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27 de junho de 2007

Espelho... espelho... nosso

Suma, de quaisquer raízes desista
Eis que falta-me o chão e me ufano
Já não é eco da maldição narcisista
A total ditadura do rosto humano
.
Egóticos, voyeristas ignaros
São tudo que sempre evitei
Saí só para comprar cigarros
E foi que nunca mais voltei
.
Tarde, eu mesmo já não me acredito
O poema é apenas isso que você leu
Leia melhor apenas se achou bonito
O acróstico parece ser para você e eu

26 de junho de 2007

Cor(ou)Ação

Paixão mesmo, das que apenas existem, a que sinto. E saudades. De tudo aquilo nosso. Sabes. Bocas, bravezas, brincadeiras, bravatas. Falamos gostoso, bem gostosinho... quase gozo. Supér mais que fluo... Vou. Soube de e por ti de istos e aquilos. Re-imagino. [T {(tê) são}]. Beber uns goles nos refazendo companhia. Juntos. Alugar ou não há? A ir, indo ainda. Divagandando. Vamos sim vadiar sim vamos sim viajar. Sertodo errrado. Vê nus... amar-te. No pequeno anel só cabe teu nome. Até não mais quero poder; quero até não poder mais. Você. É... transar é que é... bom... só contiguamente: a minha mente contigo. Amo. Por quê? Por que não? Exclamo? Interrogo! Rogo e clamo... por. Ruma o de sempre e como nunca, a cada e de todas as vezes por uma. Encontrar alguém assim na vida é se perder assim na vida de alguém. Ó... Eu aqui tenho um mal de amor e é muito longe o que sinto; bem aí!

25 de junho de 2007

Perfídiáfano

Eu vou te contar tudo o que está acontecendo.

Hoje quando acordei, a primeira coisa que fiz foi finalmente olhar umas fotos minhas de infância que estavam com a minha irmã, que as deixou comigo quando veio aqui. Eu ainda não as tinha visto. Em algumas delas estou naquela idade na qual não se pode saber se o bebê é menino ou menina, nem tampouco é possível reconhecer já muitos traços da aparência que tenho hoje. Pensei no que a tua avó me disse imediatamente após pensar aquilo. Uma das fotos trazia uma mulher meio de costas, com um bebê de colo, minha mãe e eu; mas também poderia ser a tua mãe e você. Agora penso que também poderia ser outra mãe com seu filho no passado e, você entenderá o porquê mais adiante, no futuro.

Um detalhe ao qual não dei muita importância na hora é que a minha mãe em algumas fotos parecia muito com uma das irmãs dela, uma que você conheceu; em outra foto ainda, meu pai parecia um tio irmão da minha mãe, cuja ex-mulher você conheceu também. Isto tem de certa forma conexão com o casamento.

Ao descer do quarto, antes de sair, minha mãe me contou que a minha prima (que você conheceu) vai se casar em dezembro do ano que vem, e que você e eu seríamos oportunamente convidados e, pensei comigo, provavelmente como padrinhos, novamente. Aqui eu já havia me dado conta que todos os fatos que ocorrem realmente guardam certa ligação entre si no tempo e no espaço, quase sobrenaturalmente... mas agora atordoado confesso que eu ainda não tinha uma real idéia do quanto. A minha vida assustadoramente faz parte de um esquema que eu julguei poder fingir ignorar, relacionado também com todo o trágico no mundo e os sentimentos que trago comigo desde criança, desde o ventre... ou desde (e até) onde? E o mais importante para mim: por quê?

Saí para procurar trabalho, um trabalho qualquer, com um único objetivo bem definido, e o pensamento intensamente voltado não para os mistérios da vida e as coisas inexplicáveis que acontecem no mundo, inclusive ruins. Mesmo conosco. Eu pensava em você e em como você estava pensando em mim. E era bom.

O dia passou rápido apesar de ter sido um tanto chato e desgastante. Imagino que o teu dia tenha passado bem devagar, que tenha feito muita coisa. É estranho?

