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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

31 de janeiro de 2006

SÓ SOB O SOL

O imperecível Perú. Sigo de ônibus, carro, motocicleta: burro, jumento, cavalo. Vou pela Cordilheira dos Andes, depois do lado de lá. O caminho subindo e subindo enquanto a temperatura vai caindo e caindo. Sendas: dê o kú! Minha vida meus mortos meus caminhos tortos. Névoa, neblina, nevoeiro. Índios. Dura vida, dura a vida. É subida que não acaba mais, só se sobe. Barro e barranco. Rios gelados desfilam entre os desfiladeiros. Elevam-me. Pedra sobre pedra sob pedra. Paisagens. Convivem incas e incapazes. Sacrifício. Aqui no alto não há asfalto. Sigo. Grilos, cigarras, pernilongos. Devagar quase parando apenas quase parando de vagar. Milhas e milhas em milhas. Milho, batata, mandioca. Íngreme. Antes delirantes. Café amargo. Estrada e estrada. Casebres, casinhas, casinholas. Não paro não fico não me mumifico. Pão e empanada. Frio o vento veloz é assovio. Sombras. Borboletas e mariposas. O caminho é pedra e gozo, pedregoso. Palha e pólem. Criollos, gentios, mestiços. Décimo quinto mundo. Pressão do ar. Enxaqueca. Quem te mata mate quente. Fogueira, fogo, fogareiro. 0º. Rumo ao topo, alto e plano, altiplano. Folhas de coca: masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca. Tomam-se altitudes. O Perú é inverossímil. Buzco Cuzco. Uma cidade perdida. Achei-te, custo a crer; digo e, dito, acredito. Perco-me de novo na rua. Vou por aí me mexer. Populares, poupo os lares. Tudo é quadrado. Tanta plaza tanta iglesia. Cães e pombos. Engraxates, fotógrafos, ambulantes. Alamedas e bulevares. Pedrarias, escadarias. Ouro. Esquinas dessa cor quente decoradas colonialmente. Varandas vêem-me andar avarandado. Claro-escuro, doce-amargo. Céu de metal. Homo faber. O olho culto: a saia, o decote e o mistério do oculto. Relativa liberdade absoluta; absoluta liberdade relativa. Pobres podres pobres... quem quer pão levante a mão. Esmola. Saio por aí. Aqui a grana. Curto longamente. Divirto-me. Grana, grana, grana. Hotel quinze estrelas. Tolo, atolo-me em ouro enquanto há plata, impraticável. Esbanjo e dilapido, devasto. Frio traz tosse, tosse catarro, tusso e escarro, piso Pizarro. Da varandinha colonial miro um cão a correr alegremente por entre as flores do jardim multicor da Praça de Armas em paz, enquanto degusto o revigorante chá de coca que transporta meu olhar através das cores tremeluzentes da tremulante bandeira da Municipalidade de Cuzco para as andinas elevações de terra circunvizinhas de onde se eleva a erva em silencioso brado ufano de tantas dores: Viva el Perú glorioso! Sentado só a beber meu trago e o som que não faz meu pensamento sem ninguém esperar a fumar sombrio enquanto tento digerir o absurdo de minha incompreensível existência. De que sou feito, ainda não sei. Encrencas, brigas, confusão. Pazes, amizades. Ponta de faca, faca fina ferimento, vou fazer meu fumo fino, fino fraco fedorento. Maconhas... maconhas... maconhas... Baseado em fatos reais, realizado em baseados fatais. Eu fumo mas não trago quem traz é meu amigo. Um tapa na Maria Joana ela pisca e não reclama trago ela para dançar. Música e festa. Dança e gritaria. Barulhos: todos serão ruídos. Rodando e rodando. Transe gentio. A animalidade todo espírito humano. Bárbaros. Um eu pagão, selvagem, demoníaco. Borracho de me borrar. Just Fecal graffitti: cagar é a lei deste mundo, cagar é a lei do universo, cagou João Paulo II, cagou quem fez este verso. Cagando de pau duro. Quando bato