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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

24 de outubro de 2007

Pan-o-rama


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A história não é mais natural por bucólica escassez de toda a matéria dos sonhos. Ciclos e ritmos, vida e morte, sucessão das estações, dia e noite constituíam as referências e linhas melódicas com que Pã guiava a atividade dos mortais nos campos com seu flautim, e que neles geraram o senso de medida e a intuição de arraigadas leis naturais, às vezes esboçadas em relatos e lendas de caráter mitológico. Pã, cujo nome significa "tudo", assumiu de certa forma o caráter de símbolo do mundo pagão e nele era adorada toda a natureza.

Os mortais estavam imersos no meio, agora a natureza é apenas um meio; dominados por sua própria natureza os mortais se apropriaram da natureza como objeto de conquista. Assim como destroem uma floresta para por no lugar uma fábrica ou um conjunto hoteleiro, os mortais desfazem-se da fantasia em suas imaginações para ter mais espaço onde empilhar cálculos matemáticos. Substitui a verdade pela expressão da verdade, cinza sobre verde, substitui a vida pela sua concepção da vida.

Os mortais são uma espécie exótica, de verossimilhança recente, predadora e competidora, que ameaça as outras de extinção. Em sentido restrito, a diminuição do número de exemplares de faunos, cujo habitat está em processo de modificação brusca ou destruição, agrava-se dado seu cada vez mais baixo potencial reprodutivo (também as ninfas estão com a continuidade da espécie ameaçada, tendo de recorrer a sobrevivência através de aparições em comerciais de cerveja) e necessidade de alimentação altamente especializada. Aqueles que por sorte sobrevivem às queimadas e desmatamentos em seus habitats oníricos, migram para outros menores, onde enfrentam problemas como a alta densidade demográfica e a caça predatória, estimulada paulatinamente desde o advento da era cristã, inclusive pelos próprios religiosos. Alguns poetas de ocasião afirmam que talvez a domesticação e conseqüente disseminação do uso deles como animais de estimação pudessem se configurar em uma solução imediata, ainda que não ideal esta ação, para o problema da extinção de sua já incipiente população; por outro lado, os ativistas pelos direitos humanos e os ativistas pelo direito dos animais ainda não chegaram a um consenso quanto a se unificarem suas propostas, sendo a principal causa talvez, o fato de uns quererem que aos animais seja reconhecida sua humanidade e de os outros temerem que os humanos se sejam identificados com alguma animalidade.

O paganismo e a sátira, com isto, enfrentam franca decadência: os faunos já não são admirados como animais fantásticos a partir do implemento de mutações genéticas conseguidas em experiências de laboratório, os clones de ovelhas e os ratos com orelha humana nas costas têm sido mais apreciados; as caudas longas tornaram-se obsoletas com a popularização das calças jeans, e os chifres já não se usam mais desde que saíram de moda os chapéus; as suas ereções constantes já não causam o mesmo furor desde que recentemente se inventou o viagra; os sátiros, de inspiradores do teatro, passaram a figurantes em filmes e novelas de mau gosto; sua música encantatória já não é mais ouvida, a despeito de serem de domínio público e não lhes serem atribuídos quaisquer direitos autorais, mais e mais desde a popularização da guitarra elétrica, dos sintetizadores e da música eletrônica. Como resultado, tem-se notado nos faunos um acentuado aumento da baixa-estima e uma diminuição da alto-estima, nunca antes foram tão alarmantes as taxas de suicídio entre eles, sendo os meios mais comuns eles saltarem sobre os rios poluídos das grandes cidades, considerados entre estes, o cúmulo da realidade. Os gritos de "O grande Pã morreu!", que emitem os sátiros em extinção ao testemunharem um outro sátiro se matar, afirmam os especialistas, estão levando os mortais a reavaliar suas concepções sobre em que afinal se fundamentaria a síndrome do pânico.
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