Uns momentos daquelas horas andando pelas ruas estão me ocorrendo: de vez em quando, ao longo do dia, eu pensava em nomes, nomes de pessoas que conheço, bem próximas, no meu, nos dos amigos e amigas, no da família. Isto doía, sobretudo em alguns instantes em que o meu nome me ocorria.

Chegando em casa tive de agüentar da minha mãe uma conversa muito desgastante sobre deveres e responsabilidades, sobre comprometimento. Senti muita pressão, até porque ela usava argumentos com os quais, ela dizia, todos concordavam, sobretudo sobre mim e a minha atual condição; pior é que me falava sobre o eu que sempre fui, essencial, e um eu que eu deveria ser, ideal. Contava-me sobre coisas que ela, meu pai, minha irmã, meus amigos e até você pensavam sobre mim. Procurei não dar ouvidos, mas agora sei que algo disto entrou a ainda está em mim enquanto contra a minha vontade relembro.

Pensei muito em você, refugiando-me na idéia de nós dois juntos, felizes.

Então, você me telefonou, bem antes do que eu esperava. Nós nos falamos aquele tanto, que foi bem pouco; e o que falamos, bem estranho. É uma sensação que me tomava durante a ligação, não baseada nas palavras ditas, mas nas não ditas. A exceção poderia ter sido um momento em que eu ia dizer algo e não disse. Quer saber o que era? Logo mais adiante você finalmente saberá. Continue.

Saí pouco depois. Na rua, era como se tudo o que eu ouvisse começasse a fazer sentido quando interligado com as outras coisas, ou como se eu recomeçasse a perceber esses sentidos aos quais ainda não havia solucionado bem. Foi aí que vi o bebê no colo da mãe. Era como eu ou você, o rosto familiar e ao mesmo tempo indistinguível, também o da mãe, que atravessava apressada a rua.

Na viagem de volta, lembrei do sonho que tive a noite, e liguei os pontos:

Várias pessoas que conheço e conheci, algumas já mortas, e algumas que não reconheço (mas acho que não cheguei a conhecer ou ainda vou conhecer), caminhavam em minha direção, eram muitas e tinham uma aparência de que vinham para ajudar, apesar de causarem no fim tanta dor. Todas essas pessoas, cada uma delas, tinham no colo um bebê, o mesmo de antes, mesmo de sempre.

Cercaram-me como se me acolhessem e lembro-me de me sentir muito amparado.
Os bebês olhavam para mim como se estivem gostando de me ver, felizes até por isso embora não sorrissem de verdade, pareciam mais preocupados, o que me preocupou. Eu não acho que sabia que estava sonhando, acho que por isso foi tão real apesar de algo possivelmente impossível; talvez por isso nunca me lembre dos sonhos. Neste exato momento em que escrevo isto me vem a certeza de que é isso mesmo o que acontece, deve ser para eu não os interpretar como procuro fazer com o que vivo quando velo. Mas será que estou não estou dormindo agora? Parecia raciocinar como nunca enquanto sonhava; eu sei agora que sonhando vou a lugares e tempos, e são sempre o mesmo, onde e quando tudo acontece.

O que aconteceu foi que conheci aqueles bebês um a um e eram iguais na aparência, embora não exatamente a mesma pessoa. As pessoas que os traziam tinham cada uma um rosto diferente bem definido, mesmo as que eu não sabia ser; apesar disso, de sua aparência e, ao exato contrário dos bebês que traziam, pareciam ser a mesma pessoa, embora tivessem rostos de mulheres e de homens, jovens ou velhas. Eu percebia mais algum sentido oculto nisso, mas somente pude perceber o suficiente quando os bebês falaram pela primeira vez; todos o fizeram ao mesmo tempo, em uníssono, com suas vozes estridentes que agora mesmo parecem ainda ecoar na minha mente dizendo:

"Tem o coração seus motivos?
Eu e você não somos amados?
Por que nosso amor nos trai?"

