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13 de agosto de 2007

Nuvens

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As nuvens pareciam fantasmas
Os fantasmas pareciam verdades
As verdades pareciam problemas
Os problemas pareciam solidões
As solidões pareciam subterfúgios
Os subterfúgios pareciam liberdades
As liberdades pareciam tédios
Os tédios pareciam notícias
As notícias pareciam desejos
Os desejos pareciam alquimias
As alquimias pareciam amores
Os amores pareciam violências
As violências pareciam prazeres
Os prazeres pareciam mitologias
As mitologias pareciam perfumes
Os perfumes pareciam linguagens
As linguagens pareciam espetáculos
Os espetáculos pareciam viagens
As viagens pareciam desesperos
Os desesperos pareciam miragens
As miragens pareciam pânicos
Os pânicos pareciam amizades
As amizades pareciam pudores
Os pudores pareciam dúvidas
As dúvidas pareciam incêndios
Os incêndios pareciam torturas
As torturas pareciam discursos
Os discursos pareciam loucuras
As loucuras pareciam tempos
Os tempos pareciam possibilidades
As possibilidades pareciam boatos
Os boatos pareciam traduções
As traduções pareciam exibicionismos
Os exibicionismos pareciam digestões
As digestões pareciam orgulhos
Os orgulhos pareciam memórias
As memórias pareciam atrasos
Os atrasos pareciam traições
As traições pareciam isolamentos
Os isolamentos pareciam festas
As festas pareciam rancores
Os rancores pareciam músicas
As músicas pareciam retornos
Os retornos pareciam nuvens
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Ufano


E daí se embora heróico, nosso povo não tivera suficiente braço forte para conquistar o penhor de uma igualdade qualquer? És sim Pátria amada, idolatrada! Nem tão risonho e límpido tem estado nosso formoso céu; ocultando, ás vezes, a própria imagem do Cruzeiro. Tenho-te ainda como gigante, continuas belo, forte, impávido colosso; embora para "persona non grata" teu futuro não espelhe tal grandeza. Sinto-me filho desta mãe. "Mãe terra", "mãe ar" e "mãe mar", abomino teus opressores - diretos e indiretos - pois, dentre meus irmãos, acham-se alguns ingratos desnaturados... deles, há uns que optam por ferí-la em crítica; outros, tapeá-la como se caduca fosse. Mas tua mais infame cria é aquela que não te acredita, achando que permanecerás deitada eternamente em berço esplêndido. Sempre terás mais risonhos, lindos campos do que a mais garrida terra. Declaro-me perante ti, mãe, símbolo de amor eterno. Adoro-te, mãe gentil. Permaneço fiel a ti e a teu escudo verde-louro disposto em forma de flâmula. Prova-me levantando tua clava da justiça e verás que eu, filho teu, jamais fugiria à luta. Comprova e aprova meu laço contigo, ó Pátria amada, Brasil!

10 de agosto de 2007

Magma Palavra

Eu estou em atividade
Qual meu princípio ativo
Sob signo do rubro hefesto
Sismo que me lava a explosão
Em contato com desastre natural
Piro instável em erupções efusivas
E declaro paz ao meu deus da guerra
Prometeu-me um conhecimento titânico
Escarlate tal a maior montanha do sistema
Que meu pau e o meu país são da cor de brasa
De tanto premeditar as palavras hepáticas a forjar
Acabei cinzelado com a rara doença das cinzas raras
Eu sou pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico

8 de agosto de 2007

Orientação

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Entre nostalgias tantas sapeio as saudades que ainda formigam e meu peito é aquela várzea ou éden de perene travessura cujo calor que venta no noroeste a amizade em cu permuta ainda tão próxima de mim era tudo vales sob sereno pluvial na punheta coletiva de antemão como ferrovia da minha sanidade que começava como a sombra necropolitana nos pomares de luas e insolação na pequenina paulisticidade excessivamente desconfiada pois tanto gelinho solitário é o silêncio de um povo baldio com a vida alheia de mão em mão na clarice da água fresca artesiana da terra natal do algum engenho a usina de esbagaçadas letras na sorveteria onde me refugio em memorável pracinha de aluvião levando vida daquela que me arremata na exo-boataria interiorana como o reinício da minha estrada de cavalgada na fazenda do céu de caralho por campos sob orvalho torrencial de cachoeira ou carrapato no capim sendo a senha a senda uma bússola extrema na média daquele tédio maior que o dia.

