Páginas

3 de outubro de 2007

Fenomenologia

Metáfora é um dos nomes da legião que tem o demônio da analogia. Encontrou-me aquele lugar depois de muito procurar por mim no Atlas de geoficção. Cirandamos um (permito-me enumerar) em direção ao outro, seguindo as instruções para subir escadas e peneirando um descentralizado círculo com doze raios, com esmalte de ouro (algo que mia), e nos encontramos naquele lugar além do bem e do mal, dentro do espaço apesar de fora da vida ou da morte. Paripasso antes ando e passo reparando passar par ímpar de passos andantes para passeando parar de andar. Diante da cena acenando possibilidades, gagueja o gogó. Aparentemente nada estava interligado, mas o Nada tinha relação. O ambíguo ambiente possuía um amaro aroma romã-amora, tinha trezentos e sessenta e um graus... eu estava do lado de dentro e bati na porta querendo sair, mas a porta era surda e tive de arrombá-la... estava aberta. Aí tudo entrou aqui. A primeira experiência foi um abutre que girava enroscado (o que minha razão ainda procurava identificar e categorizar como um ventilador de teto), o chão meio informe era ao mesmo tempo da cor da gema do ovo e do céu sem nuvens; algo felpudo que me fez perceber estar descalço. As paredes eram em número ímpar, recebiam a luz e não a refletiam, eu pensava. Essa luz era emitida pelos meus olhos, uma certeza manifesta, verdadeira evidência com que percebi a dúzia de quadros em branco descorando o não lugar, estavam assinados... assassinado, Deus. Nitidamente uma caligrafia póstuma, em dívidas sem dúvidas. Quando, se posso traçar alguma conjuntura ou coordenada temporal, ouvi minha própria voz me chamar e me virei de súbito, avistando algo parecido com um cofre de cores embaralhadas como um cubo mágico. Eu continuava a dizer e ouvir meu nome, guiando-me e me seguindo, perseguiando-me. Estranha a mente algo assim familiar, mas sem me fazer de rogado roguei à entidade da memória que me ditasse os números que premeditada mente eu nem sempre soube, a data de meu nascimento. Então, logo que girei a combinação, a caixa pôs-se em movimento, desembaralhando as cores de sua meia dúzia de faces girando sobre o próprio eixo. Fiquei mudo, já não ouvia a minha voz. O arquetípico objeto revelou-me seu impresumível conteúdo, maiores do que ele mesmo, impresumíveis outros objetos espersos e disparsos: o tear do manto invisível, a roda da imobilidade perpétua, a garrafa de ar, a máquina de emaranhar paisagens, o emissor de silêncio e outros placebos feitos necessidades da vida contemporânea. Algo que muito me interessou, foram umas hemorróidas de veias dilatadas, maior que o seu próprio ânus, de cor encarnada muito viva, assemelhando-se a inflamação na forma inchada a um coração que entre os tumores varicosos se entreabriu em um bocejo que julguei hereditário. Contrariado, ainda procurei não olhar para aquilo, um tanto por constrangimento e outro por educação, mas pude verificar que nos cantos ao seu redor trazia migalhas de pão, além de feder a vinho; em seu interior guardava novas maravilhas. Imaginei que houvesse se fartado com comes e bebes. O ânus agora babava, parecia ruminar algum sonho que lubrificava cada variz. O que fiz foi penetrá-lo com um braço, até a altura do ombro, prendendo a respiração e afastando o rosto de seus pelos. De lá do lado de dentro eu trouxe uma descomunal bolsa escrotal, bem depilada e rugosa que, desprovida de testículos, fazia-me adivinhar um conteúdo de outra natureza. O saco cheio estava com uma ossada, que com meus conhecimentos de Humanidades soube tratar-se dos vestígios fósseis de Deus. Peguei, chacoalhei e tornei a guardar no mesmo lugar, premeditando a minha volta e a importância daquela descoberta teogeológica. Novamente meti na abertura exterior do reto o meu braço para dessa vez sacar de lá um busto de Jorge Luís Borges, feito em osso, provavelmente de dinossauro. A imagem era a do escritor argentino, em tamanho natural, do meio do tórax para cima, já um ancião cego, apreciando com o tato um crânio humano voltado para si, que supus não ser outro que não o próprio William Shakespeare. Era ou não era da coleção particular da própria divindade, mesmo questionando, tomei-o para mim, cogitando avaliar melhor depois a minha escolha entre os dois achados, sabendo que não poderia carregar a ambos. Nesse instante, quando eu já tornava a meter ali meu braço, notei ter acordado o ânus rubro que se pôs a praguejar nos inúmeros idiomas diferentes conhecidos do homem, ao certo tendo me sabido humano por também conhecer braile, obviamente, já que não tinha ele olhos para me ver embora fosse