de costas, com um bebê de colo, minha mãe e eu; mas também poderia ser a tua mãe e você. Agora penso que também poderia ser outra mãe com seu filho no passado e, você entenderá o porquê mais adiante, no futuro.
Um detalhe ao qual não dei muita importância na hora é que a minha mãe em algumas fotos parecia muito com uma das irmãs dela, uma que você conheceu; em outra foto ainda, meu pai parecia um tio irmão da minha mãe, cuja ex-mulher você conheceu também. Isto tem de certa forma conexão com o casamento.
Ao descer do quarto, antes de sair, minha mãe me contou que a minha prima (que você conheceu) vai se casar em dezembro do ano que vem, e que você e eu seríamos oportunamente convidados e, pensei comigo, provavelmente como padrinhos, novamente. Aqui eu já havia me dado conta que todos os fatos que ocorrem realmente guardam certa ligação entre si no tempo e no espaço, quase sobrenaturalmente... mas agora atordoado confesso que eu ainda não tinha uma real idéia do quanto. A minha vida assustadoramente faz parte de um esquema que eu julguei poder fingir ignorar, relacionado também com todo o trágico no mundo e os sentimentos que trago comigo desde criança, desde o ventre... ou desde (e até) onde? E o mais importante para mim: por quê?
Saí para procurar trabalho, um trabalho qualquer, com um único objetivo bem definido, e o pensamento intensamente voltado não para os mistérios da vida e as coisas inexplicáveis que acontecem no mundo, inclusive ruins. Mesmo conosco. Eu pensava em você e em como você estava pensando em mim. E era bom.
O dia passou rápido apesar de ter sido um tanto chato e desgastante. Imagino que o teu dia tenha passado bem devagar, que tenha feito muita coisa. É estranho?
Uns momentos daquelas horas andando pelas ruas estão me ocorrendo: de vez em quando, ao longo do dia, eu pensava em nomes, nomes de pessoas que conheço, bem próximas, no meu, nos dos amigos e amigas, no da família. Isto doía, sobretudo em alguns instantes em que o meu nome me ocorria.
Chegando em casa tive de agüentar da minha mãe uma conversa muito desgastante sobre deveres e responsabilidades, sobre comprometimento. Senti muita pressão, até porque ela usava argumentos com os quais, ela dizia, todos concordavam, sobretudo sobre mim e a minha atual condição; pior é que me falava sobre o eu que sempre fui, essencial, e um eu que eu deveria ser, ideal. Contava-me sobre coisas que ela, meu pai, minha irmã, meus amigos e até você pensavam sobre mim. Procurei não dar ouvidos, mas agora sei que algo disto entrou a ainda está em mim enquanto contra a minha vontade relembro.
Pensei muito em você, refugiando-me na idéia de nós dois juntos, felizes.
Então, você me telefonou, bem antes do que eu esperava. Nós nos falamos aquele tanto, que foi bem pouco; e o que falamos, bem estranho. É uma sensação que me tomava durante a ligação, não baseada nas palavras ditas, mas nas não ditas. A exceção poderia ter sido um momento em que eu ia dizer algo e não disse. Quer saber o que era? Logo mais adiante você finalmente saberá. Continue.
Saí pouco depois. Na rua, era como se tudo o que eu ouvisse começasse a fazer sentido quando interligado com as outras coisas, ou como se eu recomeçasse a perceber esses sentidos aos quais ainda não havia solucionado bem. Foi aí que vi o bebê no colo da mãe. Era como eu ou você, o rosto familiar e ao mesmo tempo indistinguível, também o da mãe, que atravessava apressada a rua.
Na viagem de volta, lembrei do sonho que tive a noite, e liguei os pontos:
Várias pessoas que conheço e conheci, algumas já mortas, e algumas que não reconheço (mas acho que não cheguei a conhecer ou ainda vou conhecer), caminhavam em minha direção, eram muitas e tinham uma aparência de que vinham para ajudar, apesar de causarem no fim tanta dor. Todas essas pessoas, cada uma delas, tinham no colo um bebê, o mesmo de antes, mesmo de sempre.
Cercaram-me como se me acolhessem e lembro-me de me sentir muito amparado.
