8 de setembro de 2008
Louco Meio Livre
como olhas toda a confusão
sei que passou por uma instituição psiquiátrica.
- Saiba-te muito bem-vindo
e agora vamos comemorar
que com toda razão esse metamorfosear brindo.
- Pastemos a massa cinzenta
daquelas cabeças diferentes
qual faz a vaca louca que aos dementes alimenta.
- Flanaremos por esta cidade
como num grande hospício
lançando-nos à rua como no precipício liberdade.
- Eu guiar-te-ei pelo binômio
sem muros do nosso íntimo
que afinal podemos ser um no último manicômio.
7 de setembro de 2008
Ensaio de Escola de Pomba






2 de setembro de 2008
Antonomásia
Só eu é que não sei de coisa alguma
De cabeça só os anversos de cara
Ignorantes tarde do que nuca
Quem sou eu para onde venho?
Eu sou quem de onde vou!
Nunca me fundei por ser versado
Consisti sempre em versificar quieto
Não serei mais um gênio incompreendido
Fui um gênio obrigado por de nada ter entendido
24 de agosto de 2008
Corpo da Obra
:que de cabeça sei o meu conteúdo.
Ordeno ao corpo que co-meça estrutura,
o mapa da rima, minha literatura.
O meu pescoço é um tipo de atlas.
Entre meus ombros, hálma-bomba e,
perpendicular, sob cada um deles:
de um lado, a ajuda humanitária;
e de outro, a guerra de conquista.
Nada na mão & tudo na contramão.
No abdômen: crisálida de realidades.
No sexo: o sem tempo, o não lugar.
Pernas coxas de mancadas, de roda,
desce atingirem caneladas e de estar
cada pé num universo ou uniprosa:
dois no chão, dois na minha sombra.
Ainda me livro de ser hospedeiro,
que no meu corpo soul passageiro.
Meu passado nunca será decrépito,
pois meu futuro sempre foi inédito.
13 de agosto de 2008
Entre
Eu e minha família fomos visitar a casa. Logo à entrada, um capacho servilmente deitado comunicava sermos bem-vindos. A porta, o cheiro reluzente da porta cara de pau, inspirava em nós a idéia de que basta um verniz para ser feliz. O aviso acima da porta, que até no inferno se prega do lado de fora, só se via depois de já termos entrado, dizia “Eu Te Diria Que Não Olhes Para Trás Se Não Fosse Tarde Demais”. O diabo era de couro e trazia em si as areias do tempo, sua única utilidade era impedir o vento frio entrar por baixo da porta. O espelho grande na entrada simbolizava uma carranca. A passadeira escorregadia conduzia-nos deslizando à sala principal, passando pelo pórtico com franjas, um arco-íris de plástico perpendicular aos tacos velhos pendendo do batente superior. Miríade de fotos na miscelânea misencenada. O salão emanava cheiro de cachimbo, desde o pé direito, alto e sinistro. O lustre de cristal, com forma de guarda-chuva, balançava um pouco. Podia-se dizer que os quadros em branco formavam um conjunto harmônico com as paredes pintadas com as cores e pinceladas mais variadas. Os móveis não eram amáveis, iam de um a outro canto arrastando-se pesados e barulhentos, operação que só pelo ruído se percebia, após um relance de olhos, dada sua agilidade de freqüentadores habituados ao ambiente. Sobre uma poltrona de alto espaldar, em veludo verde, que se deixava sentar um tanto a contragosto, um urso de pelúcia das proporções de um anão humano, sorria malicioso com um meio olhar de animal selvagem, faltava um olho; na intersecção do braço com seu antebraço sem dedos via-se uma seringa pendurada. A faxineira estava de folga, e nesses dias a música não era popular ali, mas clássica, e estava desligada. Por sob o aparelho de som viam-se discos de capas bem conservadas, obras desconhecidas impressas em idiomas alheios ao nosso conhecimento. Tudo realçava a fuga, também o solo e o contraponto, introduzindo-nos mais na coda que tocava no pó de cada canto e, mesmo no mancebo sobretudo, bolsos da imaginação. Tudo o que se ouvia era como que um burburinho dos ácaros, das aranhas e dos cupins. O tapete central e a mesa de centro a meio metro do chão, eletrificavam o vazio daqui, e desde o lugar de tudo o emaranhado por um fio da queda. Cada alto