punheta teu cú relampeia, privada estremece, caí caco de “teia”, se não tem vaselina eu ponho com areia, boceta apertada comigo laceia. Sexo é algo tão inevitável quanto a puberdade. O corpo é o melhor alimento para a alma. Sexo e droga, bares G.L.S.D. Buy someone now. Prostíbulos, puteiros, zonas. Neon, luzes, luzes vermelhas. Cheiro de fezes e esperma, vaginas sujas, lubrificante e amor. Não existe amor, é o medo da Aids que nos une. Lenocínio. Gozar. Libido sentiendi. Orgasmos or not. Gozo a noite e o dia; alegria... Rio com as putas, apalpo-lhes os dons e lhes pago bebida, com elas vou para a cama e deixo sempre uma nota além do preço quando me levanto. Vivo a vida inigualável. Gatinhas e gatinhos. Matronas e ninfetas; machões, latin lovers e efebos de quinze anos. Contraí a hipocrisia das putas e as doenças das donzelas. Sifilização Ocidental. Um branco em meio a nativos, entre gringos outros. Eu, branco centauro desmontado deus, pele e cabelos brancos, idolatria, endeusado fetiche; totemismo, Eros e Vênus e Dioniso, mitolorgia. “O rebolado dele é ultrajante... sigam-no!” Durmo até tarde; a única coisa que me faz acordar cedo é sexo. Bebo meu meio grogue. Pago, desembolso, gasto. Não posso conceber a monumental estupidez que encontro numa cerveja gelada. Um respiro, arroto pulmonar. Tragar, não pensar, só existir. Charas. Cigarros, charutos, cigarrilhos. Foi bom para mim. Praticamente não há mais prata. Aproveitei enquanto durou, mole mole mole, fiquei duro. Repudio a tão procurada aurea mediocritas que Aristóteles roubou de Pitágoras tão fácil e hedonísticamente, e que de forma tão exageradamente ascética foi descrita nas Odes de Horácio; O equilíbrio exige movimento e eu não perco mais meu tempo me equilibrando na corda bamba chamada meio-termo. Caio na vida. Perfeitamente adaptado à cidade, acho que agora não posso mais me considerar um viajante; então posso sentir-me à vontade para dar uma de turista. Pago um fotógrafo para registrar-me num cafe, tomo um chá de coca, compro uns postais, uns souvenirs, ando pelas ruas, alamedas e travessas, subo e desço as escadarias, fumo um cigarro meditativo numa igreja vazia, mijo num canteiro, observo as pessoas. Ruas e praças bem projetadas formam esquinas de ângulos retos, um mapa que se pode chamar de geométrico. As crianças jogam rayuela. Cães dormem sob os bancos das praças. Tudo tranqüilo como sempre, movimentado de mormaço, uma ou outra buzina de táxi, repleto de gringos. Sobre os prédios baixos a paisagem me alcança junto com a visão de outros tempos imemoráveis. Nunca me esquecerei daqui. Até aqui Cuzco foi minha última fronteira, hão de haver outras, agora preciso voltar antes de seguir. O dia amanhecendo me transporta para a cabeça a idéia de recomeço, eu agradeço; à partir desta idéia minha cabeça começa a se repovoar de pensamentos. Um homem me pára na rua oferecendo-me uma passagem de trem (15% de desconto). Por que não? Macchu Pichu, aí vou eu... não é longe da cidade mas não tão perto assim. O trem não é muito antigo e a viagem sossegada, motivos suficientes para não tê-lo tomado antes, mas hoje é diferente; volto a deixar-me conduzir pela vida. Caminho o caminho o resto do caminho, nenhum contratempo e nenhuma aventura, é só pagar e entrar. Eis-me aqui na montanha velha, em meio às ruínas, solitário no solo sagrado de um povo vencido, sem ecos do sangue derramado de um e outro lado, o caos reconquistado; vago devagar; aprecio o que restou da cultura infinitamericana original. A Civilização Ocidental já teve fim uma vez...