Os bebês olhavam para mim como se estivem gostando de me ver, felizes até por isso embora não sorrissem de verdade, pareciam mais preocupados, o que me preocupou. Eu não acho que sabia que estava sonhando, acho que por isso foi tão real apesar de algo possivelmente impossível; talvez por isso nunca me lembre dos sonhos. Neste exato momento em que escrevo isto me vem a certeza de que é isso mesmo o que acontece, deve ser para eu não os interpretar como procuro fazer com o que vivo quando velo. Mas será que estou não estou dormindo agora? Parecia raciocinar como nunca enquanto sonhava; eu sei agora que sonhando vou a lugares e tempos, e são sempre o mesmo, onde e quando tudo acontece.
O que aconteceu foi que conheci aqueles bebês um a um e eram iguais na aparência, embora não exatamente a mesma pessoa. As pessoas que os traziam tinham cada uma um rosto diferente bem definido, mesmo as que eu não sabia ser; apesar disso, de sua aparência e, ao exato contrário dos bebês que traziam, pareciam ser a mesma pessoa, embora tivessem rostos de mulheres e de homens, jovens ou velhas. Eu percebia mais algum sentido oculto nisso, mas somente pude perceber o suficiente quando os bebês falaram pela primeira vez; todos o fizeram ao mesmo tempo, em uníssono, com suas vozes estridentes que agora mesmo parecem ainda ecoar na minha mente dizendo:
"Tem o coração seus motivos?
Então agora eu sei o que muito daquilo quis dizer, no sonho e no resto do dia. Algumas pessoas para as quais minha mente se voltou hoje ao despertar eram traídos e outras traidores, e no sonho todas eram pessoas traídas que conheço. Entendi cada sensação deste dia, da minha vida toda, dos momentos com você e, sobretudo, àquilo que você disse e não disse ao telefone, todos os casamentos, inclusive o nosso. Talvez o bebê fosse eu mesmo, já que eu sonhava, mas podia ser cada possibilidade morta de você e eu trazermos à luz um novo ser. E por quê?
A pergunta que eles me fizeram já responde isto. Eu sei que você me traiu.
E assim o que acontece é que tudo se acaba, nada mais importando entre nós. Você fez o que fez, sem me contar nada do que está acontecendo. Não sei como, quando, com quem ou de que forma foi; se foi bom ou ruim, fácil ou difícil, se gostou ou não. Aconteceu, não há retorno. Sinto que foi hoje, talvez enquanto escrevo isto, agora. Você terá tido motivos que não sei responder. É impossível não te perguntar e é tudo o que nós ainda queremos saber, eu e o sonho que tive.
.
15 de junho de 2007
A Necrofilia da Arte
Amedeo Modigliani
Jim Morrison
.
Guillaume Apollinaire
Gustave Doré
Henri Beyle (Sthendal)
.
François Truffaut
.
Gérard de Nerval
. Frédéric Chopin
. Jean-Paul Sartre & Simone de Beauvoir
.
Heinrich Heine
.
Charles Baudelaire
Honoré de Balzac
.
Edgar Degas
.Émile Zola
.Jean De La Fontaine
.Oscar Wilde
. Julio Cortázar
+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Soneto Velado
No início era a treva analfabeta
Superada já nasce a vanguarda futura
É passado o tempo da ampulheta
Jaz no mim dos centos tal literatura
Necrópole ou biotério?
Morra pela hipérbole!
Biotério ou necrópole?
Viva pelo cemitério!
Viuvez menos marmórea seria matar
Frieza mais letárgica será enterrar
Morbidez menos mortal seria profanar
Certeza mais incorpórea será ressuscitar
Palidez menos trágica seria assombrar
Beleza mais abismal será epitafiar
11 de junho de 2007
Europa, Uma Constatação

Andando sobre bolhas
Abandono a pele por onde passo
Caminho de bronze no zênite da vida
De colo até riso trip ululante
Flano pueril por entraves espiralados
Logram largados lugares alegres
A guia calçada me passeia
A minha paixão não tira férias:
É a falta que as figuras que me faltam fazem
Q: “Para que tanta perna, meu Deus?”
