Domingo, Julho 5

Texto Sentido


troco muletas literárias por literais amputações
a perna de Rimbaud por andar em países distantes
alguma nova terra à vista pelo olho de Camões
insanidade a penas tangível pela mão de Cervantes

algum membro fantasma que tu me forjes
será todo o espectro de Jorge Luis Borges
na projeção fantasmal do que te sobrevoa
espirituoso corpo de um Fernando Pessoa

sempre escrevivi da minha tristeza
aquela que mea ssina
nunca dominei a língua portuguesa
ela é que me domina

por uma questão de consistência
por uma resposta de consciência
coração mole, cabeça dura
tanto bate até que loucura

o moribundo que gritou “eu” no cu da história
entre meus cinco nonsenses & parapsicologia
o vagabundo que ouviu “cu” no eu da memória
entre mil e uma notas de rodapé & parapoesia

tudo o que pode ser compreendido
mas não pode ser explicado
é em meu poema duplicado
porque está no meu poema dividido

máscara sobre um espelho
espelho sob uma máscara
desço pela toca do coelho
e de chá tomo uma xícara

síndrome de Alice no País das Maravilhas
síndrome de Münchhausen ou de Stendhal
tudo menos as alheias cartilhas
mais razoável do que racional

sinto o escrevido
da fala à audição
ou ficção olfato
e tato com visão
do texto sentido

Terça-feira, Junho 30

Labirinteratura

este seu itinerário
será tão comprido
que o bibliotecário
já demasiado lido
imerso no cenário
estará lá perdido?

ele é o funcionário
que se acha sabido
com um ar literário
até mesmo exibido
mas um calendário
embaralha o olvido.

ele faz aniversário
parece rejuvenescido
sob o pó centenário
é um recém-nascido
será só temporário
ou terá sobrevivido?

é tão extraordinário
estar no lugar devido
que só no imaginário
terá por lá aparecido
e se acha no fichário
ou entrado ou saído.

o caminho arbitrário
revela o intrometido
e faz dele adversário
pelo monstro comido
ou herói involuntário
guiado e perseguido?

Sexta-feira, Junho 26

Não

Não me olhes assim... Eu não morrerei contigo e não envelhecerei ao teu lado. Nós não teremos netos, nem sequer filhos. Não vamos ter uma história juntos, sem apoio mútuo ou mesmo alguma compreensão. Por isso não haverá brigas. Nunca teremos uma única crise que seja. Jamais discutiremos a nossa relação. Logo, é impossível que haja traição e muito menos que enjoemos um do outro. Porque eu não te darei a mão, não andarei ao teu lado e não te guardarei do mal. É melhor para ti. Já será bom que não queiras querer-me bem, de nada vale. Não adianta, pois nunca serei teu e nunca serás minha. Definitivamente, não. Nós não seremos felizes juntos. É muito simples: eu não me casarei contigo. Assim também não seremos infelizes juntos. Tu não entrarás em minha vida. Esqueças completamente o noivado, mas antes dele todo o nosso longo namoro. Sem planos para o futuro. Sem futuro. Nada vamos compartilhar. Sem romance. Coisa alguma se consumará entre nós. Não faremos amor, e nem mesmo sexo. Nós não misturaremos os objetos pessoais que já não nos pertenceriam mais. Nenhuma data ou lugar será marcante, não teremos uma música, livro ou filme. Então não desenvolvas qualquer expectativa ou crie esperanças. É impossível. Não há qualquer ilusão. Nada em ti me inspira, enlouquece ou anima. Apenas. É que não começaremos nada. Não conhecerei teus amigos e amigas, teus pais. É inútil. Tu não me moves ou transportas, não sinto nada por ti. Isto é triste? Não há um só programa que faremos a dois. Não te lerei ou escreverei poemas. E eu não vou te beijar, nunca. É melhor que não esperes nem um abraço de mim. Não haverá atração, interesse ou flerte. Tudo sem aproximações, toques, posse. Longe dos olhos, e fora de alcance. Não há qualquer emoção. Então, nada digas. Não ligo para ti pois jamais pedi teu telefone. Não me apresento, e nem cogito. Diria-te “adeus” agora como se jamais me tivesses dito um dia qualquer “olá”. Não nos veremos uma segunda vez para não lamentarmos o fim daquilo tudo que podíamos e não quisemos iniciar porque nem mesmo houve este primeiro encontro. Eu fecharia teus olhos para que quando os abrisse eu já nem estivesse mais aqui, e seria mesmo como se eu nunca houvesse estado. Queres saber se terminamos? Não. Eu vou embora da tua vida e só termino contigo se algum dia voltarmos a nos encontrar.

