Piso dentro dessa paranóia e o reino inteiro arde em meus olhos quando acendo a luz.
Metade dos quinze pedreiros guilhotinados volta para o cândido céu de azul e neve madura.
Mas a obra em fúria continua de cima para baixo já que de tão raso o teto só há longe.
Temos vertigem o bastante para mim e o gordo rei xadrez que se joga uma casa por vez.
Sou novo, belo e forte. Sou o que eu quiser ser e tudo posso naquilo que se estabelece.
Estou de frente para o meu lado, parecendo que o castelo vem rubro em minha direção.
Tiro da cabeça uma toalha e o toureio. Passa espiralado aos gritos de “olé” dos não-numes.
Fantasia fétida, de pedra mesmo, merda de dragão. É de um bonito dos mais grandes.
Tem no meio um roseiral em chamas perfumadas e, em baixo, sabe-se de árvores cujas tranças-raízes
se tocam comunicantes na superfície, alertando-se em tempo de fugirem de tudo o que não é iminente;
e, o que é muito natural, modernos bobos ao redor do que é tudo. Não? Vai às mil maravilhas o restauro, informa desde o futuro uma propaganda rupestre, daquela indústria ideal que já fora a menos finita fortificação de que se tem lembrança.
O engenheiro, que por hobby faz filosofias, sai para almoçar quando chego ou me evita;
vai agora quente e apetitoso na garupa do cavaleiro negro, ser entregue à senhora pizza,
as bordas de ouro inca, emoldurando a circunferência meia banguela, meia burguesa.
Um acidente inesperado os atrapalha, e acabam por despencar da minha orelha direita;
mas se dou de ombros é porque por coincidência não os conhecia e, simultaneamente, por ter muita caspa. E por mais normal que isso possa parecer,
tive fome quando meio dia.
Escalo a flor mais baixa e me estendo deitado sobre a maior de suas delicadas pétalas,
para, glutão, sorver o pólen. Não sem antes lutar contra um grupo terrorista de abelhas muçulmanas com planos maniqueístas de “bem me quer, mal me quer” e eu “foda-se”.
Foram três-vírgula-catorze rounds do meu mais puro fundamentalismo contra os heróis.
Depois a sobremesa sem pressa e o café expresso, cem por cento integrais, é lógico.
E então um repouso necessário para reatrelar o esqueleto na alma, que dura.
Estão reprisando o tédio no canal cinco, com intervalos comerciais e ainda dublado em ornitorrinquês.
Não é o mundo do imediato? Faço de conta que entendo tudo o que vejo,
apenas para ser do contra. É uma era que se ainda não foi, será desistida. Sei-o, saco!
Como não desconfiar de tantos tempos instantâneos e lugares logo ali? Refugos fugazes.
Em poder de um remoto controle sobre o que me entra pelas vistas, deixo-me possuir.
Vendido, vou às últimas consequências dos meus atos falhos, subliminarmente mental,
sedentário sem sequer piscar, até que me dou por ligado àqueles telefones sem fundos.
Então passo a tarde em busca do fantástico, a visitar bibliotecas, museus e zoológicos. Desconfiado,
descortino números e ingresso no espetacular: esquinas de ângulos retos,
chãos aprumados pelos ires e vires do devir, tragédias aéreas e velórios fosforescentes,
definições de amor de dicionário, conexão rápida e segura como um genital plastificado,
a cura para a ruga, a fuga para o nunca, águas de colônia, colônias de férias, voto nulo, as casas próprias e os carros usados, sorteios milionários com dez chances de ganhar,
tanques de pesca e diversões eletrônicas, viagens parceladas, sucessos de bilheteria,
todas as igrejas do deus único funcionando trinta horas por dia. A vida não acontecendo.
Não sei nada disso de cor, digo-o cordialmente. Tudo que é caro demais desmascarado.