A: “Para teus olhos fatigados, com o Diabo!”
Ninfas com faunos sorriem em riso
Há efebos, bofes e suas fobias
Falo para xoxotas da saudade da língua
Com sofismas, sofreres e filosofias
Um reingresso ao impagável
Pois farra pois fiesta pois folie
O gênio que continua a florescer
Um som flameja rubro sobre tamancos
Baixa gastronomia sob bandeiras geriátricas
Hashish, shamon, belladonas
O vinho é da casa, novinho, saca?
Alfândegas barram pândegas
Toreio turistas, jovem viajor
Cartão postal com cartão de crédito
Ao inferno se vai de Porche®
Vespa® não águia e Puma® não lobo em Zooropa
A.D.I.D.A.S.®: All Day I Dream About Sex
Gitanes® e Galoises®, todos os teores
Você pode se enfrasquecer num Chanel® n° 5
O sorvete sem seguro que seguro sorve-te
Porto é uma ressaca sempre por recomeçar
Lisboa é mesmo um peso na memória
Madrid é uma puta que se deixa beijar
Barcelona é uma festa exclusiva para penetras
Paris é a luz que nunca brilha nas necrópoles
Veneza é um labirinto de fedores mascarados
Florença é o berço da divina decadência
Roma é um discípulo que não supera o mestre
Meninos acordeonistas me ninam
Da música de outrora quase muda na aurora
Pombas atentadas explodem-se por migalhas
Faceiras e zumbis ou fascistas e zombeteiras
Diz-me o busto no belvedere do parque:
“Interroga tuas respostas...”
Portugueses minuciosos não sem alguma nostalgia
Portuguesas irritadiças praticantes do pudor
Espanhóis cafonas de narizes amigáveis
Espanholas de conversas picantes e pouca leitura
Franceses orgulhosos com seus pães nos dentes
Francesas bacharéis em soberba sem bunda
Italianos de riso fácil e orelhas cabeludas
Italianas cansadas de moda e seios grandes
Há que ser tua Arquitetura
Tende à ação esta estação de trem
Jardinagem já nadir agem
Não ria das pessoas na hospedaria
Ria esta tua estatuária
Douro e Tejo quão duros e tesos
Manzanares sob manzaneros aires
Beijos obrigatórios entre Llobregat e Bèsos
Nova onda há no Sena de cinema
Livre no ar tanto no Arno como no Tibre
Carnevale que flui do Gran Canale
O Velho Mundo primaveril
Perpassam pasmas pelos mapas
Douro, Lisboa, Madrid, Cataluña
Île-de-France, Toscana, Veneto, Lazio
Reencandescismento do que é brasil
Ascende-se ao Alpha à torre ferrenha
Circuncisa-se impreciso o circo em pane
Catedrais para deuses de ouro e mármore
Hipócritas cruzes sob confiáveis pára-raios
Replica-me a máquina: salvando Europa...
Reporto velhas novidades
Coisa curiosa, feliz e boa
Freguês derradeiro bar selo na embriaguês
Mad ri eu de tudo aquilo
Pari surreal um aborto
Vê nessa miragem
Flor que me convença
Quero mais!
Memórias de alguns eus que ficam
Parolo com meus ancestrais na rua
Grafo fotos grifo fico fatográfico
Ninguém conhece o europeu que leio andando
Com as mões serve antes
Rebele eis ali que eres
Arborescente em floreio me planto folheando
Regurgita tão somente verborragias
Esta minha e nossa língua mordida
Não descrevo mas desescrevo assim
A dedurar boinas ruins de moles
Uns filmes que rodei que me mostram
Lusitanias, castelhices, merovinginadas, romanessências
Umas fotos que tirei que me revelam
Aporto, libo, medro, embarco, paro, venero, floreio, rumo
Uns versos que fiz que me declamam
A demolir ruína boas de durar
8 de junho de 2007
14 de maio de 2007
12 de maio de 2007
soneto de longe
uma vontade de morrer de tão feliz
procuro saber o quê de quem amo então
e sem uma notícia tiro ouro do nariz
não só há em cada rua e ponte e escada, parisienses
lógico sem me perder guio-me apaixonado e flano
sonho com menos covardia em outros continentes
se sabes de algo, cala, e não haverá nenhum dano
da vida sem filtro que trago eu fumo os sumos
dos sentimentos que espero, nem inverdade
da morte que urge em suma vejo novos rumos
da morte que escapo como da banalidade
do entrépido trago urgente, ufanos fumos
da vida em cuja busca achei a felicidade
27 de abril de 2007
20 de abril de 2007
DICOTOMIA
Ouvir o caos sem qualquer proporção
Esquecer com uma memória seletiva
Ignorar estas outras idades sem razão
Tantos ideais de amor em tempos de cólera
Quantas idéias de paz em tempos de guerra
Tanta a paz que o nosso amor demais tolera
Quanto amor mais para termos paz na Terra?
