Vim a seguir o vácuo dentro dos exteriores das outras cabeças, múltiplas e, no entanto, as mesmas; e por que não dizer... a mesma? A minha? Uma das minhas, na verdade não importa; o mais foda é tudo aquilo que não são miolos, apesar de eu pensar nisso assim tudo feio e cinzento, com sangue dentro, a se espatifar nas duras paredes do crânio. Para não mencionar o meu coração e todas as sensações que ele traz consigo... eu quero dizer, é nojento de verdade; você imagina essa coisa estranha marcando o tempo no peito das pessoas andando por aí, falando umas com as outras, trepando umas com as outras? É das coisas mais bizarras sobre a terra. O que logo me leva a me indagar sobre o sexo; os genitais, aliás; uns troços asquerosos dependurados, variando muito de um para o outro: caralhos, xoxotas, tetas e cus, estes que são apenas parte da turma, hoje em dia cada vez maior; e se os corpos todos, com o que oferecem, não são o bastante, você sai e facinho compra um acessório de plástico e tem sua satisfação. Tudo isso é de enlouquecer! Acho bem divertido, mas parar para pensar nisso dá um nó na minha percepção. Já não sei como meu pau fica duro quando é minha cara que enfoca uma bunda, como ponho o pau nessa bunda e meu coração parece que vai ejacular um enfarte, como gozo gostoso cada palpitação do peito sentindo-as pulsar na cabeça, sentindo como se aquela bunda ali sentasse na minha cara, sentindo o pensamento da cabeça e até o cérebro pensando ao ser pensado.
Aí, quando você acha que está pensando demais, vai lá e toma uma bebidinha, acende um cigarrinho, cheira uma carreirinha... Porra! Eu não agüento. Encomendo uma lobotomia ou coisa do tipo? Não, é claro que não. Liga o som, filho da puta! Aumenta o volume, aí... mais um pouquinho, ou um poucão. Agora vai e tira os móveis do lugar e quebra tudo. Ahhhhh! Para com isso de uma vez: STOP... aperta lá. Liga a televisão e senta o rabo no lugar, são mil canais de diversão imbecil, nada mais de acordo. E se não tem nada acontecendo naquele caixão colorido, você vai ver o jogo do seu time e quem sabe acaba matando alguém. Melhor ir ao cinema ou ao teatro ou outro lugar para se masturbar em paz. Lá é possível encontrar aquele amigo seu que joga xadrez melhor do que você, e ele te convida para o apê dele ou se convida para o teu. “Foda-se”, você pensa, mas diz “ficaprapróxima”. E sai para ver as pessoas burras na rua para ver se te inspiram a não ter idéias. Merda, merda, merda... Adentra o fliperama com a morte na alma e quase batem em você por bater tanto na máquina desgraçada que te engole a ficha que custou um nada; mas aquele era o seu Nada, certo? Errado de novo, sempre. Herrar é umano. Nem sempre se pode ter tudo, mas nunca se pode ter o Nada; nem o lixo é mais nosso depois que você joga fora, e olha que não falo daqueles cacarecos que você separa para a reciclagem, vale pra qualquer papel higiênico cagado, cara... nem isso você vai levar consigo depois de morto, nem grana, nem glória, nem amor, nem memória. Então por que eu não paro de acumular a vida nos bolsos, nas estantes, no disco rígido?
Não tem escapatória, como é que se vai dizer para alguém: não pense em um elefante verde com bolinhas cor-de-rosa? Se o fulano já está de cabeça cheia, vai querer que você se foda, antes de deixar que a cabeça exploda. Sem chance para mim. A Revolução foi um delírio literário, a vida extraterrestre é inteligente demais para nos visitar e o Bumerangue Jesus não voltará. O melhor numa hora assim é entrar numa biblioteca, olhar para toda aquela infinita loucura acumulada pelos séculos dos séculos, pedir um livro de auto-ajuda só de masoquismo e te recomendarem a Sagrada da puta Bíblia, aí você escolhe qualquer gibi do Pato Donald e vai fazer regressão forçada sozinho à luz de velas de maconha no teu quarto. Passa antes no fast food da esquina e, monossilábico, pede a sua ração pelo número, paga com seu último dinheirinho amassado e volta a pé para casa, com indigestão. “Tomara que chova”, você ainda pensa. O azar, cheguei a essa conclusão, é a experiência mais pessoal e intransferível que há, mas você pode ter a sorte de não se dar conta dele. E eu penso excessivamente demais (SIC), você diz. Pensa, é? Olha: Tome Noku! E sem gelo é melhor. Ora essa... Chegando em casa eu tomo um banhinho quente e tomo um chazinho quente para esfriar a cabeça, jogo a revistinha no lixo, pego uma cordinha do varal e faço um nozinho corrediço, levando para a alcova, para ver se com ela, no final, eu consigo amarrar essa minha história. Chegando lá, que é bem aqui, dou (acabei de dar) um duplo clique no ícone "Palavra", e pensava: não pensa ESCrevê!
