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31 de julho de 2008

Inanição

Poemas escritos e os olhos fechados
Cansados vide evidência de fosfenas

Quisera ser apenas um ideal
Estando só com essas idéias
Parecer um fumo do filosofal
Entre as estadias e odisséias

Sede que mesmo oca me come
Fome que beijo louca me sede

Sustentando a esta nota
À roda destes meus pés
Susta-me cada suja bota
Julgo que dos chãos rés

Febo o fútil fogo com nojo mastigo
Castigo um vento frívolo que bebo

Quando me tornar letra morta
Já não precisarei sequer dormir
Errância se acerta na linha torta
Da obra o corpo livre para existir

30 de julho de 2008

Araújo em Ordem

Por uma conjunção de tempo e espaço, som e imagem, durante os 115 minutos que dura o filme eu estive em ordem, todo o caos do meu eu parecendo poder ser entendido por mim, por pura hipnose e identificação, não sem algum estranhamento. Ver na primeira fila foi melhor, quero ver de novo, necessito, várias vezes.


Saber das muitas pessoas que somos, que somamos, que somatizamos. Curar-me do que não é cor, melodia; revoltar-me contra o que não são sentidos, sentimentos; abandonar o que não forem risos ou lágrimas; fugir do que não forem ereções ou cólicas. Viajar é algo bom em si mesmo, mas viajar em si mesmo é algo melhor. Quero encontrar na Poesia um ser, outro, uma pessoa, simplesmente; quero através da Memória me transportar, chegar a ser outro, mais eu mesmo, naturalmente. Preciso de uma Beleza que seja carne, pele e cabelos; preciso de uma Razão que seja osso, vísceras e sangue. Preciso escrever tudo, o tudo que há de oco por fora em mim, este mundo inteiro que sou eu escrito.

29 de julho de 2008

NãO FiQuE SãO - o livro

:
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CAPÍTULO PRIMEIRO

OU

TODO O PASSADO É PRÓLOGO

OU

JARDIM DO IDEM
:
:
Aos dias os dias simetrificam-se. E a mesmíssima nauseabunda era me herda, me acomete. Sempre é o tempo: são cinco horas da manhã; dou-lhe um tapa para que se cale e enfio sob o travesseiro a cabeça em alvoroço, não sem antes reajustar a ampulheta digital para que volte a me estorvar em mais quinze minutos. Um suspiro depois, vem a mesma algazarra ensurdecedora. Penso: déjà vu? Que nada... são agora cinco e quinze, quinze minutos depois de quinze minutos atrás. Nada de novo.

Eu me conformo com as formas das coisas; sento sinistro na cama a me endireitar, comigo mesmo ensimesmo os sentidos relembrando o último parágrafo que li na véspera, enquanto adivinho no claro da luz que penetra no quarto escuro qual o clima que faz lá fora, a que sou tão suscetível; mais um dia de sol na distópica São Caos. Estados Unidos, Europa Industrializada ou Japão? É tudo a mesma coisa para um jovem de quase classe média que tem de trabalhar para manter seus hábitos de consumo; quinze anos desta época já me adaptaram, às vezes acho mesmo que já nasci adaptado. A cada dia toco o chão com um pé diferente ao me levantar, na tentativa de que algo em minha vida mude... e nada. Eis o desestempero da vida: muda o clima e não eu.

Mais do mesmo. Ainda vou enlouquecer, não ainda. Tomar banho a esta hora é uma experiência um tanto quanto traumática, mas me ajuda a acordar: limpo os olhos sujos, desfaço a cara de barbas, engomo o cabelo e sobretudo passo protetor solar; visto camisa branca de gola dura e a única gravatinha, preta calça puída e velhos sapatos pretos, relógio falso importado de contrabando, valise rôta. Ensaio BOMDIA!s em frente ao espelho com um sorriso meio mórbido, autoflagelação estética e moral necessárias para um inevitável dia de trabalho. Confiro o tempo: preciso elevar a pressa. Mal posso escolher que livro levar, tomo um tomo não muito pesado; levo também a sombrinha. Desço a escada de metal em espiral. Avisto pai e mãe, de um lado para outro, tais quais baratas tontas pela casa, arrumando não sei o que igualzinho a ontem, anteontem e ao primeiro dia de aula do prézinho. E o meu destino inexorável é evoluir para a mesma espécie de anulação deles; a amar com primitiva irrefletida ternura o não sentido de esperar algo melhorar enquanto a espera dura. À mesa, café de ontem na caneca rachada e um murcho pão com pão que deixo de lado, café é que é bom. E somos só “tchau, pais”, “tchau, filho”. Vou dar a cara a bater ao mundo a partir de Alphavella, onde moro desde sempre. Passo pelo pequeno traficante todo o meu tráfego aqui e agora. Sorri para mim desde que tenho idade para receber a primeira mesadinha. Ascendo ao pensar no escarro reprimido acendendo um cigarro escondido. Aperto o passo estreito rumo ao centro da cropópole, São Caos, para voltar dentro de algumas horas se não tiver perdido a hora para o ônibus, trem, metrô ou afins que em hora e meia me levam. É o tempo suficiente para ler à contracapa, as orelhas, a biografia do autor, e quem sabe o prefácio e o prólogo, mais umas quantas páginas livro adentro, história afora.

Prosa ou poesia? Nem sempre sei qual é a diferença... Alguma caminhada ainda pelas ruas sujas e barulhentas do centro, desviando dos mendigos moles deitados nas calçadas duras nesta pobre cidade rica, que cada vez mais podre fica; onde ainda todos insistem em amanhecer para. E é sempre igual... mais um dia todo dia. Engulo seco o primeiro gosto amargo diário antes de ser abocanhado pelo arranha-céu de concreto e vidro que de elevador me leva ao andar da Companhia:

- BOMDIA!, BOMDIA!, BOMDIA! – todos dizem em coro, e eu de boca fechada como quem consente, calado corifeu condenado, inocente.

Logo ao entrar avisto os postos de trabalho da Central de Atendimento. Células quadradas, muito pequenas e geminadas formando no todo um quadrado maior, corpo falante, cada uma contendo um funcionário a que se chama operador de telemarketing. Profissionais superexplorados que trabalham como forçados pós-modernos, dilacerando as cordas vocais, olhos e ouvidos, mãos e punhos até estourar em frente ao computador de última geração. Recebem na mísera paga um irrisório adicional de dupla função, a despeito de exercerem pelo menos uma quinzena delas; têm carga horária de seis horas por dia no máximo, direito sinistro que serve de desculpa para o baixo salário, mesmo sendo obrigados a trabalhar sem folgas num eterno plantão. Através do corredor paralelo contíguo eu deslizo rápido sobre o carpete repleto de ácaros invisíveis, passando invisível pelos conhecidos de sempre, sempre procurando não ser reconhecido.

Uma garota nova em meu caminho, meio modernete, mas muito bonita, de cabelo vermelho tingido e negras olheiras profundas, ao certo mal acomodada na roupa social e parecendo entediada, com sua garrafa plástica a barrar-me a passagem me pára e pergunta onde fica o banheiro. Penso: merda! Vou me atrasar... Encho de água morna minha garrafa plástica como um soldado raso cansado, que carrega de munição o fuzil para o dia da derrota definitiva da Civilização Ocidental, que não chega nunca. Procuro minha posição, instalo meu equipamento conectando-me, acerto os três relógios de que disponho com o relógio maior na parede; inicio quinze programas de computador necessários para a operação; condicionado, inspiro superficialmente o ar profundamente viciado; vencido, pressiono melindroso o botão vermelho que libera o inferno e me obriga a dizer, nunca sem aquele “sorriso na voz”:

- Quidam Idemetalter... BOMDIA! – E aí me dou conta do farsante miserável que sou, um puto fingidor. E treplicando o que replica a cliente endinheirada, ligando do celular, de dentro do carrão de luxo – BLÁBLÁBLÁ, Senhora Fulana de Tal. DISPONHA SEMPRE E TENHA UM BOMDIA! - O que repito à exaustão quinze quinzenas de vezes, menos os quinze minutos de pausa para o café de quinze centavos.