todo ele um olho só, tateava a forma de meu braço e já começava a apertar um pouco, apenas não conseguindo de fato decepá-lo dadas as condições enfermas de sua constituição afofada pelas hemorróidas. Então me apressei metendo nele também a cabeça a fim de vasculhar o que mais escondia, e o que ainda estava dentro, bem no centro de seu interior, era uma silhueta de mulher em meio aquela escuridão retal, que meus olhos ébrios abarcavam como um farol abarca um barco à deriva. Dessa posição pude ouvir afinal o ânus resmungar em língua portuguesa que era cu de padre, que somente um eclesiástico de maior hierarquia podia nele entrar, e que era dessa forma que o mundo ia acabar. De fato, senti que o ambiente ao nosso redor já se desfazia ou afundava, pois já não dava mais pé; e olhando para fora percebi que tudo estava mesmo a se gaseificar em um rarefeito pensamento flatulento, então eu me escorava naquele ânus cordial tão bem sacerdotado, buscando com o outro braço pegar um de cada vez os achados que tinha feito, procurando mesmo um jeito de entrar todo e com tudo nele, o que só com muito esforço meu e gemidos dele pude afinal conseguir, por pouco não tendo padecido do lado de fora em meio à rarefação ou ao odor característico. Aí, uma vez nele, corri de encontro à silhueta de mulher que de mais perto se revelou como o que era, uma ampulheta. Era feita de alguma transparência diferente do vidro, algo mais parecido com uma água viva um pouco esverdeada, cheia de vácuo, espaço que não era translúcido para minhas retinas renitentes; trazia em suas extremidades um sistema de planetas pretos e brancos intercalados a orbitar em torno de um sol amarelo na parte inferior e um sol azul na parte superior. Estava vazia... quando eu percebi, já não havia mais tempo; caí ao chão agonizando, eu estava definitivamente a morrer. Não doía, mas eu sabia. E foi quando tudo parecia estar perdido para mim que de novo ouvi minha voz dizer meu nome, era a forma atemporal de mulher que me sussurrava desde antes. Aquela silhueta-ampulheta então me orientou que a minha única e última chance (depois eu soube, também a primeira) seria responder A Questão, “ser ou não ser?” ou ser mastigado pelas épocas em um lapso entre futuro e passado como duas sedentas e etárias arcadas dentárias. Eu tentava pensar, queria viver, e assim morrendo encarava a implacável dona da minha voz, que nunca antes soara tão terrível como quando me disse ainda que não era para ela que deveria responder, mas para o busto do cego. Em verdade, averigüei que Borges, antes sólido e impávido, parecia ansioso pelo que eu diria, sua expressão estava mesmo contorcida, aguçando os ouvidos em minha direção. O meu tempo já havia se esgotado e eu tinha de responder. Afinal, após refletir o melhor e mais rapidamente que pude, disse a ele que já tinha a minha resposta, após o que se empertigou todo, colocando ao lado de sua orelha a “orelha” do bardo feito caveira, aprontando-se para ouvir através. A silhueta-ampulheta então novamente me propôs a tragédia da dúvida: Ser ou não ser? A própria liberdade de escolha entre as diferentes possibilidades trazia-me aquela angústia que implica riscos, renúncia e limitação. Sei ou não sei? Respondi, enfim, “não”... E aí a silhueta-ampulheta fez uma expressão que logo eu não soube definir e me predicou: “desde o futuro até o passado esta resposta está e... e... errada!” Então o busto de Borges se arrastou de forma grotesca até o saco escrotal esvaziando-o. Usando a cabeça de Shakespeare ele martelava os ossos de Deus, que se esfarelaram com facilidade, daí a obstinada estátua do escritor sorveu com a boca o resto todo do todo poderoso, agora mera farinha e assim dirigiu-se para perto da outra. Esta levantou sua metade inferior como a uma saia, encobrindo com ela o busto de Borges; eu podia ali vê-lo colar sua boca de bochechas cheias à cintura ou vagina da ampulheta, por dentro, e soprar a plenos pulmões o seu farináceo conteúdo através da passagem afunilada, preenchendo a metade de cima com a farofa divina, que logo se pôs a escoar lentamente como um fino fio de pó sobre sua cabeça calva conforme a desconforme formosa silhueta rebolava. Eu, símbolo de tudo aquilo que é e não é, devolvido a vida uma vez mais, reincidindo sempre no erro, nunca importando qual a resposta, condenado a padecer desse mesmo tempo que me resta, na eterna desventura de repensar indefinidamente nenhum outro fenômeno além da minha existência de condenado a contemplar, ao mesmo tempo, o seu ser desde minha consciência e desde a sua consciência o meu ser além de, entre ambos, o Nada em questão.