6 de agosto de 2007

Pã Americano

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Adentraram o ambiente como a um palco mítico, de revelação, esquecimento e paixão, distantes mais uma vez do resto da arquetípica fauna de que nessas ocasiões se colocam a parte. Arandelas iluminavam o quarto indiretamente, nenhum dos dois queria falar, ela tinha acabado de ligar o chuveiro e ficava andando pelo quarto ainda vestida como se desfilasse, ao som do serialismo atonal. No mesmo velho Hotel Pan-americano ele havia escrito infinitos poemas sobre a finitude, deitado sobre a mesma cama sobre a qual agora estava sentado a pensar atento ao que via e ouvia e mais que tudo como sentia (e como, ao mesmo tempo, sentia o que via e ouvia e como, também, sentia através do que via e ouvia) a arte, o amor; a arte de amar, como se ainda a primeira também fosse a última vez, em hotéis com chuveiro, cama e Stravinsky. Transcorrido o tempo do qual ele extraiu o resumo (e a escrita dele acima) do pensamento acima (do qual o escrito acima é um resumo), o espaço de encontro dos olhos dos dois foi sob os batentes da porta do banheiro... já seus ouvidos ainda hesitavam (enquanto suas cordas vocais hesitavam) a se encontrar. Ainda ele aguardava para ver o que ela viria a fazer (para só depois escrever isto aqui), pois ele (um tanto por timidez, outro por esquizofrenia) sou (eu... percebeu?) um outro.
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Distraí-me escrevendo isto ao final da música, logo após Syrinx começar a andar em minha direção lentamente, cambaleando os calcanhares em espiral sobre o carpete. Eu estava de costas, aumentando o volume do rádio, ela me tocou o ombro quando a voz do saxofone começou a pairar sobre nós como pássaro de fogo, meu coração batia de improviso em compassos mais do que improváveis; ela ficou me olhando, nua ao lado da cama, calada e ainda pingando, a toalha em turbante. Nossos olhos resvalaram furtivamente uns nos outros quando olhei para ela, que desviou o olhar para a calcinha muito sexy muito pequena muito vermelha que usamos um pouco na noite retrasada, e para a calcinha preta pequena sexy muito muito muito da véspera. Lembrava-me sem saber porquê, dos dias do meio de fevereiro, lembrava-me dela nessa época, quando sei que de fato não a conhecia, quando, embora continuássemos circularmente nos polarizando, tínhamos uma situação inversa: ela levava uma certa vantagem sobre mim, que no entanto a perseguia sem sucesso. Desde anteontem ela me rodeia e me enreda como uma pequena lua saturniana, posição que reputo como mais cômoda e que desta feita confesso preferir.
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Olhou-me então desviar o olhar negro que tinha nela para "O Arranca Corações" sobre o criado mudo, na verdade olhando o próprio móvel e não o livro, ambos mudos, nós quatro calados menos os flautins que nos sopravam o que fazer. Quando vi, ela olhava (blue noted look) daqui para lá de outro para um lado e tal e etc, procurando por algo... disse “cadê teus cigarros?”, ao que respondi sem falar, tirando o maço de um lance de sorte jamais abolirá o acaso de dentro do bolso, pondo-os sobre sua mão estendida, que fez certa questão de tocar levemente a minha. Quando, “você fuma?”, perguntei. Então “não, não”, ela disse e “não se preocupe, não vou jogá-los pela janela”; para onde se dirigiu acendendo o bastãozinho branco com dois palitos em uma tentativa. O cheiro de fósforo e tabaco que impregnaram a suíte de doce e de acre, parecia mesmo que era o cheiro da melodia que eu sentia vir de sua boca através do cigarro que fumava amparando-o como instrumento musical, soando algo entre jasmim e lilás, provavelmente o trompete.
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Levantei-me contornando a cama e fui até ela, já agora vestida, vi que olhava para a Rua Augusta bem em frente, sob fina garoa, eternamente movimentada no néon daquela hora. Ela notou minha intenção de pegar meus óculos sobre o outro criado mudo, dissuadindo-me com um beijo na boca, de gosto brutal, ao qual correspondi; ela notou minha ereção por estar ficando brutalmente excitado, a qual ela correspondeu levando minha mão pela mão para passear no seu sexo... procuraria sentir na ninfeta a ninfa, pequenos lábios sob um beijo imenso que me faria encontrar a mim mesmo ao perder os sentidos. Por baixo da saia entrei por cima da calcinha; A terceira! A última? Langerie pequenina cuja cor saberia a seguir, sexy como sempre foi. Não sei se posso dizer que comprovamos sua eficiência acessória ao ato, sua possível mas improvável necessidade em essência, algo que sai de cena para deixar algo entrar. Tudo foi muito rápido, como um fuga, em contraponto.
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A música havia cessado quando acordei, tinha muito cabelo dela em minha mão, senti-me bem lambuzado sob os lençóis, senti o peito e as costas arranhados quase como se pudesse ouví-los cicatrizar; não vi nenhuma das três calcinhas sobre o aparador, não a via mas havia algo, nunca foi diferente... vi no espelho o recado em batom lilás (talvez a cor da última peça íntima?), a caligrafia mal feita feito bom grego arcadiano, bem mau de decifrar, com as duas letras iguais da palavra “local” incidindo sobre a minha cara como curtos chifres diabólicos e, como sátira mordaz, terminava por não assinar, assassinando meu rosto refletido na página improvisada com um “risos, risos” abreviado. Encontrava-me sozinho de novo, perdido em minha companhia; hospedado na gruta do hotel ou escondido na suíte da montanha. Sentei-me sobre a cama num tombo atrás de mim, perdido ou pior, atrapalhado; acionei sem intenção o controle remoto do televisor onde o comentarista anunciava em máximo volume “el final de los Juegos Pan-americanos 2007!”. Desliguei. Olhei para a cama e foi com se tivesse uma visão dela ainda dormindo, miragem em meio ao mormaço de silêncio. Meio torta, com o quadril arrebitado e um seio e uma perna à mostra. Liguei de novo o rádio e ela acordava, espreguiçando-se exausta da minha imaginação, afagou os próprios cabelos alvoroçados e me disse “temi você como todos aqueles que necessitavam atravessar as florestas à noite, pois as trevas e a solidão da travessia os predispunham a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente, a você atribuídos!”. Fui tomado então do mesmo pânico, num ímpeto trágico cocei as orelhas peludas e vesti o jeans sobre as pernas caprinas, saindo correndo atrás daquela que se recusa com desdém a me amar assim como sou. Atravessei apaixonado os corredores como se fossem vales, correndo como se dançasse, buscando como se caçasse ainda uma vez mais a minha ninfeta, Syrinx.
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Surpreso, alcancei-a já tão diferente, como se já se tivesse outra forma irreconhecível, tomando o seu desjejum sentada placidamente sobre a cadeira de bambu. Sentei-me de frente para ela e fiquei parado observando-a comer com delícia um tanto voluptuosa seu pedaço de pão previamente molhado na xícara, deidade intangível entregue a segurança frugal de seu disfarce de comensal, insular como o farelo boiando no chá. Incontinente em mim mesmo pergunto se “eu vou te ver de novo?”, “digo, se não me lembro não quer dizer que foi ruim”, “você, afinal, gostou?”. Ela fez de morada uma pausa demorada antes de engolir, e outra depois, para dizer me fitando de esguelha “não faço questão de lembrar de mais nada além daquilo que você esqueceu... já estamos no tempo em que as coisas já deveriam estar de volta aos seus lugares... mas essas inversões de papéis sempre são arriscadas, eu não deveria ter conseguido te alcançar, nunca!”. “Eu gostaria de entender”, disse eu a ela, que se riu divertida comigo. Falou “bebemos pouco vinho dessa vez, apesar da minha ressaca, talvez esse tenha sido o problema... como bons pagãos que somos deveríamos não nos importar, mas a natureza e o universo são o espaço do tempo... assim, deveríamos nos esquecer de novo”. E ainda continuou como se estivesse falando com outro alguém, não um simples mortal como eu, “...o resto, teu nome, endereço, telefone, desconheço... é tudo o que sei... fugindo de fugir de você, escondi-me em teus braços”. Ela se levantou com o canto da boca ainda sujo de pão, passou a mão maliciosa pela minha barbicha, encaminhando-se para a porta sem se despedir, comigo inerte no mesmo lugar parado no tempo. Quando ela se voltou para me convidar, na verdade para confirmar nosso encontro, assim “mesmo lugar, mesma hora?’, e eu, “quando? hoje? amanhã?”. Ela deu uma gargalhada e se foi sem olhar para trás, para sempre como nunca.
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Achei que poderia reencontrá-la para novos festivais de aproximação e carnaval e recusa, mas não. Eu estive daí para sempre, voltando dia a dia ao mesmo local... e reescrevo a mesma história em prosa e ao inverso; mas como voltar àquela mesma hora, se aquela hora já passou? O pânico ainda hora a hora me assola, por saber que mesmo sem lembrar jamais esquecerei de ter conseguido alcançá-la, invejoso dele, o único que a pôde reencontrar no onde e quando predeterminados circularmente, e que ao menos a pode ver e ouvir ao outra vez fugir dele; estímulo que me falta, para mim já mítico estímulo, como somente o terá ele em sua fixação de perseguidor.
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Era


