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14 de outubro de 2008

Deus dá um Soneto (Oração sem sujeito)

Ignoro se alguém

que conheci é são.

Jamais ouvi quem

falasse com razão.


Crédulos mantêm

fé em ressurreição.

Cristo que fez bem

e nunca foi cristão.


Tão loucos crêem

a esperar salvação.

A vida é no além?


Eu penso que não!

Nunca falo amém

no final da oração.

10 de outubro de 2008

Pensata

Vim a seguir o vácuo dentro dos exteriores das outras cabeças, múltiplas e, no entanto, as mesmas; e por que não dizer... a mesma? A minha? Uma das minhas, na verdade não importa; o mais foda é tudo aquilo que não são miolos, apesar de eu pensar nisso assim tudo feio e cinzento, com sangue dentro, a se espatifar nas duras paredes do crânio. Para não mencionar o meu coração e todas as sensações que ele traz consigo... eu quero dizer, é nojento de verdade; você imagina essa coisa estranha marcando o tempo no peito das pessoas andando por aí, falando umas com as outras, trepando umas com as outras? É das coisas mais bizarras sobre a terra. O que logo me leva a me indagar sobre o sexo; os genitais, aliás; uns troços asquerosos dependurados, variando muito de um para o outro: caralhos, xoxotas, tetas e cus, estes que são apenas parte da turma, hoje em dia cada vez maior; e se os corpos todos, com o que oferecem, não são o bastante, você sai e facinho compra um acessório de plástico e tem sua satisfação. Tudo isso é de enlouquecer! Acho bem divertido, mas parar para pensar nisso dá um nó na minha percepção. Já não sei como meu pau fica duro quando é minha cara que enfoca uma bunda, como ponho o pau nessa bunda e meu coração parece que vai ejacular um enfarte, como gozo gostoso cada palpitação do peito sentindo-as pulsar na cabeça, sentindo como se aquela bunda ali sentasse na minha cara, sentindo o pensamento da cabeça e até o cérebro pensando ao ser pensado.

Aí, quando você acha que está pensando demais, vai lá e toma uma bebidinha, acende um cigarrinho, cheira uma carreirinha... Porra! Eu não agüento. Encomendo uma lobotomia ou coisa do tipo? Não, é claro que não. Liga o som, filho da puta! Aumenta o volume, aí... mais um pouquinho, ou um poucão. Agora vai e tira os móveis do lugar e quebra tudo. Ahhhhh! Para com isso de uma vez: STOP... aperta lá. Liga a televisão e senta o rabo no lugar, são mil canais de diversão imbecil, nada mais de acordo. E se não tem nada acontecendo naquele caixão colorido, você vai ver o jogo do seu time e quem sabe acaba matando alguém. Melhor ir ao cinema ou ao teatro ou outro lugar para se masturbar em paz. Lá é possível encontrar aquele amigo seu que joga xadrez melhor do que você, e ele te convida para o apê dele ou se convida para o teu. “Foda-se”, você pensa, mas diz “ficaprapróxima”. E sai para ver as pessoas burras na rua para ver se te inspiram a não ter idéias. Merda, merda, merda... Adentra o fliperama com a morte na alma e quase batem em você por bater tanto na máquina desgraçada que te engole a ficha que custou um nada; mas aquele era o seu Nada, certo? Errado de novo, sempre. Herrar é umano. Nem sempre se pode ter tudo, mas nunca se pode ter o Nada; nem o lixo é mais nosso depois que você joga fora, e olha que não falo daqueles cacarecos que você separa para a reciclagem, vale pra qualquer papel higiênico cagado, cara... nem isso você vai levar consigo depois de morto, nem grana, nem glória, nem amor, nem memória. Então por que eu não paro de acumular a vida nos bolsos, nas estantes, no disco rígido?

Não tem escapatória, como é que se vai dizer para alguém: não pense em um elefante verde com bolinhas cor-de-rosa? Se o fulano já está de cabeça cheia, vai querer que você se foda, antes de deixar que a cabeça exploda. Sem chance para mim. A Revolução foi um delírio literário, a vida extraterrestre é inteligente demais para nos visitar e o Bumerangue Jesus não voltará. O melhor numa hora assim é entrar numa biblioteca, olhar para toda aquela infinita loucura acumulada pelos séculos dos séculos, pedir um livro de auto-ajuda só de masoquismo e te recomendarem a Sagrada da puta Bíblia, aí você escolhe qualquer gibi do Pato Donald e vai fazer regressão forçada sozinho à luz de velas de maconha no teu quarto. Passa antes no fast food da esquina e, monossilábico, pede a sua ração pelo número, paga com seu último dinheirinho amassado e volta a pé para casa, com indigestão. “Tomara que chova”, você ainda pensa. O azar, cheguei a essa conclusão, é a experiência mais pessoal e intransferível que há, mas você pode ter a sorte de não se dar conta dele. E eu penso excessivamente demais (SIC), você diz. Pensa, é? Olha: Tome Noku! E sem gelo é melhor. Ora essa... Chegando em casa eu tomo um banhinho quente e tomo um chazinho quente para esfriar a cabeça, jogo a revistinha no lixo, pego uma cordinha do varal e faço um nozinho corrediço, levando para a alcova, para ver se com ela, no final, eu consigo amarrar essa minha história. Chegando lá, que é bem aqui, dou (acabei de dar) um duplo clique no ícone "Palavra", e pensava: não pensa ESCrevê!

