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17 de janeiro de 2006

Crem disse?

Em se tratando de uma velha ou nova religião
Crê e divulga a velha nova do messias de ocasião
Em cristal ela põe fé como em ritual
Em matéria de metafísicas 171 é número poderoso
Crê de verdade nas previsões de astrólogo fantasioso
Em duendes ela põe fé como em pirâmides
Em qualquer bobagem ela acredita
Crê e sabe de cor toda mentira otimista
Em zen ela põe fé como em mensagem
Em cada canto uma bujiganga simbolizando um culto
Crê de coração em contos que a razão julga insulto
Em vodú ele põe fé como em guru
Em si mesma pouco confiante ou auto-suficiente
Crê no que lhe dizem e se diz inteligente

16 de janeiro de 2006

Vertido

É chegada a hora, a derradeira hora. Ora ora ora... quem poderá me deter? Todos e ninguém. Irei contra dEUS e o mundo. Nada restará do Nada que aqui estou. Deixarei demolidas até mesmo as ruínas; no final não sobrará nem um só som, pois todos, em uníssono, serão ruídos. Terei a minha vingança. Assim amargo lá docemente tenho preparada já a marmelada. Quem entender nada compreenderá. Aproxima-se o tempo em que irei me ultrapassar, eu estou agora já uma palavra à frente, é impossível aqui me alcançar. Não adianta... atemporal e eterno e até pontual, movendo as voltas todas sem rodeios, não obstante despercebido, ávido a retratação havido iretratável, a enrolada retórica rocambolesca, com encantamento impreciso que arrisco, a desestabilizar o sumo do supra, ressurjo espiralado mas mais fumarento, embromo narrativo rebelado, teletransporto minha má criação, miro o delírio e zombo metido, giro e assim rodando me viro, esvaziando poemas, estou tão múltiplo na multidão, troco e me destroco eu me embaralho de lugar, para desentronar o grande ânus letivo, cada um sou eu e não saberás, num canto com este Livro armado em retiro, desmarco o caminho para então despistar, ninguém presta a menor atenção e apesar de tudo ainda me prestam toda a atenção. As palavras: mágicas. Encarno aqui e agora...
...eu hipnotiso àquele que me psicografa.

13 de janeiro de 2006

Literaturgia de profundis

Plêiade de demônios que me anima. Heróis, pseudo-heróis e anti-heróis, que em mim convivem e de mim sobrevivem. Do nada eles vêm, nascem do além de um outro alguém, sem se perguntar por quem. Ilusões autoimaginativas de religiosidade impublicável. As personagens anti-Isto. Estão aí, estão aqui, zombeteiras.. A mente ficcional mente, ficcionalmente. Ausente o dEUS eles são mais ele, eu sou mais eus. Os opus tortos. Literatura seu santo ofício meu sacerdócio teu orifício. A escritura como o livro sagrado do absurdo, de realismo fantástico e mágico, inobtuso. Em letra de fôrma penso por extenso em tornar-me o que eles não podem ser, livrando-os dos livros. E vi eu que era bom.

12 de janeiro de 2006

A semente e seu duplo


...no espelho, avalio a face nublada e o cabelo tempestuoso, reflito sobre o que de resto ele reflete: um corpo franzino de leitor de livros, somente; nunca lhe dei muita atenção. Penso: existem mentalidades e imaginações desperdiçadas dentro das cabeças das pessoas que passam passeando montadas em corpos perfeitos dentro de armaduras sob medida que me defendem de suas obtusidades irrefletidas; o que meu corpo "inspira" nessas cabeças montadas e blindadas é uma sensação não muito distinta, porque inversa, percebem-no como uma semente vã, que gorou. Não vingou um rosto bonito com traços quase certos, não aproveitados para fim algum que não seja não figurar neste pensamento; formas que poderiam ter sido exercitadas, tornando-se belas e mesmo ininteligíveis. Não. Assim eu não o quis. Não é que quis que fosse como é, é que não cheguei a querer que fosse. Não refleti a auto-imagem e penso que o que disso resultou acaba por não me desagradar a mente impune por completo, ainda que não impunemente; vejo-me todo pensamentos refletido no espelho...

11 de janeiro de 2006

Bandeira Preta


Bandeira preta, amor, não volto atrás
Aquela sanidade de covarde nunca mais
Insanidade - meu novo amor, sem amor
Verdade - flor que fede mais
Vai, desamor
Bandeira preta em termos tais

10 de janeiro de 2006

Gene: há lógica?