17 de abril de 2007
A Vinda do Parafuso
São Paulo num século XXI, sábado à noite d.C. Por que pizza? Por que não?
Telefonei, delivery portanto. Meia marguerita; meia portuguesa. E assim foi.
Já chegou... abra, abra... vamos comer! E na primeira mordida Deus criou a dor.
Derrepentemente em meio ao queijo derretido em frente; você não adivinha.
Todos me olhavam curiosos acerca do achado. Um cabelo? Não. Um parafuso!
Os comensais boquiabertos perderam a fome e pousaram seus pedaços nos pratos;
expressando as emoções súbitas de suas almas nas mais variadas interjeições.
O objeto tinha não menos que uns cinco centímetros, escuro e meio enferrujado,
diâmetro razoável; retirei-o ainda sujo de massa para o espanto da audiência.
Em meio ao incômodo que sentia nos dentes, ainda cheguei a rir-me da situação.
Aí depositei-o num guardanapo e repeti o movimento de discar para a pizzaria.
“Por favor, o gerente... quero fazer uma reclamação” disse eu à atendente. E então:
“Eu sou um cliente de vocês, servido em casa ou aí mesmo, há algum tempo;
Alguns instantes atrás recebi uma pizza com um ingrediente mais que indigesto.”
Um cabelo? Pior. Um pelo? (ele já tinha alguma experiência para essas situações)
Não, senhor... um parafuso! Tal e qual e tal descrevi-o. E ele: Mas que absurdo!
Pois não é? Veja o senhor que quase quebro um dente, podia mesmo tê-lo engolido...
Por acaso não estariam com a cozinha em reforma? Pagam bem o pizzaiolo?
Ele pode ter perdido um parafuso... ou terá sido o senhor? Não me dirá que é meu!
O senhor e eu concordaremos que não há nada de engraçado numa matéria jornalística s
obre isto causar no público o esperado demasiado riso, que logo se torna calúnia.
Oh, mas é claro... – ele parecia mesmo amedrontado – ...vou te enviar outra de imediato.
Sem custo algum, espero... Ah, sim, obviamente... Com a devolução do dinheiro até...
Ah, evidente, senhor... não se preocupe... não vai se repetir... por favor, desculpe-nos...
Eu agradeço pela atenção, senhor gerente. Afinal foi mais que tudo um belo susto.
Mas eu me esqueci de perguntar teu nome... É Henry James, senhor, para lhe servir.