noites especiais nunca e sempre diferentes e iguais
sono minha prole da noite sono meu gêmeo da morte estado ordinário de consciência complementar ao estar desperto sonho minha dor de açoite sonho meu golpe de sorte país imaginário da ambivalência nuclear entre o oásis e o deserto
noites recorrentes sempre e nunca iguais e diferentes
morri em sonhos tantas as vezes quantas me acordei
Confesso: eu já fui um entusiasta do heavy metal. Embora nunca tenha me considerado exatamente um “metaleiro”, preciso dizer que já fui um headbanger, purista do chamado rock pauleira, como ainda se dizia no fim do século passado; gostava de música rápida e pesada, barulhenta e agressiva. Ia mesmo para o “bate-cabeça”, e assim caminhava a adolescência.
Com a mesma empolgação, eu era capaz de pular e me descabelar ao som ora de Metallica, Sepultura, Iron Maiden, Dream Theater, Slayer, Pantera e congêneres; ora de Ramones, Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks, The Jam, Dead Kennedys e companhia. Mas em algum momento passei a pender mais para os últimos e seus derivados, punks em geral, proto-punks, post-punks, hardcores, grunges, britpops e “alternatives”. Tudo isso sem deixar de lado os clássicos, Chuck Berry, Little Richards, Beatles, Stones, Doors, Hendrix, The Who, Black Sabbath,Led Zeppelin e afins... Bem, em se tratando de rock, eu gostava de coisas variadas. Depois fui abrindo mais o leque para reggae, blues, folk, soul, funk e jazz; e daí a bossa nova, o samba, o choro, o forró, o maracatu; também de tango e fado, hoje gosto até de música eletrônica, música caipira e música erudita. Ok... gosto de quase todos os estilos, mas o negócio era que, embora nunca tenha chegado a me desvincular completamente do estilo, o fato é que mandei o coitado do metal para o fim da lista.
Sem pretender negar que de fato reneguei por muito tempo ao heavy metal em geral, por motivos até mesmo idiotas, é preciso dizer que o estilo de fato está datado hoje em dia, meio sem saída ao não conseguir se renovar ou sequer repetir seus melhores desempenhos. Isso para mim vinha se traduzindo em um completo enjôo por ter de ouvir nova e repetidamente sempre à mesma mera ínfima dúzia boa de coisas velhas que conseguiram resistir ao tempo. Estou falando de um tipo de música que padece de não contar com boas gravações desde 1994, quando já há alguns anos dava sinais de franca decadência.
O motivo de eu estar escrevendo este emblemático texto é o seguinte: Death Magnetic, o novo album do Metallica. Trata-se de um banda que já foi a minha preferida dentre as mais pesadas; um ícone do thrash metal, para ser mais preciso, o que quer dizer que eles não dispensam influências punk via hardcore, no que também justifico minha predileção. Lançaram este mês este seu nono album de estúdio, o melhor desde o homônimo Metallica de 1991, ou mesmo desde ...And Justice For All, de 1988. Dada a qualidade inquestionável dos seus primeiros trabalhos gravados desde 1981, o Metallica sempre causava uma espectativa imensa em todos aqueles que, como eu, adorariam fazer as pazes com o estilo; mas o que vinha acontecendo é justamente o contrário, uma nova frustração a cada novo lançamento. Eu, particularmente, ao ouvir os últimos albuns, ficava sempre a me sentir como o Charlie Brown, caído por terra a ver o céu girar, tendo meu chute passado batido pela bola de football que, malignamente, era sacada fora por Lucy no último instante. O mesmo não se pode dizer desse Death Magnetic. Fiz o download e gravei em CD, aí programei um volume alto o suficiente para não ouvir ninguém reclamar do volume.