O tempo da ação do tempo
Sempre leva uma eternidade
Mas já nuncamente jamais

O livro mofa
sobre o assoalho estalando
O portão enferruja
em meio à parede descascando

Ainda um dia quem sabe
Chega-se de novo a antiga idade
História juvenil da impermanência

A fruta apodrece
como o pão embolorando
A faca desfia
pelo relógio atrasando

Esquecendo a memória
A desatualizar o contemporâneo
Desempilhamos as épocas

31 de julho de 2007

Procura-se-me Urgente!

Homem ocidental branco, educado e trabalhador, de origem luso-ibérica, jovem adulto brasileiro, de formação judaico-cristã não ortodoxa, magro de altura mediana, heterossexual de classe média, procura por si mesmo, o outro. Quem o identificar favor informar-me a identidade à paisana dele, a secreta eu já conheço. Não o agridam antes de perguntar a ele por onde andou, se ainda se lembra de tudo e se ainda me quer ser.
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26 de julho de 2007

Mitografia

Nunca creias no verso lindo
Não estou a colorir a verdade
Eu que estou apenas mentindo
Artifícios sobre uma realidade
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Faço crer em uma convincente fantasia
Estou sendo autêntico falsário da ilusão
Reelaboro as certezas como à joalheria
Para causar a melhor errônea impressão
Um conto de fadas que não se evidencia
Conto com inobservada falta de atenção
Cruzando essas pernas curtas de bijuteria
Para usar do simulacro ou da simulação
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As fachadas mais sólidas com gesso
É fato que construo, tijolo por tijolo
Encubro com o rococó pouco espesso
De dezoito quilates por ouro de tolo
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Desconfies sempre que me ver caricaturar
Sou aquele que promete quebrar um juramento
Procures-me nas entrelinhas que sei maquiar
Para que só me julgues por aquilo que aparento
Acautela-te com o esse perjúrio subliminar
Entendas que não o faço por arte de fingimento
Saibas que vais perder-te ao saber te achar
Ajo assim pelo teu, meu, mútuo entretenimento
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O real significado sempre se escapa
Faço assim pois precisas ludibriar-te
Nunca mais julgues o livro pela capa
A vida sublimada se desvela em arte

24 de julho de 2007

Pocilga Literária

O ofício de trabalhar com tinta tem algo de porco. A proximidade com algo que mancha, borra... Sobretudo o escritor, que trabalha com o absurdo e a desgraça da condição humana, filtrando os detritos da sociedade. Tento melhorar o papel em branco, mas enquanto o faço, às vezes, sinto que estou fazendo somente gastar tinta e sujá-lo, mas continuo escrevendo; parece-me que lanço uma quantidade infinita de signos na página, cada um deles um argumento, cada palavra querendo discordar inutilmente do nada, do vazio do papel. A estúpida suposta pureza do branco entre linhas finas é dado, é o anfitrião, e o escritor é o visitante rude e agressivo que discute acaloradamente com ele, o primeiro é calado e ataráxico, argumenta apenas com seu silêncio sereno e pacífico, e o segundo é um ignorante falastrão que nunca quer ceder e que só acha que convence pela violência barulhenta das letras e dos fonemas, agride-o com tinta. Quando o redator se cansa e vê o que fez, percebe que só fez sujeira, um servicinho asqueroso e nojento, com seus garranchos ele embute na página com extremo exagero seus desconexos argumentos: pensamentos gordurosos e miudezas estéticas encobertos por uma fina película de incapacidade intestina. A página ainda assim contem mais branco do que tinta, o que o motiva a recomeçar. Carrega nas tintas. Literatura é uma porcaria, escreve bem quem melhor sabe encher lingüiça.

23 de julho de 2007

Onívorofertório

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a maçã na boca da carnificina
fazendo com tripas, coroação
boas intenções ao molho pardo
visceral é faltar três refeições ao dia
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pedo-fagismo lambe-dedos
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quem são essas pessoas que se alimentam de outras?
vamos comer fora, auto-flambado, mais um tibetano!
sobre as ruas roem as sobras
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barrigadas de sensaboria frugal
refém são de massas mero palativo
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... moralmente, onde a fome nos serve...
ao sugo siciliano o nosso prato mais caro nada
...quando expira, esteticamente, o banquete...
balas perdidas que não acham doces bárbaros
...a vingança gulosa, como se cruamente...
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é voraz como degusta o comensal
o mal passado é apenas o aperitivo
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filé mignon da crítica literária
à força de um es-quar-te-ja-men-to se desfaz a união?
hoje foi dia da carcaça, amanhã será do conservador!
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tele-culinária anti-coagulante
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ovelha podre ou maçã negra
fundamentos da violação carismática
a nossa veia democrática em sangria
nessa vida, desossei-o, mas há flores