Então agora eu sei o que muito daquilo quis dizer, no sonho e no resto do dia. Algumas pessoas para as quais minha mente se voltou hoje ao despertar eram traídos e outras traidores, e no sonho todas eram pessoas traídas que conheço. Entendi cada sensação deste dia, da minha vida toda, dos momentos com você e, sobretudo, àquilo que você disse e não disse ao telefone, todos os casamentos, inclusive o nosso. Talvez o bebê fosse eu mesmo, já que eu sonhava, mas podia ser cada possibilidade morta de você e eu trazermos à luz um novo ser. E por quê?

A pergunta que eles me fizeram já responde isto. Eu sei que você me traiu.

E assim o que acontece é que tudo se acaba, nada mais importando entre nós. Você fez o que fez, sem me contar nada do que está acontecendo. Não sei como, quando, com quem ou de que forma foi; se foi bom ou ruim, fácil ou difícil, se gostou ou não. Aconteceu, não há retorno. Sinto que foi hoje, talvez enquanto escrevo isto, agora. Você terá tido motivos que não sei responder. É impossível não te perguntar e é tudo o que nós ainda queremos saber, eu e o sonho que tive.
.
Meu amor, por quê?
.

15 de junho de 2007

A Necrofilia da Arte

Eu estive em Paris fazendo Arte

e visitei os cemitérios de Montmartre,
Montparnasse e Père Lachaise...

não morram de inveja!



Marcel Proust
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Jean-Baptiste Poquelin (Molière)
.
Vaslav Nijinski
.

Amedeo Modigliani

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Theóphile Gautier
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Jim Morrison

.


Guillaume Apollinaire

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Gustave Doré

.

Henri Beyle (Sthendal)

.

François Truffaut

.

Gérard de Nerval

. Frédéric Chopin
. Jean-Paul Sartre & Simone de Beauvoir
.

Heinrich Heine
.

Charles Baudelaire

.

Honoré de Balzac

.

Edgar Degas
.
Émile Zola
.
Jean De La Fontaine
.
Oscar Wilde
. Julio Cortázar

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Soneto Velado

No início era a treva analfabeta
Superada já nasce a vanguarda futura
É passado o tempo da ampulheta
Jaz no mim dos centos tal literatura

Necrópole ou biotério?
Morra pela hipérbole!
Biotério ou necrópole?
Viva pelo cemitério!

Viuvez menos marmórea seria matar
Frieza mais letárgica será enterrar
Morbidez menos mortal seria profanar
Certeza mais incorpórea será ressuscitar
Palidez menos trágica seria assombrar
Beleza mais abismal será epitafiar

11 de junho de 2007

Europa, Uma Constatação


O meio fio me fia a fio
Andando sobre bolhas
Abandono a pele por onde passo
Caminho de bronze no zênite da vida
De colo até riso trip ululante
Flano pueril por entraves espiralados
Logram largados lugares alegres
A guia calçada me passeia

A minha paixão não tira férias:
É a falta que as figuras que me faltam fazem
Q: “Para que tanta perna, meu Deus?”
A: “Para teus olhos fatigados, com o Diabo!”
Ninfas com faunos sorriem em riso
Há efebos, bofes e suas fobias
Falo para xoxotas da saudade da língua
Com sofismas, sofreres e filosofias

Um reingresso ao impagável
Pois farra pois fiesta pois folie
O gênio que continua a florescer
Um som flameja rubro sobre tamancos
Baixa gastronomia sob bandeiras geriátricas
Hashish, shamon, belladonas
O vinho é da casa, novinho, saca?
Alfândegas barram pândegas
Toreio turistas, jovem viajor

Cartão postal com cartão de crédito
Ao inferno se vai de Porche®
Vespa® não águia e Puma® não lobo em Zooropa
A.D.I.D.A.S.®: All Day I Dream About Sex
Gitanes® e Galoises®, todos os teores
Você pode se enfrasquecer num Chanel® n° 5
O sorvete sem seguro que seguro sorve-te