Tabu

.
anterior aos deuses todos
precede qualquer religião
um animismo de rapsodos
musas irmãs sem proibição

em ambivalência ritual
antes do verso já havia
além do bem e do mal
desde sempre a poesia

simboliza a face maligna do sagrado
significa o caráter benigno do profano
fundamenta-se no temor reverenciado
ao poder que se impõe sobre-humano
terríveis castigos ao infrator rebelado

desde a morte até o nascimento
o universo é mágico e religioso
une-se tudo e nada em casamento
ainda mais se este for incestuoso

perigoso e gozoso primitivismo sexual
injuriosas legais ou uma chata jurídica
sadomasoquismo em roupagem social
apura intocável impura tocaia política
objeto fálico em convexa falácia moral

já não se discute mais racismo
nunca mais se fala em tortura
qual não houvesse machismo
eufemismos ou apenas censura

é poesia tudo em que se acredita
sagradas interdições estas lavras
o poeta é um fetichista da escrita
e o poema é o totem das palavras

2 de outubro de 2007

Everland

O vício é um hábito
Lugar que se freqüenta
Seguindo sinistra a estrela
E então até o último anoitecer
A primeira velhice é a que fica
Segunda infância que nos escapa
Seduz-nos com um canto de sereia
Faz-nos esquecer do que nos enfada
Captura-nos como se fosse um gancho
Faz-nos presas nas presas do crocodilo
Todavia anti-horário nos desespera
Síndrome que nos conduz aquém
Acham-se garotos perdidos
Na terra do sempre
.

Hipergrafia

Com ou sem título? Primeira linha... Parágrafo! Letra maiúscula:

O ideal, os ideais... uma palavra; a palavra, as palavras... uma frase; a frase, as frases... um parágrafo; o parágrafo, os parágrafos... uma página; a página, as páginas... um capítulo; o capítulo, os capítulos... um livro; o livro, os livros... uma obra; a obra, as obras... uma literatura; a literatura, as literaturas... um ideal.

Cúmulo do acúmulo, mais se escreve do que se lê, notas de rodapé para o Nada!

Entre tantas letras... acentos, idéias, vírgulas, idiomas, interrogações, linhas, reticências, folhas, ponto-e-vírgulas, capas, exclamações, estantes, parêntesis, bibliotecas, asteriscos, rimas, números e culturas... mas onde o ponto final?

21 de setembro de 2007

Quidam

.
O Outro no papel de Personagem, interpreta bem como Qualquer Um e, enquanto inevitável Persona Non Grata, achega-se como Quem Será e bate à porta, Alguém sempre atende, sendo O Comum Dos Homens, posto que A Quem Interessar Possa, esse arquetípico Sujeito, às vezes chamado de O Próprio ou até mesmo de Esse Aí, era o Vulgo familiar, aquele Cujo que Todos estavam mesmo Cada Um a sua espera, eram o nosso amigo Ninguém, o seu compadre O Qual, bem como A Gente, sem contar O Resto, quando afinal De Quem Se Fala entrou, tanto as Pessoas Físicas quanto as Pessoas Jurídicas lhe criticaram só por estar A Ser assim esse Indivíduo Indeterminado, então Aquele Que até ali Você Sabe Quem fora um Usuário complacente de Si Próprio usando como Inominável a máscara do Sob Pseudônimo, enquanto encarava O Povo a sua frente, decidiu-se De Si, escolhendo bem se mereciam que Algum se transformasse Dele em talvez Quem Sabe, ou em um Elemento ou em uma Figurinha, e foi então que O Cidadão de repente, entre Ambos, tornou-se O Mesmo.

20 de setembro de 2007

Etiqueta da Solidão


Faça companhia a você mesmo
Não importune as outras pessoas
Escolha de quem se afastar a esmo
Adeque-se às horas vazias e boas

Você determina o tempo de distância
Cuide do ermo onde permanece recluso
Imagine que o maior acerto é a errância
Pense que a amizade já caiu em desuso

Saiba aproveitar o isolamento
Agora que está só e inatingível
A solidão será este sentimento
Muito pessoal e intransferível

19 de setembro de 2007

Hei

Interjetivo é para mim o futuro que há entre o verbo e a alma, depois já não sei. O que me tolhe é que o saber querer o querer saber é o que me tolhe. Coisa espantosa o porvir, o ainda sim e o ainda não, o não porvindo. Sei que há de saber-me existente, enquanto não vem o mal da memória episódica. Intuito intuitivo é o contra e profético vide a vida evidente dos ex escritos da história do futuro. Compre essa idéia visando à revenda revisada desvendando o que falar ou escrever centúrias. O presságio e a pressa do ágio me impelem a não sem alguma auto-indulgência me condenar à indigesta indigência de cigano que ainda posso vir a ser, quando tudo der errado (se tudo der certo) que há vagas no neo-hipsterianismo que está de novo em voga. Aliás, tudo o que é velho se renovará na mesma medida desmedida em que tudo de novo ultra ultrapassado pelo passado será. Prevemos novidades antiqüíssimas, os neófitos do neo-paganismo e os neologistas neolíticos aí inclusos. Obterei tinha assim e assim terei óbito.

