26 de junho de 2009
Não
19 de junho de 2009
Iconolatria
O quadro inteiro ainda não era eu, dentro embora me expressasse para além de mim, para fora. Não chegando a constituir simulacro, emoldurava o indiscernível desde o próprio cerne misteriosamente óbvio, aos brados no que calava de mais profundo seu exterior, estando imerso no ser superficial. Realce que me imiscuía na tessitura mesma do relevo menos aparente, aparentado sobremaneira no aspecto, a pretender apenas sutilmente demonstrar-se. O inusitado é que me contrastava. Utilizando-se não somente da aquarela de experiências que as demais cores combinadas nos propõem, como sombras, calor ou frio, e profundidade; esta ia muito além, pois estava munida mesmo de autoconscientes e apaixonados argumentos ambiciosos, carregando inadvertidas lembranças e previsões, com seus mil e um vigorosos instintos e uma racionalidade monstruosa; mostrando-se igualmente impregnada de um irascível vigor metamorfo, conforme se recombinava parecendo onírica ou mutante a cada abotoar e desabotoar de meus olhos incrédulos, e mais... no durar de um mesmo olhar, parecia ir além de mim e de si mesma, dando mostras de que podia reconfigurar meus olhos e a própria luz. Apesar de tudo já se me configurar desde o princípio como uma improbabilidade, no que cheguei a propriamente duvidar que ela sequer existisse, ainda pude, contrariado, discernir mais além, constatando não apenas que a cor estava viva, mas que era o esboço sensorial de um deus pictórico. Observado de muito perto ou de muito longe, eu não me via, mas ele sim. Cuidado com a arte: é frágil! Roubada para enganar-te: é plágio! Nenhuma arte de verdade é tão autêntica como a falsa.
Difícil de apreender à primeira vista, mostrava-se, após uma exposição mais atenta, apenas como algo muito fácil de não se entender. A melhor das metáforas é uma certa anti-ironia, porque não diz uma coisa querendo não dizer outra. Não há diferença entre caricatura e alegoria. Foi um exercício meticuloso de acaso, um improviso calculado em cada erro seu completamente inesperado, ou mesmo um imprevisto ensaiado; por absurda absoluta coincidência, quis-me desde o início assim acidental. O mérito desse método de com nada mais se parecer era assim um pouco muito meu também, ao menos me parecia. O que nos mostra como algures, alhures se nos mostra. A tal cor quase não era, posto que pudesse ser, desde que não se deixasse que o fosse. Na arte, como em tudo o mais, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, mas é absolutamente desnecessário fazer a omelete, uma vez que já se tenha quebrado os ovos. Angustiava-me em cada pequenina aflição que me infligiam seus múltiplos pormenores, infringidos meus recatos recônditos fustigados pelo horror com que, vencido e conquistado, me apaixonei por aquilo, como quem se entrega ao colo da mãe, ao braço do pai, à boca do derradeiro amor. Antes mesmo de eu me atrever a cheirá-la, tocá-la ou lambê-la, escravizei por completo minha visão obediente àquela mancha plurincolor, como ela mesma se fazia cada vez mais e mais dependente de mim; ao ponto de ambos não sabermos mais se juntos éramos os mesmos ou outros diversos, se éramos ainda um pouco eu ou algo daquele ponto. Não como híbridos ou amálgamas, interpenetrávamos-nos amiúde como se o detalhe do quadro e o meu olho em detalhe fossem uma simbiose ímpar de desejo objetivo e objeto de desejo, para sempre fatal e irretroativamente mútuos. E a maior solidão que encarnávamos era a de sermos totais.