Perdido neste distante voluntário abandono
Caminhando colho frutos entre as flores
Rememoro beijos que dei não sou mais dono
Deitado sobre o pétreo movimento plenos amores

Eterno retorno signo Sol minha estação mental
Novamente chegastes meu eu neste mundo antigo
Mariposa que enluara minha incauta sombra ancestral
Amarelo esclarece a luz peruana onde me abrigo

Já tão nostálgica bruma que ouço
Sem palavra venta para lá o horizonte
Hélico céu entrevisto do calabouço
Restitui-me a cor pálida à inculta fonte

Dia perfeito ainda se vai enquanto brilha
Maravilhas numa derradeira visão
Sozinho volto triste pela mesma trilha
De tão rara beleza que contraria a razão

29 de janeiro de 2006

27 de janeiro de 2006

Espírito de porco

Este textículo é um excerto das Sagradas Cuecas (ou Pará-bolas) extraído dos anais do Santo Orifício. No duro período de um ânus que durava o retiro, isolado do prepúcio exterior e cercado apenas dos mais elevados corrimentos, em meio a mais bucólica natureza de seus baixos instintos, alimentava-se o iniciando apenas de lavagem (restos de comida), bebia água parada e desinteria benta. Assim, masturbava-se à toda e diariamente, como manda a antiga tradição de nossos precursores onamistas, enquanto recita em puro latim os sutras e mantras divinatórios de nossa santa sociedade secreta, Razão LTDA., da qual a invocação ad ignorantiam suprema é: stupro, caede, adulter, homocida, parricidia ac periurus, plesbitericidia, audax, libidinosus, fornicarium ac sicarium, proditor, raptor, incestuosus, incendiarius, ac concubinarius, lussurioso incestuoso, perfide, sozzure ac crapulone, assassino, ingordo, avaro, superbo, infidele fattore di monete false, sodomitico, uxoridido. E nestes termos deveria nosso confrade proceder seus estudos masturbatórios nunca sedendo a tentação de reter o sêmen. Algo gozado foi que ao final do priápico período de eremitério estipulado os outros vieram buscar o nosso "veterano de si mesmo", resgatando-o de sua solitária e esgotante jornada interior e, no lugar onde deveriam encontrá-lo, sob o carvalho ancestral sobre a antiqüíssima colina, encontraram nada mais e nada menos que um espírito de porco.

26 de janeiro de 2006

Uma paranóia outra para mim

Eu estava semiacordado, não tinha remelas mas tinha na boca a saliva azeda e densa de cada manhã, via-me no espelho retrovisor do carro, os cabelos brancos e a cara de sono. Era noite e a rua escura paralela à rodovia onde estacionei sob uma ponte está deserta. Construções antigas abandonadas, em ruínas, sujas e pixadas em preto e branco e azul. Sentia-me absorto em meio ao lugar, ao silêncio e à quietude, e à paralisia de que me via refém. Como não dormia há quinze dias, devo ter dormido muito; não tenho relógio, que dia é hoje e que horas são? Confusão tranqüila, vento parado, mornas variações; rápidos pensamentos que passavam por mim naquele instante... teria sonhado? Olhando ao redor não via mais nada, nenhum movimento. Até que, na esquina à esquerda, mais distante, dobraram dois homens que vinham seguindo a calçada em minha direção e fiquei a olhá-los assim, pé ante pé, caminhando na escuridão por uns minutos até ver-lhes os rostos desconhecidos, eram desconhecidos. Eles olhavam para mim. Desviei deles o olhar em um impulso de ver no espelho que olhar tinha eu, que visão de meus olhos eu lhes oferecia; no canto direito do espelho vi outro homem, vindo por traz do carro, lentamente. Nos demais espelhos, conferi que vinham mais outros, um trio. Tinham todos o mesmo caminhar impessoal e ininteligível que atônito apreendi. Surgiam outros, vários, de olhar inexpressivo, duros e severos como se tivessem um objetivo só. Fui logo tomado de uma angústia que aumentava a cada passo daquela gente vinda de todos os cantos. Eu assistia passivamente o desenrolar da cena, temeroso do que viria a seguir, mas ansioso pelo fim do suspense criado pela eminente iminência do desfecho próximo. Abalava-me tanto com meus nervos frágeis de paranóico que o carro todo pôs-se a chacoalhar, tremia junto com as ruas e as paredes no entorno, o céu em seguida, incoerente; e a insensatez do que via não correspondia à mera realidade, eu sabia. Foi só quando tudo começou a girar e girar e girar que desdenhei de meus sentidos e suspeitei do sonho, talvez da loucura. Cercado pelas pessoas paradas em volta eu nada entendia e tudo o que via eram as imagens tornando-se líquidas à medida em que se desfaziam meus nervos e minha razão. Eu estava girando em meio ao horror daquela fantástica situação, afundando perdido, vencido, à deriva nas turbulentas águas do não sentido onde me dei conta do trágico redemoinho humano que me sugava em espiral. Emoções impensáveis; passado e futuro num presente contínuo ainda passaram por mim... Era a crise, era o caos, era a descarga que acabava por submergir a merda da minha mente com aquele ruído esdrúxulo característico. Pronto! Eu estava do outro lado. Voltando à superfície na calmaria do exausto pensamento. Dispersando o medo. Dissipada a fobia de linchamento, abro os olhos recordando-me bem, agradecido àqueles gentis homens que tão bons e solidários ofereciam-se para empurrar o carro que não saía do lugar.