É obra de mão de barata, massa de manobra pacata. Consumir é comparecer. Faça isto! Venha conosco! Antes de se matar experimente fumar pedra e saltar sem pára-quedas!
Um lê: o fim da sociedade é a felicidade comum. Os outros aplaudem felizes. É o fim.
Cópias do que apenas parece original, nenhuma metamorfose e nem defeitos especiais.
Sonha-se em série na velocidade do verossímil. Supersim... megaé... hiperjá. Por que não?
É quando quebro a máquina na quina da queda. E apenas não vomito o que não comi.
Pelo meu hálito ruim demais se recomenda aos nobres limparem muito bem os narizes.
Aos plebeus já não se recomenda coisa alguma, por já não serem medievais o suficiente.
Há tecnologias como magias. Várias parafernálias ferrosas com estrondos silenciadores.
Precipito-me em câmera lenta. Vou indo andar de pé, há passos e giro o caminho-verbo.
Distancio-me dos cansativos trabalhos, que deixo ao léu aberto do próprio andamento.
O céu franze a testa em tempestade sobre mim e sobre o que é mais telúrico sob mim.
Rendo culto úmido aos campos cultivados pelos milhões de minhocas que me saúdam,
sem que eu saiba diferenciar se o fazem com a boca ou o cu. E é uma dúvida recíproca.
A paisagem é tão salutar que até tem certo ar de oxigênio. Intangível, porém tragável.
Tanto que, de repente, de forma estranha chego a respirar quase que involuntariamente.
Um gesto sutilíssimo que não passa despercebido por ela que passa: a mulher-magenta.
Está vestida apenas com a poeira da vinda, os cabelos se embaraçando no vento, linda.
Ser de carne, muita. Reconheço em sua mirada sanguinolenta o dom de tocar cachimbo.
Veio de não sei quando até o onde exato. Sou ali entre ela, que claramente se aproxima,
e a sombra que cresce atrás de mim a cada passo seu. Atrás de mim, andei quilômetros.
Com olhos novos a cada piscada, ela pisa displicente sobre o que ainda nos separava.
Aprofundando-se em meu espírito, acha graça por eu me perder em seu pequeno sorriso.
Toma-me pela mão de escrever, que lava com as lágrimas mais quentes de carinho e dó.
Não se pronuncia, mas cala em mim. Corta-me os dois dedos de prosa e, sem fazer doer, tampa meus ouvidos com eles. Então empunha seu instrumento,
um grande cachimbo.
Preenche-o com suas grossas sobrancelhas que um raio mergulha do alto para acender.
Traga com demora a mais longa nota e assopra no ar uma turva melodia esfumaçada,
que apenas vejo. E logo o entorno enlouquece e toma as cores daquele som, as nuvens, o sol e o céu.
Faz treva com intensidade e estamos sós. Beija-me então, sem paixão, pois tampouco tem língua.
Toda a construção em andamento resumia-se à minha ereção,
que ato contínuo ela afaga para introduzir em si, com a delícia morna daquela sucção.
Há então os movimentos, para ela e para mim, de pé e sobre o chão. Até o improvável,
quando todo o corpo da mulher-magenta é ejaculado para dentro do meu sexo atônito.
Mais impossível ainda se dá quando, ao tomar meu próprio pulso, já agora dobrado,
percebo não estar mais sozinho. Destapo os ouvidos e ouço-a, ríspida, dizer desde o meu ser:
“não ouse morrer, pois nascerá de novo!” Depois do que a sua voz apenas silenciou,
pelas próximas milhões de horas esparsas em que envelheci em companhia do nada,
escrevendo este relato, mentalmente. “Aprisione-me fora de mim”, meu último desejo,
era a frase que dava início ao término disto aqui, uma confissão de culpa derradeira.
Para só em seguida dar-se a verdadeira perda de contato com qualquer das realidades,
inclusive com aquelas das quais ainda me orgulhava um pouco, apesar de tudo. Era um erro.