A representação do imaginado que vivi outra coisa não queria expressar, desperdiçando a si mesma ao me consumir as autorias atribuídas, simbolizando tudo e significando nada, além do que, vez e outra, o contrário mesmo não se nos fazia inverossímil, dadas as supostas inteligibilidades passivas de apreciação na revisão geral da obra em questão, sendo irrelevante saber se esta era figurativa ou abstrata, fato é que me parecia um auto-retrato pouco vaidoso de mim, embora eu mesmo estivesse muito vaidoso dele, de tê-lo feito. Sempre quis saber pintar a verdade nua, vestindo-a com arte; ou pintá-la vestida com arte tal que se sentisse nua. Qualquer outro pensamento seria ridículo, se não fosse ao menos divertido. É que todo poema é um poema dentro de todo poema. O fato é que cintilava maravilhas a tal cor, e desde o seu próprio ponto de vista muito pessoal piscava para mim; sabia mais sobre o seu autor do que ele mesmo podia compreendê-la. Em vista de quando perscrutava minha tênue existência a me olhar, punha-me nu e efêmero diante da voracidade com que me contemplava, notadamente assenhoreando-se de meu destino, comigo na mira. Tenho para mim que se apiedava. Em contraste com os indeléveis novos tons além e aquém de nós, particularmente no ponto de convergência em que o próprio eu observador dilui um tanto o onipotente borrão original, de repente displicente a pintura assina-se a si própria; assinalando-me com precisão numa auto-intervenção, a verter com verve sobre si a arte necessária de uma só lágrima, perfeita para borrar a expressão do artista a desaperfeiçoar sua obra-prima, em conformidade plena com o estilo desbotado com que eu mesmo sempre costumo me pintar.
4 de junho de 2009
Existismo
estou ansioso
e no entanto
não me suicido
pois só se vive igualmente uma
a vida é simultâneamente
longa e trágica
como alguma dor
e a morte ao mesmo tempo é
cômica e curta
tal qual um prazer
morrer ou viver
são formas demasiado inexatas
e simplesmente complexas
do meu próprio e alheio Eu
que hoje já não tenho preferências
tanto que quando de um dia e local
tão imprecisos quanto o livre-arbítrio
questionado de súbito pelo Nada
com o Todo atento a tomar nota
se para ali e então afinal escolho
“ser” ou “não ser”
foi e será o melhor não responder
por querer demais aos três
30 de maio de 2009
Enormíssimo Cronópio
Criaturinha verde que me amadurece o ser e que, úmida, faz secar a boca atônita de te reler, pois não te declamo, senão respiro. Com os teus poliédricos olhinhos de gato em penúria eu vagabundeio uma leitura opiácea do microcosmo que me contas fantástico, por mágica com barbas de negra mandala primaveril a mascararem quase dois metros de alta outra realidade, a mesma de Buenos Aires e Paris, com dentes feios e fomes aleatórias, famas elásticas, não importa... não se contentam em significar, Julio, que me dizes muito e é aqui em qualquer lugar, agora em qualquer tempo. Entre os teus e os meus cigarros, saio do hospício onde se usa encerrar nossos heróis poetas e minotauros, cujos sonhos tomados aos crepúsculos revolucionários examinam o bebop pugilístico de prosseguir a perseguir, ora em livros mesmo, ora em outras liberdades, nossas incontáveis solidões, mulheres e cidades. A presença que imagina a si mesma anda por aí, estritamente não profissional, em territórios violentamente doces, com suas secretas armas contra os vampiros multinacionais. Em todos os jogos o jogo sem fim com humor sem princípio, final de fogo onde anda a tua fala, voz grave sem solenidade, voz terna pela eternidade. Tu me sublinhas, caro amigo. Fui te visitar aí no cemitério lotado, na casalápide tomada por ti, vigiado sempre por corvos que tu (nuncamais) traduzistes e que agora te traduzem, a página branca de pedra de casal sob pedrinhas, moedas escuras e pétalas cansadas, entre um sem número de papéis molhados pelo noturno céu da véspera, com um caleidoscópio de desenhos e textos para ti; então me deito um pouco contigo, che, meu velho mestre sem método, penúltimo dos titãs não-ortodoxos que fez algum sentido; e deitado vejo de olhos abertos o teu coração de pelúcia e em panorama o teu esqueleto mais livre do que o meu; e quando fecho os olhos, cobrindo de fosfenas minha vigília, anoto aquelas datas de teu nascimento e morte: aí penso na I Guerra e penso na Declaração de Caracas. Apenas o creio porque é mais fantástico, Cortázar. Tudo me parece uma irônica amarelinha imaginária, ou uma mera épica piada de mau gosto. E os tempos não são outros. Saio contigo da labiríntica necrópole para um não menos granítico café na esquina onde, marmóreos, nós tomamos dois dedos de prosa poética sobre os dois euros da conta. E, sim, sim, escrevo no computador, che. E, sim, é verdade, irmão... Dois! Dois Kirchners! Primeira-dama e primeiro-senhor... Seguro que sí, compadre. Que te pasa? Asma? Incredulidade? Mas tu já não devias se ter dado conta de que quem ouve de haver partido num ponto sempre fica diminuído do próximo conto?