É um emprego ruim, mas o que tem de pior é algo comum ao trabalho em geral, não acaba nunca; invencível por ser imperecível, o trabalho é um castigo de danaide, um dano de danado, da nação de assalariados. Ao fim de meus quinze trabalhos, olho para o tempo de quinze em quinze segundos... Ufa. Que fiasco! Fico até tonto.

De quinze em quinze demora demais para acabar, mas acaba acabando; acaba, acaba, acaba... ah, acabou! Salto do lugar e enveredo direto para o buraco por onde entrei, não sem antes trocar qualquer amenidade com outro danado forçado ou com nossa judiciosa Supersupervisora, a odiosa. Ah, alguém ou algo me ajude! É o que se pode chamar de L.E.R., significando “Lesão por Esforço Repetitivo”.

Saio para o dia e ando um bocado a esmo pela cidade, tentando equilibrar-me nas sombras estreitas dos postes a fim de evitar o holofote solar, ando e ando e ando passando por uma série de alfarrabistas onde é possível conseguir bons livros usados; juntos eles formam um circuito de desenfreada perdição financeira para um consumidor de boas leituras com parcos recursos. O meu Livreirudito sempre se acha bastante conhecedor do assunto, querendo parecer à altura do que vende, chegando mesmo a esnobar um pouco, um pouco demais dependendo do grau de intimidade dele comigo ou com o autor e do autor comigo – mas o que se há de fazer se ler é preciso e, saber, tão impreciso –, qualquer canastrão se cerca de livros; o Livreirudito, este pseudoconnaisser, com seu estilo, envolve-me numa emaranhada teia de considerações sobre esse ou aquele escritor que não li – ou que ainda não comprei dele –, oferecendo-me com sua eloqüência barata livros caros cujo prefácio resumido constitui a própria matéria-prima de seus discursos, simplificações de idéias pré-concebidas que julga que ainda desconheço. Desprovido de qualquer conteúdo, nada cria além de miragens intelectuais tão superficiais... que às vezes ele me acerta em cheio: e então compro pilhas e pilhas de lindos volumes deliciosos que, sôfrego, levo comigo, ávido por folhear... e então, quando o dinheiro acaba, o conhecimento é tudo! O pior labirinto não é a reta?

Tomo de meus tomos e me encaminho, para ir tomar no curso na Universidade, pública e aristocrática, oficialmente matruculado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, onde quase nunca estou, pois cabulo para poder ler. Apesar de eu não ter completado o estudo o trivium e quadrivium, é certo que eu esperava muito mais, talvez esperasse pelas universidades dos livros. Quando muito aqui encontrei uma grande biblioteca, como outras grandes bibliotecas, à exceção de que aqui ninguém os lê.

Os outros estudantes anseiam por se tornar caducos como os mestres e doutores, especialistas stricto e lato sensu em saber que sabem que nada sabem. Perdem seus tempos. Pensam, logo pensam que existem. Cada aluno encurvado em seu assento parecendo ele todo um grande nariz adunco graduando-se em ouvir calado e escrever fichamentos.

Não sou um deles, por ora estou. Vai começar a aula. A Catedrástica adentra o templo do saber e precisa de ajuda para se sentar ou levantar, tropeça e cai-lhe uma lente de contato, não a encontra e fica com um olho preto e outro azul. Gaguejará durante quatro horas o que levou quarenta anos decorando: “sei melhor do que ninguém!”, “quinze páginas em latim para amanhã”, “não me interrompa!”. E os educadores ainda são aplaudidos pelos educandos, quando sei que deveria ser o completo contrário.

Quando de repente Vossa Magnificência o Reitorpedro, pedra angular dessa instituição superior, imiscui-se no recinto. A docente Catedrástica e os discentes da escolástica meneiam as cabeças carolas para reverenciá-lo, mas antes que se forme uma fila para beijar-lhe o anel, este se põe a fazer um mui efuzivo discurso sobre o espírito universitário. Mas não, eu ainda não morri, estou apenas cochilando, sonhando em mardar-lhes enfiar no cu o diploma.

É mesmo um ambiente muito tradicional e esnobe, sobretudo pouco estimulante intelectualmente, onde bem academicamente, os professores diminuem os estudantes ao máximo, para preservar-lhes intacta a ignorância. E desde o prézinho, eu já estou nisso há quinze anos.

Assim eu levo a vida ou sou levado por ela, auto-enganando-me ao deixar-me enganar pela mesma vida. Só finjo; não choro, não grito. Pode-se rir disto, mas está mesmo acontecendo comigo agora mesmo e assim tem sido por muito tempo; tragicômico, mas super real. É a minha sincera autobiografia de enlouquecer qualquer cristão: não ficção.

Mas sempre se pode ao menos ler um bom livro, voltando para a senzala dentro do transporte público lotado e barulhento que, lento, rapidamente quebra no meio do caminho. Ótimo! Podia ser pior? Podia... “não há mal que de tão mal não possa piorar” é meu versinho “próprio” favorito. Inpirado na descoberta do mal estar na civilização.

Alguns lêem para encontrar respostas, mas como os livros só nos levam a mais perguntas, acabam por se achar perdidos; outros lêem para não ver passar o tempo e nesse passatempo acabam mantendo-se sãos; há ainda aqueles que lêem somente para ter alguma companhia, seja a do livro como objeto de fetiche, das palavras como sinais quase compreensíveis, ou das personagens como amigos imaginários de ocasião, nestes últimos a leitura às vezes permanece, pois eles, com o tempo, passam a reconstruir suas vidas reais com o mesmo material de que se constitui a literatura. Excluído de todo o resto, aqui eu me incluo.

A história de minha vida eu poderia ler em menos de quinze minutos, pois é mesmo só isto; já a de minhas leituras... nelas, realidade e tempo e espaço e existência e substância e matéria e ação e relação e postura e estado e mente e paixão e acontecimento e quantidade e qualidade, são o Tudo e o Nada, possíveis unicamente à imaginação.

Mas a minha mente infeliz mente vai precisar voltar. Em casa, minha mãe deve estar se esfolando viva no laboro doméstico, a cozinhar frustações, lavar nosso torrão, passar a ferro o tempo e remendar esperanças em cárcere privado, em solidariedade aos esforços de meu pai, que também se esgota trabalhando longe de casa acolá, ali e onde dá como pedreiro, ambos os bois eficientes e inconscientes e “deficientes”: sem meta, eles nunca mudam, sendo sempre cegos e surdos de metáfora como eu mesmo não mudo. Improvisamos provisões para um futuro de ilusões quaisquer.