14 de abril de 2007
Poemar
Águas profundas em versos superficiaisEnchente sublunar só um caos sem plural
Só lares vêem as visitas dos etéreos cais
Consoante o planeta terra a vista da nau
~
Mar ritmos rimam marulhos lógicos ecos espaciais
Terrena palavra que jazz submersa no temporal
Liquefeitos dominós dessas ondas iguais
~
Cara vela se há paga singular na linha horizontal
Navegas em voga de vagas nas fragas vogais
Ilude lúdico e diluído o idílico dilúvio dual
Mastigação (como o que sou)
19 de março de 2007
Diminua o diâmetro do teu círculo social

Quem sabe, sabe;
11 de fevereiro de 2007
5 de fevereiro de 2007
Par ou Ímpar
Queijo e goiabada
Música e audição
Porre e privada
Arroz com feijão
Dois sexos nus
28 de janeiro de 2007
Balada Paulistana
Que em meio a asfalto concreto fumaça
Tem um povo a se esgueirar
Chuva suja essa garoa mas ao menos lava a lava
Que expelem os poluídos corações
Aqueles que se abalam diante
Da discreta deselegância das meninas
Desviam o olhar das veias velhas bailarinas – cômico
Em meio ao caos armado de cimento amado
Tua violenta imagem e cotidiano
Reflete-se nas águas de teu rio mundano – trágico
O pródigo cidadão se encarrega
De destilar a cólera no próximo cidadão – verídico
Tua gente quase sempre nascida aqui
Aglomera-se em trens ônibus e afins
Em tuas praças ao relento vidas vãs lamentam
A vida que levam ou pela qual são levados
Escadarias pontes postes monumentos
Onde pobres podres diabos moribundam
Tantos quantos destes que abundam – de novo o caos
A falta que as coisas que te faltam faz
Faz menção direta a tua nação megalomaníaca
Elevados prédios passagens viadutos
Onde se vê e ouve-se o bairro e os centros
Nesses arredores vagamundam aqueles
Para os quais cartaz e poema dizem não haver vagas
Quem foi que disse “grande cidade”?
Uma cidade com grandes problemas ao certo
Vide o esgoto logo ali a céu aberto – é mesmo o caos
Assim é utópica a menor esperança
Mas nesta balada o poeta pode fazer-se criança
E a utopia ver no sorriso da moça da favela
Quando em fevereiro samba na passarela (pra TV)
No grito do varredor de rua desdentado
Quando de um perfeito golaço filmado (pro VT)
Até eu mau poeta vejo o não sentido
Chama-se lirismo isso que os compositores
Põe nas letras das canções sobre São Paulo
Meio triste melancólico sorumbático assim
Canto desde já por todos os cantos um canto
Que aprendi com a gente daqui
Uma canção sem palavras
Que serve de letra
Ao minuto de silêncio
Que compus pra ti
25/01
6 de janeiro de 2007
B's. A's.
polinizado pela daninha flor amarela que não se extingue
adentro a urbe à margem esquerda do rio de prata absorto
segundando os olhos e passos de minha Beatriz bilíngüe
...
ao imenso Obelisco perpendicular falo
esqueço de ouvir o olvido sonoro
é dezembro desde Julho ou Maio
bolivarianos, san-martinianos
velhas bandeiras sujas e rasgadas
azuis as águas e o céu não fora o barro e a fumaça
brancos monumentos e dias é claro
as paredes de pichadas não estão livres
...
carteado, truco ou aposta
quem te mata mate quente
nas gauchescas rodas
jardins nas praças nos parques
desde as quadriláteras esquinas
por uma cabeça e cinco quartos
cavalos circulam corridas
sem asas e sorte no jogo de azar
...
milanesas e empanadas
vinho e refrigerante e cerveja
cafés sol-guardados nas calçadas
restaurantes com postres sobre-a-mesa
...
tangos, milongas / / / / / Gardel, Piazzolla
ex-voto de minerva / / / / / bandoneon guitarra baixo
sem mais delongas / / / / / com punhal se degola
Perón e Eva / / / / / portenho coagulando gaúcho
...
os múltiplos centros e a unívoca periferia
peculiares as palavras chiam como chicotadas
espanhola língua de novo o mundo a nostalgia
ao caminhar diz-se que se faz o caminho
...
carteado o embaralho
anoitece as histórias
encaminham a estatuária
caudilhos, patrões, compadres
preto fumo o que pitam
de aço de ferro de lata
flor dos que duelam a faca
desde pampas desce
sobre patagônias sobe
preferível dizer Malvinas
nos pátios pertence-me o sol
mas é tua a avarandada a lua
...
nada como a morte para melhorar os vivos
revoluções de sete palmos de guerra
desterrados, mortos, desaparecidos
o tempo não revolve, resolve a terra
os mais ousados debaixo do rio ou no fundo do chão
a carne jamais vingada dos nativos
...