e baixo relevo de tomadas e interruptores estudando as quadraturas dos círculos de mofo no teto úmido unido ao ar que sustentava a estrutura. A lareira de tijolos à vista, apagada, tinha no preto de dentro do vão não carvão, mas vestígios das leituras da noite anterior. Aliás, a estante de livros, imensa, estava interditada por paus e pregos, um grande “x” amarelo marcando a inacessibilidade da leitura, aguçando a curiosidade. Não tinha janelas; a sacada era um depósito de ar respirável, guardado do lado de fora. Nas duas dimensões dos outros três acessos podia-se ler escrito “Eu Sou A Porta”. Sem nos decidirmos por qual escolher, querendo ir ao banheiro, talvez não por coincidência na primeira tentativa o tenhamos encontrado. A peça era morna demais para o que se costuma esperar de um ambiente assim, a não ser pela falta de janela, aparentemente branco e regular, o que não se podia dizer após um exame mais detalhado. Estava limpo, e, no entanto, fedia; um cheiro, não, um aroma de cozinha, talvez do cômodo ao lado. Fato é que os três tapetinhos, da pia e do vaso e do box, eram sobrenaturalmente iguais, a não ser por demonstrarem, por alguns indícios peculiares, estarem fora do lugar: o tapete do vaso sujo de cabelos e gel, o tapete da pia estava sujo de espuma e xampu, o do box estava sujo de urina e fezes. As toalhas eram aderentes, de um tipo de velcro que lembrava papel-pega-moscas. O cesto de lixo estava cheio de utensílios que se esperava encontrar fora dele, pentes, frascos, pinças, sachês, água sanitária, escovas de dente. E o lixo não poderia deixar de estar no armário do espelho. A constatação levava mesmo a perder a vontade daquilo que nos havia levado a entrar. Saindo, procuramos a porta ao lado, com apetite. Na cozinha, o relógio de parede, sem o ponteiro maior, estava à primeira vista parado, mas por vezes marcava um instante distinto a cada exame, dando mesmo a impressão de que tendia a ser anti-horário. Azulejada até o teto, alguns de seus quadrados aleatoriamente estavam gravados com naturezas mortas, efetivamente ainda sangrando. Cheirava à feijoada, ou melhor, cheirava à feijoada humanamente já ingerida e processada, talvez por proximidade e influência do banheiro. Aqui o piso era alternadamente preto e branco, em sessenta e quatro lajotas que entabulavam um fricção constante rangendo sua batalha sem rejunte, sob peças de carne crua com sal grosso de cristais que refletiam fatias de iodo pelo ambiente, lajotas sobre o sal da terra foz de escondidos, talvez ossadas. Os armários, de pequeninas portas singelas onde eram guardados os talheres de prata e outros utensílios de madeira; de grandes gavetas onde se guardavam as panelas de ferro e as vasilhas de plástico. O fogão enferrujado parecia uma escultura moderna de animal fantástico, com a panóplia das quatro monstruosas bocas a cuspir um fogo mitológico. A fruteira trazia espécies exóticas que se poderiam chamar de inacreditáveis, dadas as formas improváveis a esconder seus sabores misteriosos, improváveis, dando ao paladar o asco de grandes insetos coloridos. Abrindo a geladeira, pratos e copos, embaçados de gelo e branco; abrindo a despensa, descobria-se onde dormia o gato, com seus apetrechos de comer e defecar e dormir. O felino, uma vez descoberto, ronronou baixinho o que parecia uma melodia de um samba antigo, dando à luz sucessivamente uma ninhada de sete gatinhos e um ornitorrinco, recostando-se em seguida para morrer. Cozinhamos os bichos e fizemos festa. Sobre a pia, de um mármore tumular, sobraram convencionalmente os despojos do banquete a que nos entregáramos amiúde por todo o restante do dia. Perdendo a noção dos instantes e mesmo nossa localização à deriva na estranha moradia através da cidade que todos achávamos conhecer como à palma de nossas mãos, ao limite do tédio. Cansados, quisemos nos deitar, no que nos dirigimos ao quarto. A última porta, no entanto, além da óbvia