Porto é uma ressaca sempre por recomeçar
Lisboa é mesmo um peso na memória
Madrid é uma puta que se deixa beijar
Barcelona é uma festa exclusiva para penetras
Paris é a luz que nunca brilha nas necrópoles
Veneza é um labirinto de fedores mascarados
Florença é o berço da divina decadência
Roma é um discípulo que não supera o mestre

Meninos acordeonistas me ninam
Da música de outrora quase muda na aurora
Pombas atentadas explodem-se por migalhas
Faceiras e zumbis ou fascistas e zombeteiras
Diz-me o busto no belvedere do parque:
“Interroga tuas respostas...”

Portugueses minuciosos não sem alguma nostalgia
Portuguesas irritadiças praticantes do pudor
Espanhóis cafonas de narizes amigáveis
Espanholas de conversas picantes e pouca leitura
Franceses orgulhosos com seus pães nos dentes
Francesas bacharéis em soberba sem bunda
Italianos de riso fácil e orelhas cabeludas
Italianas cansadas de moda e seios grandes

Há que ser tua Arquitetura
Tende à ação esta estação de trem
Jardinagem já nadir agem
Não ria das pessoas na hospedaria
Ria esta tua estatuária

Douro e Tejo quão duros e tesos
Manzanares sob manzaneros aires
Beijos obrigatórios entre Llobregat e Bèsos
Nova onda há no Sena de cinema
Livre no ar tanto no Arno como no Tibre
Carnevale que flui do Gran Canale

O Velho Mundo primaveril
Perpassam pasmas pelos mapas
Douro, Lisboa, Madrid, Cataluña
Île-de-France, Toscana, Veneto, Lazio

Reencandescismento do que é brasil
Ascende-se ao Alpha à torre ferrenha
Circuncisa-se impreciso o circo em pane
Catedrais para deuses de ouro e mármore
Hipócritas cruzes sob confiáveis pára-raios
Replica-me a máquina: salvando Europa...

Reporto velhas novidades
Coisa curiosa, feliz e boa
Freguês derradeiro bar selo na embriaguês
Mad ri eu de tudo aquilo
Pari surreal um aborto
Vê nessa miragem
Flor que me convença
Quero mais!

Memórias de alguns eus que ficam
Parolo com meus ancestrais na rua
Grafo fotos grifo fico fatográfico
Ninguém conhece o europeu que leio andando
Com as mões serve antes
Rebele eis ali que eres
Arborescente em floreio me planto folheando
Regurgita tão somente verborragias
Esta minha e nossa língua mordida
Não descrevo mas desescrevo assim

A dedurar boinas ruins de moles
Uns filmes que rodei que me mostram
Lusitanias, castelhices, merovinginadas, romanessências
Umas fotos que tirei que me revelam
Aporto, libo, medro, embarco, paro, venero, floreio, rumo
Uns versos que fiz que me declamam
A demolir ruína boas de durar

8 de junho de 2007

Eu não morri...

Voltei de viagem, vivo e inconfesso...
confesso que estou vivendo, até feliz!

14 de maio de 2007


Rien? je m' aime... mon non plus!

.

Eu vim ser gauche um direito que me cabe

Nisso aqui estou mas não sou quem quis infelizmente...

Da outra metade distando tanto estarei inteiro?

.

Eu fui quem não sei só sei que alguém sabe

Zoneei o que há entre pensar e sentir e estava ausente...

Viajo tão sozinho e perdido ou tão só estrangeiro?

.

O amor me extraviou sendo algo de que me gabe

Uma atraente idéia sem volta já me espera no poente...

Saberão amanhã reconhecer o corpo passageiro?

