Páginas

28 de julho de 2010

Diálogo

Concedi uma entrevista ao psicólogo e escritor Marcelo Novaes.



1) Mário de Andrade falou da intransitividade do verbo amar. Fale-me da impossibilidade [ou será "implausibilidade"?] do objeto-amor.

Acho impossível não amar, no que concordo com Mário de Andrade, mas discordo dele quando atribui uma intransitividade poética ao amar. O que denuncia nele, senão um platonismo ou qualquer outro recalque erótico-afetivo, sobre o qual me abstenho de entrar no mérito por não ter a pretensão de tentar despenar o sexo dos anjos, ao menos uma nítida tendência a “poetizar seus poemas”, um defeito mais-que-perfeito. Isto é espantoso nele, precisamente por seu modernismo, que já havia dado a essa época o melhor de sua poesia e ainda nos daria uma boa rima para obra-prima, o Macunaíma. Desavisados poderiam me achar demasiado herético e iconoclasta, dado o meu comentário, mas me apoio somente na gramática que traz o verbo amar, já em estado de dicionário, poético. Amar é um verbo transitivo direto, requer alguém ou algo além da palavra em si, ainda que esse ou isso seja o si mesmo. “Ele morreu” é intransitivo, só requer o ponto final, por ser auto-explicativo; já um “ele amou”... quanta diferença... a gente, que não conhece, tem logo vontade de perguntar: Quem? O quê?

Sem essa pessoa que o amar requer, não é amor. Já que quatrocentos anos antes um poeta precisou de apenas um olho para escrever “Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Amar é lindo, louco e colorido, amarelo cura. Pode até doer, mas nunca cansa, e nos ensina tudo, menos como evitá-lo. Amar é entrar na roda, amar é foda. Digo que o amor é um objeto impossível comparando-o àquelas figuras geométricas estranhíssimas, de imenso interesse para os matemáticos e psicólogos, e indecifráveis até para o artista.

Amor é do que tudo é feito, é tudo o que há entre o de onde viemos e o para onde vamos. Fazemos amor quando ele nos refaz. Pensamos amar tanto quanto amamos pensar. Amamos mais e somos mais amados ao nem pensar no amor, enquanto pensamos e somos pensados pelo próprio amor. Amo pensar nisso.

2) Já ouvi de um mitômano e escritor pra-lá-de-medíocre a máxima: "O Ministério da Saúde Adverte: Excesso de Sanidade Faz Mal à Arte". Eu gostaria de ouvir a sua explicação para este ditado [não deve ser de cunho do dito cujo, e se for, lhe faz jus; a ele, fique claro], uma vez que seu blog alude a um apelo para que fujamos dessa tal sanidade. Porventura, chamas aos "normóticos" de sãos? Falas da normalidade-sanidade bur(r)ocrática? Qual o teu nível de interação com a "normalidade média"? "A sociedade te entende"?

E que escritor não é um mitômano? A verdade, como a cegueira, é um ponto de vista. Repare que nem a literatura médica registra “verômano”. Mesmo mencionando escrevente ou caligrafista estaríamos admitindo que... Bem, digressões a parte, voltemos ao todo, essa interrogação. O título do meu espaço alude sim àquele imperativo, mas também trocadilha-se com “não-ficção”, porque pratico e prego e martelo esta arte experimentável na vida e vice-verso o viciosoroboros desse círculo. Super-sou contra qualquer normatividade. A tal frase tenta um sentido que não atenta menos contra os meus seis sentidos do que “O Ministério da Cultura adverte: excesso de analfabetismo faz mal à saúde”, mas também posso entender simplificações. Eu diria que lugar de gente sã é no hospício; o que concordaria com todos os muros e cercas já construídos e em construção, todas as fronteiras que arquitetamos para nos apartarmos mais de todos nós, os salubrissíssimos normais-normenos. Ver a etimologia da palavra esquizofrenia. Criam dificuldade para vender facilidade, vide a política, a religião, o direito et cetera. A arte, qual e tal as anteriores, entra nesse jogo e aposta tudo, porque o artista se joga.

Assim, esse é um por-isso pelo qual posso me assumir abertamente hermético, dúbio ou tríbio, críptico até. Ninguém compreende ninguém, digo-o categoricamente, no sentido de que jamais poderíamos sê-lo de forma absoluta. O artista, bem como o louco, o jovem, o revolucionário, tende a se sentir incompreendido. E é. Mas quem não? Notório é que possamos vez ou outra nos interessar por brincar de algo com alguém por algum tempo, aprendendo as regras daquele seu jogo e participando daquilo com ele, sem, no entanto, podermos chegar a vencê-lo ou a nos convencer da inevitável derrota. Isto é, vemos a mágica linda e misteriosa que um pianista extrai de seu instrumento, e se quisermos podemos aprender a ouvir, e logo a tocar, ou, por outro lado, podemos nos interessar mais pela habilidade com que o piano se faz tocar, e logo aprender a fazer um. Quero dizer que há uma infinidade de linguagens possíveis, de tecnologias disponíveis para tudo e para todos, basta escolher. Exemplo desse mistério é a tecnologia avançadíssima da própria língua ordinária, o nosso idioma hodierno. Quem domina? Este país conta com três quartos de analfabetos funcionais, para os quais uma bula de remédio, um contrato de trabalho ou as instruções para subir uma escada permanecem ininteligíveis, grego do bom, arcaico e intransponível. Note que ainda falo de fronteiras.

Há uma imensa loucura em ser artista, aquela loucura própria do especialista, sobretudo por seu objeto de estudo ser um sujeito de estudo, os seus contemporâneos e os seus conterrâneos e ele mesmo.

A poesia leva a loucura ou gera sanidade? A poesia é a última estradinha de terra do mundo, e enquanto permanecer assim continuará levando a lugares surpreendentes.