cama que esperávamos encontrar, revelou-nos uma escada ascendente; fato estranho por completo, dado que desde fora não se prenunciava um andar superior; provavelmente tratar-se-ia de uma laje na metade dos fundos, insuspeita por trás do telhado que se via do lado de fora desde a frente; a mesma escada também descia, levando-nos à adega, o cômodo mais limpo da casa como já esperávamos, por alta casuística. Lá não encontramos sequer um vinho de cor conhecida, o que não nos impediu de nos entregarmos ainda a uma bebedeira. Enchemos os cinzeiros de assuntos e tragamos música de inspiração duvidosa; Dormimos todos juntos, mesmo vestidos, exaustos do inusitado. Tendo acordado nus, muito depois, já não estranhamos não termos recordação da orgia, ainda menos do vício. E apesar de não sabermos que horas eram, buscamos o sol, subindo a escada. Inesperadamente, vimo-nos lançados à verdade de um dia claro; e a descoberta tardia de que sempre moramos nessa derradeira casa, não como visitantes ou hóspedes, mas como construtores e proprietários, calou em nós um misto de surpresa e certeza. Não maior do que a visão que finalmente se nos afigurou, a daquele segundo sol rubro, já se pondo no céu, adiantado ao outro, segundo o qual já deveria ser mais tarde, o que a lua que se podia ver do outro lado não desmentia. Noite dentro da qual estaríamos protegidos melhor do que nunca em nosso lar. 
10 de agosto de 2008
Diálogo de Araújo com Deus
assassinado
Deus brinca comigo?
Ele é o brincante sem amizade?
A brincar matou o meu melhor amigo?
MATAR É O BRINQUEDO PREFERIDO DA DIVINDADE.
Devo eu brincar de Deus?
Dar um tiro afinal na cabeça?
Estouro os miolos de outro ou os meus?
BRINCAR ATÉ O FIM NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA.
Restam Três
assassinado
Éramos quatro aqui em nossa casa já um quarto vazia
Al is no more e fomos amputados de um braço ao saber
Achei que a trupe chegada aqui enfim ao fim chegaria
Aos infernos quisemos descer só querendo deixar de ser
Estamos incompletos já que o nosso velho alfa se redesfez
O nosso conjunto neste mundo com o outro fez interseção
Desde os planos que tínhamos um novo ômega se desrefez
Que sei lá se de lá ele nos vê mas sei que daqui vemos não
Essa cachorrada transformou em alcatéia esta nossa matilha
Pensei no ato pedir socorro ou fugir e cogitei mato ou morro
Assim mesmo continuo pois minha rima é arrima de família
E afinal até um cachorro de três pernas ainda é um cachorro
8 de agosto de 2008
5 de agosto de 2008
SomBras
3 de agosto de 2008
31 de julho de 2008
Inanição
Cansados vide evidência de fosfenas
Quisera ser apenas um ideal
Estando só com essas idéias
Parecer um fumo do filosofal
Entre as estadias e odisséias
Sede que mesmo oca me come
Fome que beijo louca me sede
Sustentando a esta nota
À roda destes meus pés
Susta-me cada suja bota
Julgo que dos chãos rés
Febo o fútil fogo com nojo mastigo
Castigo um vento frívolo que bebo
Quando me tornar letra morta
Já não precisarei sequer dormir
Errância se acerta na linha torta
Da obra o corpo livre para existir
30 de julho de 2008
Araújo em Ordem
29 de julho de 2008
NãO FiQuE SãO - o livro
OU
TODO O PASSADO É PRÓLOGO
OU
JARDIM DO IDEM
Eu me conformo com as formas das coisas; sento sinistro na cama a me endireitar, comigo mesmo ensimesmo os sentidos relembrando o último parágrafo que li na véspera, enquanto adivinho no claro da luz que penetra no quarto escuro qual o clima que faz lá fora, a que sou tão suscetível; mais um dia de sol na distópica São Caos. Estados Unidos, Europa Industrializada ou Japão? É tudo a mesma coisa para um jovem de quase classe média que tem de trabalhar para manter seus hábitos de consumo; quinze anos desta época já me adaptaram, às vezes acho mesmo que já nasci adaptado. A cada dia toco o chão com um pé diferente ao me levantar, na tentativa de que algo em minha vida mude... e nada. Eis o desestempero da vida: muda o clima e não eu.
