









"Trabalho é o refúgio dos que não têm nada para fazer."
"Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas."
Oscar Wilde
Lembro quando mascamos cidreira pela primeira vez. Era tanto sangue, que a gente ria vermelho. Mas a gente ria. Por enquanto, não estou bem certa sobre onde estamos; essa poeira, esse enxofre todo. Uma igreja, ou um puteiro; vai saber. As paredes se fecham sobre nós do mesmo jeito. A barriga congela tantas vezes por minuto que minha saliva está em neve, pelos cantos da boca. Porra, isso aqui é tão escuro que não sei se você chora quando digo essas coisas. Talvez seja melhor. Um quê de sufrágio por baixo dos panos, como as beatas. Você sabe. Ao menos, no breu a gente ilumina aqui dentro, a partir dos ossos. Os ossos... Deskullpe, não notei que pensava outra coisa. Não tem eco aqui ou não saiu palavra da minha boca? Às vezes isso acontece, não sei se disse, se pensei. Se lembrei ou sonhei. Você sabe. Queria inventar um advento tecnológico que funcionasse como um biógrafo-full-time. Um cacete microscópico qualquer grudado na pele, registrando tudo; tudo mesmo. Tem cidreira no meu bolso. Mas depois a gente sai daqui. Mascaremos tudo. De sidra às maçãs cidreiras das faces que nos são caras, escarlates por sob ou sobre nossas máscaras de escaras; de trevo às trevas que não sabemos se nos reserva melhor sorte, pior morte. Estar por dentro da escuridão é saber que no escuro somos todos negros. O que não está dado, não se joga; o que não se vê não se sente. Falei para não sentar porque se o que vejo brilhar aí não for dois rubis periga serem olhos de serpente. Ver de mais perto é provar se é madura ou se malevolente pica. Cobra de mim calar-me e peçonha comigo o mesmo plano oblíquo. Pensemos que sem saber se é cega, há; pois com certeza talvez ela esteja aí. Cego sempre houve, o que não ouve é surdo. Na essência, no âmago de si o osso: tenha tutano! Tenha sangue, mas não sangre. Nesse inferno arDemos por aJudas, e para isso o puteiro ou a igreja serviriam, mas aqui não sabemos; a amarelinha desse veneno é anti-douta, pois é no contrapulo que se decide o pisar ou não, para matar ou morrer. Certo é que a maldita é de não dar pé e não conhece outro brinquedo que não o pique-esconde. Picar a mula nem pensar, não é? Você sabe. Espere... troquemos de pele. Sejamos cobras em nosso ofício, ofídicos em interpretar nosso gênio ruim. Eu não sei você, mas tampouco sei eu. Você sabe? Eu sabia que não. Nós não somos mais do que soul. Comportadas em uníssono como um comum. Um único terror nas duas almas que percorrem o mesmo espinhaço. Uma vós que os espíritos do medo do espírito comungam. Um único arco de dois pilares, ruídos. Mas ouça, são tuas as vozes na minha cabeça. O que você tinha no teu bolso era a memória, o zumbido que falta no olvido não é pela pouca profundidade apesar da distância, mas o futuro lá fora, o que ficou atrás da gente. Sabemos demais por sermos jovens, o que se resolveria com o tempo. Vamos morrer aqui mesmo? Na vida que pedimos a Deus? Não! Que não pedimos por vida alguma antes da vida mesma; se fosse esta morte um acidente de trabalho e não de lazer devoluto seria devolVIDA. Tanto os nervos como os espasmos ecoam por que há o entorno. Calavam em nós porque é da essência mesma da cidreira, selvagem e verde, justamente como nós duazinhas aqui. Embota-nos como a bocarra do sono em seu bote. Não desmaie, ainda é março. Só sue para se manter convincente no papel de veranista, ainda estamos de férias. É a vida, a vida! Esses espelhos nos teus olhos, esses labirintos nos teus ouvidos, ambos me levam para fora daqui, bem agora. É seu único caráter e é meu único papel numa sucessão de momentos como esta entre nós. Saia comigo. Veja o dia ainda claro, até mais claro agora do que quando entramos, este amarelo no alto, que encarado de perto é amiúde tão negro. Ouça as abelhas zunindo atarefadas a polinizar a erva; escute o zunido delas que não é o do asar de seu vôo, mas o do azar de seu enjôo; o campo repleto de cidreira verdejante, de brancas flores, é seu escritório, sua sina; por uma questão de vício ou ofício, ao contrário de nós, estando em meio à clara amplidão, a abelha sonha zangada com o claustro escuro de sua colméia, ali apenas se sente mais si. E como nós duas, todas as abelhas são a mesma abelha. Não sei se você sabia. Sei que ainda nos vão ver e que nos lerão à luz de um sol do mesmo mel dessa nossa penúltima estação à sombra de um outro branco
* Co-escrito com o parceiro jornalista plástico Robinson Machado
** Publicado em http://coletivoliterario.blogspot.com
Ignoro se alguém
que conheci é são.
Jamais ouvi quem
falasse com razão.
Crédulos mantêm
fé em ressurreição.
Cristo que fez bem
e nunca foi cristão.