23 de maio de 2009
Action Writing
19 de maio de 2009
Adorígine
longe como a aurora
aurora do mesmo dia
dia de ontem sempre
sempre sem memória
memória só de sonho
sonho só caminhando
caminhando perdido
perdido e para frente
frente a fome sentida
sentida até nas costas
costas para trás ficam
ficam os olhos no ser
ser passo a passo meu
meu nariz a me guiar
guiar através do chão
chão de passos tortos
tortos pois não pararão
pararão talvez no mar
mar o que é sem volta
volta ao mundo talvez
talvez infinito demais
demais para se ir a pé
pé de calo incansável
incansável não chegar
chegar de onde se vem
vem comigo a vontade
vontade só de ser livre
livre como um nômade
nômade sem ter opção
opção de ficar no lugar
lugar onde se vai aflito
aflito pois existe acolá
acolá sendo onde existe
existe antes de onde vai
vai com o vento levado
levado até quanto pode
pode ser que nunca pare
pare nem para se dormir
dormir é não estar aqui
aqui onde agora desperto
5 de maio de 2009
Pirada Gutural
Esta reportagem pretende trazer à tona desde o cerne o que a cidade não digere desse prato mal lavado que todos engolimos, já tão tipicamente inserido no cardápio do nosso dia-a-dia de só um dia por ano. É o relato deste poeta, um estudante paulistano de jornalismo que esteve andando toda a madrugada pelo centro agudo desta crônica.
Há mais ou menos dois mil anos o poeta romano Juvenal escrevia em seu livro hoje muito conhecido, que chamou de Sátiras: “...Já há muito tempo, desde quando ainda não vendíamos nossos votos para ninguém, o Povo tem abdicado de seus deveres; para um Povo que teve nas mãos o império, senado, legiões – tudo, agora se contenta e ansiosamente aguarda por apenas duas coisas: pão e circo.” Bem, já se viu que fizemos progressos políticos: hoje o circo é anual, e o pão de hoje só amanhã.
E como canta um músico meu amigo, que não foi convidado para essa festa que uns homens armaram para nos convencer, “paulistano quer show... gosta de escândalo!” É por volta da meia-noite que começa de fato o espetáculo, que a Éssepê udigrudi sai de todos os bueiros e latrinas, dos cantos que esta noite cantam em coro.
A polícia pôs na rua 2500 homens a mais do que o de sempre, um para cada 1600 cidadãos. E no dia seguinte o prefeito anunciou não ter sido registrada nenhuma ocorrência grave. O que, pelas estatísticas oficiais, provaria que o paulistano é pacifista e/ou facilmente controlado pela violência monopolizada pelo Estado. Mas o que eu observei de bem perto foi um sem número de crimes, observados de mais perto ainda pela polícia; sempre em quartetos, ora um que passava a pé conversando animadamente, ora outro em volta da viatura parada na esquina a olhar o mulherio. Ninguém fez nada diante de brigas, roubos e vandalismo. Enquanto gangues de assaltantes faziam a festa; bandos armados com paus redefiniam terror; jovens bárbaros faziam suas necessidades de cima do viaduto sobre os passantes em baixo, que necessariamente passavam mal.