viro-me para o povo que se vira
mímicos e mendigos e mágicos
artistas da fome e da sede de se recriar
tocadores e trombadinhas e titereiros
volto-me para as ruazinhas barulhentas
a música em trânsito nos chingamentos
às carruagens aos táxis às biclicetas
no que me pesam no que me levam
...
ou branquitude criolada ou
che, maradona, che
a mão do deus rasga o romance do diado
amor mestiço ou ódio mulato
Martin Fierro ou Don Segundo Sombra
a arte da pena que a vida alonga
julistas e jorgeanos nas livrarias
entreabertas até antes tarde
nunca, nena, nunca
panela que manifesta a ação
sem-vergonha a Casa Rosada
aqui se pergunta “que sei eu?”
lunfardo contra a Real Acadêmia
surreal não é Xul é o Sul
...
na Recoleta em Puerto Madero em Palermo
essa adjetiva urbanidade de cor argentina nos lugares
em La Boca no Retiro no San Telmo
4 de janeiro de 2007
Mais um de mim a menos
16 de dezembro de 2006
De epígrafes e epitáfios
Nunca nasci ou morrerei;
Eu estou e sou assim!
10 de dezembro de 2006
Ordinal
366º dia do ano
361º grau do círculo
301º espartano
121º dia de sodomita
61º minuto da hora
61º segundo do minuto
51º estado estadunidense
33º dente
27º estado nacional
27ª letra do alfabeto
25ª hora do dia
21º dedo
21º cigarro do maço
13º signo zodiacal
13º mês do ano
13º apóstolo
13ª unidade da dúzia
11º mandamento cristão
11º conto decamerão
9º planeta
8º dia da semana
8º pecado capital
8ª cor do arco-íris
8ª nota musical
6º sentido humano
6ª função orgânica
6ª faculdade psíquica
5ª estação do ano
5º elemento natural
5º lado do quadrado
5º ponto cardeal
4º ângulo do triângulo
4º mundo
4º trópico
4ª pessoa da trindade
3ª guerra mundial
3º olho
3ª face da moeda
3ª moeda ao barqueiro
3ª orelha
3º círculo polar
3º pé
3ª página da folha
3ª mão
2º nascimento
2º coração
2º umbigo
2º órgão genital
2ª boca
2º ânus
2º centro do mundo
2ª lua
2º sol
2ª morte
1ª felicidade
9 de dezembro de 2006
Duchamp e/ou Arte
13 de novembro de 2006
Princípios?
Em axioma postulado proposição ou teorema
No início de uma dedução naquele ou neste sistema
Não sendo deduzidos de quaisquer outros consideráveis
...
Realidade é um conceito psicológico
Que designa a acomodação a uma situação
Que a experiência já tenha demonstrado como preferível
Mediante a contenção do princípio do prazer
Que tende apenas à satisfação de um impulso
Incerteza ou indeterminação pois é
Impossível realizar qualquer medição
Numa partícula muito pequena
Sem afetar seu estado natural
...
O tempo gasto por um raio luminoso
Entre dois pontos quaisquer é o menor possível
Todos os pontos de uma onda
De energia no vácuo podem ser
Considerados como novas fontes de ondas
Que se expandem em todas as direções
Num intervalo de tempo
Proporcional à velocidade
A ação ou trabalho mínimo pretende
Que o trabalho realizado é sempre o menor
Possível quando há transferência de energia
...
A população tende a crescer
Em progressão geométrica
Enquanto a produção de alimentos
Tende a aumentar em progressão aritmética
Todas as pessoas nacionais ou estrangeiras
Domiciliadas ou não estão sujeitas
Às leis do país onde se encontram
Constitucionais os dispositivos jurídicos
Fundamentais que se encontram implícitos
Ou expressos na constituição segundo os quais
Se organiza a vida jurídica da nação
E se estruturam e funcionam os órgãos estatais
Numa família de conjuntos não-vazios
Pode-se escolher ao mesmo tempo um elemento
De cada conjunto e considerar o conjunto A
Que não podia pertencer a nenhuma categoria
Como constituído desses elementos
...