Aconteceu que, por falta de outra saída, fui obrigado a recorrer àquilo ainda em mim,
que em seu egoísmo encarnava tudo ao que eu era mesmo indissoluvelmente suscetível.
E afinal a voz já então velha, sem antes me chamar, apenas a atender o meu eu terminal,
ressurgiu desde meu interior nunca esquecido e já arrependido a me dizer “siga-me”.
Então ando trôpego tateando o vazio, tateandando através do que já não era eu em mim,
na absoluta escuridão a lutar contra o luto que já fui por uma chance além do alcance,
em meio a incerteza de cada penúltimo e último passo adiante, só no meu próprio plano, humano, maníaco. Até que um medo por não estar só outra vez
me levou de novo ali.
Àquela dúvida, de infinitos pontos finais. E a desconfiar até dos meus pensamentos,
pensei estar sendo seguido. Foi quando bati a cabeça contra algum vazio mais sólido,
tão denso de nada quanto o resto dali, e igualmente tenebroso. Eu terminava bem ali. Nada me restava. Sem qualquer vontade que não fosse um ato de auto-misericórdia,
invoco o que me resta de vida com a intenção de expulsar da cabeça essa mesma vida.
E, por um instante ao longo do gesto fatal, duro toda uma nova juventude e há esperança.
Uma morte completa, mera aniquilação do ser que investe de cabeça contra si mesmo.
Encontrei meu fim sem meios de não recomeçar, pois, assim que piso lá, ascendo à luz.
A cidade crua nessa nossa noite inteira
menos a sinfonia de máquinas de lá
é já de um outro lado azul da porta
onde toda urbanidade está flanada
pra que aqui quietos caibamos calmos
mas pelo vidro e sacada há suicídios
e cintila a lua viva na ponta do olhar
como se desse tìtulo ao noturno da rua
pois no ar rouco se gritam gargantas
qual a propaganda que pisca a própria luz
com a sorte de calor que sua um céu
e cala mil línguas de que nunca se falou
em um livro louco que nos recitaria em chamas
pois agora onde somos sempre mais dois
há apenas o que é tao livre e ama
entre paredes tortas de um nosso dobro
debaixo de um teto todo de andar
por sobre os toscos tacos acarpetados
em que deitada jaz a nossa cama
e vaos vamos nela ao gozo ou sonho
invadidos de um no outro morar
pois nos cruza um país de estrangeiros
e jamais viajamos sem gestos genitais
ainda menos quando o luar se nubla
pois com paixao nova o tesao é crescente
que mingue o poema que a musa é nua cheia
Durante a inspiração do 1º cigarro pensei que todas as portas deveriam ser arrancadas dos seus batentes e empilhadas numa imensa fogueira, poupando tão somente as dobradiças para que sirvam de recordação daquela triste e assustadora época; Durante a inspiração do 2º cigarro pensei em todas as lâmpadas do planeta que não seriam jamais acesas pelas vaginas das mulheres frígidas; Durante a inspiração do 3º cigarro pensei em todos os problemas que tive com as drogas que não pude encontrar, da necessidade de psicanálise à incompreensão da pintura moderna; Durante a inspiração do 4º cigarro pensei que um cego sempre descreve o que ouve e nunca o que houve; o que houve é cego, o que não ouve é surdo; Durante a inspiração do 5º cigarro pensei que Alberto Caieiro, Ricardo dos Reis e Álvaro de Campos não são a mesma pessoa mas ainda sim são o Pessoa mesmo; Durante a inspiração do 6º cigarro pensei no umbigo que Eva, a primeira dama, não teve, e no cabaço que Maria, a imaculada senhora, perdeu da forma mais profana e incestuosa possível durante o parto; Durante a inspiração do 7º cigarro pensei que se no passado os escoteiros tivessem se associado às bandeirantes atualmente viveríamos numa era de alegria e experiência e, quem sabe, que no futuro teríamos institucionalizada a anarquia; Durante a inspiração do 8º cigarro pensei que se critica um final feliz num filme de cinema mas não se abre mão dele na vida pessoal a