12 de maio de 2007

soneto de longe

sei lá o que acontece nesse meu coração
uma vontade de morrer de tão feliz
procuro saber o quê de quem amo então
e sem uma notícia tiro ouro do nariz

não só há em cada rua e ponte e escada, parisienses
lógico sem me perder guio-me apaixonado e flano
sonho com menos covardia em outros continentes
se sabes de algo, cala, e não haverá nenhum dano

da vida sem filtro que trago eu fumo os sumos
dos sentimentos que espero, nem inverdade
da morte que urge em suma vejo novos rumos

da morte que escapo como da banalidade
do entrépido trago urgente, ufanos fumos
da vida em cuja busca achei a felicidade

27 de abril de 2007

20 de abril de 2007

DICOTOMIA

Ver o nosso mundo sem perspectiva
Ouvir o caos sem qualquer proporção
Esquecer com uma memória seletiva
Ignorar estas outras idades sem razão

Tantos ideais de amor em tempos de cólera
Quantas idéias de paz em tempos de guerra
Tanta a paz que o nosso amor demais tolera
Quanto amor mais para termos paz na Terra?

17 de abril de 2007

A Vinda do Parafuso



São Paulo num século XXI, sábado à noite d.C. Por que pizza? Por que não?

Telefonei, delivery portanto. Meia marguerita; meia portuguesa. E assim foi.

Já chegou... abra, abra... vamos comer! E na primeira mordida Deus criou a dor.

Derrepentemente em meio ao queijo derretido em frente; você não adivinha.

Todos me olhavam curiosos acerca do achado. Um cabelo? Não. Um parafuso!

Os comensais boquiabertos perderam a fome e pousaram seus pedaços nos pratos;

expressando as emoções súbitas de suas almas nas mais variadas interjeições.

O objeto tinha não menos que uns cinco centímetros, escuro e meio enferrujado,

diâmetro razoável; retirei-o ainda sujo de massa para o espanto da audiência.

Em meio ao incômodo que sentia nos dentes, ainda cheguei a rir-me da situação.

Aí depositei-o num guardanapo e repeti o movimento de discar para a pizzaria.

“Por favor, o gerente... quero fazer uma reclamação” disse eu à atendente. E então:

“Eu sou um cliente de vocês, servido em casa ou aí mesmo, há algum tempo;

Alguns instantes atrás recebi uma pizza com um ingrediente mais que indigesto.”

Um cabelo? Pior. Um pelo? (ele já tinha alguma experiência para essas situações)

Não, senhor... um parafuso! Tal e qual e tal descrevi-o. E ele: Mas que absurdo!

Pois não é? Veja o senhor que quase quebro um dente, podia mesmo tê-lo engolido...

Por acaso não estariam com a cozinha em reforma? Pagam bem o pizzaiolo?

Ele pode ter perdido um parafuso... ou terá sido o senhor? Não me dirá que é meu!

O senhor e eu concordaremos que não há nada de engraçado numa matéria jornalística s

obre isto causar no público o esperado demasiado riso, que logo se torna calúnia.

Oh, mas é claro... – ele parecia mesmo amedrontado – ...vou te enviar outra de imediato.

Sem custo algum, espero... Ah, sim, obviamente... Com a devolução do dinheiro até...

Ah, evidente, senhor... não se preocupe... não vai se repetir... por favor, desculpe-nos...

Eu agradeço pela atenção, senhor gerente. Afinal foi mais que tudo um belo susto.

Mas eu me esqueci de perguntar teu nome... É Henry James, senhor, para lhe servir.

14 de abril de 2007

Poemar

Águas profundas em versos superficiais
Enchente sublunar só um caos sem plural
Só lares vêem as visitas dos etéreos cais
Consoante o planeta terra a vista da nau
~
Mar ritmos rimam marulhos lógicos ecos espaciais
Terrena palavra que jazz submersa no temporal
Liquefeitos dominós dessas ondas iguais
~
Cara vela se há paga singular na linha horizontal
Navegas em voga de vagas nas fragas vogais
Ilude lúdico e diluído o idílico dilúvio dual

Mastigação (como o que sou)

Servido estando
como
o que mastigando
somo
...
Engulo
de giro engiro
emulo
em giro digiro
...
Uns cinco quilos já
maior do que eu
comensal sendo cá
aquilo que comeu

19 de março de 2007

Diminua o diâmetro do teu círculo social


Quem você pensa que conhece? Há algum tempo eu tinha muitos amigos.