Dois elétrons
De um mesmo átomo
Não podem ter o mesmo
Conjunto de números quânticos
Ou seja o mesmo nível de energia
Num líquido incompressível em equilíbrio
A variação da pressão se transmite integralmente
Em todas as direções e a toda a massa líquida
Todo corpo mergulhado num líquido
Está sujeito a uma força denominada
Empuxo que atua de baixo para cima
E é igual ao peso do volume de líquido deslocado
Um corpo mais pesado que o ar se sustenta no espaço
O fluxo elétrico que passa através de uma superfície fechada
É proporcional à carga contida
No interior dessa superfície
A entropia de todos os corpos
Tende a zero quando a temperatura
Tende ao zero absoluto
...
A condição ideal
De equilíbrio a que tendem
Os diversos blocos da crosta terrestre
Cosmologicamente parte do princípio
Que o universo é homogêneo e isotrópico
Sem local ou direção privilegiada para observação
A complementaridade
É observar um fenômeno qualquer
De dois pontos de vista diferentes e não excludentes
O valor relativo de duas grandezas
Da mesma espécie é constante
Independentemente da unidade escolhida
Um sistema em equilíbrio reage
A uma perturbação de modo a neutralizá-la
E a restabelecer o equilíbrio
Os processos biológicos do passado
Ocorreram de maneira semelhante aos atuais
...
A base filosófica para a aceitação
De novas teorias requer que a teoria
Mais recente explique a fenomenologia
Para as quais então a precedente valia
Tão evidente em si mesmo que dispensaria
Mesmo qualquer hipótese de demonstração
O que só depois de demonstrado se admitiria
9 de novembro de 2006
Não Lugar
A tempo de herdar outra nova moradia
O Eu meu desabrigado invadiu o que faço
O utópico latifúndio ermo da poesia
[
Imagino a viagem invejoso
Viajo a inveja imaginoso
Imagino a imagem viajoso
]
Em alongada elipse de lado a lado
Um ano trópico transo pensar
Em eremitério voluntário impensado
Um mundo tropical queria alugar
Em lugar ao contrário rotacionado
Um translado mundano a rodar e rodar
Em alado querer voar tropica trançado
8 de novembro de 2006
Suicídio: modo de usar
se o espírito tem nove ou dez categorias, vem depois.
6 de novembro de 2006
SIC (Errro)
Asterístico é algo caracterisco
Duas isfirra i um xopis
.
Macabéas mal cabeu
Erranu listras listadas
Mau coube aus macabeu
.
Dingo amém au mendingo
Vai direto au porquês
.
Renegerar u geni
Incrusive um trossu bárbaru
Jerar dinovo a genti
.
Meiu dia i meia di medu mi remedu
Quemhentas grama a tumei-a
.
Brigado pur alembrá
Mais incorrigiver demás
Pra mim mi lembrá
Há déis ano atráz
.
Tau cual taubas im Tabuaté
Barríu i bárril i bairru
17 de outubro de 2006
Ler ou não ler
Eu então gostaria de propor aqui exatamente o mesmo, desejando a participação de todas e todos, valendo tudo, incluindo o meu NãO FiQuE SãO ou até mesmo qualquer livro de Oscar Wilde. Eis a minha lista:Falar
Papá papai
~
Óia o auau
De gatinhas
~
Dandá nenê
Passeá
De carrinho
~
Naná bebê
Arrotá
De carinho
~
Sem sonhá com bixo
Cresce sem medo
Fala comigo
10 de outubro de 2006
8 de outubro de 2006
Do que mais tenho medo
2 De encontrar algo ou alguém que valha a pena idolatrar
3 De ter de passar um final de semana sem cigarros
4 De acabar engravidando alguém que não amo
5 De acabar não cedendo a uma tentação
6 De encarar o olhar de José Aggripino de Paula
7 De uma música ruim não me sair mais da cabeça
8 De contar uma mentira muito bem sucedida
9 De a ciência descobrir a cura para o suicídio
10 De me deixar dominar por uma cota mensal de dinheiro
11 De alcançar satisfação sexual mais do que momentânea
12 De chegar de fato a ter o Mal de Auzheimer
13 De depois de morto descobrir que alguma religião estava correta
14 De continuar sendo um heterossexual para sempre
15 De finalmente conseguir tomar um LSD