18 de julho de 2007

Contra a Poesia

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Desde que me alfabetizei, leio; desde que soube como ler, escrevo; fazendo-o mais e mais, até artisticamente, desde então. Com isso - ser escritor - não consegui muita coisa na vida, pelo contrário... é um fardo pesado que carrego como karma, um destino trágico do qual não pude fugir; ainda por cima, tornar-me poeta somente trouxe-me revés e desdita, desgraças mesmo. Tornei-me uma pessoa pior, ao ponto de por vezes me perguntar se ainda sou digno de me intitular "pessoa", título que por si só já seria uma maldição, filosoficamente. Estou citando, não recitando.
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Algo como um sacerdócio que me marcou profunda e indelevelmente ao buscar ser um poeta experimental, levando uma vida experimental. Tudo o mais que existe, eu perdi. Posso me considerar o maior derrotado, perdedor, na medida em que fui extraviado da vida normal, morna e confortável, de toda a gente; sem deixar o convívio dessas gentes e de ser eu mesmo mortal. Carrego esse dom como um aleijão, um horrível terceiro braço que quando não está escrevendo serve para me mutilar; sou mais de um agora, mas esse outro ente terrível que também sou eu, eu carrego comigo para outro e um lado como irmão siamês que me dita o melhor da vida, e me interdita ao tentar desfrutar dela. E eu um dia QUIS tudo isso. Sou um iniciado, agora que tudo está terminado.
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Já não acredito em Deus ou no Diabo, além (ou aquém) do mal e do bem; se há outra forma de vida fora da Terra, é inteligente o bastante para não vir se perder por aqui; não tenho esperanças de revolução alguma que nos redima ou melhore o mundo, sendo mais do que um pessimista ou niilista, um cínico; entrei em um processo sem volta de transgredir quaisquer limites que me impunha antes a minha humanidade perdida. Como outros como eu, cruzei as portas da percepção, olhei de frente o cintilante conteúdo das latrinas; fui a autêntico ladrão de fogo e antena da raça; recebi a visita do anjo torto que me madou ser gauche na vida, experimentei em mim todos os venenos, fiz-me louco e vidente com um completo e racional desregramento de todos os sentidos; inalei perfumes de carcaças e cabeleiras; morri muitas mortes difíceis como partos sangrentos; viajei o mundo em busca de mim e perdi meu tempo procurando por mais lembranças. Morro pré-natal pois nasci póstumo. Tenho vários livros escritos que ninguém ainda pôde publicar. A Poesia é um tipo de monstro de vanguarda, defendei-vos dela vos fazendo gárgulas... ponde uma carranca na linha de frente do vosso analfabetismo poético. Olhai e não passeis!
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Não queirais ser poetas, vos vaticino o futuro e assim vos aconselho. Não busqueis ser mais profundos, toda Arte é completamente inútil. A Poesia não está nos livros, está na vida, não a reproduzais, gozai-a. Não queirais criar mais Beleza escrita, que tanto mal faz a quem a aprecia, que rapta e mantém cativos àqueles fetichistas que sem nenhuma ingenuidade a idolatram. Mantende-vos puros e afastados disso, é um perigo e vossa felicidade pode estar em risco. Sede simples, nascerdes humanos já foi algo demasiado complexo para uma única existência, a ataraxia deve ser o caminho mais certo para a felicidade. Não vos inflijais tal ônus; sabeis que vós não preciseis de nada disso, ainda que a própria Poesia vos diga ao pé do ouvido que precisa de vós. Eu vos admirei e invejei em segredo pelo que não sois. Estas palavras não querem formar uma peça artística, não são obra de ficção; não querem servir outros, apenas a vós mesmos... por amor de vós, deixai-as calar profundamente em vossos corações e tende em mente que podem ser um último aviso. Não vades por aí... hipócritas leitores!
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27 de junho de 2007

Espelho... espelho... nosso

Suma, de quaisquer raízes desista
Eis que falta-me o chão e me ufano
Já não é eco da maldição narcisista
A total ditadura do rosto humano
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Egóticos, voyeristas ignaros
São tudo que sempre evitei
Saí só para comprar cigarros
E foi que nunca mais voltei
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Tarde, eu mesmo já não me acredito
O poema é apenas isso que você leu
Leia melhor apenas se achou bonito
O acróstico parece ser para você e eu

26 de junho de 2007

Cor(ou)Ação

Paixão mesmo, das que apenas existem, a que sinto. E saudades. De tudo aquilo nosso. Sabes. Bocas, bravezas, brincadeiras, bravatas. Falamos gostoso, bem gostosinho... quase gozo. Supér mais que fluo... Vou. Soube de e por ti de istos e aquilos. Re-imagino. [T {(tê) são}]. Beber uns goles nos refazendo companhia. Juntos. Alugar ou não há? A ir, indo ainda. Divagandando. Vamos sim vadiar sim vamos sim viajar. Sertodo errrado. Vê nus... amar-te. No pequeno anel só cabe teu nome. Até não mais quero poder; quero até não poder mais. Você. É... transar é que é... bom... só contiguamente: a minha mente contigo. Amo. Por quê? Por que não? Exclamo? Interrogo! Rogo e clamo... por. Ruma o de sempre e como nunca, a cada e de todas as vezes por uma. Encontrar alguém assim na vida é se perder assim na vida de alguém. Ó... Eu aqui tenho um mal de amor e é muito longe o que sinto; bem aí!

25 de junho de 2007

Perfídiáfano

Eu vou te contar tudo o que está acontecendo.

Hoje quando acordei, a primeira coisa que fiz foi finalmente olhar umas fotos minhas de infância que estavam com a minha irmã, que as deixou comigo quando veio aqui. Eu ainda não as tinha visto. Em algumas delas estou naquela idade na qual não se pode saber se o bebê é menino ou menina, nem tampouco é possível reconhecer já muitos traços da aparência que tenho hoje. Pensei no que a tua avó me disse imediatamente após pensar aquilo. Uma das fotos trazia uma mulher meio de costas, com um bebê de colo, minha mãe e eu; mas também poderia ser a tua mãe e você. Agora penso que também poderia ser outra mãe com seu filho no passado e, você entenderá o porquê mais adiante, no futuro.