25 de janeiro de 2006

24 de janeiro de 2006

Guia do Caos

Agnosticismo dogmático é dogmatismo agnóstico?
Idealismologia para um idealogialismo
Maniqueísmo dialético e sincretismo universal
Imaginação empírica só com seriedade lúdica
Vida experimental até a morte canônica
Inovação para a renovação da ditadura da libertinagem
Atitudes lingüísticas apesar da reciclagem descartável
Caos orgânico e organização caótica!
Amorfismo irracional não sem naturalismo amoral
Banditismo estético em canibalismo ritual sustentável
Relatividade conceitual no trissexualismo primitivo
Comunismo individualizado através de multidualimo
Panculturalismo localizado numa delinqüência estatal
Absolutismo anárquico esclarecido a niilismo engajado
Relativa liberdade absoluta, absoluta liberdade relativa?

21 de janeiro de 2006

Kultur: die literatur has ein vogel

Sensibilizei-me de forma tão fantástica com a leitura da bárbara biografia de Nietzsche que passei a werther lágrimas e beijar impetuosamente cada barata pisada que encontrava à sombra em meu solitário caminhar. É kafkiano demasiado kafkiano. Marx que coisa... vê se não freud, mann! Assim falava Schiller, ora hesse! O übermensch Goethe, todo espírito, observa sem vontade nem representação de seu faustoso olimpo nas montanhas mágicas. Tempestuosa trilha sonora de Wagner.

19 de janeiro de 2006

A mulher ideal sem um ideal

Ela já fez cirurgia plástica em tudo quanto é lugar, apesar de ter nascido bonita e ainda ser jovem. Sabe tudo de maguiagem, "estética", tratamento de beleza... Não consegue mais lembrar da cor original do cabelo e nem quer se lembrar mais da forma original de seu corpo. Frankenstein é um meio do qual Afrodite é o fim.(?) Nem tudo porém é plástica, silicone é outra coisa. Cai sempre no assunto "ela mesma" mas não cai em si. Domina o assunto perfume, banho nem tanto. A moda é o único Deus e o outdoor é seu profeta. Conhece os caminhos apenas pelas vitrines. Ela adooora roupas. Coleciona sapatos. Gasta em bolsas o que embolsa. Precisa das dicas das revistas como das próprias vistas. Especialista em pele, ph.D em ficar pelada. Tratamentos não tratam a mente. Usa cremes, freme o tempo que teme; lambusada, é a musa do que usa. Não aparenta o que aprecia, aprecia a aparência. Carros grandes ornam com suas pequeninas sobrancelhas; diamantes verdadeiros combinam com seus cílios falsos. Ela faz regimes para compensar o peso que adquire com as jóias. Unhas são um capítulo a parte em sua vida. É ela mesma sua mais cara máscara.