Mais do mesmo. Ainda vou enlouquecer, não ainda. Tomar banho a esta hora é uma experiência um tanto quanto traumática, mas me ajuda a acordar: limpo os olhos sujos, desfaço a cara de barbas, engomo o cabelo e sobretudo passo protetor solar; visto camisa branca de gola dura e a única gravatinha, preta calça puída e velhos sapatos pretos, relógio falso importado de contrabando, valise rôta. Ensaio BOMDIA!s em frente ao espelho com um sorriso meio mórbido, autoflagelação estética e moral necessárias para um inevitável dia de trabalho. Confiro o tempo: preciso elevar a pressa. Mal posso escolher que livro levar, tomo um tomo não muito pesado; levo também a sombrinha. Desço a escada de metal em espiral. Avisto pai e mãe, de um lado para outro, tais quais baratas tontas pela casa, arrumando não sei o que igualzinho a ontem, anteontem e ao primeiro dia de aula do prézinho. E o meu destino inexorável é evoluir para a mesma espécie de anulação deles; a amar com primitiva irrefletida ternura o não sentido de esperar algo melhorar enquanto a espera dura. À mesa, café de ontem na caneca rachada e um murcho pão com pão que deixo de lado, café é que é bom. E somos só “tchau, pais”, “tchau, filho”. Vou dar a cara a bater ao mundo a partir de Alphavella, onde moro desde sempre. Passo pelo pequeno traficante todo o meu tráfego aqui e agora. Sorri para mim desde que tenho idade para receber a primeira mesadinha. Ascendo ao pensar no escarro reprimido acendendo um cigarro escondido. Aperto o passo estreito rumo ao centro da cropópole, São Caos, para voltar dentro de algumas horas se não tiver perdido a hora para o ônibus, trem, metrô ou afins que em hora e meia me levam. É o tempo suficiente para ler à contracapa, as orelhas, a biografia do autor, e quem sabe o prefácio e o prólogo, mais umas quantas páginas livro adentro, história afora.
Prosa ou poesia? Nem sempre sei qual é a diferença... Alguma caminhada ainda pelas ruas sujas e barulhentas do centro, desviando dos mendigos moles deitados nas calçadas duras nesta pobre cidade rica, que cada vez mais podre fica; onde ainda todos insistem em amanhecer para. E é sempre igual... mais um dia todo dia. Engulo seco o primeiro gosto amargo diário antes de ser abocanhado pelo arranha-céu de concreto e vidro que de elevador me leva ao andar da Companhia:
- BOMDIA!, BOMDIA!, BOMDIA! – todos dizem em coro, e eu de boca fechada como quem consente, calado corifeu condenado, inocente.