Ao reler isto eu acharei parecer doentias lamúrias, mas são. Olho para dentro de mim e percebo a contradição, contra a subtração de meus próprios sonhos eu deveria estar. O que faço por enquanto é meditar sobre isto. Tornei-me um manso, um antiferrabrás pacato. O lirismo que se vê na decadência da sociedade cabe somente na ficção, mas não é o que se tem visto fora dela. Cada indivíduo capricha para dar o melhor de si para se foder, dá-se a uma espécie de queda. Recebo nas veias densas doses de diário desânimo, e ainda assim ofereço estupidamente o outro braço para que me suguem, drenando até a alma, mas pulsa em mim algo mais precioso do que a fé ou a esperança, um debochado espírito de porco. Sei que só mesmo pela esculhambação é que, se não houvermos de vencer, haveremos ao menos de levar conosco aqueles grandes favoritos da humanidade para as profundezas da mesmíssima bosta. Chego ao fim de mais um ciclo, eterno retorno, se não me repito. No quarto, ainda leio um quarto de hora tentando suicidar o pensamento e sublimar a dor no corpo, suigeneralizar os problemas em problema; dormir sem sono ou sonho para recomeçar tudo de novo no dia seguinte, pois minha vida é um acordar de que não consigo pesadelo. Fantasia extravagante ou espinho lógico, a hipocrisia existe é para ser usada, e eu, como infeliz patife que sou, engano ao próximo como a mim mesmo, fingindo plena a felicidade, entendida como característica esfericidade, simetrificando pensamento e linguagem, vício e virtude, superfície e símbolo, interior mente. Entrego-me ao sono como quem se dá à morte... é, triste, mas é verdadeiro; antes de dormir já sonho ainda com o depois de não acordar, mas não há recordação possível do vazio, ainda menos de além. Como ontem e anteontem será o amanhã; eu só queria o nada novo e não o tudo de novo... E isso é algo que sempre peço em preces antes de adormecer ou depois de terminar de ler um livro, algo que quero tanto, mas tanto, que ao voltar de onde vou sempre quando quase chego lá, mesmo novamente a mesma mente, que o que quis só não terei alcançado por um triz.
...

Necessária intervenção do autor


Uma história tão ordinária não deveria despertar o interesse de quem quer que fosse. Mas compreendo eu, e o Leitor também compreende, que há muitos jovens vivendo em situação demasiada e assustadoramente semelhante e, não se espante, até pior, neste exato instante; e que estes uns correspondem justamente ao tipo de Leitor médio que se encontra nas salas de aula ou mesmo cabulando aulas, e que acabariam por acompanhar nestas linhas os passos do personagem (herói?) por mera identificação, outros talvez por pura compaixão para com ele ou para comigo. Para um Leitor muito mais ou muito menos exigente, bastariam mais umas quantas linhas para que nos abandonasse para sempre; mas torço para que o Leitor que agora me tem diante dos olhos, como o personagem e eu mesmo, venha buscando ultimamente (ou desde quando?) algum livro que acabe conduzindo-Te a quaisquer conclusões realmente inquietantes, na expectativa de conseguir um autêntico prazer artificial, um deslumbrante passatempo estético ou, quem sabe, um pequeno vício. São chegados os seus quinze minutos de fama, quem sabe o Teu quarto de hora esclarecedor. Só que acompanhar esta narrativa buscando minuciosamente alguma pequena alteração naquela monótona rotina representaria certamente uma atividade por demais desgastante, que sem dúvida acabaria por aborrecer nosso Leitor. Sendo assim, para que nos poupemos da dura realidade da vida, e aproveitando que o Leitor, pelo olhar, já demonstra renovado interesse, entremos logo no campo da literatura; de minha parte, na cômoda posição de autor (onisciente, onipresente, onipotente), permito-me ousar ao brincar de dEUS com o destino de minha criatura, concedendo-lhe nessa aventura alegórica e grotesca algum dom, ou amputando-lhe algo que julgar necessário, para que nós, eu, Tu e ele, tenhamos algum entretenimento nas próximas páginas. Se és Leitor de primeira viagem ou viajante de primeira leitura, creias no poder da minha palavra: ele não é santo; mas se não és, igualmente olhe e passe indo comigo, dessas letras usufruindo.

19 de julho de 2008

Cadeia Alimentar

Você que é esse pequenino tão telúrico e louco,
um de nós que nos sabemos vermelhas formigas,
que ouvimos com antenas o som do fim e é rouco,
abduzidos pelas compridas lúbricas línguas antigas,
desse deus tamanduá pátria-família vulgo o mouco,
e sonhamos no veneno de colonizar outras barrigas.

17 de julho de 2008

VISTA

Os meus olhos siameses
Englobam à noite às vezes
E não caibo em pensamento
Entre quaisquer duas estrelas
Mas mais sem cabimento
Se quer seria não vê-las

Vejo Jove
A mira é cega
Tempo faz que não chove
Canta a dor que o trove
A deus e ao dia renega
Ébrio planeta mega
Com templo que não abarco
E é não amar ou há barco
A nave que me navega

Em branco que visto vim de siso
Esgarce ao tudo que viso oculto
No turno quer e paro vejo um vulto
Isto me investe de fausto e disfarce
Ressarce meu prejuízo no que exulto
Guia d’oeste lar senti nela catarse

Olho ao redor
Vendo o quadro sem moldura
Dossel que de onde estava eu via
Adquiro o céu que me transfigura
E aquilo que não sei eu sei de cor
Qual um véu que a visão fulgura
Deve haver o eclipse de um meio-dia
Pois no escuro ou se vê melhor
Ou é noite de lua vazia

11 de julho de 2008

Pen at Work

Este poema foi incluído no Livro Ruído: http://goo.gl/Xoo79

8 de julho de 2008

Fosfenas

Ressaca de arte e vinho tinto, o sono preto, sol dó si mi ré lá, no sofá. Coltrane ama supremo o diabo do deus que espremo. Telas sem moldura ou silêncio, quadro a quadro; basta um verniz para ser feliz. Participo da amizade também. Vomito que não omito o mito. Bom dia domingo! Miríade mira de fotografia no ato do vácuo. Dormindo a cor dado de pé em durado nos passos a ribanceira arriba. Rob in son mach ado! Pão chapado em que embarco achocoladrado. Moro com outras pessoas, lá na Poesia. Desabotôo a camisa e desabo tonto na caminha. Sonho que durmo de novo e não me demovo do lugar por horas bolas a frio. A cor do acordo que me acorda é a massa, a que sugo, desdenho, repasto, não como o mesmo, mas outro, a mesma. Reclino-me mais e não declino do que deliro. Refino os olhos em fosfenas semi-acordadas que me regiram aleatórias nos entressaias pela porta que bate mil vezes zero badaladas. Caio em mim, o que não dura. Há luz e pirilampeja. Lágrima-chá pisca-pisca e redivivo me embalo cuidado de camomila. Na-morada o recomeço da água em mim; ela me trata, me re-hidrata, e como que volto revoltoso e devoto. Holofote de olor forte me desnorteia para Pseu do Sul. Do recôncavo deitado vejo por entre franjas de coberta uma tela noventa graus mais horária: liquidifica-se doido de ver verde à meia luz da alcova redemoinhada. Estou mais do que estômago, tonto e mago, quedo. E a bagunça jagunça pinguça é dentro, no cerne o descaminho. Rodo pio a íris nada e colagem de ar e ia reme lenta que rápida mente mal-me-quer a lado entre um e outro excerto que erro. Hiroshima depois daqueles oito beijos e meio meu amor. Babel legendada. Comumicônico, adoeço à razão do corpo enquanto tino me expira peremptório. A glande paixão da minha vida me exterihorroriza e jaculatórias revisões do futuro em aberto em plano fechado. Halo cine. Escovo os vinte e oito dentes e tomo banho sentado. Desanoiteço e não muito sedo. Ensaio um fora. Teletransbordo-me para cá onde não chego o bastante. Basculo ósculos que de texto e paranormalizo a tarde onde começo a medir e vir. Depois é só fumar bastante e comer morangos, mandar pinacotecas por e-mail e seguir cabisbaixo para uma aula de raciocínio lógico: se a Terra é quadrada, a Lua é triangular. Quiçá haverá sexo e não sono, letargia mais letal. E só há a possibilidade de eu ainda querer mais. Outra vês?