O homem ideal sem um ideal

Ele não se acha machista, acha-se erudito, mas só erude falácias de botequim que ouve ou lê aqui e ali; reproduz frases de personalidades históricas, sobretudo as televisionáveis, que concordam com suas convicções chauvinistas. Esportes são do caralho. Usa meia na cueca e isso coça. Desdenha as mulheres como desdenha a própria mão da qual mal se desmamou. Não trepa só se masturba mas não por ideologia, por pressa. Vive repercutindo as superioridades masculinas, a contar vantagem de si próprio, levando sua insistência no mesmo assunto às raias do monocordismo, quase sempre fazendo gênero. Barba estudadamente por fazer, da altura do cabelo reco. Não ser ou cerveja? Baixos instintos na superfície, baixa auto-estima no fundo. Carros são do cacete. Cobre-se de altivez ao tentar resguardar seu mesquinho quinhão. Um maiúsculo H será seu crepúsculo. Ele é homófilo, ele é homofóbico; enrustido. Quer mesmo é dar o cú e não se permite, sangria que não admite. Obtuso no uso da razão pela qual ejacula e não consegue gozar. Fálico falastrão que oculta seu desempenho sexual anão. Apolo castrado, Édipo jamais perdoado. Em si mesmo um tragicômico atavismo. O frágil covarde, que pinta impotência com cores de intransigência, o macho se alarde.

18 de janeiro de 2006

Entende?

O significado de um texto nunca é determinado apenas por fatos acerca do autor e de seu público original; é, de igual modo, determinado pela situação histórica do intérprete. A metáforamais usada nesse contexto é a da "fusão de horizontes", que surge quando o autor, historicamente situado, e o leitor, também historicamente situado, conseguem compartilhar um significado. Abre-se, assim, a possibilidade de uma reinterpretação e de uma reavaliação constantes, à medida que diferentes significados forem sendo projetados para a obra em causa. Imagino alguém que escreve um livro, registrando um tipo particular de pensamento, ao qual pretende dar um nome; enquanto o pensamento for concebido como puramente privado, sem qualquer conexão com comportamentos ou sintomas de sua ocorrência, o processo é uma pantomina, uma vez que o autor não consegue fornecer a si mesmo uma compreensão determinada do que está fazendo. Não há qualquer distinção entre estar realmente certo, ao registrar um episódio ostensivo, e parecer que se está certo, a mente não pode ser concebida como um teatro interno, cujo espetáculo é conhecido de uma maneira privilegiada e única pelo seu dono. Ou seja, isto tudo que estou pensando não são pensamentos de fato, é literatura, algo que eu estou lendo ou alguém está escrevendo.

17 de janeiro de 2006

Crem disse?

Em se tratando de uma velha ou nova religião
Crê e divulga a velha nova do messias de ocasião
Em cristal ela põe fé como em ritual
Em matéria de metafísicas 171 é número poderoso
Crê de verdade nas previsões de astrólogo fantasioso
Em duendes ela põe fé como em pirâmides
Em qualquer bobagem ela acredita
Crê e sabe de cor toda mentira otimista
Em zen ela põe fé como em mensagem
Em cada canto uma bujiganga simbolizando um culto
Crê de coração em contos que a razão julga insulto
Em vodú ele põe fé como em guru
Em si mesma pouco confiante ou auto-suficiente
Crê no que lhe dizem e se diz inteligente

16 de janeiro de 2006

Vertido

É chegada a hora, a derradeira hora. Ora ora ora... quem poderá me deter? Todos e ninguém. Irei contra dEUS e o mundo. Nada restará do Nada que aqui estou. Deixarei demolidas até mesmo as ruínas; no final não sobrará nem um só som, pois todos, em uníssono, serão ruídos. Terei a minha vingança. Assim amargo lá docemente tenho preparada já a marmelada. Quem entender nada compreenderá. Aproxima-se o tempo em que irei me ultrapassar, eu estou agora já uma palavra à frente, é impossível aqui me alcançar. Não adianta... atemporal e eterno e até pontual, movendo as voltas todas sem rodeios, não obstante despercebido, ávido a retratação havido iretratável, a enrolada retórica rocambolesca, com encantamento impreciso que arrisco, a desestabilizar o sumo do supra, ressurjo espiralado mas mais fumarento, embromo narrativo rebelado, teletransporto minha má criação, miro o delírio e zombo metido, giro e assim rodando me viro, esvaziando poemas, estou tão múltiplo na multidão, troco e me destroco eu me embaralho de lugar, para desentronar o grande ânus letivo, cada um sou eu e não saberás, num canto com este Livro armado em retiro, desmarco o caminho para então despistar, ninguém presta a menor atenção e apesar de tudo ainda me prestam toda a atenção. As palavras: mágicas. Encarno aqui e agora...
...eu hipnotiso àquele que me psicografa.