3) Quão tecnológico é você em seu processo criativo? Já pôde [eis o acento imprescindível!, esse ninguém faz cair!] prescindir disso? Já sofreu crise de abstinência por afastamento dos meios tecnológicos? Ao fim de tudo, qual é a imago prezada que tuas retinas fatigadas guardam?

Já há tecnologia o bastante na linguagem. Ortografia e gramática são ciências complexas e elitistas, razão pela qual evito ter preconceito para com quem escreve errado. Esse "errado", talvez, devendo até aparecer assim, entre aspas. Melhor errrado.

Só preciso de papel e caneta, mas mesmo barro ou bosta, seiva ou sangue serviriam. Há alguns anos uso o computador, que facilita bastante o processo de pesquisa, montagem e organização de cada palavra, frase ou verso, parágrafo ou estrofe, capítulo ou poema, cada livro; isso por propiciar uma visualização mais ideal da obra, quase eidética, quase como acontece ainda no campo mental. A internet é o que há, liberdade via satélite. Aqui cabe tudo, tem público. Licença poética é um pleonasmo, já que tudo pode ser considerado poesia, uma arte livre; já que os limites do que é e do que não é arte são tão subjetivos quanto o gosto pessoal (para incorrer em outro pleonasmo). Vale tudo. E na comunicação oral ou escrita, virtual ou pessoalmente, acho que o mesmo se aplica; valendo qualquer estilo de mensagem, desde que se consiga estabelecer eficientemente uma comunicação entre emissor e receptor.

O universo cibernético per se também me põe em contato com novas linguagens que não conheceria de outra forma. A comunicação virtual flui de forma muito dinâmica, onde o link é a manchete que gera a gíria que vira jargão da noite pro dia do Brasil pro Japão. É verdade que a revolução não será televisionada, pois se dará por download ou streaming. E se a sua vida não está na internet, você não existe.

Tenho passado mesmo muito tempo no computador. Isto acabou por me deixar um pouco mais em casa, sozinho. E só me afasto dela por muito tempo por um bom motivo, como uma boa viagem. Sem nada de extraordinário para substituir, acho que passo até uma semana sem, no máximo. Intercalo-me ou me extragrito ora aqui ora acolá. Por não abrir mão do pé sentir a grama, de poder apreciar uma construção na rua, um quadro em exposição, um filme na sala de cinema, uma música num show ou apenas ler um bom e velho livro de papel, tinta e pó, que ainda é a melhor invenção humana. Tampouco troco sexo real por virtual, nem mesmo com antivírus.

Acho que a imago com a qual me ligo mais ao inconsciente coletivo é a mais bestial possível, o que acho muito justificável, por não reprimo meus baixos instintos ou desdenhar da minha amável animalidade, pelo contrário, até mesmo cultivo um primitivismo ideológico que tem me satisfeito. A libido, assim como a violência e o sonho, encarna-se logo ao fechar meus olhos, desde as primeiras fosfenas até a imagem mais fofa que posso conceber: uma xoxotinha rosada, vista por trás, em meio aquela linda bunda empinada. Ou até, vista de frente, “Tinha uma vagina no meio da mulher, tinha uma mulher no meio da vagina, tinha uma vagina no meio da vagina”.

4) Falando em sonetos velados [e você faz o seu], há muitas métricas alternativas [músicas abscônditas nas letras] por descobrir. Como no jazz e em tantos estilos métrico-musicais mais "livres" [aparência de liberdade] e sincopados. Ler poesia exige ouvido[-olho] absoluto[s]? [E não me venha falar de bardos cegos, pois que a voz também é olho...]

Almeja, mas não requer. O olhouvido ou o ouvidolho não são os sentidos, mas meros sensores pelos quais temos as experiências sensoriais, por isso sequer é essencial ter um olho ou ouvido para ver ou ouvir, em absoluto. Todos somos, em maior ou menor grau, sinestetas, pois ao mesmo tempo em que os sentidos se complementam, agem sinergicamente, produzindo o que conhecemos por sexto sentido. Igualmente, é preciso discernir os sentidos dos sentires. A palavra sentido é, entre outras coisas, um verbo no particípio. Quero dizer com isso que o mais importante é, na verdade, a memória, a lembrança daquilo sentida. Através da memória um Borges já cego compunha poesia ou um Beethoven já surdo compunha música. E sim, também os eunucos transam. Já ouviu falar em membro fantasma (e olha que não me refiro ao funcionalismo público)?

Alguém já sentiu a música como uma arquitetura em movimento, e a poesia como o uma metamorfose fotografada. Ambas são fantasmas oriundos do corpo da fala. Nasceram juntas e pouca gente há que duvide de que elas eram uma única entidade. Acho lógico. Não são as duas, dentre as clássicas belas artes a serem tidas como as mais espirituais? Acho, no mínimo, espirituoso. Por isso mais livres até do que a própria fala que, igual ao corpo, já é movimento e metamorfose. Mutatis mutandis, também o amor. Não é a toa que o tema mais recorrente da música e da poesia seja o amor. Suas naturezas mutantes se coadunam organicamente, por que o corpo ainda é pouco, não? Toda forma é mera crisálida. Por mais que eu me esmere em dizer algo o melhor possível, pretendo que isso apenas embale melhor o conteúdo. E se escrevo um verso em que o amor que nesses dias me dais é AIDS, por exemplo, não estou apenas a produzir som, aliterando susto e síncope no mero tom do anagrama, mas a ve-r-o-u-vir quando há, o que é sentido por trás. Aí mostro com quantos miaus se faz uma leoa.

Jamais fiz sequer um poema que se atenha aos metros convencionais, nunca me dou ao atrapalho de contar sílabas, o que busco é o produzir tanto sonoridades harmônicas quanto dissonantes ao versejar, que mesmo quando rimo não trato de hino. E até os músicos que mais me tocam: Zappa, Stravinsky, Hermeto, Piazzolla, Satie, Monk e Coltrane, sempre me deram mais a medida do que não vale a pena de escrever. Só me contento com o anódino inédito.