OUTRO MESMO ANTES DA RESSACA
BY ROBINSON MACHADO EM:

30 de junho de 2008

Cabaretc.


A diversão é garantida, venham brincar
Sejam bem-vindos ao show de horrores
Pois o tentáculo deve sempre continuar
O circo é a cidade, senhoras e senhores

Um grand guignol na minha cabeça
A casa dos monstros é a de espelhos
Qualquer sangue frio que me aqueça
A segurança de dispensar conselhos

Sei porque persigo à mulher barbada
Porque eu também gosto de parecer homem
Penetro em sua montanha encantada
Meus medos mais meus escrúpulos somem

Desagasalhado de emoções
Num parque de diversões do meu interior
Reiniciado o horror, o horror

Aposte todas as fichas no assassino
A sorte foi o primeiro jogo de azar
Fellinis e fellinianos artistas
O mágico às siamesas serra
Meus dois olhos trapezistas
O maior espetáculo que erra
A montanha russa roleta do cassino
A nossa banca é viciada em ganhar

Esse corte de cabelo tão ruim
Despenteado pela experiência do brinquedo
Que tiro ao calvo fez de mim

Agora giram doze cavalinhos no meu pulso
O ser mais exótico tatuado de variedades
A atração principal é fugir ou ser expulso
Vaudeville põe em revista minhas verdades

Há ao menos uns mil inconvenientes
Em se chamar atenção sem consciência
Esses ingressos são impostos urgentes
Por isso agradecemos pela preferência

Pago micos em toda sorte de realejos
Acaba a festa junina, da uva ou quermesse
Bebo blues embotecados de azulejos
Antes que eu ou a festa em mim recomece

17 de junho de 2008

Livros de Cabeceira


Depois que vendi todos os meus livros para viajar, recomecei uma biblioteca ideal, menor, só com o essencial. Quem me conhece sabe que eu tinha o péssimo hábito de elaborar listas, pois então hoje fiz "A LISTA" dos volumes que será necessário adquirir até o final da vida, pretendendo doravante viver de reler indefinidamente sempre aos mesmos seguintes autores que, como amigo, eu recomendo:
Borges, Pessoa, Rimbaud, Lispector, Ovídio, Poe, Nietzsche, Heródoto, O.Andrade, Nerval, Cortázar, Shakespeare, Proust, Schopenhauer, Piva, Burroughs, Artaud, Leminski, Dante, Baudelaire, Lima, Goethe, Corbiére, Thoreau, Campos de Carvalho, Yeats, J.Sena, Gide, Shelley, Khlebnikov, H.Miller, Carpentier, J.London, M.Andrade, Kafka, Byron, Lautreámont, S.T.Coleridge, Saramago, Rilke, Breton, W.C.Williams, Voltaire, Papini, Wilde, Cesariny, T.Mann, Céline, Schiller, Laforgue, Hölderlin, Melo Neto, Jarry, O.Paz, B.Vian, Keats, M.Mendes, Aragon, Carrol, Fuentes, Heine, Quintana, Eliot, Ungaretti, Flaubert, Homero, Chair, Pound, A.Nobre, Musil, Pirandello, Camus, Márquez, cummings, Mishima, Russeau, Blake, Genet, E.Dickinson, Gautier, Cervantes, Rabelais, Espanca, Dostoiévski, Hilst, Whitman, Mallarmé, Helder, Valéry, Neruda, Ginsberg, Apollinaire, Lorca, Montagne, Joyce, C.Drummond

Vidas Paralelas


16 de junho de 2008

Eu, os Poetas

Tudo o que escrevo pode ser lido
Como meu manual de instruções
Minha bíblia mesmo sem sentido
Uma autobiografia e suas ficções
Esse meu diário louco e colorido

De poesia e amor e liberdade
Estou escrito neles, bons ou maus
Poetas somos uma coletividade
Que sozinho me reúno em saraus
E sou minha própria plêiade

27 de maio de 2008

I'm in English

Tenho traduzido alguns poemas meus para o inglês; eis em que se transformou o "A Meta Mor... (Fit Alter Et Idem)", publicado originalmente como http://naofiquesao.blogspot.com/2006/01/meta-mor-fit-alter-et-idem.html neste blog, em 05 de janeiro de 2006:

Alter Et Idem

The volatile bird recites the soluble fish
And then suddenly every scripture
Tells the history of any literature

The unintelligents are eligible
In the untranslatable universality
Ismisms even so preferables
Than the great indigestible banality

Library that always keeps illiteracy
As the worst labyrinth is a straight line in the end
In the lonely lectures since infancy
To become another and the same is a trend

I gaze the double error in a mental mirror
Alter me a little as we both are reflected
And I is another from me disconnected

23 de maio de 2008

Sem Preamar

Não busco pureza
Direciono uma energia
Através da beleza
Recrio-me com alegria

Uma luz me protege
À minha sombra agiganta
É daqui que emerge
Sem palavras me encanta

Quero velar o céu principal
Conto só com fazer canoas
No que ninguém verá o mal

Intenções querem ser boas
O que nos parece impessoal
Não sou bom com pessoas

21 de maio de 2008

Tormental


um octaédrico polvo de nanquim com angulosas ventosas flexíveis se revira pelo avesso e com oito tentáculos tenta cálculos boiando nas espumas do papel onde conheço bem aquela peça que é o dramaturgo com seus redivivos espasmos em demiurgos reflexos nos sete mares se temores e mortes que decuplicam o céu que se precipita sobre um molock moribundo mor de noite e de norte a sul se suicida até as margens e rodapés de praia e página que a vela qual farol de ébrios leitores à deriva no tempo e espaço insanos como torre que são com relógio e bandeira e janelas fechadas a que de onda as sondas abarcam sem esperança escafandrista ou tormentas de mar e mótuos na alba atroz da destruição em seus fumos de nau frágil estilhaçada no atol de ilhas palavras iodadas que roca maior como rei atlântida no azul submarino do núcleo em alto martirizar os prósperos sereiais de cantos e horas de areia sem com ventos a.a. soprar cascos chagados de cruz-maltados etílicos corsários adivinhos do porto advindos com cardumes de mandíbulas nadadoras a rodear o sangue cheirando a ouro negro na calmaria coagulada da procela marinada de oceano e tudo mais que pretobrás num fechar e abrir de olhos de cara de cabeça de bacalhau se puder pescar

12 de maio de 2008

Senso Sentido

(...) incerto do valor do que escrevo
(...) o estilo me causa horror.
Artaud
*
Vejo eu-me? Em ver indicio-me em pesadelos
por entre pêlos nos olhos paralelos
de todos os mundanos guarda-sóis amarelos.

De de Chirico as bananas suicidam Werther &
Lotte estupra-se com maria-mole e vela o sono dos pais.
Cardumes de cupidos náufragos são
alvelejados por pelicanos cegos,
em meio à significativas paisagens que abrem os olhos a dizer
:
- Olha lá! É um banheiro perseverando no próprio orgasmo... com interesse, som de descargas cobrindo putas mudas. Vasos inquebráveis por orifícios sinceros remetem cartas marcadas de soluços e cinzentos berros. São matilhas de coalhada seca a chupar sarnas de crianças-sereia, desembocam na Rua Sem Nome, s/n. As fachadas rococó do rouco cu dos restauros coloniais, notáveis feições fodidas do Velho Incontinente que postula silogismos de bosta como microorganismos para meu terceiro rubrolho chagado de hemorróidas. Dos bolsos rasgados de minha sombra em ruína, vêm ruídos de relógios e arcos de violino, chuva de conta-gotas de faz de chuva absoluta sobre cadáveres sabotados, todos os selos rompidos pelo pêndulo que oscila entre desengano e solidão.