Um detalhe ao qual não dei muita importância na hora é que a minha mãe em algumas fotos parecia muito com uma das irmãs dela, uma que você conheceu; em outra foto ainda, meu pai parecia um tio irmão da minha mãe, cuja ex-mulher você conheceu também. Isto tem de certa forma conexão com o casamento.

Ao descer do quarto, antes de sair, minha mãe me contou que a minha prima (que você conheceu) vai se casar em dezembro do ano que vem, e que você e eu seríamos oportunamente convidados e, pensei comigo, provavelmente como padrinhos, novamente. Aqui eu já havia me dado conta que todos os fatos que ocorrem realmente guardam certa ligação entre si no tempo e no espaço, quase sobrenaturalmente... mas agora atordoado confesso que eu ainda não tinha uma real idéia do quanto. A minha vida assustadoramente faz parte de um esquema que eu julguei poder fingir ignorar, relacionado também com todo o trágico no mundo e os sentimentos que trago comigo desde criança, desde o ventre... ou desde (e até) onde? E o mais importante para mim: por quê?

Saí para procurar trabalho, um trabalho qualquer, com um único objetivo bem definido, e o pensamento intensamente voltado não para os mistérios da vida e as coisas inexplicáveis que acontecem no mundo, inclusive ruins. Mesmo conosco. Eu pensava em você e em como você estava pensando em mim. E era bom.

O dia passou rápido apesar de ter sido um tanto chato e desgastante. Imagino que o teu dia tenha passado bem devagar, que tenha feito muita coisa. É estranho?

Uns momentos daquelas horas andando pelas ruas estão me ocorrendo: de vez em quando, ao longo do dia, eu pensava em nomes, nomes de pessoas que conheço, bem próximas, no meu, nos dos amigos e amigas, no da família. Isto doía, sobretudo em alguns instantes em que o meu nome me ocorria.

Chegando em casa tive de agüentar da minha mãe uma conversa muito desgastante sobre deveres e responsabilidades, sobre comprometimento. Senti muita pressão, até porque ela usava argumentos com os quais, ela dizia, todos concordavam, sobretudo sobre mim e a minha atual condição; pior é que me falava sobre o eu que sempre fui, essencial, e um eu que eu deveria ser, ideal. Contava-me sobre coisas que ela, meu pai, minha irmã, meus amigos e até você pensavam sobre mim. Procurei não dar ouvidos, mas agora sei que algo disto entrou a ainda está em mim enquanto contra a minha vontade relembro.

Pensei muito em você, refugiando-me na idéia de nós dois juntos, felizes.

Então, você me telefonou, bem antes do que eu esperava. Nós nos falamos aquele tanto, que foi bem pouco; e o que falamos, bem estranho. É uma sensação que me tomava durante a ligação, não baseada nas palavras ditas, mas nas não ditas. A exceção poderia ter sido um momento em que eu ia dizer algo e não disse. Quer saber o que era? Logo mais adiante você finalmente saberá. Continue.

Saí pouco depois. Na rua, era como se tudo o que eu ouvisse começasse a fazer sentido quando interligado com as outras coisas, ou como se eu recomeçasse a perceber esses sentidos aos quais ainda não havia solucionado bem. Foi aí que vi o bebê no colo da mãe. Era como eu ou você, o rosto familiar e ao mesmo tempo indistinguível, também o da mãe, que atravessava apressada a rua.

Na viagem de volta, lembrei do sonho que tive a noite, e liguei os pontos:

Várias pessoas que conheço e conheci, algumas já mortas, e algumas que não reconheço (mas acho que não cheguei a conhecer ou ainda vou conhecer), caminhavam em minha direção, eram muitas e tinham uma aparência de que vinham para ajudar, apesar de causarem no fim tanta dor. Todas essas pessoas, cada uma delas, tinham no colo um bebê, o mesmo de antes, mesmo de sempre.

Cercaram-me como se me acolhessem e lembro-me de me sentir muito amparado.
Os bebês olhavam para mim como se estivem gostando de me ver, felizes até por isso embora não sorrissem de verdade, pareciam mais preocupados, o que me preocupou. Eu não acho que sabia que estava sonhando, acho que por isso foi tão real apesar de algo possivelmente impossível; talvez por isso nunca me lembre dos sonhos. Neste exato momento em que escrevo isto me vem a certeza de que é isso mesmo o que acontece, deve ser para eu não os interpretar como procuro fazer com o que vivo quando velo. Mas será que estou não estou dormindo agora? Parecia raciocinar como nunca enquanto sonhava; eu sei agora que sonhando vou a lugares e tempos, e são sempre o mesmo, onde e quando tudo acontece.

O que aconteceu foi que conheci aqueles bebês um a um e eram iguais na aparência, embora não exatamente a mesma pessoa. As pessoas que os traziam tinham cada uma um rosto diferente bem definido, mesmo as que eu não sabia ser; apesar disso, de sua aparência e, ao exato contrário dos bebês que traziam, pareciam ser a mesma pessoa, embora tivessem rostos de mulheres e de homens, jovens ou velhas. Eu percebia mais algum sentido oculto nisso, mas somente pude perceber o suficiente quando os bebês falaram pela primeira vez; todos o fizeram ao mesmo tempo, em uníssono, com suas vozes estridentes que agora mesmo parecem ainda ecoar na minha mente dizendo:

"Tem o coração seus motivos?
Eu e você não somos amados?
Por que nosso amor nos trai?"

Então agora eu sei o que muito daquilo quis dizer, no sonho e no resto do dia. Algumas pessoas para as quais minha mente se voltou hoje ao despertar eram traídos e outras traidores, e no sonho todas eram pessoas traídas que conheço. Entendi cada sensação deste dia, da minha vida toda, dos momentos com você e, sobretudo, àquilo que você disse e não disse ao telefone, todos os casamentos, inclusive o nosso. Talvez o bebê fosse eu mesmo, já que eu sonhava, mas podia ser cada possibilidade morta de você e eu trazermos à luz um novo ser. E por quê?

A pergunta que eles me fizeram já responde isto. Eu sei que você me traiu.