O transporte público estava especialmente ruim: poucos ônibus, a maioria com itinerário alterado; a estação República do metrô fechada, dizem que devido à passagem do “Megatatuzão”... o diabo! Os roqueiros estavam do lado de cima. A cidade, pouco mais iluminada que o normal, não estava bem sinalizada, como depois se divulgou; os poucos avisos e informativos estavam estrategicamente afixados nos lugares mais escondidos, perfeitos para urinar ou vomitar. E o público sem privada.
Banheiro público somente químico, improvisado e escasso. Era mesmo a coisa mais infreqüente encontrar um pelo caminho. Em geral ficavam próximos aos locais onde havia shows de música, tendo sido muito úteis àquelas pessoas que subiram neles para ver melhor aos seus artistas favoritos. Já as lixeiras, todos sabemos como já não são suficientes, tanto no centro como no resto, e não vi uma lixeira extra sequer, resultando que os garis trabalhavam sem parar, mesmo não sabendo por onde começar, perdidos em meio aos rios de lixo em que se converteram todas as ruas. Muita latinha e garrafa quebrada pelo chão, o povo deixava cair acidentalmente em qualquer lugar. Ambulâncias vi muito poucas durante toda a noite, as que vi estavam trabalhando, as sirenes ligadas tentando inutilmente passar pela multidão.
Com todos os lugares lotados e loucos, passei a noite indo de um ponto a outro entre os bairros da região central. O que eu já esperava e, na verdade, já tinha até mesmo programado: não me programei... até tentei. Desde quando foi anunciada a programação, semanas atrás, dei-me conta de que não havia nenhum evento isolado que fosse realmente interessante, pelo menos ao ponto de fazer com que eu planejasse me mover até lá. Então, desde logo o plano era só andar bêbado por aí, flanando, a encontrar amigos, reparar na arquitetura, olhando as pessoas e ouvindo música ao longe, pelo coração de Sampa. Eis uma idéia de diversão. Esta cidade deveria ser muito melhor ocupada por nós, que pertencemos a ela tanto quanto ela nos pertence; principalmente este centro paulistano, já e ainda decadente, bem como todos os parcos espaços urbanos públicos, dia e noite. São Paulo deveria sair do horário e assumir que é 24.
Haveria inclusive mais oportunidades para fotografar a cidade de noite, já que, naquela noite, estando em inúmeras horas e lugares certos para todas as fotos que eu poderia ter tirado, poderiam ter tirado a câmera de mim; e aí eu teria estado no lugar e hora errados, e não teria voltado com a matéria (fatos sem fotos).
Dizem que o caos não tem forma, deve ser porque não é do nada que eu o via se formando e deformando sob as árvores e pontes e marquises, sob o céu da metrópole; não mesmo, a semente sempre esteve ali. A noite avançava e a urbe mostrava seu lado mais selvagem, como poucas vezes vi, da mais intensa sujeira e barulho, ou seja, da mais intensa humanidade; milhões de individualidades se acotovelando, descontroladas todas; pessoas... na primeira curva do terceiro milênio, neste Sul de mundo, o Terceiro Mundo. E se Sampa não pertence ao chamado Brasil profundo, é porque é mais no fundo da imundície mesmo, terra, água e ar. São Paulo é o pulmão do Brasil. Com um tipo de tumor que não se poderia dizer maligno, mas anárquico. Dava para sentir a tensão na atmosfera carregada e maciça, fatiável, um ensaio de revolução, de bolso.