18 de setembro de 2007

Destarte

Há profetas que buscam achar salvação seguindo a alguma tábua
Prefiro pensar que há homenzinhos verdes e também os amarelos
Há aqueles poetas que costumam tratar suas musas a pão e água
A minha musa é que trata de mim com LSD e chá de cogumelos

16 de setembro de 2007

A Indiscleta

Em 1988 eu tinha oito anos de idade. O meu pai queria mais, queria poder, então se mudou com a família para uma cidade com então cerca de sete mil habitantes apenas, chama Oriente, perto de Marília, no Noroeste paulista.
.
Nessa cidadezinha a maioria das pessoas sobreviviam do corte da cana de açúcar ou do trabalho na usina; era praticamente obrigatório freqüentar a igreja onde mal cabiam; quase todo mundo falava errado e eram muito indiscretos.
.
As segundas intenções que tinha meu pai era nos oferecer mais segurança e qualidade de vida, sendo a primeira candidatar-se a vereador e ter um bom salário. Lá podíamos ter uma casa grande e bonita, como em São Paulo apenas se vê nos bairros mais nobres, e assim lá vivíamos “muito bem, abrigado”. E foi nesse ínterim, meu pseudo-apogeu econômico, que ganhei a minha primeira bicicleta (de duas rodas), era uma Caloi aro 16 vermelha, cor da minha carne. Ainda me lembro das palavras do meu velho, olhando o horizonte desde o alto da ladeira, falando cheio de orgulho, com a mão no meu ombro:
.
- A cidade é toda tua... vá pegar!
.
E lá me fui eu. Ali de fato eu teria a possibilidade de, mesmo com tão pouca idade, andar bem livre por onde quisesse; o que de fato fiz pelos próximos dois anos, para qualquer lugar para onde eu fosse, eu ia pedalando.
.
Saía cedo de manhã com um galão de cinco litros pendurado no guidão para buscar leite recém chegado das fazendas, no quintal dessa casa havia uma imensa jabuticabeira, onde eu trepava logo cedo enquanto andava a fila do leite, para tomar meu negro desjejum, lembro que a mulher que me atendia parecia-se com aquela do rótulo de leite condensado com um balde na cabeça, aí continuava, voltando para casa dificultosamente com tanto sobrepeso.
.
Depois ia para a escola onde se enfileiravam estacionadas centenas de outras pequenas magrelas, no intervalo ou quando ia ao banheiro, sempre passava por ela conferindo se nenhum menino idiota tinha aprontado alguma, às vezes alguém a derrubava, entortava o guidão ou roubava alguma parte. Tinha vezes que eu arranjava alguma encrenca com algum “fortão” que dizia que me “pegaria na saída”, aí todos ficavam comentando “hoje vai ter pau”, e ficavam me esperando sair pelo portão principal, em roda a gritar como índios; eu escapava pulando o portão dos fundos... a bicicletinha não era mesmo pesada, nem para mim. Ia me refugiar no estádio de futebol da cidade, onde eu consegui entrar passando por debaixo de um dos portões, rastejando, a bicicleta arrastando depois de mim. Era um estádio pequeno e bonitinho, ficava vazio e silencioso.
.
Aí depois de passado o período de saída, eu passava no centro da cidade para tomar um sorvete de três bolas escondido da minha mãe (“sobremesa antes do almoço não pode”, ela dizia), com essa idade eu comecei a receber mesada, lembro que era sempre uma nota de mil cruzados, “milão”, como se dizia ali - dois anos depois, ainda não teríamos muito mais dinheiro, só um dinheiro diferente, e minha mesada passaria a ser ainda a mesma, só que em cruzados novos, a única promoção real era mudar da efígie do Rui Barbosa para a do Machado de Assis -, com a qual até que ainda se comprava alguma coisa, acho que hoje valeria uns dez reais. Então passava em casa para almoçar, sempre a pedalar; trocava o uniforme por outra roupa e saía de novo.
.
Ia cabular a aula de religião do curso de catecismo que me obrigavam a fazer tão novo... ou ficava lendo algo na biblioteca (eu ainda não tinha meus próprios livros, ler não foi um hábito adquirido em casa), ou ia fazer alguma outra travessura para os lados de bairros mais distantes, onde não haviam ruas asfaltadas e era mais emocionante descer com a bici as ladeiras; as tais travessuras eram muito variadas e incluíam me esfregar no mato com alguma outra criança, menina ou menino, naquele esquema “mostra o teu que eu mostro o meu”, rolavam altos beijos, esfregações e troca-trocas (mas sem penetração de fato), às vezes me flagravam, o que me rendeu desde cedo a má fama de “menino besteirento”; podia-se parar a bicicleta em qualquer canto para brincar, eu brincava muito entre plantações de milho, em represas e cachoeiras, em grandes montes de areia em frente de casas em construção, invadia essas mesmas casas ainda vazias, subia em árvores muito altas, jogava muita bola de gude, ia caminhar sobre os dormentes da linha do trem que passava por lá, jogava pedras para dentro dos vagões quando passava barulhento. Eu era um menino hiperativo e um tanto indiscreto. E dessa forma eu passava o tempo antes da hora de pedalar de volta para casa com o por do sol, para deixar a amiga bicicleta descansar até o dia seguinte; juntos formávamos uma parceria vertebrada, às vezes o garoto sendo metálico, a metade formando um animal fantástico sobre a outra metade, bicicleta de carne. Para mim os dias serviam para isso, e a bici era a minha companheira inseparável, dei-lhe o nome de Indiscleta.
.
Mas todo esse flash back foi na verdade um flash forward já que, do ponto onde estava quando comecei a digredir, tratava-se de avançar no tempo antecipando o que eu viria a fazer com a minha bicicleta nos dois anos que ali morei, muito feliz; antes de meu pai perder a eleição e se entediar daquilo tudo ali, e de voltarmos no final de 1989 para morar novamente em São Paulo.
.
Então, retomando, meu pai havia dito para eu ir pegar a cidade que agora era minha, e eu fui, ladeira a baixo, em alta velocidade. Eu só não sabia ainda conduzir direito, e no final da rua havia uma bifurcação em “T”, ou virava para a direita ou para a esquerda... mas não pude me decidir em tempo. Foi uma trombada daquelas de encontro à guia alta da calçada... eu voei para frente com força, caindo longe... a Indiscleta subiu bem alto e caiu sobre mim. Resultado: além do vexame... a dor; quebrei a clavícula esquerda, a cidade foi quem me pegou; e então eu tive mesmo de conhecer tudo a pé durante aqueles primeiros meses, antes de me deixarem poder enfim pedalar a Indiscleta de novo.