E assim o que acontece é que tudo se acaba, nada mais importando entre nós. Você fez o que fez, sem me contar nada do que está acontecendo. Não sei como, quando, com quem ou de que forma foi; se foi bom ou ruim, fácil ou difícil, se gostou ou não. Aconteceu, não há retorno. Sinto que foi hoje, talvez enquanto escrevo isto, agora. Você terá tido motivos que não sei responder. É impossível não te perguntar e é tudo o que nós ainda queremos saber, eu e o sonho que tive.
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Meu amor, por quê?
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15 de junho de 2007

A Necrofilia da Arte

Eu estive em Paris fazendo Arte

e visitei os cemitérios de Montmartre,
Montparnasse e Père Lachaise...

não morram de inveja!



Marcel Proust
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Jean-Baptiste Poquelin (Molière)
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Vaslav Nijinski
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Amedeo Modigliani

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Theóphile Gautier
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Jim Morrison

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Guillaume Apollinaire

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Gustave Doré

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Henri Beyle (Sthendal)

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François Truffaut

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Gérard de Nerval

. Frédéric Chopin
. Jean-Paul Sartre & Simone de Beauvoir
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Heinrich Heine
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Charles Baudelaire

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Honoré de Balzac

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Edgar Degas
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Émile Zola
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Jean De La Fontaine
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Oscar Wilde
. Julio Cortázar

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Soneto Velado

No início era a treva analfabeta
Superada já nasce a vanguarda futura
É passado o tempo da ampulheta
Jaz no mim dos centos tal literatura

Necrópole ou biotério?
Morra pela hipérbole!
Biotério ou necrópole?
Viva pelo cemitério!

Viuvez menos marmórea seria matar
Frieza mais letárgica será enterrar
Morbidez menos mortal seria profanar
Certeza mais incorpórea será ressuscitar
Palidez menos trágica seria assombrar
Beleza mais abismal será epitafiar

11 de junho de 2007

Europa, Uma Constatação


O meio fio me fia a fio
Andando sobre bolhas
Abandono a pele por onde passo
Caminho de bronze no zênite da vida
De colo até riso trip ululante
Flano pueril por entraves espiralados
Logram largados lugares alegres
A guia calçada me passeia

A minha paixão não tira férias:
É a falta que as figuras que me faltam fazem
Q: “Para que tanta perna, meu Deus?”
A: “Para teus olhos fatigados, com o Diabo!”
Ninfas com faunos sorriem em riso
Há efebos, bofes e suas fobias
Falo para xoxotas da saudade da língua
Com sofismas, sofreres e filosofias

Um reingresso ao impagável
Pois farra pois fiesta pois folie
O gênio que continua a florescer
Um som flameja rubro sobre tamancos
Baixa gastronomia sob bandeiras geriátricas
Hashish, shamon, belladonas
O vinho é da casa, novinho, saca?
Alfândegas barram pândegas
Toreio turistas, jovem viajor

Cartão postal com cartão de crédito
Ao inferno se vai de Porche®
Vespa® não águia e Puma® não lobo em Zooropa
A.D.I.D.A.S.®: All Day I Dream About Sex
Gitanes® e Galoises®, todos os teores
Você pode se enfrasquecer num Chanel® n° 5
O sorvete sem seguro que seguro sorve-te

Porto é uma ressaca sempre por recomeçar
Lisboa é mesmo um peso na memória
Madrid é uma puta que se deixa beijar
Barcelona é uma festa exclusiva para penetras
Paris é a luz que nunca brilha nas necrópoles
Veneza é um labirinto de fedores mascarados
Florença é o berço da divina decadência
Roma é um discípulo que não supera o mestre

Meninos acordeonistas me ninam
Da música de outrora quase muda na aurora
Pombas atentadas explodem-se por migalhas
Faceiras e zumbis ou fascistas e zombeteiras
Diz-me o busto no belvedere do parque:
“Interroga tuas respostas...”

Portugueses minuciosos não sem alguma nostalgia
Portuguesas irritadiças praticantes do pudor
Espanhóis cafonas de narizes amigáveis
Espanholas de conversas picantes e pouca leitura
Franceses orgulhosos com seus pães nos dentes
Francesas bacharéis em soberba sem bunda
Italianos de riso fácil e orelhas cabeludas
Italianas cansadas de moda e seios grandes

Há que ser tua Arquitetura
Tende à ação esta estação de trem
Jardinagem já nadir agem
Não ria das pessoas na hospedaria
Ria esta tua estatuária

Douro e Tejo quão duros e tesos
Manzanares sob manzaneros aires
Beijos obrigatórios entre Llobregat e Bèsos
Nova onda há no Sena de cinema
Livre no ar tanto no Arno como no Tibre
Carnevale que flui do Gran Canale

O Velho Mundo primaveril
Perpassam pasmas pelos mapas
Douro, Lisboa, Madrid, Cataluña
Île-de-France, Toscana, Veneto, Lazio

Reencandescismento do que é brasil
Ascende-se ao Alpha à torre ferrenha
Circuncisa-se impreciso o circo em pane
Catedrais para deuses de ouro e mármore
Hipócritas cruzes sob confiáveis pára-raios
Replica-me a máquina: salvando Europa...

Reporto velhas novidades
Coisa curiosa, feliz e boa
Freguês derradeiro bar selo na embriaguês
Mad ri eu de tudo aquilo
Pari surreal um aborto
Vê nessa miragem
Flor que me convença
Quero mais!

Memórias de alguns eus que ficam
Parolo com meus ancestrais na rua
Grafo fotos grifo fico fatográfico
Ninguém conhece o europeu que leio andando
Com as mões serve antes
Rebele eis ali que eres
Arborescente em floreio me planto folheando
Regurgita tão somente verborragias
Esta minha e nossa língua mordida
Não descrevo mas desescrevo assim

A dedurar boinas ruins de moles
Uns filmes que rodei que me mostram
Lusitanias, castelhices, merovinginadas, romanessências
Umas fotos que tirei que me revelam
Aporto, libo, medro, embarco, paro, venero, floreio, rumo
Uns versos que fiz que me declamam
A demolir ruína boas de durar

8 de junho de 2007

Eu não morri...

Voltei de viagem, vivo e inconfesso...
confesso que estou vivendo, até feliz!

14 de maio de 2007


Rien? je m' aime... mon non plus!