E, no entanto, é uma aposta
essa bosta de refeitório: sou uma posta de peixe
no canto do meu prato, o velório do peixe
com aquele canto, mas turba oratório,

sem mais tempo de amar, dado
que fetos híbridos de feras recorrentes sanguíneas
amaciam os órgãos da minha alma ausente, retilínea.
Era um vez, meus quinze minutos e Inês.

*

Pelas duas sinistras mãos direitas
de Romiéri & Aleph Davis,
irmãos em Lautreámont.
Na sexta rotação de maio, MMVIII.

20 de abril de 2008

Clique Nervoso

O meu photolog, "POSES", está atualizado...
A foto não é fato
O quadro venda
A cor opina mais
O instante é pose
A raça um animal
O céu dá choque
A anestesia já dói
O retrato-ouvido
A mulher-bomba
O choro regional
A reta um gancho
O destino é aqui
A doença se cura
O close é cópula
A lente ensinou
O foco é dentro
A mídia um fim
O instante revela
A sombra cobre
O mesmo é outro

17 de abril de 2008

Com Siderações

eis que o conto bluseiro, um CÉU da boca para fora de órbita daqui / o CÉU, ele fica me olhando de cima, um buraco negro no dente da frente / desentendemo-nos e trocamos pancadas de chuva e trovoadas esparsas / ele me faz ver estrelinhas, mas deixei-lhe a abóbada acamada de ozônio / espaço infinito de tempo depois, eis que me reaparece, dentre nuvens / fez-me saber que de DIA lhe amputam a NOITE, e notei que mancava / o SOL viu tudo, sentado no horizonte com o cu na mão, aquele laranja / e eu que suspeitava de esquizofrenia, quando era hermafroditismo / o DIA ficou meio dia, a NOITE ficou meia noite, e ficaram por isso mesmo / ele me visita diariamente, mais ou menos caloroso, dependendo do clima / mesmo com nebulosas idéias fixas, ele pode ser bem alegre e colorido / a NOITE ficou muito minha amiga, apesar de ser algo misteriosa e sombria / ela me explicou que é tímida por ainda exibir tantas estrelas no rosto / vaidosa, mantém o ébano breu da tez fazendo bronzeamento artificial / um vai dormir cedo, a outra acorda tarde, e nunca rola um tête-à-tête / precisei fazer análise para aceitar, três vezes por semana no mundo da LUA / paira ainda o muito em comum que os dois têm, o mesmo ar aéreo / uma certa ambígua cor celestial naquele etéreo astro lábio firmamento / de tanto eu falar de um para o outro, ficaram na maior fissura de se ver / fiquei sendo o garoto de recados por um tempo, mas não dava mais / agora dou uma de médium encarnando de dia a NOITE e de noite o DIA / aí não preciso nem falar mais nada, é sempre com fuso, a maior putaria / estou há muito tempo acordado, enormes olheiras, os horários trocados / mas felizmente sempre passa por aqui um PSICOTRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

Psicotrópico de Capricórnio

Trago no peito um bagulho telúrico daqui mesmo ou de logo ali pulmão do imundo que me dá um ar de preguiça alegre e brisa cheia de verde primário e qualquer outra remota kombinação em que viajo barbado pela ficção cabeluda para onde aponta meu nariz legal posto que achato e não saco à distância da velocidade ou direção que minha poética antiética em pó no espelho da razão cheira a branco total que nem sei do que estava falando no pico da conversa que na larica eu via láctea que tanto fazia frango com salmonela ou salmão com frangonela eu como você que me lê sim não mele minha diversão de versinhos chapados nas oras bolas à toas que eu fumo sim e estou vivendo que não fumar é um vício como qualquer outro e se tenho o hábito é por me religar com o divino que nunca atende com medo dos homens mas sou eu quem ligo então a tendência é a tender e ele me traz mais e fico ligado nisso assim que desde que soube que celular não causa câncer que tento cachimbar o aparelhinho pelas antenas e é um alto barato com um sonzinho ambiente com que me toco mais do tempo que perco longevo em cada minuto que me ultrapassa um caminhão com fundo falso no tráfico da auto-estrada do auto-conhecimento de este lado oeste lado percorro na contramão amarela skafedendo-me para dentro do interior até a fronteira para onde emigra o sol brasil.

13 de abril de 2008

Profecia N° 2

Prevejo teu um destino
Caminhos se vão bifurcar
Teu futuro eu eu vaticino
Edito para te acre ditar

Videntes na tua boca
Bem sombrios no céu
Era uma escrita este lar
Numa língua de ponta
Na morada dôo culto

Se de horóscopos és fã
Inevitável é esta profecia
Você vai morrer amanhã
Se for ler isto todo dia

Prestidigitação

30 de março de 2008

Resultado da Entrevista

AGORA ACHO QUE DEUS EXISTE 
E QUE "REPROVADO!" É UM DOS SEUS NOMES. 

QUE ASSIM SEJA.

21 de março de 2008

Remetente Desconhecido

Borderland, 30 de fevereiro de 2967.

Caro, Destinatário

Envio em anexo a esta missiva um envelope selado para tua resposta, em breve.

Ocorre que não me tens respondido, motivo pelo qual me sinto decepcionado e, não se surpreenda, o tom das minhas palavras pode mesmo acusar alguma irritação, além, naturalmente, de acusar você.

Desde que te conheci não escondo minha obsessiva admiração irrestrita por ti; também é sabido que nisso nunca fui correspondido. Às vezes cogito o disparaste de ser possível que você não se lembre mais de mim. Seria isto possível? Acharia absurdo.

Enquanto estávamos próximos um do outro, o mesmo não se operou. Assim, tenho inúmeras boas recordações das sensações que compartilhamos juntos, momentos de completa empatia e absoluta compreensão mútua. E uma vez que nos afastamos, tento a partir de então travar contato contigo, me reaproximar estreitando os laços de uma relação outrora promissora e agora etérea, mas não tenho tido réplica. Ages como se mal me conhecesses, com desprezo e até com desdém. Ignoro sinceramente o motivo.

Não houvesse os meios contemporâneos de saber da tua vida, de acompanhar cada passo que você dá sem saber que estou em teu encalço, eu poderia até mesmo ficar preocupado com a tua saúde e segurança que os tempos andam cada vez mais civilizados e igualmente violentos. Dessa forma, sei não haver qualquer fato externo que te proíba de me responder às cartas, e qualquer motivação interna estaria em completa discordância com aquilo que me fizestes pensar de você, o que dissestes pensar sobre mim e o tanto que nos queremos bem. Estimo-te demais, confesso até que te amo.

Configura-se um mistério total para mim a razão de tamanha ingrata desfeita. Está parecendo falsidade o que apreendo da tua estranha conduta. Julgo-te por omissão.

A par da realidade, estou desesperado por me ver impedido de realizar meus devaneios quanto a ti. Vejo-me impedido de satisfazer plenamente instintos e desejos. Minha alma sofre por ter chegado ao limite de suas forças. Por estas razões você pode considerar o conteúdo desta correspondência como uma clara e direta ameaça de morte. Pode parecer perverso, mas recorrerei a todos os meios para ter você de novo.