13 de setembro de 2007

American Bar


Bebendo me conheceu 
Drinking with you 
Tomando por voluntad 
Bebendo serei mais eu 
Drinking both two 
Tomando con libertad 

Bebendo apenas comigo 
Drinking just all alone 
Tomando tantas veces 
Bebendo sem um amigo 
Drinking another one 
Tomando por ustedes 

Bebendo sozinho vim 
Drinking from the beginning 
Tomando en la mamadera 
Bebendo ao meu fim 
Drinking with all my felling 
Tomando a la borrachera 

Bebendo assim só 
Drinking to be bad 
Tomando me ayudo 
Bebendo e sem dó 
Drinking being sad 
Tomando a menudo 
Bebendo de dar nó 
Drinking I am mad 
Tomando vos saludo 

10 de setembro de 2007

Conseqüência (Nqüanêcsioec)

Música: ninguém pode ir embora
Sexo: encho-me até estourar
Tabagismo: atiço com muita lenha
Confusão: nado até me afogar
Estrada: os mais altos teores
Comida: aponte quem preciso matar
Fogueira: aumento bem o volume
Dinheiro: preparado para sangrar
Festa: faço cair meu queixo
Bebida: várias dentro sem tirar
Gargalhada: piso ainda mais fundo
Praia: entorno até vomitar

Juvenília


Ser jovem é fazer merda como o fazem os bebês E não há ninguém mesmo mais jovem do que eles É beber com a conseqüência e dirigir sem habilitação É esconder no peito a fumaça fumando escondido E se tudo o que se fuma vicia e é uma droga Droga melhor é a escola que ao menos não vicia Nos serenos rebentar arrebentando rebeldes seremos nós O jovem é o que entra nos dias para sair de noite O jovem dança muito na maior enquanto menor Quando deixar de ser ele sabe que dança muito pior É com o jovem que começa qualquer violência É em essência a puberdade na adolescência Qualquer amor juvenil é sempre o primeiro amor Qualquer cabeção por mais cabaço sabe disso Para renegar os pais e trocá-los por novos heróis A juventude é mais um rito roto de passagem A juventude tempestuosa acaba numa estiagem Às vezes a estiagem é um emprego ou estágio Trabalhar é envelhecer e rejuvenescer se aposentar E ser jovem tem de ser para também já ter sido um dia