A afirmação acima é tanto um paradoxo como uma falácia de raciocínio segundo recentemente aprendi já que, se eu "tinha" amigos, logo nunca os tive. Um amigo de verdade (o que é pleonasmo, além de redundância) seria para sempre, ao menos no meu mundo; será que estou sendo antiquado? Talvez hoje e daqui para frente a amizade não esteja mais na moda e eu esteja por fora... felizmente ainda tenho ótimos amigos tão demodés quanto eu, inclusive de muitos anos, que eu sei que estarão sempre comigo, uns bem próximos, outros nem tão freqüêntes mas com quem sei poder contar, outros que pelas circunstâncias estão longe no tempo e/ou no espaço, além daqueles que morreram cedo mas ainda assim sendo-o.

Esta merda toda é porque algumas pessoas que eu achava autênticas não foram verdadeiras, pois sequer eram de verdade; elas acharam que poderiam me deixar de fora... mas de quê? De seu círculo fechado de amizades em aberto? Eu não posso nem mesmo lamentar. "Amigos" de antigamente, façam-me um favor, ao menos mais uma vez finjam ainda serem reais ao incluir-me fora dessa. E, fora isto, antes que eu me esqueça:
"
Vocês podem todos entrar uns nos cus dos outros para ir à MERDA!!!

Quem sabe, sabe;

Quem não sabe, ensina;
Quem não sabe ensinar, ensina a ensinar;
Quem não sabe ensinar a ensinar, vira crítico.

11 de fevereiro de 2007

5 de fevereiro de 2007

Par ou Ímpar

Livro e luz
Queijo e goiabada
Música e audição
Porre e privada
Arroz com feijão
Dois sexos nus

28 de janeiro de 2007

Balada Paulistana

Caótica Sampa onde se acaba o samba
Que em meio a asfalto concreto fumaça
Tem um povo a se esgueirar
Chuva suja essa garoa mas ao menos lava a lava
Que expelem os poluídos corações
Aqueles que se abalam diante
Da discreta deselegância das meninas
Desviam o olhar das veias velhas bailarinas – cômico
Em meio ao caos armado de cimento amado
Tua violenta imagem e cotidiano
Reflete-se nas águas de teu rio mundano – trágico
O pródigo cidadão se encarrega
De destilar a cólera no próximo cidadão – verídico
Tua gente quase sempre nascida aqui
Aglomera-se em trens ônibus e afins
Em tuas praças ao relento vidas vãs lamentam
A vida que levam ou pela qual são levados
Escadarias pontes postes monumentos
Onde pobres podres diabos moribundam
Tantos quantos destes que abundam – de novo o caos
A falta que as coisas que te faltam faz
Faz menção direta a tua nação megalomaníaca
Elevados prédios passagens viadutos
Onde se vê e ouve-se o bairro e os centros
Nesses arredores vagamundam aqueles
Para os quais cartaz e poema dizem não haver vagas
Quem foi que disse “grande cidade”?
Uma cidade com grandes problemas ao certo
Vide o esgoto logo ali a céu aberto – é mesmo o caos
Assim é utópica a menor esperança
Mas nesta balada o poeta pode fazer-se criança
E a utopia ver no sorriso da moça da favela
Quando em fevereiro samba na passarela (pra TV)
No grito do varredor de rua desdentado
Quando de um perfeito golaço filmado (pro VT)
Até eu mau poeta vejo o não sentido
Chama-se lirismo isso que os compositores
Põe nas letras das canções sobre São Paulo
Meio triste melancólico sorumbático assim
Canto desde já por todos os cantos um canto
Que aprendi com a gente daqui
Uma canção sem palavras
Que serve de letra
Ao minuto de silêncio
Que compus pra ti