O album é puro Metallica, o mais old school possível, back to the basics. Todas as dez faixas são extravagâncias com duração entre cinco e dez minutos, ilimitadas variações de acordes e mudanças de tempo, com centenas de musculosos riffs em staccato, longos e super rápidos solos de guitarra com muita distorção, contrabaixo funqueado e percussivo, bateria octópode ora ignorante ora precisa, letras soturnas e boa dicção nos vocais graves gritados a la Godzilla. A escala é imensa, o nível de detalhes absurdo. Há muito peso e velocidade aqui, e na maior parte desses mini-épicos eu tive aquela impressão maluca de estar numa montanha russa no escuro; os refrões e melodias insanos não me saem da cabeça, ainda atordoada; ouço diariamente e me sinto ótimo com esta sensação estranhamente familiar, de novo completamente conectado com meu adolescente interior.
eu me abismo ao refazer-te caber dentro de mim,que ato contínuo me embala e em mim se contém. já não sei deslembrar; qualqueria-nos por torperto. homem almar, parado oxido a caixa ao redor do gato; eu me contradoeço e te procuro; breve mais, em logo, água-arde; monolíptico-tico no kung fu baía de todos; tango amarelo com negro pestanejar, objeto tigrado, o x é o coração do problema de servos versus servos; e saído do azul, ressuscitarei mais forte para dentro da miragem de ramada dos teus olhares ex-feéricos.
É fato que a humanidade gasta milhões de dólares para descobrir novos métodos de se matar. Vi uma frase que exemplifica bem isso: “Para matar uma formiga, uma simples pisada basta. Mas as vezes é mais garantido matá-la com uma britadeira-pneumática... além de ser mais legal”.
Seguindo essa máxima, os cientistas pretendem testar hoje, às 2h30 da manhã (no horário de Brasília, ou seja, daqui a cinco minutos) a maior máquina já construída pelo homem, para realizar a maior experiência já feita na história, o Large Hadron Collider (LHC). Agora o caro leitor e a querida leitora me perguntam: Mas o que diabos é um “Large Hadron Collider”? Resposta: É o maior acelerador de partículas subatômicas já feito, ou seja, a maior Arma de Destruição em Massa do mundo.
Essa geringonça, um túnel circular de 27km de circunferência enterrado a 100 metros de profundidade entre a França e Suíça, será usada por cientistas de mais de 50 países (incluindo o nosso) para, literalmente, brincar de trombar essas partículas a velocidades inacreditáveis. Tudo levou 14 anos para ser construído, ao custo de mais de 8 bilhões de dólares; o objetivo da ambiciosa empreitada é reproduzir em cativeiro o assim chamado Big Bang, ocorrido a 13,7 bilhões de anos, para, entre outras coisas, provar que ele ocorreu. A força que resultará da “trombada” será inacreditavelmente grande, cerca de 14 TeV. Eu não sei exemplificar quanto vale 14 TeV, mas, considerando que tem gente se borrando com medo de dar alguma merda, a quantidade de energia deve ser absurdamente ignorante. Tanto é verdade, que há uma pequenina probabilidade de, quando eles ligarem o LHC e o túnel de bate-bate de partículas subatômicas funcionar, os cientistas criarem um buraco negro que engoliria a Suiça, a Europa, o planeta Terra e por fim o universo.
Mas essa é uma probabilidade pequena. Nota mental: Rezar para que Murphy esteja de férias… em outra dimensão. Neste momento, se Deus existe, deve estar meio paranóico conosco, com o cu na mão mesmo diante da possibilidade de um ataque terrorista dessa proporção; em analogia com o 11 de setembro, podemos ser passageiros da espaçonave Terra-01, tripulada por 6721 bilhões de homens-bomba.
Lendo sobre o assunto, pude encontar algumas teorias catastrofistas tão impressionantes que vale a pena colocar aqui: Vamos imaginar que o LHC dê errado. Quais serão as conseqüências?
Buraco negro: Expliquei anteriormente. Sugaria tudo o que encontrasse pela frente, ficando cada vez maior e sugando cada vez mais coisas, cada vez mais rápido. Ou seja. Um liquidificador do mau.
Iniciar uma transição para um diferente estado de vácuo quântico - Esse vou explicar com a seguinte analogia: Imagine uma bolha de sabão no vácuo e que dentro dessa bolha de sabão está esse nosso cantinho do Universo e que essa coisa absurda esteja em equilíbrio estável. Agora, imagine uma agulha gigante estourando a bolha. LHC = Agulha Gigante.
Produção de uma Fenda Interdimensional - Essa fenda poderia trazer criaturas de outras dimensões para a nossa. Isso pode não ser inteiramente ruim, pois 0,0032% das criaturas interdimensionais são boazinhas. Portanto podemos ter essa sorte e não acabar sendo destruidos por uma raça interdimensional!