No brasão da bandeira da cidade se pode ler seu lema, a inscrição latina que diz “non ducor duco”, que quer dizer “não sou conduzido (à loucura), conduzo”. O relógio marcava um infinito vertical, dois pontos: zero-zero. Com o domingo amanhecendo, eu sentia nos meus ossos a ressaca da cidade; mais lixo em evidência, tudo tão plástico... metálico, vítreo, de todas as cores da própria cidade. E todas as esquinas eram mananciais de onde brotava gente, isso sem parar de ir gente embora para caber ainda mais. Paulistanos, paulistas, brasileiros, turistas. Alguns não iam nem vinham, ficavam. Ficaram lá. Gente que nunca antes vi vivas, nunca antes vi tanta gente caída pelas calçadas, escadas e cantos. Será que sem teto sem para onde ir? Sem dinheiro ou energia ou lucidez para voltar? Sem vida? Vou para casa tomar um café com pão já que o mundo ainda não acabou. Já que a festa não acaba nunca. Faltavam ainda umas dez horas para acabar, certo? Errado! Está só na metade. A Virada Cultural e a final do Campeonato Paulista (na qual a vitória do Corinthians e a festa subseqüente eram previsíveis) terminam juntinhas, como se a primeira festa, que termina, passasse o bastão para a seguinte, para quem a maratona de imprevisíveis continua, sem fim, até chegar segunda-feira. Continuo torcendo, mesmo que completamente virado: “Salve o prefeito... O brincalhão dos brincalhões... Eternamente... até chegar às eleições”.
24 de abril de 2009
Ação
23 de abril de 2009
Doppelgänger
Só para mim
É o começo
Do nosso fim
E de repente
Era o que vi
Eu diferente
Pelo outro eu
Um eu errado
Não era meu
Pois era vosso
Ele me possuía
E era só nosso
Bom vizinho
Mas te evito
Até sozinho
Não é reflexo
Eu o desejo
Fazemos sexo
Eu era observado
A gente gostava
Agente duplicado
14 de abril de 2009
Só: Lar & Peristilo (Solar Hiperestilo)
Quando um lugar? Onde hora alguma? Apesar de mim sou através da sala de estar. Perto fica a sacada, saca? Milésimo primeiro andar no ar. Veloz. Penso em descer. Mas negativo, não consigo seguir-me. Digiro em giros a brancura do interior em espiral. Fractal. Sou meu cão sem estimação. Some-se meu temor do Paraíso e terás meu erro. Sinta comigo um pouco como é muito raro, você talvez goste. Crível porque absurdo. Normal.
Nada demais ao menos por enquanto. Conquanto o seguinte: e nada se segue. Persigo isto, o mal explicado, outro símbolo. Nós humanos que morremos demasiado. Os outros morrem, e eu, que não sou os outros, não morro? Demora. Demovo-me lentamente de minhas carnes cinzentas que me metempsicose. Vario de forma e, vário, me deformo homo-gênio-lógico, amoral. Transo transubstanciarmar-me de mim mesmo. Não me amo. Chamo-me do que quiser, do que quis ser. Sou zeloso, ainda que furioso. Eu mesmo me desarquiteto. Arqui-inimizo-me. Alimento aos vermes que me corroem.
Já não quero, mais tarde. Meu erro-espírito alado, numa ala da morada, demorado, faz alarde. Morre-me, convida. Vou não vou. Vôo? Desespere por mim. Descalço o sapato e me alço ao fato. Inato. Sou não sou. Sôo? Escute aqui, coração, ainda bato em você! E assim redecoro o sentido, interno mesmo. Há esmo, um Inferno.
Acendo um cigarro e tusso russo, vermelho, e pigarreio no espelho. Já respirei-o. Meu transparente distante, meu amante, minha conta me constando no inconstante. Diferente da gente. Esguio se ex-guia. O fumo urgesticula sobre a minha mão amparada. Ele foge pela janela amarela da minha narcoticidade-estado, venezianas do imaginário. Durmo no meu quarto minguante a nua nova inteira, ideal e bonita e verdadeira; amei-a. Qual novo mito sonhado no vômito, onde meu eu alienante nos precipita, se prova farto.
Filosofal carnal que mia, unhas de fato, felinaptidão derradeira: animiau! A noite cheia. Preta no branco no meio da página inimaginada que arranco com a caneta tinteiro, delirante delirando veio-me a cor dando ao pesadelo berrante que ora apago no cinzeiro.