despeito da Arte, só porque vemos um piolho nos outros e não vemos um escorpião sobre nós mesmos; Durante a inspiração do 9º cigarro pensei que reconhecer a impermanência de tudo é a certeza da perduração do todo, sobretudo no caso de Deus ter um sexo, dois ou três, não interessa, sendo piedoso cogitar sua divina e onipresente insatisfação; Durante a inspiração do 10º cigarro pensei na música como uma arquitetura em movimento e na dança como um terremoto ensaiado; Durante a inspiração do 11º cigarro pensei que mais excitante do que a amiga da minha mulher e do que a mulher do meu amigo é o meu amigo voyeur excitado com a visão dessas três mulheres comigo; Durante a inspiração do 12º cigarro pensei que o título impopular que tornaria uma peça de teatro mais popular, e pães no circo lota, é “Foda-se o dia das mães!”; Durante a inspiração do 13º cigarro pensei que o aborto espontaneamente induzido deveria ser legalizado e amplamente difundido, até mesmo nos casos em que o feto não passa de um ciclope anão, herbívoro e caolho; Durante a inspiração do 14º cigarro pensei no metafísico problema da causalidade já que não haveria Sócrates sem Platão, Jesus sem Paulo, Borges sem o Outro; nem antes nem depois, nem dantes nem virgílios; Durante a inspiração do 15º cigarro pensei na sordidez da condição humana que só é solidário no câncer, na Copa do Mundo de futebol e em se tratando, naturalmente, de linchamento.
a reprodução interdita e a traição das imagens memória e meditação e imagens recorrentes ora a rocha ora o castelo ora a porta ora a janela maçãs verdes e chapéus-coco três condições humanas e/ou três impérios das luzes: a liberação dos terapeutas a descoberta da escala do fogo a queda da vida como conhecemos entre a vingança e a vitória estão a grande família e a grande guerra objetos ordinários em contextos inusuais o amor desarmado é uma perspectiva amorosa dois pares de amantes é o princípio do prazer do lado de lá a travessia difícil o caminho do céu um torso de mulher e os filhos do homem a procura da verdade e do absoluto os caçadores da noite jóqueis perdidos no espelho falso os destroços das sombras mão alegre e leitura defendida o mês da colheita a chave dos campos plural é uma voz dos ares duas vozes do sangue singulares uma grande folha caída de várias árvores clarividência não é óleo sobre tela pois este é um poema de tinta sobre papel de som pelo ar ou de pixels sobre vídeo ou isto não é uma poema
Living is easy with eyes closed Misunderstanding all you see It's getting hard to be someone But it all works out It doesn't matter much to me Lennon / McCartney
O cara pára ao meu lado na primeira esquina, na saída do cinema. Espero o farol de pedestres abrir para atravessar a rua, ao lado da namorada, de mãos dadas. Estamos fumando e carrego uma sacola com um bom vinho. Nem estamos tão bem vestidos assim. São 23h30. Ele nem está tão mal vestido assim. Mas está bem ao meu lado, perto, temos a mesma altura, talvez a mesma idade. Ele fala comigo, mas mal consigo distinguir o que diz, não porque não saiba falar ou porque esteja bêbado, não é o caso; aparentemente, pronuncia mal a frase por certo constrangimento, talvez constrangido por me constranger. Ambos entendemos:
- Você ...dinheiro... comer? (eu penso: "comer", um eufemismo para "beber") - E faço aquela cara. - Não tenho. (ele pensa: "não tenho", um eufemismo para "não quero te dar") - E faz aquela cara. - Por favor, abra o coração... (eu penso: "coração", um eufemismo para "carteira") - E fazemos uma cara. - Estou mesmo sem! (eufemismo para "estou me sentindo ameaçado, vá tomar no cu ou chamo a polícia") - E ele entende. - Deus te abençoe... (eufemismo para "vá para o inferno, eu podia te roubar seu burguesinho de merda") - E eu entendo.