Irmãos em Lautreámont

Há alguns dias, um ser invadiu meu orkut e me escreveu saudando-me com "ósculos de loucura plena". Resolvi olhar melhor para ver se não o conhecia e, de fato, nunca o tinha visto; apesar de não o reconhecer, reconheci nele eu mesmo e minha poesia. O perfil dele é o seguinte:
.
.
"Não reconheci a metáfora. Tornei me o que sou. O que sou? O peão de Bellmer? Um trem que parte? Um cacho de bananas ou uma escultura clássica? A oposição da primeira instancia ou o palpável calor dos corpos celestes? A este pondo não posso deixar de apresentar o meu ânus contra o próprio deus. Infeliz! A estrutura da sociedade cristã assenta se nas fezes normais. Cagadas e não escritas de um cu teoforme. Sei o quanto já disseram isso. Mas nada mudou. E é preciso repeti-lo: A existência transformada em expiação! Ai, nojo! Nojo! Nojo! Assim falava eu. Suspirava e me arrepiava; pois lembrava me do meu blastoma sedal. Mas então meus animais não deixaram me falar mais. Não satisfaço me com uma dose de realidade. Quero embriagar me das coisas. Vão batizar me como louco. Eu vejo o obscuro consenso dos fatos. Tomo me como objeto de investigação. Mas esse seria assunto para outra investigação. Tome se igualmente para averiguação a natureza do vácuo. Como tornei me poeta sendo necrófilo, para evitar a produção do vazio. Viva a física! É necessário revolver os corpos. Citar os órgãos. Há muito calor nas letras vivas dos corpos mortos. Imperceptível pelo ordinário tato humano. Por alguns dias pelo menos não deveriam sair do quarto. Oh! Estranho milagre da solidão. Estou no auge de minha alegria. Não somente por que inesperadamente os gênios me dão o cu, mas também porque as hienas me acusam de plagio. Sem a menor percepção de serem escafandros no varal de minha vara. É preciso que saibam; que. A anfibologia classificou me como: aequivocus ambiguitas. Não quero compor uma poesia vindoura em relação a estes que como. O ponto principal é saber até que ponto eles devem ser ingeridos. Vejo minha existencia brotar das feridas unhas cicatrizadas dos meus dedos. Cascatas de palavras; nada mais. Eu não vou muito longe. Inda não identifico me nos espelhos. Não sei si uma vogal ou uma consoante. Talvez uma lúrida pontuação informe. Uma palavra inexistente nos dicionários. Uma frase confusa. Uma canção para ninar paquidermes com insônia. Sou incapaz de falar de coisas serias. As coisas que leio esvaziam me de existência. Crio com a lentidão plagiariante dos caramujos mancos na intertextualidade. Sonhei em ser tudo só me é possível realizar o nada. Queria plantar piolhos e colher plátanos. Antes disso entretanto queria liquefazer esta realidade demasiadamente concreta. Queria dar a luz a um poeta iluminado, cheio de dentes devorador de minhas vísceras; viria ao mundo escurecendo me. Na impossibilidade de conceber a luz adotei a escuridão inda no berço. Se tento expor meus órgãos num tabuleiro de xadrez; é assim que me expresso. Queria compor poemas que no mínimo desencravasse a unha de um leitor."
.
Eis o poeta, tinha nome de mulher, como o Duchamp travestido em arte. O outro e o mesmo. Tornamo-nos amigos imediatamente, refazendo as pazes de discórdias feitas em outras vidas, quem sabe, no futuro talvez, se não retorno ternamente. O poema abaixo, eu escrevi para ele.
.
.
Rimã
.
para Romieri Henrique, poeta
.
Evoé, minha irmã em Lautreámont !
Quem é você (filosoficamente) ?
Monstro de bolso ou Pokemon®
Ela tem fogo no rabo. Inca indecente

É a vida cor de rosa? Chamo-a de Suzy Q ?
Ou de (será?) como Duchamp, magnétique ??
Atrai e soa-me. Beletrista. Esfinge que não vê
Inter-rogada. Com boot de punk de butique

Ready made. Por onde teu vazo vazio vaza ?
Ou qual é o teu ateu e-mail comunicante ?
Her lock homeless ela se tranca em casa
Tal textual mente. Ósculos de sol delirante

Tão impressionista, sou expressionado...
Fictiononfiction. Estou apaixonado !

Fiquei perplexo em comum pecado...
Fique com um amplexo amplificado !¿

7 de setembro de 2007

Salve! Salve!