.

Eu vim ser gauche um direito que me cabe

Nisso aqui estou mas não sou quem quis infelizmente...

Da outra metade distando tanto estarei inteiro?

.

Eu fui quem não sei só sei que alguém sabe

Zoneei o que há entre pensar e sentir e estava ausente...

Viajo tão sozinho e perdido ou tão só estrangeiro?

.

O amor me extraviou sendo algo de que me gabe

Uma atraente idéia sem volta já me espera no poente...

Saberão amanhã reconhecer o corpo passageiro?

12 de maio de 2007

soneto de longe

sei lá o que acontece nesse meu coração
uma vontade de morrer de tão feliz
procuro saber o quê de quem amo então
e sem uma notícia tiro ouro do nariz

não só há em cada rua e ponte e escada, parisienses
lógico sem me perder guio-me apaixonado e flano
sonho com menos covardia em outros continentes
se sabes de algo, cala, e não haverá nenhum dano

da vida sem filtro que trago eu fumo os sumos
dos sentimentos que espero, nem inverdade
da morte que urge em suma vejo novos rumos

da morte que escapo como da banalidade
do entrépido trago urgente, ufanos fumos
da vida em cuja busca achei a felicidade

27 de abril de 2007

20 de abril de 2007

DICOTOMIA

Ver o nosso mundo sem perspectiva
Ouvir o caos sem qualquer proporção
Esquecer com uma memória seletiva
Ignorar estas outras idades sem razão

Tantos ideais de amor em tempos de cólera
Quantas idéias de paz em tempos de guerra
Tanta a paz que o nosso amor demais tolera
Quanto amor mais para termos paz na Terra?

17 de abril de 2007

A Vinda do Parafuso



São Paulo num século XXI, sábado à noite d.C. Por que pizza? Por que não?

Telefonei, delivery portanto. Meia marguerita; meia portuguesa. E assim foi.

Já chegou... abra, abra... vamos comer! E na primeira mordida Deus criou a dor.

Derrepentemente em meio ao queijo derretido em frente; você não adivinha.

Todos me olhavam curiosos acerca do achado. Um cabelo? Não. Um parafuso!

Os comensais boquiabertos perderam a fome e pousaram seus pedaços nos pratos;

expressando as emoções súbitas de suas almas nas mais variadas interjeições.

O objeto tinha não menos que uns cinco centímetros, escuro e meio enferrujado,

diâmetro razoável; retirei-o ainda sujo de massa para o espanto da audiência.

Em meio ao incômodo que sentia nos dentes, ainda cheguei a rir-me da situação.

Aí depositei-o num guardanapo e repeti o movimento de discar para a pizzaria.

“Por favor, o gerente... quero fazer uma reclamação” disse eu à atendente. E então:

“Eu sou um cliente de vocês, servido em casa ou aí mesmo, há algum tempo;

Alguns instantes atrás recebi uma pizza com um ingrediente mais que indigesto.”

Um cabelo? Pior. Um pelo? (ele já tinha alguma experiência para essas situações)

Não, senhor... um parafuso! Tal e qual e tal descrevi-o. E ele: Mas que absurdo!

Pois não é? Veja o senhor que quase quebro um dente, podia mesmo tê-lo engolido...

Por acaso não estariam com a cozinha em reforma? Pagam bem o pizzaiolo?

Ele pode ter perdido um parafuso... ou terá sido o senhor? Não me dirá que é meu!

O senhor e eu concordaremos que não há nada de engraçado numa matéria jornalística s

obre isto causar no público o esperado demasiado riso, que logo se torna calúnia.

Oh, mas é claro... – ele parecia mesmo amedrontado – ...vou te enviar outra de imediato.

Sem custo algum, espero... Ah, sim, obviamente... Com a devolução do dinheiro até...

Ah, evidente, senhor... não se preocupe... não vai se repetir... por favor, desculpe-nos...

Eu agradeço pela atenção, senhor gerente. Afinal foi mais que tudo um belo susto.

Mas eu me esqueci de perguntar teu nome... É Henry James, senhor, para lhe servir.

14 de abril de 2007

Poemar

Águas profundas em versos superficiais
Enchente sublunar só um caos sem plural
Só lares vêem as visitas dos etéreos cais
Consoante o planeta terra a vista da nau
~
Mar ritmos rimam marulhos lógicos ecos espaciais
Terrena palavra que jazz submersa no temporal
Liquefeitos dominós dessas ondas iguais
~
Cara vela se há paga singular na linha horizontal
Navegas em voga de vagas nas fragas vogais
Ilude lúdico e diluído o idílico dilúvio dual

Mastigação (como o que sou)

Servido estando
como
o que mastigando
somo
...
Engulo
de giro engiro
emulo
em giro digiro
...
Uns cinco quilos já
maior do que eu
comensal sendo cá
aquilo que comeu

19 de março de 2007

Diminua o diâmetro do teu círculo social


Quem você pensa que conhece? Há algum tempo eu tinha muitos amigos.

A afirmação acima é tanto um paradoxo como uma falácia de raciocínio segundo recentemente aprendi já que, se eu "tinha" amigos, logo nunca os tive. Um amigo de verdade (o que é pleonasmo, além de redundância) seria para sempre, ao menos no meu mundo; será que estou sendo antiquado? Talvez hoje e daqui para frente a amizade não esteja mais na moda e eu esteja por fora... felizmente ainda tenho ótimos amigos tão demodés quanto eu, inclusive de muitos anos, que eu sei que estarão sempre comigo, uns bem próximos, outros nem tão freqüêntes mas com quem sei poder contar, outros que pelas circunstâncias estão longe no tempo e/ou no espaço, além daqueles que morreram cedo mas ainda assim sendo-o.

Esta merda toda é porque algumas pessoas que eu achava autênticas não foram verdadeiras, pois sequer eram de verdade; elas acharam que poderiam me deixar de fora... mas de quê? De seu círculo fechado de amizades em aberto? Eu não posso nem mesmo lamentar. "Amigos" de antigamente, façam-me um favor, ao menos mais uma vez finjam ainda serem reais ao incluir-me fora dessa. E, fora isto, antes que eu me esqueça:
"
Vocês podem todos entrar uns nos cus dos outros para ir à MERDA!!!