Aí caminho até a próxima esquina, comentando esses eufemismos com a namorada. É foda isso e é foda aquilo. Pensamos. Rimos. Ou rimos antes de pensar. E um outro cara, um cara de pau, tosco e inconveniente, nos pára e, se dirigindo também a mim, pede dinheiro para comer. Constranjo-o:
- Não, cara. Eu sei que é pra você gastar com pinga! (eufemismo para "vocês trabalham em equipe, porra?") - E acho que entendi. - Então me dá um cigarro... (eufemismo para "pensa que vai se livrar de mim tão fácil?") - E eu dou. - Quem entende?
Aqui mera como lê prosa. Pelo ar passa borboleteando as orelhas o absurdo. Eu abambalhado mordia os dentes, mastigando a boca. Adrêgo ou adrede, doido e doído. Ai, ai, ai! Passa um centauro à cavalo. E uma revoada de pardos "ais" eu escuto cantar, oram de peito canoro. Passo por um busto cor de escorbuto; a fé singular de fezes. He, he, he! Sui generis os ratos suicidas leptospirados. Também não deixa de ser espantoso o engraxate de pés descalços e espantante o tórax bochechudo da mulher Baudelaire. Eis a penúltima versão da realidade. Gosto daqui mesmo sendo nacioniilista. O que eu preferiria numa hora como agora, ser imortal ou poder voar? Daí que sobrevôo os miserábles Chinaskis caídos na calçada. O ser humano não toma atitude, toma sol e toma pinga, toma no cu. Mucho mal hecho. Penso em vitupérios, infâmias, maledicências. Qualquer MERDA et coetera. Insano estou que soul. Se eu urinasse ao meu redor nem saberia por onde sair. Com a cabeça quebrada sou um poeta de gesso, evidente. Com a cabaça que brada, sou um pó! eta! de éter, ou vidente. Sim: vejo dentes, Dantes e dândis sobrevoando lençóis freáticos como se fossem peixes com asas. Deixo toda e qualquer imagem ativa planar por sobre o cérebro de vidro das plantas translúcidas que me carregam para o prado que brado com suspiros doces. Pastando entre a peste, presto atenção nas tranças amarelas que jogo de minha torre tórrida, ansiosa por romances pendurados que desfaçam os nós da mente. Vejo lábios lancinantes como lanças me furando o coração, até que desce por entre as minhas pernas uma camada de limbo para que se lamba ao fim da tarde! E me escondo atrás do andarilho estacionado entre as ausências da razão. Libélula, luas bolas e lulas belas pelo mar que sou! Grito o eco dentro da gruta grossa em forma de planeta plano, pois o verdadeiro ab surdo é o sem ti do mudo, frente ao pano sob estrelas recém nascidas. Num céu escuro de escondidos.