óleitorhipócritaquequerdarocuenãosabecomo
temmedodequenãolhedevolvamoolhodaterceira
dimensãoprimoirmãodebaudelairecomodizo
robertopivaquenãotemmedodenadanestaterra
debrancosqueéapáginanarcisoracistadaliteratura
brasileiramasculinaapesardetudooquefezclarice
asenhorasemhoranemvezforadopaísquesem
lobismoséatémelhordoqueaquelawoolfoquenão
épouconãosenhoréconvoscoqueconosconão
estámuitotempoquenãotenhotempopara
templosequeseexplodamostemposdocóleraquea
febreamarelamatamaisqueoamornessesdiasde
trabalhosteogônicoserefeiçõesnadapantagurélicas
oraoraquenãomelhoraeutenhodeadmitiragora
enahoradetuamortequetalvezdepoisdefalecidoé
quevemaglóriadenãocairnoesquecimentoquea
memóriaécurtacomoaspernasdequalquer
verdadeemdesconformidadedoconhecimento
comorealeodólareoeuroamerdacorrentedear
nosventiladoresquenemmorfinafazpararque
paraquemtemtinoetutanoquevemouagoraou
nuncaviverésofrereseporacasoestiverpensando
emsearrependersaibaqueentãopioraqueviver
tambémécumpriravidaoqueéalgomuitoperigoso
ecumpridoatéquecompridootempodepartiroude
tomaroseunovocomprimidoparadormiretalvez
assimsonharmileumsonhospodeserqueassim
acordeparatudooquesealieacoláouaquieonde
deserloucomasnãorasgadinheironemdeixade
olharparaosdoisladosantesdeatravessararua
quandopensafugirdedentrodessehospícioque
nósestamoscercadoseagorafaltandocobrir
paravirarcircoeopãoqueébomnemnotíciaeesta
temsidoahistóriadessapátriaquenospariuqueum
filhoteunãofodeaputaqueaocertotevenãoa
primeiradasprofissõesquesenãocomquelhe
pagavamosserviçosafinaldecontosedecrônicas
aindatransmitidosviaoralquenemdecoitose
contraiomaldeserafinalassimdojeitocomoé

3 de setembro de 2007

História Concisa Da Insanidade Ocidental

Excepcional é quem nasce inteiro que o destino é de risco e de aventura, as ereções involuntárias da pátria, do Oiapoque ao Feng Shui, dando sentido mais puro às palavras da tribo em meio a guarda-chuvas esparsas e girassóis parcialmente nublados nesta metrópole position; pintar pessoas posando poemas é relativamente mental ou mentalmente relativo, dependendo se teus olhos de néon lacrimejando um fliperama psicológico de deficiente afetivo querem ser caravelas trombas d’água ou meros moinhos de fogo; parabólica e para cólica tornamo-nos buco-melancólicos na cadeira cadente do Tiradentes, que Morais é menos substantivo próprio do que adjetivo, e “aleijado é a mãe antes que eu me esqueça”, não se lembre de dizer que é falta de má deseducação, pior é ser um fatherfucker sem alma de se animar sequer para querer ser mulher do que melhor molhar as calças sabe desfazer na vida pública ou na privada; megafones de ouvido calam o esquecimento de que a Bíblia é um livro de realismo fantástico, cuja fé singular de fezes fala francamente que anjos formam uma máfia perigosa, daquelas que batem na porta antes de sair ou fechar, desligando a janela para abrir o televisor; então melhor dedilhar o teclado e digitar o acorde pois é guilhotinado o papel que decapita com raio lazer a área laser nos disformes conformes do escorrer do relógio que o tempo decorre doído, todo mundo liquidifica doido tentando parar de fumar a caneta apagando na folha o cigarro; isso não é lá muito engraçado mas quem ri por último é retardado.

28 de agosto de 2007

Tutti Fucking Frutti

Sim nós damos muita banana
Mais algum mofado morango
Desengomamos toda tangerina
Peésse aveludado de pêssego

Temos fome de carambola
Não deixamos para depois cajá
Com amor namoramos amora
Antes que engavetemos maracujá
Agudamente recordamos graviola
Enérgicos como é o guaraná

Damos pano para manga
É mesmo o bicho a goiaba
Revestimos pi com pitanga
Com um olho de jabuticaba

Sempre alcanças se és pêra
Entres nessa ou te ponhas açaí
Leve o peso no pescoço a melancia
Inesperadamente alguém nêspera
Com brim dessa cor assim caqui
Som da capa do livro que lichia

Não proibimos nenhuma maçã
Acastanhamos travas de caju
Como acolhemos bem a romã
Tal qual se fosse um cupuaçu