5) Quanto do que se cria [ou que você cria, nós criamos, eles criam] é pra fugir do Tédio? Você não pode/pôde se furtar ao "spleen baudelaireano"? Diga-me uma coisa: os vícios são fugas do Tédio? Escrever é um Vício? [As maiúsculas não são sacrossantas, mas empacotadoras de subespécies do que nomeiam, fique claro ao agnóstico...].

Tudo o que criamos, mesmo sendo impossível quantificar, serve de fármaco anti-monotonia muito menos a quem cria do que a quem somente aprecia. Já a melancolia... não é um ideal, mas um usual a que se chega pela via cordial. Considero-me um splénétique sim, mas só me concedo que o seja como um ator lacrimeja.

É o público que foge, o artista persegue.

Vícios são fugas da abstinência. Contra o tédio, buscai a experiência.

Escrever é um vício para aqueles que não aprenderam como usar o ponto final, pausa absoluta, justamente por não terem sabido iniciar suas obras com letra maiúscula.

Estréie bem Artaud e pare assim que Rimbaud. No poeta, o que se compreende entre o iniocaso de sua vida não é mais do que acessório ao público, e essencial para si; o contrário só é valido durante o overturend de sua arte.

6) De Neandertal até aqui, quanto evoluímos? E no gancho dessa pergunta: você crê em literatura-de-formação? Que autores ajudaram a (de)formar Davi Araújo?

Talvez por acaso, o topônimo Neandertal signifique "vale do homem novo". Apesar dessa velha espécie ter evoluído do “homem que sabe”, exatamente como nós, que somos o “homem que sabe que sabe”, ela provou ser muito mais evoluída, levando em conta a idéia de evolução que a nossa própria espécie tem, pois há quase trinta mil anos provou sua maior eficiência ao já conseguir atingir a tão almejada extinção, que nós, baldados os nossos esforços, não temos logrado.

Literatura de formação só existe a posteriori, na medida em que hoje posso mencionar com que literatura eu me fiz formar. Não se pode propor a priori quê livros devem e quê livros não devem formar um indivíduo. Só pedagogos pensam assim. O direito ao acesso a boa literatura é muito mais importante do que o acesso à educação, pois ler é mais importante do que estudar.

Minha formação literária foi com os 32 volumes da Enciclopédia Barsa, mais dois volumes de uma enciclopédia de medicina, além de algumas revistinhas de HQ. Não havia outros livros em casa. E não li outra coisa até os sete anos, quando o primeiro ano escolar certificou minha alfabetização. Aí lia uma coisa ou outra da biblioteca da escola, de vez em quando, além dos livros didáticos, tudo sem método, muito largado. Depois li a Bíblia. E então fui para os “livros infantis”: Alice nos País das Maravilhas, Moby Dick e Dom Quixote... e claro que não entendi muita coisa, mas me iniciaram em alguma coisa, pois no fim de um túnel de livros difíceis, decidi ser escritor quando li Memórias Póstumas de Brás Cubas, aos 13 anos; depois de ter lido O Processo, Crime e Castigo e O Vermelho e o Negro, pareceu uma coisa muito fácil. Eu sabia poder fazer. Aí acho que Pessoa, Wilde, Rimbaud e Nietzsche, me disseram que tipo de escritor queria ser, aos quinze. E o resto foi um caos estroboscópico de leituras do qual nunca mais saí: gregos, latinos, renascentistas, barrocos, românticos, realistas, simbolistas, vanguardistas, modernistas, beats, pós-modernos, mágicos-fantásticos-maravilhosos latino-americanos e marginais. Cheguei a passar fome alguns meses por ter gastado todo o meu dinheiro na formação de uma boa coleção pessoal. Autêntica bibliomania.

7) Babel e Caos [Kaos?] são lugares a serem visitados [quais pontos turísticos de todos os tempos], ou um convite a que nos civilizemos? Conhecendo o seu sarcasmo, reformulo e amplio: mais que pontos turísticos eventuais-e-eternos, Babel e Caos constituem o "tônus" [o "tom médio"] de toda a paisagem? A direção da Vida é a Entropia?

Uma e outra coisa. Por que não? A imaginação permite que todos os lugares reais e fictícios possam ser acessados e revisitados nos espaços arquitetônicos e paisagísticos por onde passamos; bem como todos os momentos históricos e míticos podem nos alcançar em qualquer quando que se nos presenteie, pois sempre estarão no passado como sempre estiveram no futuro. Nesse ínterim, o processo auto-civilizatório se transubstancia em auto-divinatório: advinhas o quem és no veio de quandonde vais. Se o mundo de agoraqui pode chegar a nunca acabar, imagine os demais. A vida deriva pelo labiríntico e infinito universo espaço-temporal que cabe em nossas cabecinhas. Nenhuma poesia vive fora de nós, aos quais ela se amarra qual e tal nós mesmos nos amarramos à vida. A arte exemplifica isso, o que qualquer um pode experimentar no cinema, suposta mídia total, como antes fora o teatro, além de outras mil e uma formas de contágio onírico, como o LSD e o jogo de xadrez, replicando desde a primeira recordação do primeiro plâncton até a última frustração do último übermensch.

8) Araújo: nós, poetas novos, nos lemos uns aos outros? Com quantos egos se faz um bom sarau?

Não posso uivar por toda a plêiade, então falo apenas por mim. Eu não me lembro de ter lido muitos livros de escritores surgidos desde os anos 80, brasileiros quase nada. Felizmente, percebe-se que a poesia em língua portuguesa de hoje é inclassificável. Apesar de ser, infelizmente, na maioria das vezes, descartável.