25/01

6 de janeiro de 2007

B's. A's.

duas moedas para o coletivo terraportar-me do aeromorto
polinizado pela daninha flor amarela que não se extingue
adentro a urbe à margem esquerda do rio de prata absorto
segundando os olhos e passos de minha Beatriz bilíngüe
...
ao imenso Obelisco perpendicular falo
esqueço de ouvir o olvido sonoro
é dezembro desde Julho ou Maio
bolivarianos, san-martinianos
velhas bandeiras sujas e rasgadas
azuis as águas e o céu não fora o barro e a fumaça
brancos monumentos e dias é claro
as paredes de pichadas não estão livres
...
carteado, truco ou aposta
quem te mata mate quente
nas gauchescas rodas
jardins nas praças nos parques
desde as quadriláteras esquinas
por uma cabeça e cinco quartos
cavalos circulam corridas
sem asas e sorte no jogo de azar
...
milanesas e empanadas
vinho e refrigerante e cerveja
cafés sol-guardados nas calçadas
restaurantes com postres sobre-a-mesa
...
tangos, milongas / / / / / Gardel, Piazzolla
ex-voto de minerva / / / / / bandoneon guitarra baixo
sem mais delongas / / / / / com punhal se degola
Perón e Eva / / / / / portenho coagulando gaúcho
...
os múltiplos centros e a unívoca periferia
peculiares as palavras chiam como chicotadas
espanhola língua de novo o mundo a nostalgia
ao caminhar diz-se que se faz o caminho
...
carteado o embaralho
anoitece as histórias
encaminham a estatuária
caudilhos, patrões, compadres
preto fumo o que pitam
de aço de ferro de lata
flor dos que duelam a faca
desde pampas desce
sobre patagônias sobe
preferível dizer Malvinas
nos pátios pertence-me o sol
mas é tua a avarandada a lua
...
nada como a morte para melhorar os vivos
revoluções de sete palmos de guerra
desterrados, mortos, desaparecidos
o tempo não revolve, resolve a terra
os mais ousados debaixo do rio ou no fundo do chão
a carne jamais vingada dos nativos
...
viro-me para o povo que se vira
mímicos e mendigos e mágicos
artistas da fome e da sede de se recriar
tocadores e trombadinhas e titereiros
volto-me para as ruazinhas barulhentas
a música em trânsito nos chingamentos
às carruagens aos táxis às biclicetas
no que me pesam no que me levam
...
ou branquitude criolada ou
che, maradona, che
a mão do deus rasga o romance do diado
amor mestiço ou ódio mulato
Martin Fierro ou Don Segundo Sombra
a arte da pena que a vida alonga
julistas e jorgeanos nas livrarias
entreabertas até antes tarde
nunca, nena, nunca
panela que manifesta a ação
sem-vergonha a Casa Rosada
aqui se pergunta “que sei eu?”
lunfardo contra a Real Acadêmia
surreal não é Xul é o Sul
...
na Recoleta em Puerto Madero em Palermo
essa adjetiva urbanidade de cor argentina nos lugares
em La Boca no Retiro no San Telmo
dessa cativa saudade que se imagina em bons ares

4 de janeiro de 2007

Mais um de mim a menos


depois de meu penúltimo meio-dia
onde a clara rua perde o mesmo nome
ali é o fim do apocalíptico terceiro verso
hoje a morte lateral das vagas sombras
diz-me que o nosso mundo acabará para mim
de me parar preparei-me para me deparar
elo, desde onde estive duelo até por onde vou, duo
vida que se finda estranhamente e sem rima
esse é sempre o labirinto múltiplo de passos
o que meus pés teceram desde a infância
um círculo que se fecha de acordo consigo no vício
já que o íntimo me troca por outro hospedeiro
depois de alçar seu vôo sem pássaro dentro