Não me olhes assim... Eu não morrerei contigo e não envelhecerei ao teu lado. Nós não teremos netos, nem sequer filhos. Não vamos ter uma história juntos, sem apoio mútuo ou mesmo alguma compreensão. Por isso não haverá brigas. Nunca teremos uma única crise que seja. Jamais discutiremos a nossa relação. Logo, é impossível que haja traição e muito menos que enjoemos um do outro. Porque eu não te darei a mão, não andarei ao teu lado e não te guardarei do mal. É melhor para ti. Já será bom que não queiras querer-me bem, de nada vale. Não adianta, pois nunca serei teu e nunca serás minha. Definitivamente, não. Nós não seremos felizes juntos. É muito simples: eu não me casarei contigo. Assim também não seremos infelizes juntos. Tu não entrarás em minha vida. Esqueças completamente o noivado, mas antes dele todo o nosso longo namoro. Sem planos para o futuro. Sem futuro. Nada vamos compartilhar. Sem romance. Coisa alguma se consumará entre nós. Não faremos amor, e nem mesmo sexo. Nós não misturaremos os objetos pessoais que já não nos pertenceriam mais. Nenhuma data ou lugar será marcante, não teremos uma música, livro ou filme. Então não desenvolvas qualquer expectativa ou crie esperanças. É impossível. Não há qualquer ilusão. Nada em ti me inspira, enlouquece ou anima. Apenas. É que não começaremos nada. Não conhecerei teus amigos e amigas, teus pais. É inútil. Tu não me moves ou transportas, não sinto nada por ti. Isto é triste? Não há um só programa que faremos a dois. Não te lerei ou escreverei poemas. E eu não vou te beijar, nunca. É melhor que não esperes nem um abraço de mim. Não haverá atração, interesse ou flerte. Tudo sem aproximações, toques, posse. Longe dos olhos, e fora de alcance. Não há qualquer emoção. Então, nada digas. Não ligo para ti pois jamais pedi teu telefone. Não me apresento, e nem cogito. Diria-te “adeus” agora como se jamais me tivesses dito um dia qualquer “olá”. Não nos veremos uma segunda vez para não lamentarmos o fim daquilo tudo que podíamos e não quisemos iniciar porque nem mesmo houve este primeiro encontro. Eu fecharia teus olhos para que quando os abrisse eu já nem estivesse mais aqui, e seria mesmo como se eu nunca houvesse estado. Queres saber se terminamos? Não. Eu vou embora da tua vida e só termino contigo se algum dia voltarmos a nos encontrar.
Depois da última pincelada, vislumbrei inédita e com cem inúteis precedentes uma cor dolorida numa dor colorida que não deixava de todo de me esboçar. Tomado de assalto pela abstração do projeto completo, fui artificial. Como me expressar melhor, senão prudentemente, através do que expressamente comunica-se sem intermediários com a minha sensibilidade? Fato é que minha atitude, assim mesmo, não se me afigurava passiva, já que a própria estranha cor fantástica participava da minha criatividade. Destacada do conjunto, ao centro dos semitons de relativa familiaridade ou relativa estranheza, o que dá no mesmo, a mesma sabia-me a si mesma um pigmento insuportável, emancipado do suporte; no que, enquanto o elemento fundamental, as outras cores no geral, aplicavam-se em fazer sentido, ela, com estudada naturalidade e simplesmente, se fazia sentir. Seria um quadro prestigiado porque prestidigitado? Sei que vai valer alguma coisa quando eu estiver grisalho, ou careca, ou morto. A morte é, como nunca e definitivamente, a mais inesperada das derrotas, embora a priori também seja tão efêmera e fugaz quanto nos parece a moda; já a vida, esta poética que a posteriori nos é erroneamente atribuída, constitui um completo e opulento triunfo, mesmo apesar de sempre parecer uma derrota. Eu posso ainda não ser o artista que gostaria, mas por assim dizer escrevo o que gostaria de ler; não sou um bom crítico, mas faço uma autocrítica.
O quadro inteiro ainda não era eu, dentro embora me expressasse para além de mim, para fora. Não chegando a constituir simulacro, emoldurava o indiscernível desde o próprio cerne misteriosamente óbvio, aos brados no que calava de mais profundo seu exterior, estando imerso no ser superficial. Realce que me imiscuía na tessitura mesma do relevo menos aparente, aparentado sobremaneira no aspecto, a pretender apenas sutilmente demonstrar-se. O inusitado é que me contrastava. Utilizando-se não somente da aquarela de experiências que as demais cores combinadas nos propõem, como sombras, calor ou frio, e profundidade; esta ia muito além, pois estava munida mesmo de autoconscientes e apaixonados argumentos ambiciosos, carregando inadvertidas lembranças e previsões, com seus mil e um vigorosos instintos e uma racionalidade monstruosa; mostrando-se igualmente impregnada de um irascível vigor metamorfo, conforme se recombinava parecendo onírica ou mutante a cada abotoar e desabotoar de meus olhos incrédulos, e mais... no durar de um mesmo olhar, parecia ir além de mim e de si mesma, dando mostras de que podia reconfigurar meus olhos e a própria luz. Apesar de tudo já se me configurar desde o princípio como uma improbabilidade, no que cheguei a propriamente duvidar que ela sequer existisse, ainda pude, contrariado, discernir mais além, constatando não apenas que a cor estava viva, mas que era o esboço sensorial de um deus pictórico. Observado de muito perto ou de muito longe, eu não me via, mas ele sim. Cuidado com a arte: é frágil! Roubada para enganar-te: é plágio! Nenhuma arte de verdade é tão autêntica como a falsa.