Mal acabada cabala. Fria geometria, moradia vazia. A caverna que me externa. Casa comigo diz sim, casa e cozinha para mim, casa e comida no fim. Caverna, sempiterna caverna. Cativante não lugar. Aqui estou ileso, preso, selado. Lar do selar. Feio fóssil, belo perdido. Dono do centro comeu mel, trono doeu dentro do céu. Estelar.
No ente do ente. Creia-me uma última vez: recreia-me me recriar. Sobrevívido. Ainda fumando, ainda escrevendo. Não apenas para apenas não parar. Continuances. Sobras. Moro desmoronado, me afogo me afago... não demoro. Morro logo, logo existo. Mangue baldio, sangue frio, exangue cio. Quase inteiro: três quartos. Obras e lagartos.
Amiúde sabendo que não me resta muito mais, que no mais muito não me resto, esvai-se o tédio. Primeiro suo cada segundo, duo. Sou pouco ou menos, quase flutuo. Apouco-me. Depois já não sei, não sou. Apesar de pressentir o que já não será presença. Tudo igual, no fundo. Fúnebre vivo, não-luto. Enjôo, escôo. Sem a crença a me deter, não oro, só me deterioro. Raso.. vaso... jazo. E esperando que essa dor de cabeça passe, passo a passo o que é finito caminho. Em si, em círculos. Sublevo-me embora daqui, vou me incorporar mais uma vez à Rebelião que sempre deserdo do outro lado do Nada. Mate-me agora, faça-o! Sem defeito, faça efeito. Rebelde imberbe, impagável pagante, soldo contra. Translade-me em devolução ao cerne, avesso ao Tudo que me concerne.
A madrugada me obriga a me abrigar, então fico assim acima de mim, perscrutando os interstícios do tempo que me conspurca, a duras penas apenas, “vivendo”, com todas as letras, de vagar. O chão não se abre, o teto não desce. Por quê?
O dia seguinte já desponta ao longe, cada vez mais perto, varando-me avarandado. Meu grito aberto, de um já-não-vivo “estou acordado”. Tudo menos isso: eu. Revisto-me mais do que me livro. Anuncio xeque ao rei. Arte de bobo. Ensolara-me. Cega meus passos e pisa meus olhos. Em meio caos, ordena: escreva-me ou devoro-te.
É certo que erro, me acho perdido. Meu palácio é pequeno o bastante para mim. E o visto no lugar do último fato que no espelho me vi vendo. Acontecerei mais eu. Hoje é o dia, o dia que sempre é hoje. Emparedei todos os relógios e bússolas da casa.
Um deus supervisor de visões foi amigo meu; ele, como eu, usurpador de fogo, embriagado a esta minha hora... que o meu corpo seja o último fígado do teu castigo. Penso nele primeiro, depois em seu irmão, escultor de encarnações, meu antagonista; ele, artista como eu, criador de criaturas... assola-me com as botas perdidas de Judas, que é achado pendendo da árvore cujo espinho plantei, a qual foi fiel afinal, suicidado. E o autor das botas, maldito no tempo e no espaço, ultrapassa a morte exilado do tempo.
Eu já me matei tantas vezes, mentindo, que agora que é de verdade ninguém acredita. E quem não me conhece, lendo isto, pode pensar que sou velho... ao ter idade. Mas uma vida inteira não é o suficiente para nascer, quem dirá para matar-se o bastante.
O Jardim do Idem nos fundos: eu o rego com mijo turvo, eu o carrego comigo, curvo. Re-vou e re-volto. Do saber antigo e da vida nova que lá plantei não vejo raízes. Mas sei que estão lá, e que crescem; sinto-as entranhando-se em mim, que não estranho, que na mesma terra delas me emaranho e com elas o meu peito cavo, no não-sentido, único que sinto, externo-esterno-Inferno. Para com isso, Paraíso, estou na minha casa! Não venha a mim, que estou cordial, na insanidade que me cura do que cora são, Apocalipsis Literis. Bato na porta e me atravesso... é sem saída.