7 de outubro de 2008

oneironauta

dormi
sem sonos
tais siameses
quais após lembrei

noites especiais
nunca e sempre
diferentes e iguais

sono minha prole da noite
sono meu gêmeo da morte
estado ordinário de consciência
complementar ao estar desperto
sonho minha dor de açoite
sonho meu golpe de sorte
país imaginário da ambivalência
nuclear entre o oásis e o deserto

noites recorrentes
sempre e nunca
iguais e diferentes

morri
em sonhos
tantas as vezes
quantas me acordei

30 de setembro de 2008

I was a teenage headbanger

Confesso: eu já fui um entusiasta do heavy metal. Embora nunca tenha me considerado exatamente um “metaleiro”, preciso dizer que já fui um headbanger, purista do chamado rock pauleira, como ainda se dizia no fim do século passado; gostava de música rápida e pesada, barulhenta e agressiva. Ia mesmo para o “bate-cabeça”, e assim caminhava a adolescência.

Com a mesma empolgação, eu era capaz de pular e me descabelar ao som ora de Metallica, Sepultura, Iron Maiden, Dream Theater, Slayer, Pantera e congêneres; ora de Ramones, Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks, The Jam, Dead Kennedys e companhia. Mas em algum momento passei a pender mais para os últimos e seus derivados, punks em geral, proto-punks, post-punks, hardcores, grunges, britpops e “alternatives”. Tudo isso sem deixar de lado os clássicos, Chuck Berry, Little Richards, Beatles, Stones, Doors, Hendrix, The Who, Black Sabbath, Led Zeppelin e afins... Bem, em se tratando de rock, eu gostava de coisas variadas. Depois fui abrindo mais o leque para reggae, blues, folk, soul, funk e jazz; e daí a bossa nova, o samba, o choro, o forró, o maracatu; também de tango e fado, hoje gosto até de música eletrônica, música caipira e música erudita. Ok... gosto de quase todos os estilos, mas o negócio era que, embora nunca tenha chegado a me desvincular completamente do estilo, o fato é que mandei o coitado do metal para o fim da lista.

Sem pretender negar que de fato reneguei por muito tempo ao heavy metal em geral, por motivos até mesmo idiotas, é preciso dizer que o estilo de fato está datado hoje em dia, meio sem saída ao não conseguir se renovar ou sequer repetir seus melhores desempenhos. Isso para mim vinha se traduzindo em um completo enjôo por ter de ouvir nova e repetidamente sempre à mesma mera ínfima dúzia boa de coisas velhas que conseguiram resistir ao tempo. Estou falando de um tipo de música que padece de não contar com boas gravações desde 1994, quando já há alguns anos dava sinais de franca decadência.

O motivo de eu estar escrevendo este emblemático texto é o seguinte: Death Magnetic, o novo album do Metallica. Trata-se de um banda que já foi a minha preferida dentre as mais pesadas; um ícone do thrash metal, para ser mais preciso, o que quer dizer que eles não dispensam influências punk via hardcore, no que também justifico minha predileção. Lançaram este mês este seu nono album de estúdio, o melhor desde o homônimo Metallica de 1991, ou mesmo desde ...And Justice For All, de 1988. Dada a qualidade inquestionável dos seus primeiros trabalhos gravados desde 1981, o Metallica sempre causava uma espectativa imensa em todos aqueles que, como eu, adorariam fazer as pazes com o estilo; mas o que vinha acontecendo é justamente o contrário, uma nova frustração a cada novo lançamento. Eu, particularmente, ao ouvir os últimos albuns, ficava sempre a me sentir como o Charlie Brown, caído por terra a ver o céu girar, tendo meu chute passado batido pela bola de football que, malignamente, era sacada fora por Lucy no último instante. O mesmo não se pode dizer desse Death Magnetic. Fiz o download e gravei em CD, aí programei um volume alto o suficiente para não ouvir ninguém reclamar do volume.

O album é puro Metallica, o mais old school possível, back to the basics. Todas as dez faixas são extravagâncias com duração entre cinco e dez minutos, ilimitadas variações de acordes e mudanças de tempo, com centenas de musculosos riffs em staccato, longos e super rápidos solos de guitarra com muita distorção, contrabaixo funqueado e percussivo, bateria octópode ora ignorante ora precisa, letras soturnas e boa dicção nos vocais graves gritados a la Godzilla. A escala é imensa, o nível de detalhes absurdo. Há muito peso e velocidade aqui, e na maior parte desses mini-épicos eu tive aquela impressão maluca de estar numa montanha russa no escuro; os refrões e melodias insanos não me saem da cabeça, ainda atordoada; ouço diariamente e me sinto ótimo com esta sensação estranhamente familiar, de novo completamente conectado com meu adolescente interior.

24 de setembro de 2008

Abismonolito

eu me abismo ao refazer-te caber dentro de mim, que ato contínuo me embala e em mim se contém. já não sei deslembrar; qualqueria-nos por torperto. homem almar, parado oxido a caixa ao redor do gato; eu me contradoeço e te procuro; breve mais, em logo, água-arde; monolíptico-tico no kung fu baía de todos; tango amarelo com negro pestanejar, objeto tigrado, o x é o coração do problema de servos versus servos; e saído do azul, ressuscitarei mais forte para dentro da miragem de ramada dos teus olhares ex-feéricos.