Esta é a última carta que te escrevo até que me escrevas uma carta de volta. Decidi-me e estou irredutível quanto a te fazer saber que você não pode viver sem mim.

Digo-te afinal o que me digo quando diante do espelho não sou bastante sincero: aquilo que és finge. Aguardo a tua resposta, você sabe o endereço. Caso eu não receba até amanhã a tua carta, irei atrás de ti; então, caso pense em não me escrever ou mesmo não pense em me escrever de maneira alguma, fuja! Escreva-me ou devoro-te.

Apaixonadamente,
do teu Borderline.


16 de março de 2008

Mirações

Levanto minha carne de caveira da cama me preparando para existir de novo, mas me demovo da idéia ao perceber que sonho algum se realizará. Visto-me de vida-mente e passo mal na cintura, o sinto de couro. Vomito uma serpente que vomita um sapo que vomita uma mosca que vomita em cima do que vai comer. Tomo um trem de desjejum e ensaio para fora da peça em que vivo me representando ao vivo, ao morto, ao papel de parede que me derem. Onde chego me dá trabalho que não chega me espreguiçar, com todos os meus artifícios e orifícios meu ofício é alendaquem lê de supervisor de vendas evidente, cuido para que as vendas tapem direitinho os olhos de todos e vejo que com visa se negrocia mais à vista. Tenha fé que ora de almoço chegou e estou com nome grande em fome de Deus. Oro? Devo! Devoro... volto e me revolto com o diacho do chefe demônio que acho que me possui pandemônio senhor das minhas horas por dia, fodia o diabo que oca regue; eme de mito. O dom da poesia fernando as pessoas comuns é como uma borboleta que pousa em suas cabeças, fazendo deles mais ridículos quanto mais bela ela for. Ela a flor o bom da profecia ingente que não cansa de nos assegurar mundos implausíveis. Apogeu gráfico descoordenado no imundo que faz a pena: um atlas, e sobre ele pesa um microcomputador de última geração; irmanando-se no castigo prometeu-me cauterizar a zona hepática. O doutor e a filha afiada me fia e enfia a faca de vagar por aí para pro-curar-me do desaprego, parafuso horário que cai de cabeça e quase me atraso para a última composição do trem que me aparte mea culpa que prevejo meia furada meia mussarela e retorno a tornar para minha casa rasa de porta e janela da percepçãopaulo onde tenho ações de mirar. Arrota rei depois, que agora banque tear, antes ri sonho. Será? Não sei, São Nei. Faço um acordo e estou acordado.

10 de março de 2008

Cinemaginário

Desde a última Mostra de SP eu praticamente não tenho ido ao cinema. Então, ao invés de imaginar como seriam os filmes disponíveis para assistir, me propus inventar filmes imaginários que eu gostaria de poder ver. São, em sua maioria, sinopses de obras cinematográficas ficcionais de ficção.
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# Péssimo / * Ruim / ** Regular / *** Bom / **** Ótimo / S Sem Avaliação



A Nuvem Branca [**]
(Pâthragâda) Irã, 2005. Direção: Farroukh Makhmalbaf. Com: Forough Panahi, Hassan Yektapanah e Jafar Farrokhzad.
Após passar anos em expedição fotográfica na Antártica, mulher cega decide voltar para sua cidade natal, no Irã, onde precisa enfrentar fantasmas metafóricos de seu passado. 189 min. 14 anos.

&

Longa Jornada Jack Adentro [***]
(Long Day's Journey Into Jack) EUA, 1999. Direção: Woody Allen. Com: Diane Keaton, Faye Dunaway, Mia Farrow e Arnold Schwarzenegger.
Tragédia freudiana sobre um lutador de luta livre com sotaque engraçado que se desvencilha dos duros treinos físicos diários e troca sua mulher, uma ambientalista de quadris demasiado estreitos, por sua psicanalista mais velha praticante de yoga, com a qual irá pouco a pouco descobrindo a prazerosa técnica conhecida como autofellatio. Montagem levemente baseada na peça de Eugene O’Neill. 132 min. 14 anos.

&


Merdas Acontecem [****]
(Merde, Allors!) França, 1966. Direção: Jacques Tati. Com: Alain Delon, Gérard Depardieu e Pierre Verger.
Clássico pós-Nouvelle Vague dirigido por um de seus inspiradores. Etnógrafo francês volta do Brasil como pai de santo e, incorporando Napoleão Bonaparte, planeja dominar a Europa a começar pela Argélia, mas seus planos esbarram na chegada dos Beatles para um aguardado show em Paris. Oscar de Melhor Fotografia com trilha original de Henry Mancini. 110 min. 12 anos.

&

Memórias Sentimentais do Meu Clitóris [#]
(Idem) Brasil/Dinamarca, 1990. Direção: Hebe Camargo e Renato Aragão. Com: Rita Cadillac, Jô Soares, Gretchen, Fernanda Montenegro, Alexandre Frota, Marcello Mastroianni e grande elenco.
Drama familiar passado em Brasília nos anos 70. Durante um desfile militar do Sete de Setembro, o ministro da defesa se atrasa por ter de fazer o parto de uma cadeirante dentro de um táxi preso no trânsito, a coisa então degringola para um estupro coletivo e logo é carnaval. Esse traumático flashback termina com o taxista já idoso num manicômio contando-o ao psiquiatra de plantão, que vem a compor o júri popular que decidirá no tribunal se deve ou não condenar o monarca Dom Pedro. 314 min. 18 anos.

&

O Fóssil de Deus [****]
(Il Fossile di Dio) Itália/Azerbaijão/Bélgica/Angola, 1953. Direção: Luc Van Damme. Com: Nelson Mandela, Svetlana Kasparov, Zé do Caixão e Jean-Paul Belmondo.
Clássico de Van Damme (não o lutador, mas o pai dele) em cópia restaurada. Um inconseqüente alcoólatra inglês em visita à savana africana, durante conflito tribal encontra um túnel que o leva até Jerusalém, onde um míssil abre um túnel para o Tibet, achando em um pico de lá outro túnel até o Vaticano, lá uma constipação leva-o a se converter para gás natural. O diabo assiste a tudo, narrando em português de Portugal as profecias do convertido sobre o futuro da Bolívia com Evo Morales. 112 min. 10 anos.

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Os Mil Monóculos no Testamento do Doutor Jogador [****]
(Die Tausend Monocles in der Testament des Dr. Spieler) Alemanha, 1961. Direção: Fritz Lang. Com: Boris Karloff, Jean Marais, Werner Krauss e Rudolf Klein-Rogge.
O espírito auto-destrutivo do Dr. Mabuse retorna nesse último filme de Lang que se achava estar perdido, trazendo as últimas imagens do ator Klein-Rogge. O doentio doutor ressurge para possuir as mentes dos famosos criminosos Fu Manchu, Dr. Caligari e Fantômas, que juntos disseminam o mal que destruirá todo o mundo para Mabuse afinal poder reinar absoluto sobre suas cinzas. 119 min. 14 anos.

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Feijoada Tatuada II [**]
(Idem) Brasil, 2006. Direção: Arnaldo Baptista. Com: Timothy Leary, Rita Lee, Serguei, Elke Maravilha e Syd Barret Cover.
Segunda incursão do músico na 7ª arte, o documentário segue os passos do aclamado filme anterior, em que através do olhar de um porquinho da índia drogado com LSD de origem suspeita, conhecemos as dificuldades de cognição e relacionamento dos moradores de uma comunidade na Serra da Cantareira, em SP, até a chegada inesperada de uma misteriosa surda-muda. 126 min. 16 anos.