Quarta-feira, Junho 24

ver: S.O.S.

“• • • — — — • • •”
Titanic

"dit dit dit dah dah dah dit dit dit"

Ser já será incerto
Oco de escondidos
Sempre em aberto

save our ship
salve ou sucumbo

Suponha um labirinto sem sentidos
Olvido não tem socorro eu te alerto
Saiba que ambos estamos perdidos

save our souls
salve ou sepulte

Sonho estar liberto
Oblívio de ruídos
Solitude por perto

"dit dit dit dah dah dah dit dit dit"

Domingo, Junho 21

Amor & Saudade

o amor com dentes de maçã
em nódoa de beijo mordido
a saudade como febre terçã
na lonjura do delírio ardido

são sóis espirais de veneno
em vertigem de olhar fatal
são fúrias de abismo pleno
na nostálgica verve do mal

quando há demasiado amor
não chegamos a ter saudade
ela é que nos tem ao dispor

quando é demais a saudade
não chegamos a fazer amor
ele é que nos faz à vontade

Sexta-feira, Junho 19

Iconolatria

para Robinson Machado
Depois da última pincelada, vislumbrei inédita e com cem inúteis precedentes uma cor dolorida numa dor colorida que não deixava de todo de me esboçar. Tomado de assalto pela abstração do projeto completo, fui artificial. Como me expressar melhor, senão prudentemente, através do que expressamente comunica-se sem intermediários com a minha sensibilidade? Fato é que minha atitude, assim mesmo, não se me afigurava passiva, já que a própria estranha cor fantástica participava da minha criatividade. Destacada do conjunto, ao centro dos semitons de relativa familiaridade ou relativa estranheza, o que dá no mesmo, a mesma sabia-me a si mesma um pigmento insuportável, emancipado do suporte; no que, enquanto o elemento fundamental, as outras cores no geral, aplicavam-se em fazer sentido, ela, com estudada naturalidade e simplesmente, se fazia sentir. Seria um quadro prestigiado porque prestidigitado? Sei que vai valer alguma coisa quando eu estiver grisalho, ou careca, ou morto. A morte é, como nunca e definitivamente, a mais inesperada das derrotas, embora a priori também seja tão efêmera e fugaz quanto nos parece a moda; já a vida, esta poética que a posteriori nos é erroneamente atribuída, constitui um completo e opulento triunfo, mesmo apesar de sempre parecer uma derrota. Eu posso ainda não ser o artista que gostaria, mas por assim dizer escrevo o que gostaria de ler; não sou um bom crítico, mas faço uma autocrítica.

O quadro inteiro ainda não era eu, dentro embora me expressasse para além de mim, para fora. Não chegando a constituir simulacro, emoldurava o indiscernível desde o próprio cerne misteriosamente óbvio, aos brados no que calava de mais profundo seu exterior, estando imerso no ser superficial. Realce que me imiscuía na tessitura mesma do relevo menos aparente, aparentado sobremaneira no aspecto, a pretender apenas sutilmente demonstrar-se. O inusitado é que me contrastava. Utilizando-se não somente da aquarela de experiências que as demais cores combinadas nos propõem, como sombras, calor ou frio, e profundidade; esta ia muito além, pois estava munida mesmo de autoconscientes e apaixonados argumentos ambiciosos, carregando inadvertidas lembranças e previsões, com seus mil e um vigorosos instintos e uma racionalidade monstruosa; mostrando-se igualmente impregnada de um irascível vigor metamorfo, conforme se recombinava parecendo onírica ou mutante a cada abotoar e desabotoar de meus olhos incrédulos, e mais... no durar de um mesmo olhar, parecia ir além de mim e de si mesma, dando mostras de que podia reconfigurar meus olhos e a própria luz. Apesar de tudo já se me configurar desde o princípio como uma improbabilidade, no que cheguei a propriamente duvidar que ela sequer existisse, ainda pude, contrariado, discernir mais além, constatando não apenas que a cor estava viva, mas que era o esboço sensorial de um deus pictórico. Observado de muito perto ou de muito longe, eu não me via, mas ele sim. Cuidado com a arte: é frágil! Roubada para enganar-te: é plágio! Nenhuma arte de verdade é tão autêntica como a falsa.