Tampouco tenho uma opinião formada sobre saraus, pois participei de poucos. No meu caso, tive conversas boas, mas ouvi poesia ruim. E achei até que faltava um mínimo de ego no pessoal. Rolando mais aquele lance comunitário superautoastral de um vomitar seus clichês sobre o outro que aguenta resig-nada-na-mente por púrpura auto-indulgência de ad-vinho barato e outros veneninhos de origem duvidosa ao som arrastado das chinelas de couro, farfalhar de barba na bata e batuque de bumba-meu-blues; isso quando o sarau é de mesa branca, pois quando não, mais parece uma convenção de vampiros byronistas sedentos por Sangue de Boi. Nunca fui a eventos de spoken word, mas já assisti em vídeos e noto uma forte influência do rap e concursos de improviso, aliados a tradicional declamação que, embora ainda me pareça a parte mais interessante, já não me interessa mais.

Entretanto, acompanho muitos blogs dedicados à literatura de poetas e prosadores que fazem a diferença, gente jovem e gostosa, inspirada e inspiradora. Alguns mantêm espaços um pouco feios ainda, mas em cujo texto testemunhamos sua qualidade inegável de masturbadores solitários da boa verve. Mais do que eu mesmo ser publicado em livro, acho que preferiria ter o poder de poder dar ao público o melhor dessa gente louca, meus amigos imaginários. A blogosfera é o melhor sarau.

9) O que o Concretismo te ensinou, enquanto "'artesania' da palavra"? Você gosta de poetas concretos ou neoconcretos, do tipo André Vallias?

O concretismo é a concretização das influências de seus mestres não-concretistas, gigantes como Eliot, Mallarmé, Joyce, Apollinaire, Maiakovski, Pound, nos quais eu também me inspiro muito. Mas essas obras não se concretizaram em mim, antes diria que desaguaram/desbarrancaram/ramificaram em mim. Compreende? Assimilei deles uma poética contrária, mais orgânica do que concreta, menos teórica e geométrica, que acho muito dura e pesada. Acho válido, mas não me toca. Porque acho que poesia não tem receita, não se faz poesia como se fosse bolo de festa; ela deve ser colhida como se fosse uma orquídea rara. Não consigo gostar de um constructo “perfeito” como uma mônada, busco catar algo “perfeito” como uma fruta.

Dentre os neo-concretos vejo coisas mais originais, como o Vallais ou outros que atuam com vídeo-poesia ou já no campo digital, mas ainda é apenas uma tese com mil antíteses para você mesmo cruzar e chegar numa síntese aleatória. Leitura participativa nem sempre é poesia. Já que é pra fazer poesia-conceito, faz logo como o estadunidense Kenneth Goldsmith, criador da UbuWeb, esse revira a nossa lógica pelo avesso, assina essa arte do lado de dentro e põe todos os seus livros de graça na rede. Esse sim sabe avacalhar com galhardia e constranger sem restrições.

Diferencio a poesia que gosto da que não gosto experimentando. A gente olha para ela, fala com os versos dela (con-versa), sai junto para passear e comer e beber. Até você não conseguir parar de pensar nela, sonhar com ela, e precisar demais mesmo. Aí você fica um pouco possessivo com ela, e já discutem muito... sabe como é que é. É preciso que você se doe, tem de haver uma imersão. Depois, no bar, viro aquela página e, pelas costas dela, te inquiro pela cumplicidade de também tê-la achado tão gostosa.

10) A escrita individual de cada um sempre morde a própria cauda [sendo, portanto, urobórica], ou fazemos, todos, uma escrita coletiva? E essa Escrita Coletiva recai nesse anel-mitema incontornável? Somos seres que nos re(in)corremos, sem avançarmos? [É claro que isso se alinha com a pergunta do Homem de Neandertal, e aqui está uma medida do mesmo anel; essa entrevista, Davi Araújo, visa ser um esboço de tese de filosofia...]

Concordo com ambas, pois não se excluem.

Acho paradoxal que a escrita, dentre um sem número de outros fenômenos que se assemelham a ela nisto, dê ao escriba essa impressão de que quando alcança a si mesmo, está no caminho certo. Isto porque talvez julguemos que assim nos bastamos, o que deve ser um grande engano. Já que, se não me equivoco, isso não apenas não leva a lugar nenhum, como faz com que nos consumamos a nós mesmos. Imagine a cobra a continuar se devorando: até onde ela consegue prosseguir? Quanto dela cabe em si mesma? Custará cagar no próprio estômago para chegar a ser apenas cabeça, para ser devorada por outra cabeça, e assim sucessivamente. Ou até mesmo o completo uninverso: cada um dos círculos que chegamos a ser pode formar uma corrente ou um anelídeo, que por sua vez formaria outras correntes ou outros anelídeos maiores ad nauseam. Parece algo vasto e infinito que cada reverso das muitas vidas unidas seja um universo. Em tese, ou isto é um esboço de mitologia ou fabricamos uma filosofia. Será? Seré! Foi um prazer.

Beijabraço textual
e/ou abreijo literal

17 de julho de 2010

língua ordinária


a minha língua é da boca pra fora
e como tudo o que é rápido vírgula
a língua também se levanta, demora
e quando ela se agiganta é maiúscula
que a mesma língua que se janta devora
pois toda língua é longa, dentro embora vernácula

e quando natural
a língua é bela
e rebelde e oral
e tudo mais que falamos dela:

língua de fora, gringa
língua que aflora, xinga
língua curvilínea, swinga
língua sanguínea, pinga
língua de fogo, vinga
língua de jogo, ginga

taumaturga
a língua que conjuga
é a língua que quis
demiurga
a língua que refuga
é a língua que fiz
dramaturga
a língua que subjuga
é a língua que diz

na sua própria língua
ela, língua, debate
cada língua a se debater na própria boca
uma língua deitada de prazer
sobre a língua que nos fala de um vate
ela entre ativa e passiva
é língua dentada de me dizer, boca à boca
o amor à língua, lasciva e rouca
falando agressiva, sublingual
pouca a pouca, da língua louca de te morder
tudo o que não é oral
ou babel barroca

a língua à solta
linguagem que ama
não míngua, açoita
língua e idioma
bem aqui, ali igual
linguajar predileto
a língua normal
língua e dialeto

a língua que veneno destila
a língua glândula, palavra, papila
língua gula a língua que engole
língua mole, sem nome
língua que se come
língua de fome

grave a língua, língua aguda
trave a língua: linguaruda
língua rude faz alarde
a língua ilude, estala e arde
mas não se cala

a língua da dança
é a língua que não se cansa
a língua da criança
é a língua que não se alcança

descubra a língua escarlate
o disparate da língua rubra
aconselha a língua carmim
o latim da língua vermelha
lambem a língua a estalar
e também a estar lá
a fala, o falo, a goela, o grelo

num canto beijam-na
e é supérflua a saliva
que racha líquida a chupar léguas
e se desejam-na iníqua, molhada e muscular
contígua à mandíbula, profícua no paladar
quase mordida de lira a ladrar
é inócuo calar a perpétua cantiga
linha contínua da arte antiga
tudo o que é parte da língua
   tudo o que é              parte da língua