Dores de cabeça: É provável que você sinta dores de cabeça, mas, lendo os 3 itens acima, esse será o menor dos seus problemas….
Se aqui no Brasil chegarmos a ver nascer o Sol neste dia 10/09/08 (sugestivamente, a data já parece contagem regressiva), não fiquem tranqüilos ainda, pois este terá sido só o primeiro dos cinco testes que serão realizados até o próximo dia 21, cada um deles liberando mais energia do que o anterior. Como falta pouco tempo para o evento começar, vou tomar de uma gole minha taça de vinho e, ato contínuo, ir para a cama onde minha mulher dorme agora sem saber que morreremos fodidos, porém fodendo. Recomendo que nos próximos dias todos se abstenham de tudo o que não interessa, o que poderia continuar valendo mesmo se nada de pior nos acometer.
Agora, pergunte: Não pode ser tão perigoso assim, pode? Resposta: Sim e não. Não, porque os cientistas garantiram que a probabilidade é tão pequena que vale a pena tentar. E sim… exatamente porque os cientistas garantiram que a probabilidade é tão pequena que vale a pena tentar. Se há um inferno, encontro vocês lá!
Dado esta porra de feriado nacional, por redobrado infortúnio, em pleno domingo (embora eu há muito tempo não faça nada, dia algum da semana, não faço-o muito bem), trago a público um ensaio fotográfico que fiz no mês passado, quando estive em Brasília. Enquanto cliclava todas aquelas famosas obras arquitetônicas e esculturais modernas, em meio à vastidão do Planalto Central, tomei conhecimento dessa que, desde então, tornou-se a minha obra de arte predileta dentre as de Niemeyer (não porque é a única da capital que efetivamente sirva para alguma coisa), mas pelo inusitado de se ter erguido morada para uma tão insalubre vizinhança, quando todas as demais obras ao redor são ironicamente pintadas de branco. Foi uma cagada, mas linda.
Goethe disse que "Arquitetura é música petrificada"; e eu diria mesmo que esta aqui dava pelo menos algo como um sambinha exaltação a la Pink Floyd.
Vocês podem me chamar de cabeçudo,
que de cabeça sei o meu conteúdo.
Ordeno ao corpo que co-meça estrutura,
o mapa da rima, minha literatura.
O meu pescoço é um tipo de atlas.
Entre meus ombros, hálma-bomba e,
perpendicular, sob cada um deles:
de um lado, a ajuda humanitária;
e de outro, a guerra de conquista.
Nada na mão & tudo na contramão.
No abdômen: crisálida de realidades.
No sexo: o sem tempo, o não lugar.
Pernas coxas de mancadas, de roda,
desce atingirem caneladas e de estar
cada pé num universo ou uniprosa:
dois no chão, dois na minha sombra.
Ainda me livro de ser hospedeiro,
que no meu corpo soul passageiro.
Meu passado nunca será decrépito,
pois meu futuro sempre foi inédito.
Eu e minha família fomos visitar a casa. Logo à entrada, um capacho servilmente deitado comunicava sermos bem-vindos. A porta, o cheiro reluzente da porta cara de pau, inspirava em nós a idéia de que basta um verniz para ser feliz. O aviso acima da porta, que até no inferno se prega do lado de fora, só se via depois de já termos entrado, dizia “Eu Te Diria Que Não Olhes Para Trás Se Não Fosse Tarde Demais”. O diabo era de couro e trazia em si as areias do tempo, sua única utilidade era impedir o vento frio entrar por baixo da porta. O espelho grande na entrada simbolizava uma carranca. A passadeira escorregadia conduzia-nos deslizando à sala principal, passando pelo pórtico com franjas, um arco-íris de plástico perpendicular aos tacos velhos pendendo do batente superior. Miríade de fotos na miscelânea misencenada. O salão emanava cheiro de cachimbo, desde o pé direito, alto e sinistro. O lustre de cristal, com forma de guarda-chuva, balançava um pouco. Podia-se dizer que os quadros em branco formavam um conjunto harmônico com as paredes pintadas com as cores e pinceladas mais variadas. Os móveis não eram amáveis, iam de um a outro canto arrastando-se pesados e barulhentos, operação que só pelo ruído se percebia, após um relance de olhos, dada sua agilidade de freqüentadores habituados ao ambiente. Sobre uma poltrona de alto espaldar, em veludo verde, que se deixava sentar um tanto a contragosto, um urso de pelúcia das proporções de um anão