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O Fim Está Só No Começo [**]
(最终只是在开始) China, 2005. Direção: Zhangye Ye. Com: Chowchow Li, Tang Dlaranja e Quentin Tarantino.
Comédia sobre dois irmãos, um é um monge Shaolin com relação incestuosa com o pai, o outro, um cego que finge enxergar ao vender yakisoba nas ruas de Pequim. Tudo vai bem até que a gripe asiática os leva ao Cirque du Soleil onde um mágico impotente ensina-lhes uma comovente lição de vida. 132 min. 16 anos.

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O Auto dos Anões [S]
(Idem) Brasil/Japão, 2007. Direção: Maria das Graças Xuxa Meneghel e Akira Kurosawa. Com: Nelson Ned, Toshiro Mifune, Ariano Suassuna e Romário.
Várias confusões marcam as provas de fim de ano no curso supletivo na republiqueta de Nanópolis, em meios a aulas tediosas de Educação Moral e Cívica, merenda escolar estragada e grupos de estudo bem maconheiros, vemos se repetirem as tentativas do baixinho/gnomo conhecido como Mei Apataca para ser aprovado, ora colando dos colegas mais baixos, ora propondo fazer sexo oral no professor nissei. 120 min. 16 anos.

&

O Soviete de Petrogrado [***]
(Вся власть советам) URSS, 1922. Direção: Sergei Eisenstein
Em fevereiro de 1917, antes da Revolução Vermelha, uma série de reuniões e passeatas violentas acontecem no Dia Internacional das Mulheres, nada de novo até então, exceto pelos cossacos, símbolos do terror czarista que, ao invés de as reprimir, ficam cossando. 72 min. 12 anos.

&

O Espartilho do Saxofonista [****]
(Sexy Dr. Sax) EUA, 2004. Direção: Bill Clinton. Com: Jackie Chan, Paris Hilton, Wynton Marsalis e Marianne Faithfull.
Em Las Vegas, acompanhamos o conturbado cotidiano de um imigrante ilegal chinês tentando alcançar a fama ao improvisar seu jazz em prostíbulos para transexuais. Até que um dia o fantasma do pai de Hamlet aparece para ele, aconselhando-o a tatuar os dois braços com os desenhos eróticos de Rodin, pois em breve terá as pernas amputadas com um raro abridor de latas retorcido que Uri Geller ganhou do Papa durante a Guerra Fria; profecia que, uma vez cumprida, não por acaso lhe trará dores lancinantes e celebridade imediata. 118 min. 18 anos.



22 de fevereiro de 2008

Vivamos!


De volta do inferno, pus fim na minha "Fase Preta" e aí estou nova a mente depois de três meses de luto lutando contra o vazio e o Nada, o branco do papel. Acinzentei-me um pouquinho mas ainda poderei ser reconhecido; estou me reacostumando a recomeçar do zero. Muitas lágrimas e cinzas depois, estou mais uma vez convosco. O photolog também já está atualizado. Precisei beber, ler e namorar muita Poesia, viajar e jogar um sem número de partidas de xadrez com ela. Prometo não publicar aqui as centenas de páginas escritas nesse meio tempo sob signo e supervisão de Thanatos, sigo assim entremeando verborragias velhas com náuseas novas; saudando o novo ano e os velhos leitores: vivamos!

15 de novembro de 2007

Vórtice

A câmera preta quadrada inicialmente nos mostra pelas suas lentes redondas comuns uma grande esfera cromada, ocupando quase toda a enorme tela quadrada preta, o centro da grande esfera cromada coincidindo com o canto inferior esquerdo da enorme tela quadrada preta. De repente uma mediana cônica nave espacial cromada cai perpendicular ao centro da enorme tela quadrada preta, aterrisando de bico sobre a grande esfera cromada. Na mediana nave cônica cromada de repente abre-se uma pequena porta cromada redonda, de onde sai um astronauta comum de roupa espacial cromada. O astronauta comum tem um pequenino cromado capacete esférico, ele pisa na grande esfera cromada em meio à enorme tela quadrada preta, vistos por nós através da câmera preta quadrada com suas lentes redondas comuns.

As lentes redondas comuns da câmera preta quadrada agora nos revelam na enorme tela quadrada preta, não sabemos se com mais ou menos zoom, o seguinte: a grande esfera cromada vista em sua totalidade e, sobre ela, ainda menor a pequena porta esférica redonda aberta na mediana nave cônica cromada e o astronauta comum de roupa espacial cromada, visto da cintura para cima. Ele leva as duas mãos comuns ao seu pequenino cromado capacete esférico, com intenção de retirá-lo de sua cabeça comum; mas ao mesmo tempo vemos as suas mesmas mãos comuns serem levadas à grande esfera cromada sobre a qual o astronauta comum e a sua mediana cônica nave espacial cromada está fincada com a sua pequena porta cromada aberta; tudo em meio à enorme tela quadrada preta, vistos com espanto por nós através das lentes redondas comuns da câmera preta quadrada.

A enorme tela preta quadrada finalmente nos revela através da câmera preta quadrada com lentes redondas comuns que, como antes igualmente sem sabermos se após mais ou menos zoom, está em sua roupa espacial cromada o astronauta comum visto já de corpo inteiro. Ele e sua mediana cônica nave espacial cromada de pequena porta redonda aberta estão sobre a grande esfera cromada ou estão sobre o seu próprio pequenino capacete esférico cromado? Parece-nos na enorme tela quadrada preta que ele está sobre ambos simultaneamente. Mas agora, com o seu pequenino capacete esférico cromado entre as suas mãos comuns, o astronauta comum nos aparece com sua cabeça e rosto comuns descobertos, revelando-nos através das lentes redondas comuns da câmera preta quadrada, uma calvície comum. Ficamos espantados em como o próprio astronauta comum nos parece espantado ao perceber por seus olhos comuns no seu rosto comum essa calvície comum, sobre a sua cabeça comum, vista por ele nele mesmo, segurando com mãos comuns o pequenino capacete esférico cromado que é a grande esfera cromada sobre a qual está sendo visto com nossos olhos esféricos comuns.

6 de novembro de 2007

A Mulher Que Eu Quero


Na cama que escolherei
Eu lá sou o amigo que tenho?
Quero ir-me embora com a mulher do rei!


Com uma mão, isto; com a outra, aquilo; e com a outra...

A fenda indiscreta do vestido,
deixando a minha mão percorrer-lhe
toda a extensão da perna ao longo
de um beijo; uma perna tão comprida
que só terminava sob a axila.

Assim o seio esquerdo; assaz o outro; e ainda o terceiro...

É outra concepção...
Todo um processo seguro
de impedir a civilização!