Logo ao entrar avisto os postos de trabalho da Central de Atendimento. Células quadradas, muito pequenas e geminadas formando no todo um quadrado maior, corpo falante, cada uma contendo um funcionário a que se chama operador de telemarketing. Profissionais superexplorados que trabalham como forçados pós-modernos, dilacerando as cordas vocais, olhos e ouvidos, mãos e punhos até estourar em frente ao computador de última geração. Recebem na mísera paga um irrisório adicional de dupla função, a despeito de exercerem pelo menos uma quinzena delas; têm carga horária de seis horas por dia no máximo, direito sinistro que serve de desculpa para o baixo salário, mesmo sendo obrigados a trabalhar sem folgas num eterno plantão. Através do corredor paralelo contíguo eu deslizo rápido sobre o carpete repleto de ácaros invisíveis, passando invisível pelos conhecidos de sempre, sempre procurando não ser reconhecido.
Uma garota nova em meu caminho, meio modernete, mas muito bonita, de cabelo vermelho tingido e negras olheiras profundas, ao certo mal acomodada na roupa social e parecendo entediada, com sua garrafa plástica a barrar-me a passagem me pára e pergunta onde fica o banheiro. Penso: merda! Vou me atrasar... Encho de água morna minha garrafa plástica como um soldado raso cansado, que carrega de munição o fuzil para o dia da derrota definitiva da Civilização Ocidental, que não chega nunca. Procuro minha posição, instalo meu equipamento conectando-me, acerto os três relógios de que disponho com o relógio maior na parede; inicio quinze programas de computador necessários para a operação; condicionado, inspiro superficialmente o ar profundamente viciado; vencido, pressiono melindroso o botão vermelho que libera o inferno e me obriga a dizer, nunca sem aquele “sorriso na voz”:
- Quidam Idemetalter... BOMDIA! – E aí me dou conta do farsante miserável que sou, um puto fingidor. E treplicando o que replica a cliente endinheirada, ligando do celular, de dentro do carrão de luxo – BLÁBLÁBLÁ, Senhora Fulana de Tal. DISPONHA SEMPRE E TENHA UM BOMDIA! - O que repito à exaustão quinze quinzenas de vezes, menos os quinze minutos de pausa para o café de quinze centavos.
É um emprego ruim, mas o que tem de pior é algo comum ao trabalho em geral, não acaba nunca; invencível por ser imperecível, o trabalho é um castigo de danaide, um dano de danado, da nação de assalariados. Ao fim de meus quinze trabalhos, olho para o tempo de quinze em quinze segundos... Ufa. Que fiasco! Fico até tonto.
De quinze em quinze demora demais para acabar, mas acaba acabando; acaba, acaba, acaba... ah, acabou! Salto do lugar e enveredo direto para o buraco por onde entrei, não sem antes trocar qualquer amenidade com outro danado forçado ou com nossa judiciosa Supersupervisora, a odiosa. Ah, alguém ou algo me ajude! É o que se pode chamar de L.E.R., significando “Lesão por Esforço Repetitivo”.
Saio para o dia e ando um bocado a esmo pela cidade, tentando equilibrar-me nas sombras estreitas dos postes a fim de evitar o holofote solar, ando e ando e ando passando por uma série de alfarrabistas onde é possível conseguir bons livros usados; juntos eles formam um circuito de desenfreada perdição financeira para um consumidor de boas leituras com parcos recursos. O meu Livreirudito sempre se acha bastante conhecedor do assunto, querendo parecer à altura do que vende, chegando mesmo a esnobar um pouco, um pouco demais dependendo do grau de intimidade dele comigo ou com o autor e do autor comigo – mas o que se há de fazer se ler é preciso e, saber, tão impreciso –, qualquer canastrão se cerca de livros; o Livreirudito, este pseudoconnaisser, com seu estilo, envolve-me numa emaranhada teia de considerações sobre esse ou aquele escritor que não li – ou que ainda não comprei dele –, oferecendo-me com sua eloqüência barata livros caros cujo prefácio resumido constitui a própria matéria-prima de seus discursos, simplificações de idéias pré-concebidas que julga que ainda desconheço. Desprovido de qualquer conteúdo, nada cria além de miragens intelectuais tão superficiais... que às vezes ele me acerta em cheio: e então compro pilhas e pilhas de lindos volumes deliciosos que, sôfrego, levo comigo, ávido por folhear... e então, quando o dinheiro acaba, o conhecimento é tudo! O pior labirinto não é a reta?