13 de janeiro de 2006

Literaturgia de profundis

Plêiade de demônios que me anima. Heróis, pseudo-heróis e anti-heróis, que em mim convivem e de mim sobrevivem. Do nada eles vêm, nascem do além de um outro alguém, sem se perguntar por quem. Ilusões autoimaginativas de religiosidade impublicável. As personagens anti-Isto. Estão aí, estão aqui, zombeteiras.. A mente ficcional mente, ficcionalmente. Ausente o dEUS eles são mais ele, eu sou mais eus. Os opus tortos. Literatura seu santo ofício meu sacerdócio teu orifício. A escritura como o livro sagrado do absurdo, de realismo fantástico e mágico, inobtuso. Em letra de fôrma penso por extenso em tornar-me o que eles não podem ser, livrando-os dos livros. E vi eu que era bom.

12 de janeiro de 2006

A semente e seu duplo


...no espelho, avalio a face nublada e o cabelo tempestuoso, reflito sobre o que de resto ele reflete: um corpo franzino de leitor de livros, somente; nunca lhe dei muita atenção. Penso: existem mentalidades e imaginações desperdiçadas dentro das cabeças das pessoas que passam passeando montadas em corpos perfeitos dentro de armaduras sob medida que me defendem de suas obtusidades irrefletidas; o que meu corpo "inspira" nessas cabeças montadas e blindadas é uma sensação não muito distinta, porque inversa, percebem-no como uma semente vã, que gorou. Não vingou um rosto bonito com traços quase certos, não aproveitados para fim algum que não seja não figurar neste pensamento; formas que poderiam ter sido exercitadas, tornando-se belas e mesmo ininteligíveis. Não. Assim eu não o quis. Não é que quis que fosse como é, é que não cheguei a querer que fosse. Não refleti a auto-imagem e penso que o que disso resultou acaba por não me desagradar a mente impune por completo, ainda que não impunemente; vejo-me todo pensamentos refletido no espelho...

11 de janeiro de 2006

Bandeira Preta


Bandeira preta, amor, não volto atrás
Aquela sanidade de covarde nunca mais
Insanidade - meu novo amor, sem amor
Verdade - flor que fede mais
Vai, desamor
Bandeira preta em termos tais

10 de janeiro de 2006

Gene: há lógica?


Tive a mirabolante idéia de me casar com uma viúva, a qual tinha uma filha. Meu pai, para maior coincidência, era viúvo e quis o acaso que ele se enamorasse e casasse com a filha de minha mulher; resultou daí que a minha mulher se tornou sogra do meu pai. A minha enteada ficou a ser minha mãe, e meu pai ao mesmo tempo meu genro. Após algum tempo minha filha pôs no mundo uma criança que veio a ser meu irmão, porém neto da minha mulher; ficando eu avô de meu irmão. Com o decorrer do tempo a minha mulher pôs também no mundo um fantástico menino que como irmão da minha mãe, era cunhado de meu pai e tio de meu filho, passando a minha mulher a ser nora da própria filha. Absurdamente eu fiquei a ser pai da minha mãe, tornando-me irmão de meus filhos; a minha mulher ficou a ser minha avó já que é mãe da minha mãe. Assim meu avô sou eu. Meu pai e meu filho são a mesma pessoa?