 


10 de julho de 2010

Le Stendhal de nuit sur la liaison Paris-Venise (via Dijon, Dole, Milan, Brescia, Vérone, Vicence et Padoue)



Persigo mar louroboros de fumaça
                                                         soprano na volta e na Aida
& mesmo o meu mundo morrendo
& tendo passado
    por uma experiência de quase-vida
                                                                 esse jogo não me ultrapaça
pois te espero do outro lado.

Ouço em cada canto que rime non stop esta escrita
das tuas notas na moleskine
xadrez de bolso que edita no lapbop                                                              &
q
u
e
d
a
mastigação não reste peluchão                                    &
                        sobre                                         as plásticas teclas pretas
                                             o açúcar refinado amorfo
(de dissolução rápida, granulometria fina e brancura excelente). Ou então...
a mente-usina em miniatura, dimensão de iluminura.
Dom a aguardente... sente-se e pronto.comprove um nove nove nove.
          & todos os caminhos formigam aroma
        & há Enter (preta ação)
                             entre estas sento & uma entradas impossíveis
        pois signifixa aqui o cada caractere
   tudo preto no branco
   no preto duto Q o movimemento do meu quarto fere
             &              esta página MIM imaginada, franco-prolixa.

Migalhas e reticências G, falhas ou lógicas. Labirinto de sono. Puro momento.
Viajo num mistério cinza. Viagem de auto-abandono, de trem.
Chegar, levantar & em um segundo andar,
mas mais embaixo, mais embaixo ainda:
— Térreo. Sol-
              excitamos ato-
  dos que dês-
            em-
                    bar-
                            quem

27 de maio de 2010

Soneto Velado



para Voré


No início era a treva analfabeta
Superada já nasce a vanguarda futura
É passado o tempo da ampulheta
Jaz no mim dos centos tal literatura

Necrópole ou biotério?
Morra pela hipérbole!
Biotério ou necrópole?
Viva pelo cemitério!

Viuvez menos marmórea seria matar
Frieza mais letárgica será enterrar
Morbidez menos mortal seria profanar
Certeza mais incorpórea será ressuscitar
Palidez menos trágica seria assombrar
Beleza mais abismal será epitafiar
 
 

6 de maio de 2010

Europa


Europa I - Cá Em Lisboa

Aqui desagüei com o Tejo, estou na enseada amena,
de melancolia e de azulejo, valha aqui a minha pena;
é a terra de Luís de Camões, do Fernando Pessoa como ortônimo,
de Jorge de Sena e suas opiniões, de Mário Cesariny ainda anônimo;
Alfama-Baixa é um excelente eixo, lisboeta ou olisiponense,
Chiado-Bairro Alto onde me deixo, alfacinha ou lisbonense;
Torre de Belém e Descobridores me interessam,
Flano do Aqueduto para o lado do Paço e da Sé,
Vasco da Gama e 25 de Abril que me atravessam,
vou ao Carmo e aos Jerônimos mesmo sem fé;
noto que na Avenida Liberdade eu me alforrio,
 entre a do Ouro e da Prata a Rua Augusta,
anoto nas praças dos Restauradores e do Rossio,
entre Alta e Baixa o Elevador de Santa Justa;
do Castelo de Mouros vejo as pombas no céu,
no Palácio das Necessidades vou ao banheiro,
no Palácio da Ajuda grito pedindo mais papel,
a estátua de Pombal estava cagada por inteiro;
as almas e os balões assinalados,
nas praças com tantas cantigas de roda,
infância dos versos abrasileirados,
quase cume da cabeça de Europa toda;
homens e mulheres de bigodes tristonhos,
uma cidade em cada parte de que é a soma,
um olho é horizonte e o outro é de sonhos,
tudo tem igual no Brasil menos o idioma;
de tantas andanças já cansado, sento a tomar um gelado imperial,
levanto-me em busca do fado, perco os meus rumos em Portugal.


Europa II - Desde Madrid

O miolo dessa Espanha, perto do rio Manzanares,
a sua língua me assanha, todos esses linguajares;
o povo tão risonho, em lugar tão singelo,
el oso y el madroño, de Madrid al Cielo;
tão negro é esse touro, em Las Ventas ruminantes,
preto é o século de ouro, como a estátua de Cervantes;
entre Atocha e San Jerónimo um mote,
um lugar de tantas memórias confusas,
aqui onde primeiro se imprimiu Quijote,
é o Barrio de las Letras y de Las Musas;
Apolo e Cibeles de uma vez, são fontes de doces sussurros,
vou à Chocolatería San Ginés, provar chocolate con churros;
encontro na Estación de Atocha, ou del mediodía o Invernadero,
já era a estação que desabrocha, ou a primavera para ser sincero;
é o corpo dessa Península Ibérica,
Real Academia de la Lengua Española,
esta com tradição menos desidérica,
com a qual a fala popular se estiola,
melhor é o Flamenco de veia histérica,
de cante e baile e toque de castanhola;
caminhando saio para dar um giro,
nos literários Café Gijón y Comercial,
fumo pelo Parque del Buen Retiro,
vendo estanque y Palacio de Cristal;
e no Campo del Moro eu até piro,
não acredito ao ver o Palácio Real;
desde as Fuentes de Neptuno, ou mesmo desde a Gran Vía,
achei sempre algo oportuno, sentar para tomar uma sangría;
del Prado o de la Castellana son mis paseos,
gentes na Plaza de Colón ou na Plaza Mayor,
de mi mujer en casa yo recuerdo con deseos,
uma saudade dela que a cada dia fica pior;
contra o azul do céu, sou um artista a se inovar,
Lorca e Dalí e Buñuel, os carmins de Almodóvar;
as perdições à parte, os descaminhos que perfaço,
no Tríangulo del arte, eu vi o Guernica de Picasso;
um lugar que me edifica, é a única capital do mundo aliás,
onde se exibe em praça pública, uma imagen de Satanás;
o que disto tudo ainda me ficará,
estas recordações me bastarán?,
pela Puerta del Sol ou de Alcalá,
as más lembranças no pasarán!