Tomo de meus tomos e me encaminho, para ir tomar no curso na Universidade, pública e aristocrática, oficialmente matruculado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, onde quase nunca estou, pois cabulo para poder ler. Apesar de eu não ter completado o estudo o trivium e quadrivium, é certo que eu esperava muito mais, talvez esperasse pelas universidades dos livros. Quando muito aqui encontrei uma grande biblioteca, como outras grandes bibliotecas, à exceção de que aqui ninguém os lê.
Os outros estudantes anseiam por se tornar caducos como os mestres e doutores, especialistas stricto e lato sensu em saber que sabem que nada sabem. Perdem seus tempos. Pensam, logo pensam que existem. Cada aluno encurvado em seu assento parecendo ele todo um grande nariz adunco graduando-se em ouvir calado e escrever fichamentos.
Não sou um deles, por ora estou. Vai começar a aula. A Catedrástica adentra o templo do saber e precisa de ajuda para se sentar ou levantar, tropeça e cai-lhe uma lente de contato, não a encontra e fica com um olho preto e outro azul. Gaguejará durante quatro horas o que levou quarenta anos decorando: “sei melhor do que ninguém!”, “quinze páginas em latim para amanhã”, “não me interrompa!”. E os educadores ainda são aplaudidos pelos educandos, quando sei que deveria ser o completo contrário.
Quando de repente Vossa Magnificência o Reitorpedro, pedra angular dessa instituição superior, imiscui-se no recinto. A docente Catedrástica e os discentes da escolástica meneiam as cabeças carolas para reverenciá-lo, mas antes que se forme uma fila para beijar-lhe o anel, este se põe a fazer um mui efuzivo discurso sobre o espírito universitário. Mas não, eu ainda não morri, estou apenas cochilando, sonhando em mardar-lhes enfiar no cu o diploma.
É mesmo um ambiente muito tradicional e esnobe, sobretudo pouco estimulante intelectualmente, onde bem academicamente, os professores diminuem os estudantes ao máximo, para preservar-lhes intacta a ignorância. E desde o prézinho, eu já estou nisso há quinze anos.
Assim eu levo a vida ou sou levado por ela, auto-enganando-me ao deixar-me enganar pela mesma vida. Só finjo; não choro, não grito. Pode-se rir disto, mas está mesmo acontecendo comigo agora mesmo e assim tem sido por muito tempo; tragicômico, mas super real. É a minha sincera autobiografia de enlouquecer qualquer cristão: não ficção.
Mas sempre se pode ao menos ler um bom livro, voltando para a senzala dentro do transporte público lotado e barulhento que, lento, rapidamente quebra no meio do caminho. Ótimo! Podia ser pior? Podia... “não há mal que de tão mal não possa piorar” é meu versinho “próprio” favorito. Inpirado na descoberta do mal estar na civilização.
Alguns lêem para encontrar respostas, mas como os livros só nos levam a mais perguntas, acabam por se achar perdidos; outros lêem para não ver passar o tempo e nesse passatempo acabam mantendo-se sãos; há ainda aqueles que lêem somente para ter alguma companhia, seja a do livro como objeto de fetiche, das palavras como sinais quase compreensíveis, ou das personagens como amigos imaginários de ocasião, nestes últimos a leitura às vezes permanece, pois eles, com o tempo, passam a reconstruir suas vidas reais com o mesmo material de que se constitui a literatura. Excluído de todo o resto, aqui eu me incluo.
A história de minha vida eu poderia ler em menos de quinze minutos, pois é mesmo só isto; já a de minhas leituras... nelas, realidade e tempo e espaço e existência e substância e matéria e ação e relação e postura e estado e mente e paixão e acontecimento e quantidade e qualidade, são o Tudo e o Nada, possíveis unicamente à imaginação.