9 de janeiro de 2006

Ser

Tudo o que é real e nada do que é irreal pertencem ao domínio do Ser. Mas sobre tudo o que é real não é possivel dizer muitas coisas interessantes, especialmente sem sair do escritório do filósofo, não sendo por isso evidente que possa existir qualquer coisa como o estudo do Ser, sem mais qualificações. No entanto, esse conceito ocupa um lugar central na filosofia, de Parmênides a Heidegger. A questão central "por que há algo e não nada?" suscitou uma reflexão lógica sobre a questão de saber em que consiste a exemplificação de um universal, assim como uma longa história de tentativas para explicar a existência contingente através de um fundamento necessário. Desde Platão que, tradicionalmente, este fundamento é algo auto-suficiente, perfeito, imutável e eterno, que se identifica com o Bem ou Deus, mas cuja relação com o mundo cotidiano permanece obscura. A lógica moderna oferece pouco conforto a estas especulações e suscita a suspeita de que a questão de saber por que há algo em vez de nada é mal-formada ou não oferece quaisquer ganhos cognitivos, uma vez que qualquer resposta irá levantar sempre a mesma questão.

8 de janeiro de 2006

Vida Sim Drogas São

Na noite escura, caminho desenluarado sem rumo certo, o vento brando a me impelir soprando de trás, amena temperatura a menos que esfrie mais. Grilos, sapos e cigarras calam o silêncio povoando o breu com seus sons geométricos. Os pés roçam a grama que não farfalha mais do que a relva mediana que acaricio com as costas das mãos. Sutil, o plano se inclina e sem engano elevo minha calma, paralelamente ao esforço. Penso em atingir o cume sem olhar para trás. Sei de cada passo; a perna que pisou por último é o próximo passo. Galgo, no topo, a visão de uma escuridão onde posso me perder se não quiser esperar sentado pelo meu despertar, o despertar do dia. Sem meta e sem pista paro, indeciso. Então grito:
- Haja luz!
E do mato ouriçado vem um clamor silvestre de vida, o regozijo existencial da natura profanada em seu sono, bravia que brilha. No pretume noturno vejo pequeninos pontos de volátil incandescência emanarem mágicos da erva como fabulosos fogos fátuos que vêm a mim e me cercam enxameando meus olhos pisca-piscantes de incredulidade. Iluminam a caminhada acompanhando-me rumo a algum caminho certo; sigo sem parar novamente, mais e mais lento, sem pessa e rumando apenas, a medida em que vou colhendo do ar os vaga-lumes para fumá-los com deleite fantástico, soprando na brisa uma fumaça de sonho pirilampejante.

7 de janeiro de 2006

Na Perda de Tempo Buscada

Os primeiros anos levaram-me a desmontar o relógio pretendendo inutilmente compreender o efêmero mecanismo do tempo...

5 de janeiro de 2006

alter et idem


Este poema foi incluído no Livro Ruído: http://goo.gl/Xoo79

2 de janeiro de 2006

Poeta e/ou louco 
– não por ter perdido a razão, 
mas por ter perdido tudo, exceto a razão –, 
sou o atávico modernete, 
com espelhos falsos nos óleos e labirínticos ecos nos olvidos. 
Aquele que flana cirandarilho 
a fumar espirais que mentaliza mentoladas. 
Em teoria, pratico um Pós-simbolismo bop barroconcreto. 
Desde a primeira vez que nasci, 
leio em demasia à quilo que a reescrever Nada compreendo, 
analfabetização que inaugura minha fase autoral, 
se me é de direito indo mal e bem-vindo, 
sinistro, voltar de tão monge. 
Críptico empírico e amigo ambíguo, fiquei múltriplo, 
fiz-me e desfiz-me hum ano 
demasiados loves fora, resto eu: esfingédipo. 
Confesso que nunca me confessei, 
pois paripasso pari-passeei estreito 
ao largo de idealismologias e ideologialismos, 
com espírito incorreto, coração quase deserto, 
além do futuro hermeticamente aberto. 
Sólido e solitário, fiz (Davi) da vida máscara, 
de cada lida verve em queda livre, 
vide a masturbação verborrágica desta ontologia fonética. 
Infelizmente estou feliz. 
Às penas peço ficções paralelas e visões para lê-las, 
que só acre dito na profaníssima trindade: 
Amor, Poesia e Liberdade.