Difícil de apreender à primeira vista, mostrava-se, após uma exposição mais atenta, apenas como algo muito fácil de não se entender. A melhor das metáforas é uma certa anti-ironia, porque não diz uma coisa querendo não dizer outra. Não há diferença entre caricatura e alegoria. Foi um exercício meticuloso de acaso, um improviso calculado em cada erro seu completamente inesperado, ou mesmo um imprevisto ensaiado; por absurda absoluta coincidência, quis-me desde o início assim acidental. O mérito desse método de com nada mais se parecer era assim um pouco muito meu também, ao menos me parecia. O que nos mostra como algures, alhures se nos mostra. A tal cor quase não era, posto que pudesse ser, desde que não se deixasse que o fosse. Na arte, como em tudo o mais, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, mas é absolutamente desnecessário fazer a omelete, uma vez que já se tenha quebrado os ovos. Angustiava-me em cada pequenina aflição que me infligiam seus múltiplos pormenores, infringidos meus recatos recônditos fustigados pelo horror com que, vencido e conquistado, me apaixonei por aquilo, como quem se entrega ao colo da mãe, ao braço do pai, à boca do derradeiro amor. Antes mesmo de eu me atrever a cheirá-la, tocá-la ou lambê-la, escravizei por completo minha visão obediente àquela mancha plurincolor, como ela mesma se fazia cada vez mais e mais dependente de mim; ao ponto de ambos não sabermos mais se juntos éramos os mesmos ou outros diversos, se éramos ainda um pouco eu ou algo daquele ponto. Não como híbridos ou amálgamas, interpenetrávamos-nos amiúde como se o detalhe do quadro e o meu olho em detalhe fossem uma simbiose ímpar de desejo objetivo e objeto de desejo, para sempre fatal e irretroativamente mútuos. E a maior solidão que encarnávamos era a de sermos totais.
A representação do imaginado que vivi outra coisa não queria expressar, desperdiçando a si mesma ao me consumir as autorias atribuídas, simbolizando tudo e significando nada, além do que, vez e outra, o contrário mesmo não se nos fazia inverossímil, dadas as supostas inteligibilidades passivas de apreciação na revisão geral da obra em questão, sendo irrelevante saber se esta era figurativa ou abstrata, fato é que me parecia um auto-retrato pouco vaidoso de mim, embora eu mesmo estivesse muito vaidoso dele, de tê-lo feito. Sempre quis saber pintar a verdade nua, vestindo-a com arte; ou pintá-la vestida com arte tal que se sentisse nua. Qualquer outro pensamento seria ridículo, se não fosse ao menos divertido. É que todo poema é um poema dentro de todo poema. O fato é que cintilava maravilhas a tal cor, e desde o seu próprio ponto de vista muito pessoal piscava para mim; sabia mais sobre o seu autor do que ele mesmo podia compreendê-la. Em vista de quando perscrutava minha tênue existência a me olhar, punha-me nu e efêmero diante da voracidade com que me contemplava, notadamente assenhoreando-se de meu destino, comigo na mira. Tenho para mim que se apiedava. Em contraste com os indeléveis novos tons além e aquém de nós, particularmente no ponto de convergência em que o próprio eu observador dilui um tanto o onipotente borrão original, de repente displicente a pintura assina-se a si própria; assinalando-me com precisão numa auto-intervenção, a verter com verve sobre si a arte necessária de uma só lágrima, perfeita para borrar a expressão do artista a desaperfeiçoar sua obra-prima, em conformidade plena com o estilo desbotado com que eu mesmo sempre costumo me pintar.