Amuleta-nos o figo
Esbagaçamos laranja
Alberga-nos damasco
Desescrotamos cada kiwi
Barbeia-nos a toranja
Problematizamos abacaxi

Adoramos o melzinho do melão
O disco azulado é um outro araçá
Azedinho e doce como é um limão
Catado do chão de sombra de cajá
Tendo de ser bem macho o mamão
Para encarar algo como o jatobá

Dengoso é o dendê
Lá do cerrado pequi
Laureado o abacate
De muita fibra o buriti

Esse cacho que se advinha é de uva
Proeminente a pequenina framboesa
Pulsa como a compulsão da jujuba
É um deixe-a ou ame-a de ameixa
Fruteira onde cabe até a macaúba
No topo deveria ter vindo a cereja

25 de agosto de 2007

Córrego da Paciência

Rio morto
Que corre no fim da minha rua
É beco escuro mesmo sob a lua

As suas águas jazem ali abandonadas
Flagram de hora em hora um pior humor
As fábricas são tantas nele ancoradas
Que cada dia é navegado por uma cor

Diluindo ele corre clamando
As naturezas da poluição
Fluindo reflete se esperando
Os dias melhores virão

Nicho do desmemorio
De todo entulho que se expande
Do meu beco ri acho pois é contrário
Da infeliz cidade que tão grande
Sobrevive no desvario

Fluindo eu sigo proclamando
As amizades da solidão
Diluindo penso se desesperando
As noites durante serão

A sujeira dessas idéias marginalizadas
Afunda a nau frágil afogando o meu fragor
As enchentes em meio às gargalhadas
Embarco no papel boiando desta minha dor

Desfaleço a vida que me passa
E eu que assim achando graça
Rio morto

23 de agosto de 2007

Mala Se Alça


Sem contar a roupa do corpo, com leve pesar sem peso levar, cumpridas calças compridas, compradas para a viagem; uma camisetinha para cada cor, mapas e cuequinhas em flor, dinheiro de lá que de cá comprei, chapéu e touca e boné, meia dúzia de meias e três tristes trocas; pares de sapatos seguindo de tênis, habilitação e passaporte e paaéssareagem; dois livros um de prosa e um diverso, uma vermelha e quatro pretas canetas, mais duzentas páginas menos esta.

19 de agosto de 2007

Realismo Mágico


Pela superstição maravilhosa
Contra a fantasia tecnológica
Contra a fantasia supersticiosa
Pela tecnologia fantástica

Sonho em que me emaranho
Como e regurgito ergo sum
O cotidiano é que é estranho
Irreal o que há de mais comum

Uma ficção especulativa
Onde o tempo é sobrenatural
Outra história alternativa
Quando espaço é mínimo e vital

O intuitivo sem explicação
A verdade cíclica não linear
A selva de nossa imaginação
O verbo latinamericanizar
.

Instrumental

I
Trompete


De uma alquimia controlada
Da nobre família dos metais
Distâncias que o éter percorre

Pressão e velocidade musicada
Por puras cromaticidades distais
Pela expulsão de espíritos morre

Nos graves a sonoridade é sombria
Nos médios está sempre a brilhar
Nas agudas os sons são estridentes

Seu destino é de encantar e é de guia
Sua alma é o sopro de vida a se tocar
Sendo respirar e expressar imanentes

II
Violoncelo

Grande ele reina sobre um só pé
Inscrito absoluto na clave de Fá

Dó que a compaixão faz inspirar
Sol por princípio em nosso sistema
Ré que nos faz outra vez recuar
Lá onde algures estará o problema

Senta-se com ele para ouvirmos até
A história grave mais bela que há

III
Cuíca


Rugido de leão
Nunca percutida
É de percussão
A sua mordida

Quanto mais perto do centro
mais agudo o som que produz
O segredo deve estar dentro
pela comunicação dos exus

Soluça ou dá grunhidos
Membranofone de fricção
Guincha ou dá gemidos
O instrumento de fruição

IV
Acordeão


Sinfonia solitária
A sanfona é uma autarquia
Orquestra de um instrumentista só
Com pulmão de madrepérola
Com mi com fá com si com dó
Quero ré quero sol quero lá
Órgão quintessencial
Dedilhado que soa insano
Laboratório do som da idéia
Um iôiô tão musical
Com castelos por dentro
Harmônica uma tal colméia
Musculação de quem toca
Delicado abraço descomunal
Maravilhoso engenho por centro
Corcunda assim seu tocador
Carrega no peito o piano
Nove dedos em execução dolorosa
Jardim sonoro de qualquer cor
Na engrenagem misteriosa
Os sons que para cima descem
Os sons que para baixo sobem