Mas a minha mente infeliz mente vai precisar voltar. Em casa, minha mãe deve estar se esfolando viva no laboro doméstico, a cozinhar frustações, lavar nosso torrão, passar a ferro o tempo e remendar esperanças em cárcere privado, em solidariedade aos esforços de meu pai, que também se esgota trabalhando longe de casa acolá, ali e onde dá como pedreiro, ambos os bois eficientes e inconscientes e “deficientes”: sem meta, eles nunca mudam, sendo sempre cegos e surdos de metáfora como eu mesmo não mudo. Improvisamos provisões para um futuro de ilusões quaisquer.
Ao reler isto eu acharei parecer doentias lamúrias, mas são. Olho para dentro de mim e percebo a contradição, contra a subtração de meus próprios sonhos eu deveria estar. O que faço por enquanto é meditar sobre isto. Tornei-me um manso, um antiferrabrás pacato. O lirismo que se vê na decadência da sociedade cabe somente na ficção, mas não é o que se tem visto fora dela. Cada indivíduo capricha para dar o melhor de si para se foder, dá-se a uma espécie de queda. Recebo nas veias densas doses de diário desânimo, e ainda assim ofereço estupidamente o outro braço para que me suguem, drenando até a alma, mas pulsa em mim algo mais precioso do que a fé ou a esperança, um debochado espírito de porco. Sei que só mesmo pela esculhambação é que, se não houvermos de vencer, haveremos ao menos de levar conosco aqueles grandes favoritos da humanidade para as profundezas da mesmíssima bosta. Chego ao fim de mais um ciclo, eterno retorno, se não me repito. No quarto, ainda leio um quarto de hora tentando suicidar o pensamento e sublimar a dor no corpo, suigeneralizar os problemas em problema; dormir sem sono ou sonho para recomeçar tudo de novo no dia seguinte, pois minha vida é um acordar de que não consigo pesadelo. Fantasia extravagante ou espinho lógico, a hipocrisia existe é para ser usada, e eu, como infeliz patife que sou, engano ao próximo como a mim mesmo, fingindo plena a felicidade, entendida como característica esfericidade, simetrificando pensamento e linguagem, vício e virtude, superfície e símbolo, interior mente. Entrego-me ao sono como quem se dá à morte... é, triste, mas é verdadeiro; antes de dormir já sonho ainda com o depois de não acordar, mas não há recordação possível do vazio, ainda menos de além. Como ontem e anteontem será o amanhã; eu só queria o nada novo e não o tudo de novo... E isso é algo que sempre peço em preces antes de adormecer ou depois de terminar de ler um livro, algo que quero tanto, mas tanto, que ao voltar de onde vou sempre quando quase chego lá, mesmo novamente a mesma mente, que o que quis só não terei alcançado por um triz.
Necessária intervenção do autor
Uma história tão ordinária não deveria despertar o interesse de quem quer que fosse. Mas compreendo eu, e o Leitor também compreende, que há muitos jovens vivendo em situação demasiada e assustadoramente semelhante e, não se espante, até pior, neste exato instante; e que estes uns correspondem justamente ao tipo de Leitor médio que se encontra nas salas de aula ou mesmo cabulando aulas, e que acabariam por acompanhar nestas linhas os passos do personagem (herói?) por mera identificação, outros talvez por pura compaixão para com ele ou para comigo. Para um Leitor muito mais ou muito menos exigente, bastariam mais umas quantas linhas para que nos abandonasse para sempre; mas torço para que o Leitor que agora me tem diante dos olhos, como o personagem e eu mesmo, venha buscando ultimamente (ou desde quando?) algum livro que acabe conduzindo-Te a quaisquer conclusões realmente inquietantes, na expectativa de conseguir um autêntico prazer artificial, um deslumbrante passatempo estético ou, quem sabe, um pequeno vício. São chegados os seus quinze minutos de fama, quem sabe o Teu quarto de hora esclarecedor. Só que acompanhar esta narrativa buscando minuciosamente alguma pequena alteração naquela monótona rotina representaria certamente uma atividade por demais desgastante, que sem dúvida acabaria por aborrecer nosso Leitor. Sendo assim, para que nos poupemos da dura realidade da vida, e aproveitando que o Leitor, pelo olhar, já demonstra renovado interesse, entremos logo no campo da literatura; de minha parte, na cômoda posição de autor (onisciente, onipresente, onipotente), permito-me ousar ao brincar de dEUS com o destino de minha criatura, concedendo-lhe nessa aventura alegórica e grotesca algum dom, ou amputando-lhe algo que julgar necessário, para que nós, eu, Tu e ele, tenhamos algum entretenimento nas próximas páginas. Se és Leitor de primeira viagem ou viajante de primeira leitura, creias no poder da minha palavra: ele não é santo; mas se não és, igualmente olhe e passe indo comigo, dessas letras usufruindo.
