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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

24 de abril de 2009

Ação

Tudo era parado. Situação: as pessoas imóveis tanto quanto o próprio sangue das coisas. Algo hipoteticamente externo, como um autor, por exemplo, poderia descrever tudo facilmente. Tomemos como objeto este ambiente, o cômodo. Um quarto regular, três por seis, digamos... daquilo que neste universo particular se poderia chamar de metros. Assim seja. O piso de um material plástico imitando madeira. Cada parede menor mais a metade da parede maior adjacente pintadas de uma cor, verde a de um lado, lilás a do outro. O restante das paredes branco, o teto e suas molduras em gesso incluso. Uma porta para o banheiro contíguo; nele o piso frio, cinza, e os azulejos azuis marinho até o teto, tudo “combinando”; o padrão dos desenhos deles é irrelevante, pois aqui nada significariam. O chuveiro descuidadamente ainda sem box. O mesmo cinza da louça do vaso sanitário no mármore da pia, esta embutida em um gabinete de madeira na parede, sobre o qual há um espelho. Parado até o ar dos dois ambientes. Um segundo espelho na parede em frente à porta do banheiro enfrenta o primeiro. E, afinal, a outra porta, mero acesso ao próprio quarto. Cúbico, de ângulos retos. Ambas as portas sanfonadas, de cor ocre, uma ao lado da outra. E a janela de ferro, com basculantes, branca. Isto tudo dado aí constituindo a parte que nos cabe do tal imóvel. E como não poderia deixar de ser, o imóvel também estava parado, obviamente. Talvez alguém julgue importante arrolar a mobiliário, ou mesmo outros objetos... Uma cama de casal com cabeceira, de ferro, na cor branca; de cada lado dela um criado-mudo em madeira, com duas gavetas cada. Um terceiro criado-mudo branco, de metal, usado sob um televisor de vinte polegadas e um vídeo-cassete velhos, está localizado ao lado da porta de entrada, enviesado numa quina. Ao seu lado uma sapateira branca, e ao lado dela uma mesa para computador, os dois de madeira. Sobre a mesa, um computador e um aparelho de som. Tudo está silencioso, apesar da maioria dos itens estarem plenos de existência, de utilidade, ou mesmo ligados e funcionando. Neste ambiente pode-se dar pela falta de um guarda-roupa, o que seria plausível... mas explicável, dado que este se localiza em outro quarto da casa, com roupas dentro, inclusive, como seria de se esperar; este outro quarto estando inabitado, caso diverso do de um terceiro quarto da residência, onde alguém dorme, parado. Assim como tudo o mais dentro ou fora do ambiente parado que elegemos para descrever nesse mundo particular a imobilidade da parada completa. Completando o ambiente temos alguns livros, discos de música e vídeo; um tabuleiro de xadrez e um crânio humano de plástico; pares de sapatos, tênis e chinelos, guardados na sapateira; um sem número de lembrancinhas guardadas nas gavetas dos criados-mudos; inúmeros papéis e canetas aqui e ali; máscaras, pôsteres de filmes e murais com fotos e cartões postais nas paredes; ventilador de teto com luminária; um cinzeiro, um telefone, uma bússola, um relógio. Estes dois últimos a marcar com absoluta precisão, parados, data e horário, bem como o local descrito: dia 24 de abril de 2009, às seis horas e vinte e quatro minutos; amanhece na cidade de São Paulo, Brasil, na Latitude 23°31'48" ao Sul e Longitude 46°37'48" a Oeste, a 640 metros de altitude do nível médio do mar. Talvez por coincidência, neste dia e mês, em 1184 a.C., na atual Turquia, segundo a lenda, os gregos entraram na cidade de Tróia usando um grande cavalo de madeira, e em 2003 d.C., nos Estados Unidos, foi completada a seqüência humana do genoma (do grego: ge-o que gera, e -ma: ação). Talvez não por coincidência, “agora”, na hora mesma em que surge o Sol, “aqui”, além do já descrito, o ambiente possui um colchão, com lençóis e travesseiros amarrotados. Igualmente parados, como tudo. Inclusive um ser humano de 46 cromossomos, do sexo masculino, pesando sessenta quilos e medindo cento e setenta e sete centímetros de altura, ele tem vinte e nove anos de idade completos; está deitado de bruço, com os olhos fechados, quase dormindo. Tanto seu metabolismo como suas demais funções vitais encontram-se parados, apesar de existentes, ou seja: vive. Quando de súbito alguma terrível mola-mestra oculta no espaço e no tempo impetuosamente põe em movimento de novo tudo o que ainda há pouco se encontrava convenientemente parado. É um completo absurdo, mas provavelmente real. Uma hipótese pouco plausível supõe que o ser humano inadvertidamente tenha se levantado apenas para escrever este texto, que por certa coincidência ou incerta conveniência eu releio e ato ao movimento.