porque se morre apenas uma vez
estou ansioso
e no entanto
não me suicido
pois só se vive igualmente uma
a vida é simultâneamente
longa e trágica
como alguma dor
e a morte ao mesmo tempo é
cômica e curta
tal qual um prazer
morrer ou viver
são formas demasiado inexatas
e simplesmente complexas
do meu próprio e alheio Eu
que hoje já não tenho preferências
tanto que quando de um dia e local
tão imprecisos quanto o livre-arbítrio
questionado de súbito pelo Nada
com o Todo atento a tomar nota
se para ali e então afinal escolho
“ser” ou “não ser”
foi e será o melhor não responder
por querer demais aos três
Criaturinha verde que me
amadurece o ser e que, úmida, faz secar a boca atônita de te reler, pois não te
declamo, senão respiro. Com os teus poliédricos olhinhos de gato em penúria eu vagabundeio
uma leitura opiácea do microcosmo que me contas fantástico, por mágica com barbas
de negra mandala primaveril a mascararem quase dois metros de alta outra
realidade, a mesma de Buenos Aires e Paris, com dentes feios e fomes aleatórias,
famas elásticas, não importa... não se contentam em significar, Julio, que me dizes
muito e é aqui em qualquer lugar, agora em qualquer tempo. Entre os teus e os
meus cigarros, saio do hospício onde se usa encerrar nossos heróis poetas e minotauros,
cujos sonhos tomados aos crepúsculos revolucionários examinam o bebop
pugilístico de prosseguir a perseguir, ora em livros mesmo, ora em outras
liberdades, nossas incontáveis solidões, mulheres e cidades. A presença que
imagina a si mesma anda por aí, estritamente não profissional, em territórios
violentamente doces, com suas secretas armas contra os vampiros multinacionais.
Em todos os jogos o jogo sem fim com humor sem princípio, final de fogo onde anda
a tua fala, voz grave sem solenidade, voz terna pela eternidade. Tu me sublinhas,
caro amigo. Fui te visitar aí no cemitério lotado, na casalápide tomada por
ti, vigiado sempre por corvos que tu (nuncamais) traduzistes e que agora te
traduzem, a página branca de pedra de casal sob pedrinhas, moedas escuras e pétalas
cansadas, entre um sem número de papéis molhados pelo noturno céu da véspera,
com um caleidoscópio de desenhos e textos para ti; então me deito um pouco
contigo, che, meu velho mestre sem método, penúltimo dos titãs não-ortodoxos
que fez algum sentido; e deitado vejo de olhos abertos o teu coração de pelúcia
e em panorama o teu esqueleto mais livre do que o meu; e quando fecho os olhos,
cobrindo de fosfenas minha vigília, anoto aquelas datas de teu nascimento e
morte: aí penso na I Guerra e penso na Declaração de Caracas. Apenas o creio
porque é mais fantástico, Cortázar. Tudo me parece uma irônica amarelinha
imaginária, ou uma mera épica piada de mau gosto. E os tempos não são outros.
Saio contigo da labiríntica necrópole para um não menos granítico café na
esquina onde, marmóreos, nós tomamos dois dedos de prosa poética sobre os dois
euros da conta. E, sim, sim, escrevo no computador, che. E, sim, é verdade, irmão... Dois! Dois Kirchners! Primeira-dama e primeiro-senhor... Seguro que sí, compadre. Que
te pasa? Asma? Incredulidade? Mas tu já não devias se ter dado
conta de que quem ouve de haver partido num ponto sempre fica diminuído do próximo
conto?