Europa III (Além e Aquém, Barcelona e Gaudí)

Mais Além de Madri

Barcelona não quer ser Espanha,
autônoma é a comunidade,
a língua tão próxima, mas como é estranha,
 apesar da comunicabilidade;
embora possam ser bons anfitriões, levam fama de maus aldeães,
até mesmo para os meus padrões, como são rudes os catalães...
uma jarra de sangria e é para já,
em seguida vem logo a caçarola, e que o café não seja instantâneo,
o plano e os deltas de Besòs e Lobregat,
do mais alto da serra da Collserola, até o litoral no Mediterrâneo...
a caminhada com essa escrita se entrecorta,
y al caminar estos mis papeles se surcan,
tal é o ficcional Parque do Labirinto da Horta,
el jardín de los senderos que se bifurcan
las estrechas pero tan animadas
callejuelas tanto del barrio gótico como las del Borne y del Arrabal;
 gárgola  animal tan fantástico como Sta. Cruz y Eulalia la Catedral
del claustro con piedras ajardinadas;
 …desde as velhas ruínas romanas, passando pela cidade medieval
até os bairros do modernismo apoteótico, nas Ramblas ia eu
comer na Boquería, entre Molino e Liceu, nas Ramblas eu ia...
Allí se encuentran kioscos de prensa, de flores,
de pájaros y animales domésticos, actores,
cafeterías, comercios y restaurantes;
mientras cerca del puerto costumbran a instalarse mercadillos,
así como muchos pintores y dibujantes…
até o Portal de la Paz, a descer eu me propunha,
a subir eu voltava atrás, até a Plaza de Cataluña;
a partir do monumento a Colón pelas seis praias de areia
até a Villa Olímpica...
depois das seis os seios de fora que o sol ainda bronzeia
…que cidade magnífica!
la Ciudadela de puertas adentradas
por extravagante la Avenida Diagonal
o la Gran Via de les Cortes Catalanas
 Montjuic tiene su vista excepcional,
el Paseo de Gracia por las mañanas,
Dalí y Picasso y Miró de tantas quijotadas…
Palau de la Música será mais que moderno,
hospitaleiro como a fachada da Casa Fuster,
no Hospital de Sant Pau quase me interno,
grandes méritos de Domènech i Montaner...
na Ciutat Vella ficam
Sta.Caterina-Born, el Raval,
el Gòtic y la Barceloneta;
as gentes coloridas fornicam,
loucos de dar com pau,
loucas de dar com boceta...
bebo a alpendres e palmeiras,
na Plaza Real daquelas cervecerías,
rojo y amarillo nas bandeiras,
falsa numismática pelas tabacarias;
tourada e sardana são ambos insanos,
a primavera vem aqui fazer topless,
lugar onde se erguem castelos humanos,
a um lugar assim só hei de dar olés.

Mas Aquém de Gaudí

Contestado como artista, catequista a ser beatificado,
comprovado nacionalista, urbanista foi atropelado...
edificante organismo esqueletal
a Casa Batlló de improvável ossatura
ou Casa dos Ossos obra tão visceral
mais se parece com uma escultura
do que um edifício convencional;
em cada janela ovalada em cada curva da fachada
como mosaico é decorada feito de cerâmica quebrada;
que começa em camadas de laranja dourado
movendo-se para um tom de azul esverdeado
o louco telhado é qual dinossauro arqueado
e às costas de um alado dragão assemelhado...
La Sagrada Família, mais modernista dos Hades,
outra cidade da homília, novo tonel das Danaides;
peca pelo excesso,
trabalho expiatório, templo em progresso, profano e alucinatório
peca pelo excelso;
caleidoscópica hagiografia cartesiana, coloridos harmônicos cristais,
heresia hiperbolóide humana, criptograma comungando catedrais;
a Natividade  já está acabada;
quando terminar a construção,
com a Paixão em andamento,
terá de se começar a restauração,
a Glória ainda não iniciada;
castelos de areia suspensos, de estética fantástica e assombrosa,
ninhos de cupins imensos, de estrutura louca e maravilhosa...
autor de sete obras muito pessoais
como a Cripta da Colonia Güell,
recriando cúpulas gravitacionais
na Casa Vicens e no Palau Güell,
modelos em escala tridimensionais;
na Casa Milà a fachada
se parece com ondas de lava ou a uma duna de areia
na Pedrera o telhado com uma aparência cava
quase lunar ou de idéia
favos de abelha atarefada
 de alto a baixo me dava visão de cobras muito feia
percorrido de lado a lado o edifício ainda terminava
em montanha de neve cheia
estilo art déco mobiliada;
o ferro forjado dos balcões simula plantas trepadeiras,
no terraço como alucinações grandes bicos de chaleiras;
improváveis chaminés com cacos de garrafas faceiros,
parecendo com elmos sobre as cabeças de guerreiros...
e o Parc Güell é uma cidade-jardim,
com vista para a cidade e seus jardins,
percorro-o e de nada mais estou afim,
perco-me bem no meio sem mais fins;
o meio do parque é uma praça circular vazia,
cuja borda serve de banco e sinuosa ondula,
como uma serpente de mosaicos coloridos,
a praça é sustentada por qualquer maçonaria,
uma cabeça de leão faz as vezes de gárgula,
de água apenas são seus medievais grunhidos,
colunas qual estalagmites de grotesca assimetria,
dóricas palmeiras inclinadas ao vento que tremula,
em cavernosos abismos de medo desprovidos,
no teto quatro rosetas as estações do ano se veria,
e outros símbolos que o conjunto não dissimula,
sem um único ângulo reto poder ser definido;
assim mesmo é obra que com razão se abarque,
não é preciso ser de muita ciência ou literatura,
é de entendimento tão fácil quanto acessibilidade,
a este lugar chega a escadaria da entrada do parque,
disposta simetricamente ao redor de uma escultura,
de salamandra feita emblema do jardim e da cidade...
muito e pouco, espanhol ou catalão;
gênio ou louco, arquiteto e arquichão.