Difícil de apreender à primeira vista, mostrava-se, após uma exposição mais atenta, apenas como algo muito fácil de não se entender. A melhor das metáforas é uma certa anti-ironia, porque não diz uma coisa querendo não dizer outra. Não há diferença entre caricatura e alegoria. Foi um exercício meticuloso de acaso, um improviso calculado em cada erro seu completamente inesperado, ou mesmo um imprevisto ensaiado; por absurda absoluta coincidência, quis-me desde o início assim acidental. O mérito desse método de com nada mais se parecer era assim um pouco muito meu também, ao menos me parecia. O que nos mostra como algures, alhures se nos mostra. A tal cor quase não era, posto que pudesse ser, desde que não se deixasse que o fosse. Na arte, como em tudo o mais, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, mas é absolutamente desnecessário fazer a omelete, uma vez que já se tenha quebrado os ovos. Angustiava-me em cada pequenina aflição que me infligiam seus múltiplos pormenores, infringidos meus recatos recônditos fustigados pelo horror com que, vencido e conquistado, me apaixonei por aquilo, como quem se entrega ao colo da mãe, ao braço do pai, à boca do derradeiro amor. Antes mesmo de eu me atrever a cheirá-la, tocá-la ou lambê-la, escravizei por completo minha visão obediente àquela mancha plurincolor, como ela mesma se fazia cada vez mais e mais dependente de mim; ao ponto de ambos não sabermos mais se juntos éramos os mesmos ou outros diversos, se éramos ainda um pouco eu ou algo daquele ponto. Não como híbridos ou amálgamas, interpenetrávamos-nos amiúde como se o detalhe do quadro e o meu olho em detalhe fossem uma simbiose ímpar de desejo objetivo e objeto de desejo, para sempre fatal e irretroativamente mútuos. E a maior solidão que encarnávamos era a de sermos totais.

A representação do imaginado que vivi outra coisa não queria expressar, desperdiçando a si mesma ao me consumir as autorias atribuídas, simbolizando tudo e significando nada, além do que, vez e outra, o contrário mesmo não se nos fazia inverossímil, dadas as supostas inteligibilidades passivas de apreciação na revisão geral da obra em questão, sendo irrelevante saber se esta era figurativa ou abstrata, fato é que me parecia um auto-retrato pouco vaidoso de mim, embora eu mesmo estivesse muito vaidoso dele, de tê-lo feito. Sempre quis saber pintar a verdade nua, vestindo-a com arte; ou pintá-la vestida com arte tal que se sentisse nua. Qualquer outro pensamento seria ridículo, se não fosse ao menos divertido. É que todo poema é um poema dentro de todo poema. O fato é que cintilava maravilhas a tal cor, e desde o seu próprio ponto de vista muito pessoal piscava para mim; sabia mais sobre o seu autor do que ele mesmo podia compreendê-la. Em vista de quando perscrutava minha tênue existência a me olhar, punha-me nu e efêmero diante da voracidade com que me contemplava, notadamente assenhoreando-se de meu destino, comigo na mira. Tenho para mim que se apiedava. Em contraste com os indeléveis novos tons além e aquém de nós, particularmente no ponto de convergência em que o próprio eu observador dilui um tanto o onipotente borrão original, de repente displicente a pintura assina-se a si própria; assinalando-me com precisão numa auto-intervenção, a verter com verve sobre si a arte necessária de uma só lágrima, perfeita para borrar a expressão do artista a desaperfeiçoar sua obra-prima, em conformidade plena com o estilo desbotado com que eu mesmo sempre costumo me pintar.

Terça-feira, Junho 16

O Amor de Cabernet & Sauvignon

C: Corpo a corpo eu te bebo.
S: Copo a copo você me tinha.
C: Dá tua boca à boca cujo beijo recebo.
C & S: Lembra quando a gente vinha?

C: Engole o que falo sem desperdiçar.
S: Então somente a verdade fale-se.
C: Viemos beber ou conversar?
C & S: Cálice!

C: Vem me provar que ama.
S: Liquide a embriaguez que sinto.
C & S: Vamos nos tomar na cama.

C: Deito-te em mim, teor do que tilinto.
S: Altos agora, se te sirvo me derrama.
C & S: Um brinde ao amor que adivinho tinto.