Tive a mirabolante idéia de me casar com uma viúva, a qual tinha uma filha. Meu pai, para maior coincidência, era viúvo e quis o acaso que ele se enamorasse e casasse com a filha de minha mulher; resultou daí que a minha mulher se tornou sogra do meu pai. A minha enteada ficou a ser minha mãe, e meu pai ao mesmo tempo meu genro. Após algum tempo minha filha pôs no mundo uma criança que veio a ser meu irmão, porém neto da minha mulher; ficando eu avô de meu irmão. Com o decorrer do tempo a minha mulher pôs também no mundo um fantástico menino que como irmão da minha mãe, era cunhado de meu pai e tio de meu filho, passando a minha mulher a ser nora da própria filha. Absurdamente eu fiquei a ser pai da minha mãe, tornando-me irmão de meus filhos; a minha mulher ficou a ser minha avó já que é mãe da minha mãe. Assim meu avô sou eu. Meu pai e meu filho são a mesma pessoa?

9 de janeiro de 2006

Ser

Tudo o que é real e nada do que é irreal pertencem ao domínio do Ser. Mas sobre tudo o que é real não é possivel dizer muitas coisas interessantes, especialmente sem sair do escritório do filósofo, não sendo por isso evidente que possa existir qualquer coisa como o estudo do Ser, sem mais qualificações. No entanto, esse conceito ocupa um lugar central na filosofia, de Parmênides a Heidegger. A questão central "por que há algo e não nada?" suscitou uma reflexão lógica sobre a questão de saber em que consiste a exemplificação de um universal, assim como uma longa história de tentativas para explicar a existência contingente através de um fundamento necessário. Desde Platão que, tradicionalmente, este fundamento é algo auto-suficiente, perfeito, imutável e eterno, que se identifica com o Bem ou Deus, mas cuja relação com o mundo cotidiano permanece obscura. A lógica moderna oferece pouco conforto a estas especulações e suscita a suspeita de que a questão de saber por que há algo em vez de nada é mal-formada ou não oferece quaisquer ganhos cognitivos, uma vez que qualquer resposta irá levantar sempre a mesma questão.

8 de janeiro de 2006

Vida Sim Drogas São

Na noite escura, caminho desenluarado sem rumo certo, o vento brando a me impelir soprando de trás, amena temperatura a menos que esfrie mais. Grilos, sapos e cigarras calam o silêncio povoando o breu com seus sons geométricos. Os pés roçam a grama que não farfalha mais do que a relva mediana que acaricio com as costas das mãos. Sutil, o plano se inclina e sem engano elevo minha calma, paralelamente ao esforço. Penso em atingir o cume sem olhar para trás. Sei de cada passo; a perna que pisou por último é o próximo passo. Galgo, no topo, a visão de uma escuridão onde posso me perder se não quiser esperar sentado pelo meu despertar, o despertar do dia. Sem meta e sem pista paro, indeciso. Então grito:
- Haja luz!
E do mato ouriçado vem um clamor silvestre de vida, o regozijo existencial da natura profanada em seu sono, bravia que brilha. No pretume noturno vejo pequeninos pontos de volátil incandescência emanarem mágicos da erva como fabulosos fogos fátuos que vêm a mim e me cercam enxameando meus olhos pisca-piscantes de incredulidade. Iluminam a caminhada acompanhando-me rumo a algum caminho certo; sigo sem parar novamente, mais e mais lento, sem pessa e rumando apenas, a medida em que vou colhendo do ar os vaga-lumes para fumá-los com deleite fantástico, soprando na brisa uma fumaça de sonho pirilampejante.

7 de janeiro de 2006

Na Perda de Tempo Buscada

Os primeiros anos levaram-me a desmontar o relógio pretendendo inutilmente compreender o efêmero mecanismo do tempo...

5 de janeiro de 2006

alter et idem


Este poema foi incluído no Livro Ruído: http://goo.gl/Xoo79

2 de janeiro de 2006

Poeta e/ou louco 
– não por ter perdido a razão, 
mas por ter perdido tudo, exceto a razão –, 
sou o atávico modernete, 
com espelhos falsos nos óleos e labirínticos ecos nos olvidos. 
Aquele que flana cirandarilho 
a fumar espirais que mentaliza mentoladas. 
Em teoria, pratico um Pós-simbolismo bop barroconcreto. 
Desde a primeira vez que nasci, 
leio em demasia à quilo que a reescrever Nada compreendo, 
analfabetização que inaugura minha fase autoral, 
se me é de direito indo mal e bem-vindo, 
sinistro, voltar de tão monge. 
Críptico empírico e amigo ambíguo, fiquei múltriplo, 
fiz-me e desfiz-me hum ano 
demasiados loves fora, resto eu: esfingédipo. 
Confesso que nunca me confessei, 
pois paripasso pari-passeei estreito 
ao largo de idealismologias e ideologialismos, 
com espírito incorreto, coração quase deserto, 
além do futuro hermeticamente aberto. 
Sólido e solitário, fiz (Davi) da vida máscara, 
de cada lida verve em queda livre, 
vide a masturbação verborrágica desta ontologia fonética. 
Infelizmente estou feliz. 
Às penas peço ficções paralelas e visões para lê-las, 
que só acre dito na profaníssima trindade: 
Amor, Poesia e Liberdade.