5 de abril de 2009
Peça Explicação
2 de abril de 2009
0,666
15 de março de 2009
A Uns Modernetes Que Ainda Passam
instabilidade globalizada e hiperinformação
assim a época se fez liquidada
progrediu na entropia a crise da representação
não é mais preciso inovar nem mesmo ser algo original
a repetição de formas passadas é não
apenas niilisticamente bem tolerada
dado esse esgotamento e deformação
como até é sedativamente encorajada
por modernolatria impura ou puro desespero cultural
quando o mal de mais um século é hiperbólico
onde a ética é uma estética do hedonismo
talvez por falta de um novo bardo parabólico
vanguardismo enlatado
ou massificado vandalismo
individualismo coletivizado
ou democratizado consumismo
relativismo desproporcionado
ou desacordado surrealismo
quando um sonsicealismo não é tão libertador
onde um capetalismo não é tão diabólico
talvez o fedorismo se desmonstre não ser terror
opera super isso e tal super a quilo supera superficial
ícones incipientes coletivos e sem rosto
incontinenti embalando sem conteúdo
homogeneização das relações e do gosto
tudo é significado e significado é tudo
um hermeneuta poderia fervir de profeta até o sinal
tudo o que é bólido desmancha no mar
temporada tardia contemporânea da minha tarde
defeitos raros rarefeitos para não durar
não se entra duas vezes na mesma modernidade
9 de março de 2009
meu Pai
meu pai foi vivo
meu pai foi absorto
meu pai foi pensativo
meu pai foi com
meu pai foi sem
meu pai foi bom
meu pai foi bem
meu pai foi ateneu
meu pai foi samurai
meu pai foi meu
meu pai foi Pai
6 de março de 2009
Íntimos Épicos
Sol matuto que sobe no céu
Zenite-mes ajornada toda revolvida
E boatar-de ama-dure-ser
Sol não por ocaso mausoléu
Da noite que se em luta é ab sol vida
Entre menopausa e menarca, gravidezes
No meio das coisas, do ovo às maçãs
Café ou chá tomados "en passant", xadrezes
Fêmeas culpas, de ninfetas ou anciãs
Atos após tolos míticalendários, entremezes
Hojemonicamente, ontens e amanhãs
Sai-se com o que é visto ou vê, às vezes
Ascendendo-me um momento
Trago comigo toda morte de um dia
Cobra me demora peçonhento
Veneno que provo a boa companhia
Duro no esfumaçante ou lento
Penso na vida inteira que o dia adia
16 de fevereiro de 2009
VOCÊ ESTÁ AQUI
medodequenãolhedevolvamoolhodaterceiradimen
sãoprimoirmãodebaudelairecomodizorobertopiva
quenãotemmedodenadanestaterradebrancosqueéa
páginanarcisoracistadaliteraturabrasileiramasculin
aapesardetudooquefezclariceasenhorasemhorane
mvezláforaquesemlobismoséatémelhordoqueaque
lawoolfoquenãoépouconãosenhoréconvoscoqueco
nosconãoestáhámuitotempojáquenãotenhotempop
aratemplosequeseexplodamostemposdocóleraquea
febreamarelamatamaisqueoamornessesdiasdetraba
lhosteogônicoserefeiçõesnadapantagurélicasoraor
aquenãomelhoraeutenhodeadmitiragoraenahorade
tuamortequetalvezdepoisdefalecidoquevenhaaglór
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5 de fevereiro de 2009
Sob a pele
21 de janeiro de 2009
Ser Poeta
como outro qualquer
ou melhor
como qualquer outro
o mesmo poeta:
ouve a música dos instrumentos,
respira a poeira das estradas,
chora as lágrimas dos lamentos,
morde a mandíbula das risadas.
quem iludimos?
é lendo e escrevendo
que coincidimos!
o poeta é e ponto: ou melhor,
é e dois pontos.