Europa IV - (Que Vóz) Paris

Civitas Parisiorum,
luzes da Cidade das Luzes, liberdade das cruzes.
De Montmartre e Montparnase & Père-Lachaise à gogo;
Boa parte de Clóvis e Luíses.
Amor eterno e guilhotina, bastões vermelhos e bateaux mouches;
Rive Gauche ou Rive Droite;
Moi-sur-Seine, com Gitanes com Galoises;
o acordeonista toca rouxinol, Piaf canta L’Accordeoniste.
Parirá em Brumário? Parirá em Maio!
Outono de 2005, Primavera de 2007;
lema de liberdade, tema às revoluções,
lema de igualdade,
tema às decaptações, lema de fraternidade.
Pigalle de putaria em néon, sagrado coração do moinho vermelho,
nossa senhora sem 200 sinais vitrais, acossado por 400 golpes,
atirada à nova onda ela não afunda,
bela da tarde ascende ao cadafalso,
o demônio das onze horas perdeu o último metrô,
miano bistrôs e quarteirão latino, panteão de comedores de pão,
14 Baguettes de Bagatelle 14 Bis.
Baudelaire por boulevards; Ballet na Opéra Garnier;
Musique na Opéra de la Bastille;
Deu-me na telha no Jardins de Tulherias;
Soma Luco no Jardim de Luxemburgo;
Cartesiano que vem quem sabe; De belle époque e de art nouveau;
Moi j'suis d'Paname, Parigot;
Francamente um francelho; Eu é um outro Rimbaud.
Voyeuricidade, um tanto multicultural, entretanto cosmopolita,
Paris é uma ilha, filha do seu país, avós da cidade não têm eco,
uma volta à França que morre na Champs-Élysées.
Pompidou-lhe uma: pós-modernismo;
Pompidou-lhe duas: high-tech.
Visitei o túmulo de beijos de Wilde...
abolição de dados que sempre lançará o azar;
de bicicleta, taxi e metrô se ronda...
vi o túmulo de Cortázar; até o túmulo da Gioconda.
Putes que paris! Flanerie et tout va bien…
Expressão impressionante! D’accord? Je ne ce pás!
Manetmonetdegas. Proustrado de tanto andar;
com certo café-concerto conserto a fé; Le rouge et le Renoir.
Rodin entra pelo Museu Orsay pela Porta do Inferno,
Mona Lisa e Vénus de Milo... Deus me Louvre!
Que o tórrido Sol torre Eiffel, assim eu arco com o triunfo.
Merde, alors!

Europa V - Vene(no)za

cidade que evoca uma minha estranha natureza, ela é que me passeia com tão natural estranheza; à deriva no mar a sereníssima, terraferma de ła mia veneta, aquela velha república marítima, idílico renascimento do poeta; piazza di San Marco é um pombal, transe figura ativa máscara, leão alado um fantástico animal, pão do pescador iguaria rara, serpenteia mágico o Grande Canal; balneário cursivo e itálico, cidade de água a tônica dominante, Ca’ d’Oro e Ca’ Rezzonico, Petrarca cantou o que cantou Dante; lazareto em quarentena, gangrena o meu soneto, cornetto que envenena, obscena é um amuleto, coreto em festa terrena, serena como esqueleto; desde hoje imagino quanta era a sua grandeza, mas já não posso imaginar como era a limpeza; tanta beleza me causa alguma enfermidade, Von Aschenbach e Tadziu reencontrados, Justiça a representação feminina da cidade, arquipélago de pensamentos constelados; lar primevo daquele primeiro ghetto, a comida é pouca e cara mas muito boa, a perspectiva do furioso Tintoretto, alagada de maré alta ou baixa na lagoa, de gondola de battello de vaporetto; de tanto Fédon de tanto fedor, perco-me em labirinto de giros, cozinha atípica de tanto sabor, dou com a Ponte dos Suspiros; do vento Scirocco do vento Bora, bizantino e maneirista e barroco, desde o ocaso ou desde a aurora, do vento Bora do vento Scirocco; uma vez aqui pude pensar com mais clareza, poucas vezes antes pude admirar tanta beleza; visão de Mann e Byron morando logo ali no Lido, a Basilica di San Marco com o alto Campanário, na Torre dell’Orologio todo meu tempo decorrido, lugares que já não fazem parte só do imaginário; em momento algum da vida tive alguma certeza, mas aqui soube que ainda faria qualquer proeza; rainha do Adriático a noiva minha, estandarte da Commedia dell’arte, minha noiva do Adriático a rainha, dell’arte da Commedia estandarte; a obra de Vivaldi poucos alcançam, Giudecca é onde me deito dormente, aqui Pound e Stravinsky descansam, Onde Satã devora Judas eternamente; sobre a Ponte di Rialto uma serenata, andemos alguma sombra beber, sob a Ponte dell’Accademia uma regata, ao renascimento deixai renascer, sobre a Ponte degli Scalzi uma passeata; a besta a solta em Campo di San Polo, incontornável o Campo della Salute, escalo o Palazzo Contarini del Bovolo, melhor que contra a peste não relute; tanta emoção sinto aqui que me dá até fraqueza, tenho ganas de me deixar levar pela correnteza; normale è più ludico, náutico sapore di sale, morale quando angelico, bélico original o Arsenale, Carnevale tão psicodélico, gótico é o Palazzo Ducale; a capital primeira do Capitalismo, de Marco Polo um primeiro mundo, cândida da desventura do otimismo, o fez saber que não havia o segundo; Iago e Desdemona e Otelo, amores pseudoplatônicos amores, encena-se a teoria do belo, Casanova e outros conquistadores, ou Arlequim ou Polichinelo; apontada como cidade das pontes, rico vidro é o cristal de murano, osterias e bodegas tem aos montes, de lá voltei um pouco veneziano; daqui me vou para viver alguma tristeza, não me parece o fim a morte em Veneza.