humano, sorria malicioso com um meio olhar de animal selvagem, faltava um olho; na intersecção do braço com seu antebraço sem dedos via-se uma seringa pendurada. A faxineira estava de folga, e nesses dias a música não era popular ali, mas clássica, e estava desligada. Por sob o aparelho de som viam-se discos de capas bem conservadas, obras desconhecidas impressas em idiomas alheios ao nosso conhecimento. Tudo realçava a fuga, também o solo e o contraponto, introduzindo-nos mais na coda que tocava no pó de cada canto e, mesmo no mancebo sobretudo, bolsos da imaginação. Tudo o que se ouvia era como que um burburinho dos ácaros, das aranhas e dos cupins. O tapete central e a mesa de centro a meio metro do chão, eletrificavam o vazio daqui, e desde o lugar de tudo o emaranhado por um fio da queda. Cada alto e baixo relevo de tomadas e interruptores estudando as quadraturas dos círculos de mofo no teto úmido unido ao ar que sustentava a estrutura. A lareira de tijolos à vista, apagada, tinha no preto de dentro do vão não carvão, mas vestígios das leituras da noite anterior. Aliás, a estante de livros, imensa, estava interditada por paus e pregos, um grande “x” amarelo marcando a inacessibilidade da leitura, aguçando a curiosidade. Não tinha janelas; a sacada era um depósito de ar respirável, guardado do lado de fora. Nas duas dimensões dos outros três acessos podia-se ler escrito “Eu Sou A Porta”. Sem nos decidirmos por qual escolher, querendo ir ao banheiro, talvez não por coincidência na primeira tentativa o tenhamos encontrado. A peça era morna demais para o que se costuma esperar de um ambiente assim, a não ser pela falta de janela, aparentemente branco e regular, o que não se podia dizer após um exame mais detalhado. Estava limpo, e, no entanto, fedia; um cheiro, não, um aroma de cozinha, talvez do cômodo ao lado. Fato é que os três tapetinhos, da pia e do vaso e do box, eram sobrenaturalmente iguais, a não ser por demonstrarem, por alguns indícios peculiares, estarem fora do lugar: o tapete do vaso sujo de cabelos e gel, o tapete da pia estava sujo de espuma e xampu, o do box estava sujo de urina e fezes. As toalhas eram aderentes, de um tipo de velcro que lembrava papel-pega-moscas. O cesto de lixo estava cheio de utensílios que se esperava encontrar fora dele, pentes, frascos, pinças, sachês, água sanitária, escovas de dente. E o lixo não poderia deixar de estar no armário do espelho. A constatação levava mesmo a perder a vontade daquilo que nos havia levado a entrar. Saindo, procuramos a porta ao lado, com apetite. Na cozinha, o relógio de parede, sem o ponteiro maior, estava à primeira vista parado, mas por vezes marcava um instante distinto a cada exame, dando mesmo a impressão de que tendia a ser anti-horário. Azulejada até o teto, alguns de seus quadrados aleatoriamente estavam gravados com naturezas mortas, efetivamente ainda sangrando. Cheirava à feijoada, ou melhor, cheirava à feijoada humanamente já ingerida e processada, talvez por proximidade e influência do banheiro. Aqui o piso era alternadamente preto e branco, em sessenta e quatro lajotas que entabulavam um fricção constante rangendo sua batalha sem rejunte, sob peças de carne crua com sal grosso de cristais que refletiam fatias de iodo pelo ambiente, lajotas sobre o sal da terra foz de escondidos, talvez ossadas. Os armários, de pequeninas portas singelas onde eram guardados os talheres de prata e outros utensílios de madeira; de grandes gavetas onde se guardavam as panelas de ferro e as vasilhas de plástico. O fogão enferrujado parecia uma escultura moderna de animal fantástico, com a panóplia das quatro monstruosas bocas a cuspir um fogo mitológico. A fruteira trazia espécies exóticas que se poderiam chamar de inacreditáveis, dadas as formas improváveis a esconder seus sabores misteriosos, improváveis, dando ao paladar o asco de grandes insetos coloridos. Abrindo a geladeira, pratos e copos, embaçados de gelo e branco; abrindo a despensa, descobria-se onde dormia o gato, com seus apetrechos de comer e defecar e dormir. O felino, uma vez descoberto, ronronou baixinho o que parecia uma melodia de um samba