Tão loucos crêem
a esperar salvação.
A vida é no além?
Eu penso que não!
Nunca falo amém
no final da oração.
Vim a seguir o vácuo dentro dos exteriores das outras cabeças, múltiplas e, no entanto, as mesmas; e por que não dizer... a mesma? A minha? Uma das minhas, na verdade não importa; o mais foda é tudo aquilo que não são miolos, apesar de eu pensar nisso assim tudo feio e cinzento, com sangue dentro, a se espatifar nas duras paredes do crânio. Para não mencionar o meu coração e todas as sensações que ele traz consigo... eu quero dizer, é nojento de verdade; você imagina essa coisa estranha marcando o tempo no peito das pessoas andando por aí, falando umas com as outras, trepando umas com as outras? É das coisas mais bizarras sobre a terra. O que logo me leva a me indagar sobre o sexo; os genitais, aliás; uns troços asquerosos dependurados, variando muito de um para o outro: caralhos, xoxotas, tetas e cus, estes que são apenas parte da turma, hoje em dia cada vez maior; e se os corpos todos, com o que oferecem, não são o bastante, você sai e facinho compra um acessório de plástico e tem sua satisfação. Tudo isso é de enlouquecer! Acho bem divertido, mas parar para pensar nisso dá um nó na minha percepção. Já não sei como meu pau fica duro quando é minha cara que enfoca uma bunda, como ponho o pau nessa bunda e meu coração parece que vai ejacular um enfarte, como gozo gostoso cada palpitação do peito sentindo-as pulsar na cabeça, sentindo como se aquela bunda ali sentasse na minha cara, sentindo o pensamento da cabeça e até o cérebro pensando ao ser pensado.
Aí, quando você acha que está pensando demais, vai lá e toma uma bebidinha, acende um cigarrinho, cheira uma carreirinha... Porra! Eu não agüento. Encomendo uma lobotomia ou coisa do tipo? Não, é claro que não. Liga o som, filho da puta! Aumenta o volume, aí... mais um pouquinho, ou um poucão. Agora vai e tira os móveis do lugar e quebra tudo. Ahhhhh! Para com isso de uma vez: STOP... aperta lá. Liga a televisão e senta o rabo no lugar, são mil canais de diversão imbecil, nada mais de acordo. E se não tem nada acontecendo naquele caixão colorido, você vai ver o jogo do seu time e quem sabe acaba matando alguém. Melhor ir ao cinema ou ao teatro ou outro lugar para se masturbar em paz. Lá é possível encontrar aquele amigo seu que joga xadrez melhor do que você, e ele te convida para o apê dele ou se convida para o teu. “Foda-se”, você pensa, mas diz “ficaprapróxima”. E sai para ver as pessoas burras na rua para ver se te inspiram a não ter idéias. Merda, merda, merda... Adentra o fliperama com a morte na alma e quase batem em você por bater tanto na máquina desgraçada que te engole a ficha que custou um nada; mas aquele era o seu Nada, certo? Errado de novo, sempre. Herrar é umano. Nem sempre se pode ter tudo, mas nunca se pode ter o Nada; nem o lixo é mais nosso depois que você joga fora, e olha que não falo daqueles cacarecos que você separa para a reciclagem, vale pra qualquer papel higiênico cagado, cara... nem isso você vai levar consigo depois de morto, nem grana, nem glória, nem amor, nem memória. Então por que eu não paro de acumular a vida nos bolsos, nas estantes, no disco rígido?
Não tem escapatória, como é que se vai dizer para alguém: não pense em um elefante verde com bolinhas cor-de-rosa? Se o fulano já está de cabeça cheia, vai querer que você se foda, antes de deixar que a cabeça exploda. Sem chance para mim. A Revolução foi um delírio literário, a vida extraterrestre é inteligente demais para nos visitar e o Bumerangue Jesus não voltará. O melhor numa hora assim é entrar numa biblioteca, olhar para toda aquela infinita loucura acumulada pelos séculos dos séculos, pedir um livro de auto-ajuda só de masoquismo e te recomendarem a Sagrada da puta Bíblia, aí você escolhe qualquer gibi do Pato Donald e vai fazer regressão forçada sozinho à luz de velas de maconha no teu quarto. Passa antes no fast food da esquina e, monossilábico, pede a sua ração pelo número, paga com seu último dinheirinho amassado e volta a pé para casa, com indigestão. “Tomara que chova”, você ainda pensa. O azar, cheguei a essa conclusão, é a experiência mais pessoal e intransferível que há, mas você pode ter a sorte de não se dar conta dele. E eu penso excessivamente demais (SIC), você diz. Pensa, é? Olha: Tome Noku! E sem gelo é melhor. Ora essa... Chegando em casa eu tomo um banhinho quente e tomo um chazinho quente para esfriar a cabeça, jogo a revistinha no lixo, pego uma cordinha do varal e faço um nozinho corrediço, levando para a alcova, para ver se com ela, no final, eu consigo amarrar essa minha história. Chegando lá, que é bem aqui, dou (acabei de dar) um duplo clique no ícone "Palavra", e pensava: não pensa ESCrevê!