Quem sabe, sabe;

Quem não sabe, ensina;
Quem não sabe ensinar, ensina a ensinar;
Quem não sabe ensinar a ensinar, vira crítico.

11 de fevereiro de 2007

5 de fevereiro de 2007

Par ou Ímpar

Livro e luz
Queijo e goiabada
Música e audição
Porre e privada
Arroz com feijão
Dois sexos nus

28 de janeiro de 2007

Balada Paulistana

Caótica Sampa onde se acaba o samba
Que em meio a asfalto concreto fumaça
Tem um povo a se esgueirar
Chuva suja essa garoa mas ao menos lava a lava
Que expelem os poluídos corações
Aqueles que se abalam diante
Da discreta deselegância das meninas
Desviam o olhar das veias velhas bailarinas – cômico
Em meio ao caos armado de cimento amado
Tua violenta imagem e cotidiano
Reflete-se nas águas de teu rio mundano – trágico
O pródigo cidadão se encarrega
De destilar a cólera no próximo cidadão – verídico
Tua gente quase sempre nascida aqui
Aglomera-se em trens ônibus e afins
Em tuas praças ao relento vidas vãs lamentam
A vida que levam ou pela qual são levados
Escadarias pontes postes monumentos
Onde pobres podres diabos moribundam
Tantos quantos destes que abundam – de novo o caos
A falta que as coisas que te faltam faz
Faz menção direta a tua nação megalomaníaca
Elevados prédios passagens viadutos
Onde se vê e ouve-se o bairro e os centros
Nesses arredores vagamundam aqueles
Para os quais cartaz e poema dizem não haver vagas
Quem foi que disse “grande cidade”?
Uma cidade com grandes problemas ao certo
Vide o esgoto logo ali a céu aberto – é mesmo o caos
Assim é utópica a menor esperança
Mas nesta balada o poeta pode fazer-se criança
E a utopia ver no sorriso da moça da favela
Quando em fevereiro samba na passarela (pra TV)
No grito do varredor de rua desdentado
Quando de um perfeito golaço filmado (pro VT)
Até eu mau poeta vejo o não sentido
Chama-se lirismo isso que os compositores
Põe nas letras das canções sobre São Paulo
Meio triste melancólico sorumbático assim
Canto desde já por todos os cantos um canto
Que aprendi com a gente daqui
Uma canção sem palavras
Que serve de letra
Ao minuto de silêncio
Que compus pra ti

25/01

6 de janeiro de 2007

B's. A's.

duas moedas para o coletivo terraportar-me do aeromorto
polinizado pela daninha flor amarela que não se extingue
adentro a urbe à margem esquerda do rio de prata absorto
segundando os olhos e passos de minha Beatriz bilíngüe
...
ao imenso Obelisco perpendicular falo
esqueço de ouvir o olvido sonoro
é dezembro desde Julho ou Maio
bolivarianos, san-martinianos
velhas bandeiras sujas e rasgadas
azuis as águas e o céu não fora o barro e a fumaça
brancos monumentos e dias é claro
as paredes de pichadas não estão livres
...
carteado, truco ou aposta
quem te mata mate quente
nas gauchescas rodas
jardins nas praças nos parques
desde as quadriláteras esquinas
por uma cabeça e cinco quartos
cavalos circulam corridas
sem asas e sorte no jogo de azar
...
milanesas e empanadas
vinho e refrigerante e cerveja
cafés sol-guardados nas calçadas
restaurantes com postres sobre-a-mesa
...
tangos, milongas / / / / / Gardel, Piazzolla
ex-voto de minerva / / / / / bandoneon guitarra baixo
sem mais delongas / / / / / com punhal se degola
Perón e Eva / / / / / portenho coagulando gaúcho
...
os múltiplos centros e a unívoca periferia
peculiares as palavras chiam como chicotadas
espanhola língua de novo o mundo a nostalgia
ao caminhar diz-se que se faz o caminho
...
carteado o embaralho
anoitece as histórias
encaminham a estatuária
caudilhos, patrões, compadres
preto fumo o que pitam
de aço de ferro de lata
flor dos que duelam a faca
desde pampas desce
sobre patagônias sobe
preferível dizer Malvinas
nos pátios pertence-me o sol
mas é tua a avarandada a lua
...
nada como a morte para melhorar os vivos
revoluções de sete palmos de guerra
desterrados, mortos, desaparecidos
o tempo não revolve, resolve a terra
os mais ousados debaixo do rio ou no fundo do chão
a carne jamais vingada dos nativos
...
viro-me para o povo que se vira
mímicos e mendigos e mágicos
artistas da fome e da sede de se recriar
tocadores e trombadinhas e titereiros
volto-me para as ruazinhas barulhentas
a música em trânsito nos chingamentos
às carruagens aos táxis às biclicetas
no que me pesam no que me levam
...
ou branquitude criolada ou
che, maradona, che
a mão do deus rasga o romance do diado
amor mestiço ou ódio mulato
Martin Fierro ou Don Segundo Sombra
a arte da pena que a vida alonga
julistas e jorgeanos nas livrarias
entreabertas até antes tarde
nunca, nena, nunca
panela que manifesta a ação
sem-vergonha a Casa Rosada
aqui se pergunta “que sei eu?”
lunfardo contra a Real Acadêmia
surreal não é Xul é o Sul
...
na Recoleta em Puerto Madero em Palermo
essa adjetiva urbanidade de cor argentina nos lugares
em La Boca no Retiro no San Telmo
dessa cativa saudade que se imagina em bons ares

4 de janeiro de 2007

Mais um de mim a menos


depois de meu penúltimo meio-dia
onde a clara rua perde o mesmo nome
ali é o fim do apocalíptico terceiro verso
hoje a morte lateral das vagas sombras
diz-me que o nosso mundo acabará para mim
de me parar preparei-me para me deparar
elo, desde onde estive duelo até por onde vou, duo
vida que se finda estranhamente e sem rima
esse é sempre o labirinto múltiplo de passos
o que meus pés teceram desde a infância
um círculo que se fecha de acordo consigo no vício
já que o íntimo me troca por outro hospedeiro
depois de alçar seu vôo sem pássaro dentro