antigo, dando à luz sucessivamente uma ninhada de sete gatinhos e um ornitorrinco, recostando-se em seguida para morrer. Cozinhamos os bichos e fizemos festa. Sobre a pia, de um mármore tumular, sobraram convencionalmente os despojos do banquete a que nos entregáramos amiúde por todo o restante do dia. Perdendo a noção dos instantes e mesmo nossa localização à deriva na estranha moradia através da cidade que todos achávamos conhecer como à palma de nossas mãos, ao limite do tédio. Cansados, quisemos nos deitar, no que nos dirigimos ao quarto. A última porta, no entanto, além da óbvia cama que esperávamos encontrar, revelou-nos uma escada ascendente; fato estranho por completo, dado que desde fora não se prenunciava um andar superior; provavelmente tratar-se-ia de uma laje na metade dos fundos, insuspeita por trás do telhado que se via do lado de fora desde a frente; a mesma escada também descia, levando-nos à adega, o cômodo mais limpo da casa como já esperávamos, por alta casuística. Lá não encontramos sequer um vinho de cor conhecida, o que não nos impediu de nos entregarmos ainda a uma bebedeira. Enchemos os cinzeiros de assuntos e tragamos música de inspiração duvidosa; Dormimos todos juntos, mesmo vestidos, exaustos do inusitado. Tendo acordado nus, muito depois, já não estranhamos não termos recordação da orgia, ainda menos do vício. E apesar de não sabermos que horas eram, buscamos o sol, subindo a escada. Inesperadamente, vimo-nos lançados à verdade de um dia claro; e a descoberta tardia de que sempre moramos nessa derradeira casa, não como visitantes ou hóspedes, mas como construtores e proprietários, calou em nós um misto de surpresa e certeza. Não maior do que a visão que finalmente se nos afigurou, a daquele segundo sol rubro, já se pondo no céu, adiantado ao outro, segundo o qual já deveria ser mais tarde, o que a lua que se podia ver do outro lado não desmentia. Noite dentro da qual estaríamos protegidos melhor do que nunca em nosso lar.
Éramos quatro aqui em nossa casa já um quarto vazia
Al is no more e fomos amputados de um braço ao saber
Achei que a trupe chegada aqui enfim ao fim chegaria
Aos infernos quisemos descer só querendo deixar de ser
Estamos incompletos já que o nosso velho alfa se redesfez
O nosso conjunto neste mundo com o outro fez interseção
Desde os planos que tínhamos um novo ômega se desrefez
Que sei lá se de lá ele nos vê mas sei que daqui vemos não
Essa cachorrada transformou em alcatéia esta nossa matilha
Pensei no ato pedir socorro ou fugir e cogitei mato ou morro
Assim mesmo continuo pois minha rima é arrima de família
E afinal até um cachorro de três pernas ainda é um cachorro
Canção non sense som não Com pus pra mim tocá no festival Criptoforró do palavreado chão Choro re-original que rege a nau Lógicantropo da peste, pô Porreta, pau e gozo na mesa Sambarroco estridentado Um porno-axé pra você cantá De roda, viva a roda, atua Só se for... for funk, sifú Sivuca se cumbuca na mão Beetho vem de segunda à sexta A fina e sampleada emepêbesta Perto dos olhos, lounge daqui Hermeto-lhe um tiro no tóba O ambiente ruído progressivo Mumú dança até sangrar os pés Moda e andamento mutantes Pelétrica diz “torce” gritarra O surdo que houve e se olvida Toca o puteiro que é carnaval Ensaia rodada a puta que te quadril Contrabaixista tropical trouxe o pau Sem dóla num dô não, ene-a-ó-til O hino o jingle yells da terra natal Uma brasa moura mora no Brasil Cabocla-a-bloca o sucesso nacional Letra é crônica, aguda, grave isso Certo nojo ser ou não sertanejo Show no estádio, play no rádio Tocado ao vivo desentoca o morto Vi o Lino violão vi o lado na platéia Concurssionada percussão cada Coreto de pirraça d’acorde cachaça Se tocá no gueto, na toca tosca, é raiz Setor cá na touca do eixo tocará no país Eletrônica entroniza sanfônica Jovem guarde o pó e regue o solo Maresia e marulho e marchinha Polca vergonha o swing pé-de-salsa Emo sobe e emudece a gafe gafieira Música cúbica rubrica mó zica Um som de unção é só, uns são dó Qu’eu sol dô si mi ré lá no solfá Love, love, love e blá, blá, blá Para entendidos não pára o jabá A cus tico lá tico cága bossa de fubá