19 de julho de 2008
Cadeia Alimentar
um de nós que nos sabemos vermelhas formigas,
que ouvimos com antenas o som do fim e é rouco,
abduzidos pelas compridas lúbricas línguas antigas,
desse deus tamanduá pátria-família vulgo o mouco,
e sonhamos no veneno de colonizar outras barrigas.
17 de julho de 2008
VISTA
Englobam à noite às vezes
E não caibo em pensamento
Entre quaisquer duas estrelas
Mas mais sem cabimento
Se quer seria não vê-las
Vejo Jove
A mira é cega
Tempo faz que não chove
Canta a dor que o trove
A deus e ao dia renega
Ébrio planeta mega
Com templo que não abarco
E é não amar ou há barco
A nave que me navega
Em branco que visto vim de siso
Esgarce ao tudo que viso oculto
No turno quer e paro vejo um vulto
Isto me investe de fausto e disfarce
Ressarce meu prejuízo no que exulto
Guia d’oeste lar senti nela catarse
Olho ao redor
Vendo o quadro sem moldura
Dossel que de onde estava eu via
Adquiro o céu que me transfigura
E aquilo que não sei eu sei de cor
Qual um véu que a visão fulgura
Deve haver o eclipse de um meio-dia
Pois no escuro ou se vê melhor
Ou é noite de lua vazia
11 de julho de 2008
8 de julho de 2008
Fosfenas
30 de junho de 2008
Cabaretc.

Sejam bem-vindos ao show de horrores
Pois o tentáculo deve sempre continuar
O circo é a cidade, senhoras e senhores
Um grand guignol na minha cabeça
A casa dos monstros é a de espelhos
Qualquer sangue frio que me aqueça
A segurança de dispensar conselhos
Sei porque persigo à mulher barbada
Porque eu também gosto de parecer homem
Penetro em sua montanha encantada
Meus medos mais meus escrúpulos somem
Desagasalhado de emoções
Num parque de diversões do meu interior
Reiniciado o horror, o horror
Aposte todas as fichas no assassino
A sorte foi o primeiro jogo de azar
Fellinis e fellinianos artistas
O mágico às siamesas serra
Meus dois olhos trapezistas
O maior espetáculo que erra
A montanha russa roleta do cassino
A nossa banca é viciada em ganhar
Esse corte de cabelo tão ruim
Despenteado pela experiência do brinquedo
Que tiro ao calvo fez de mim
Agora giram doze cavalinhos no meu pulso
O ser mais exótico tatuado de variedades
A atração principal é fugir ou ser expulso
Vaudeville põe em revista minhas verdades
Há ao menos uns mil inconvenientes
Em se chamar atenção sem consciência
Esses ingressos são impostos urgentes
Por isso agradecemos pela preferência
Pago micos em toda sorte de realejos
Acaba a festa junina, da uva ou quermesse
Bebo blues embotecados de azulejos
Antes que eu ou a festa em mim recomece
17 de junho de 2008
Livros de Cabeceira
.jpg)