Europa VI - Tino Em Flor (Florentino)

Na região da Toscana, está o berço do Rissorgimiento...
Um capítulo da história humana, a cidade monumento;
mecenato dos Médicis, rio Arno que copia do céu a mesmice...
doce estilo novo que amarga a velhice, numismática flor-de-lis...
antiquarios modernos, as melhores gelaterias,
cafés tão sempiternos, entre tantas livrarias...
Galeria dos Ofícios, entre tantas igrejas e a Velha Ponte,
palazzos Velho, Pitti e Strozzi conte, mármore dos edifícios...
Dante, Giotto, Donatello; Da Vinci, Petrarca, Uccello;
fora estão os montes Apeninos, a cor dos mais velhos afrescos...
Della Francesca, Vespúcio; Fra Angelico, Boccaccio;
dentro as piazzas e os giardinos, para os novos olhares grotescos...
Botticelli e Maquiavel; Michelangelo e Galileu
luxo de joalheria,
vidro e cerâmica para o artesão,
pégasos e centauros juntos estão,
gasta ourivesaria...
tabernas empoeiradas, pitorescas trattorias,
bibliotecas organizadas, festivas as pizzerias...
noite clara de mistério,
Catedral Sta. Maria del Fiori e além dela,
também a Basílica de Sta. Maria Novella,
são Duomo e Batistério...
aos artistas renomados,
parla David com todos nesta cidade do lírio,
Medusa e Perseu ambos comigo petrificados,
 de urbanidade e delírio

Europa VII - amoRoma

Io mi ricordo das sete colinas.
Dos planos do Lácio, das margens do Tibre.
De Enéias no Submundo e da loba capitolina,
mãe adotiva minha e do irmão que mata irmão.
S.P.Q.R. quer dizer: Sono Pazzi Questi Romani.
Canela da bota submersa no Mediterrâneo.
Cidade que contém todo um país, capital do pecado capital.
Roma perdeu o Império, não a majestade.
O sangue aqui está em casa, e toda a glória é rasa.
Então, entre cappuccinos e cigarros, ciceroneio-me.
Tomo meu tomo e leio: aquele cristão fascistão do Papini;
e tomo um gelato pela dolce vita.
Estou conhecendo Mamma Roma, cinecittà aperta;
cidade das mulheres, de pernas abertas para os turistas.
Aqui sonho em esplêndido P&B, mezzo Fellini mezzo Mastroianni.
Antes que acorram crepúsculos em dourado e vermelho.
Tardes lúdicas no Circus Maximus.
Cidade antiga, medieval, renascentista.
Andei muito por aqui, até aqui, e estou boquicerrado,
pois quem tem boca vaia Roma.
Capitólio, entre Brutus e César; Templo de Júpiter, entre Nero e eu.
O tempo passa, a História continua.
Vi um elefante carregando um obelisco desde a Praça Veneza,
pela triunfal Via dei Fiori Imperiali, até o Coliseu.
Por menos meu amigo Ovídio foi expulso daqui.
Mamo da lupina urbe de brancas tetas como o próprio leite.
Olho e passo: é ao mesmo tempo inferno e paradiso.
O Mausoléu de Adriano e o Mercado de Trajano.
Manjo tudo, que me faz bem... pasta, pasta, pasta!
Entra pela Bocca della Verità, pela Cloaca Maxima sairá.
Aqui, ruas e prédios dão prazer de percorrer; tantas, tantos. 
Vide pontes, torres, muralhas, arcos, pórticos, colunas e passagens.
Vários templos, igrejas, basílicas, catacumbas, catedrais.
Palácios e castelos, museus e murais, termas e aquedutos.
Estatuária à frente, atrás, dos lados e até embaixo.
Sítio arqueológico em plena urbe,
ruínas que sobreviverão à cidade nova.
Anoto o que noto, poeta que inspira e se inspira de poeira.
Isto sim é o próprio velho, o autêntico,
exemplo heróico das eras, templo do tempo.
Doeu-me a vista nos quartos de Rafael,
o pescoço sob o teto de Michelangelo.
Confesso: um americano deslumbrado é o que sou.
Os daqui devem ser loucos... como se acostumaram?
Villas Borghese, Doria e Ada, onde os meus entressaias.
Aqui a Pirâmide de Caio, ali a Porta de San Paolo.
Sento e leio e fumo pelas piazzas incontornáveis,
della Repubblica, del Popolo, di Spagna,
Navona ou Campo dei Fiori.
Embebedo-me diante das mais lindas fontes barrocas;
e de costas para a Fontana di Trevi já repleta,
por sobre meu ombro uma moeda e um desejo, voltar...
Enquanto estive em Roma o Papa esteve em São Paulo,
o que me pareceu muito conveniente a ambos. Sim...
Volto para casa amanhã, mas amei-te e já tenho saudades,
ó Cidade Eterna! Numa pedra milenar, eu,
um dos últimos pagãos que lá estiveram, escrevi:
EU ME LEMBRO.