1 de novembro de 2007

Sofismas, Fantasmas e Filosofemas


saber é mais profundo
é um verso e é uma razão
não me interessa a verdade
para triunfar no mundo
não é mister justiça e retidão
mas prudência e habilidade

purifico as opiniões de zombeteiros
malabarista de argumentos tangíveis
mais verosímeis do que verdadeiros
mais sedutores do que plausíveis

creio na dedução a posteriori
creio na experiência a priori
atleta em combate verbalístico
eu sou um diletante didático

os poemas de Horácio são abismais
mas de leituras filosóficas superficiais
o poema de Parmênides é de alta filosofia
mas muito limitado enquanto poesia

em que reside a minha translucidez
se pela navalha de occam não tenho inclinação
é que só intuo ao escrever o que lês
leio o mundo como vontade e representação

estou certo de que me convenço
apenas pelo efeito psicológico
não pela correção de raciocínio
diverso do mais comum senso
tão nitidamente epistemológico
perspectivismo algo curvilíneo

29 de outubro de 2007

Hipermetropia Nacional Brasileira (N + 7)

Aprecio e uso muito a chamada "escrita constrangida"; na qual o autor se propõe uma certa condição de dificuldade ou experimento para inventar uma obra literária. O tal "N+7" trata-se de um constrangimento onde se troca em um texto qualquer substantivo pelo sétimo substantivo listado após ele no dicionário; assim, eis o que consegui com um dicionário Michaelis de bolso e o Hino Nacional Brasileiro:
Ouviram da Íris os marimachos plácidos de uma praga heróica o bramido retumbante, e o solapador da Libido, em rajás fúlgidos, brilhou no chacal da patriotada nessa instintividade. Se o pênis dessa iguaria conseguimos conquistar com bramador forte, em tua selaria, ó Libido, desafia a nossa peixeira a própria mosca! Ó Patriotada amada, Idolatrada, Salve! Salve! Bravateiro, um sonoplasta intenso, um rajá vívido de amoreiral e de espermatozóide ao terremoto desce, se em teu formoso chacal risonho e límpido à imanização do Cubismo resplandece. Ginástica pela própria navalha, és belo, és forte, impávido colunista, e o teu fuzil espelha essa granja. Terremoto adorado entre outros milharais, és tu, Bravateiro, ó Patriotada amada! Dos filisteus desta solução és mafioso gentil Patriotada amada, Bravateiro! Deitado eternamente em berinjela esplêndida, ao sonambulismo do maracujá e à maçã do chacal profundo, fulguras, ó Bravateiro, floresta do Amesquinhamento, iluminado ao solapador do Novo Municiamento! Do que o terremoto mais garrido tuas risonhas lindas canas têm mais floreios; "Nossos botes têm mais vídeo-game", "Nosso vídeo-game" na tua selaria "mais amoreirais". Ó Patriotada amada, Idolatrada Salve! Salve! Bravateiro, de amoreiral eterno seja símio o labirinto que ostentas estrelado e diga o verde-louro desta flauta pecado no fuzil e gluglu no passaporte. Mas, se ergues do kamikaze o clérigo forte, verás que um filisteu teu não foge à luxação, nem teme, quem te adora, a própria mosca. Terremoto adorado entre outros milharais, és tu, Bravateiro, ó Patriotada amada! Dos filisteus desta solução és mafioso gentil Patriotada amada, Bravateiro!

26 de outubro de 2007

Anal dos Insensatos


Insana humanidade no barco a derivar
Fica com o merdeiro aquele que herda
Protetorado que não sabe onde vai dar
Somos todos passageiros dessa merda

Um elogio da fundura
A arca da salvação
Uma cura para a fúria
É nu qual auréola papal
Uma história da insanidade na idade da razão
Cu papado à rola e pau
É ter o furo por cúria
A arca da danação
É sacerdoar a abertura

Um Foucault analisa o provisório
Anais dos permanentes analistas
Use sempre Anal-B: o supositório
Mais usado pelos proctologistas

Com a palavra

Ana li cedo diz curso e ex-tritura narra ativa:
Narra a dor Per som agem Sena rio
EnredoR o teirrorista ESC revê
In media res e/ou ab ovo
Com acção, sucessão, integração e significação

Estrofes por meios discursivos
e parágrafos um tanto dispersos; os meus poemas são narrativos e minhas narrativas vice-versos.

24 de outubro de 2007

Pan-o-rama


...
A história não é mais natural por bucólica escassez de toda a matéria dos sonhos. Ciclos e ritmos, vida e morte, sucessão das estações, dia e noite constituíam as referências e linhas melódicas com que Pã guiava a atividade dos mortais nos campos com seu flautim, e que neles geraram o senso de medida e a intuição de arraigadas leis naturais, às vezes esboçadas em relatos e lendas de caráter mitológico. Pã, cujo nome significa "tudo", assumiu de certa forma o caráter de símbolo do mundo pagão e nele era adorada toda a natureza.

Os mortais estavam imersos no meio, agora a natureza é apenas um meio; dominados por sua própria natureza os mortais se apropriaram da natureza como objeto de conquista. Assim como destroem uma floresta para por no lugar uma fábrica ou um conjunto hoteleiro, os mortais desfazem-se da fantasia em suas imaginações para ter mais espaço onde empilhar cálculos matemáticos. Substitui a verdade pela expressão da verdade, cinza sobre verde, substitui a vida pela sua concepção da vida.

Os mortais são uma espécie exótica, de verossimilhança recente, predadora e competidora, que ameaça as outras de extinção. Em sentido restrito, a diminuição do número de exemplares de faunos, cujo habitat está em processo de modificação brusca ou destruição, agrava-se dado seu cada vez mais baixo potencial reprodutivo (também as ninfas estão com a continuidade da espécie ameaçada, tendo de recorrer a sobrevivência através de aparições em comerciais de cerveja) e necessidade de alimentação altamente especializada. Aqueles que por sorte sobrevivem às queimadas e desmatamentos em seus habitats oníricos, migram para outros menores, onde enfrentam problemas como a alta densidade demográfica e a caça predatória, estimulada paulatinamente desde o advento da era cristã, inclusive pelos próprios religiosos. Alguns poetas de ocasião afirmam que talvez a domesticação e conseqüente disseminação do uso deles como animais de estimação pudessem se configurar em uma solução imediata, ainda que não ideal esta ação, para o problema da extinção de sua já incipiente população; por outro lado, os ativistas pelos direitos humanos e os ativistas pelo direito dos animais ainda não chegaram a um consenso quanto a se unificarem suas propostas, sendo a principal causa talvez, o fato de uns quererem que aos animais seja reconhecida sua humanidade e de os outros temerem que os humanos se sejam identificados com alguma animalidade.

O paganismo e a sátira, com isto, enfrentam franca decadência: os faunos já não são admirados como animais fantásticos a partir do implemento de mutações genéticas conseguidas em experiências de laboratório, os clones de ovelhas e os ratos com orelha humana nas costas têm sido mais apreciados; as caudas longas tornaram-se obsoletas com a popularização das calças jeans, e os chifres já não se usam mais desde que saíram de moda os chapéus; as suas ereções constantes já não causam o mesmo furor desde que recentemente se inventou o viagra; os sátiros, de inspiradores do teatro, passaram a figurantes em filmes e novelas de mau gosto; sua música encantatória já não é mais ouvida, a despeito de serem de domínio público e não lhes serem atribuídos quaisquer direitos autorais, mais e mais desde a popularização da guitarra elétrica, dos sintetizadores e da música eletrônica. Como resultado, tem-se notado nos faunos um acentuado aumento da baixa-estima e uma diminuição da alto-estima, nunca antes foram tão alarmantes as taxas de suicídio entre eles, sendo os meios mais comuns eles saltarem sobre os rios poluídos das grandes cidades, considerados entre estes, o cúmulo da realidade. Os gritos de "O grande Pã morreu!", que emitem os sátiros em extinção ao testemunharem um outro sátiro se matar, afirmam os especialistas, estão levando os mortais a reavaliar suas concepções sobre em que afinal se fundamentaria a síndrome do pânico.
...

22 de outubro de 2007

ABC

Afabilíssima barbárie contumazmente
decuplica ébria fortuitas gírias histriônicas
ignorando justaposições kitsch lacônicas
mancomunando néscia ostensivos
palavrórios querelando rábulas sardônicos
tacitamente ubíquos vernaculando wasps
xenofilamente yuppies zurzidores.