Quarta-feira, Junho 10

Jardim do Idem

...No início era o tédio
e só por essa razão o primeiro ser foi criado,
e bastou um segundo para ficar entediado
e juntos eles se multiplicavam sem remédio,
com o que intercalavam longos períodos da mais absoluta inércia,
como era previsível,
com toda a paciência para discutir a relação ou outra controvérsia,
como era discutível.
Mas nenhum paraíso seria o bastante
e o pecado é muito pouco entediante,
mas também pecar já não era excitante
e assim se abandonaram à monotonia,
mas isso também podia ser degradante
e dessa forma inventaram a melancolia,
mas nem ela agüenta uma rotina vazia
e também de não fazer nada se entedia.
Todos experimentais; somos nossos venenos, todos loucos ideais,
todos doentes mentais, somos bobos serenos, todos quando normais,
todos nascem mortais, somos muito amenos, todos morrem iguais,
todos muito carnais, somos bem obscenos, todos quase canibais,
todos estranhos plenos, somos criaturas reais. Todos extraterrenos.
Todas as leis são iguais demais perante as pessoas
porque mil isonomias não contemplam diversidade,
porque ainda não acabou a nossa pós-modernidade
mesmo apesar dela jamais haver começado de fato,
porque isolado um flato não reflete ironia das boas
porque nem mesmo fede a significado de verdade
...pois eles não estão sós,
antes e durante e após,
pois eles são como nós...
a vida inteira sempre os mesmos em cada parte.
A vida apenas alheia que à nossa morte não compete.
A vida cujas próprias formas a contém sem arte.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete.
E eu não sou igual a ninguém
e me pareço com algo que há
e ao final deverei dizer amém
e onde meu fim não começará
sendo que estou em toda parte afim dele?
E só para esse fim existi,
quando será ele?
Porque só existo para ti
ou qualquer outro que não me conheceu.
Quem afinal não sou eu?
Eu que me identifico só no irreconhecível,
eu que ando por onde e por quando quero,
eu que elejo apenas o que parece ilegível,
eu que pouco me atolo mas muito tolero,
eu que falo e escuto em língua nenhuma,
eu que não entendo nada e ainda escrevo,
que sou do tipo que bebe, do tipo que fuma,
que monto charadas, que conto segredos,
que conto nos dedos, que conto de fadas,
que não pago as dívidas como não devo,
que sou sem cor, que sou com graça,
que sou sem raça, que sou com amor,
que não nasci com a mesma história,
que não me ligo em qualquer religião,
que não esqueci nunca minha memória,
que não fui cultivado na mesma cultura,
que não deixo que castrem o meu tesão,
que não embarquei na mesma aventura
sou como aquilo tudo que sempre se passou no passado,
sou como isso ao meu redor inteiramente sem um lugar,
sou como todo o desnecessário vendido novo ou usado,
sou como o obsoleto absoluto em que é preciso acreditar
por não ter misericórdia como quem doa,
por não ter ganhado dinheiro o suficiente,
por não ter me tornado outro deficiente,
por não ter suado minha vontade à toa,
por não ter perdido sangue o suficiente,
por não ter ficado bonzinho numa boa,
por não ter escarrado meu espírito à toa,
por não ter a evolução me feito demente
com a sua liberdade de ir e vir com vistos e pedágios,
com a sua civilidade e cidadania de impostos em dia,
com a sua humana dignidade de trabalhos e estágios,
com a sua questão de saúde pública que me contagia
a vida que sabe à morte mais longa que se conhece.
A vida de um exterior que vice dentro embora vegete.
A vida pela qual a falta de fundamento transparece.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete
só por ter estado evoluindo,
só por ter estado revoltando,
só por ter detestado,
só por ter estado engolindo,
só por ter estado vomitando,
só por ter Estado.
Só por ter qualquer Civilização Ocidental, maldita herança,
só por ter dito contra a vontade um hino que não compus,
só por ter confessado sob tortura o meu voto de confiança,
só por ter ejaculado de mim essa ferida moral, cheia de pus,
e apenas porque insisto em fazer a porra que me faz eu
e apenas porque insisto em fazer a merda que me faz eu
estou proibido do que tenho em mente,
estou restrito ao que não me apraz,
estou proibido daqui para frente,
estou restrito a daqui para trás
e sou obrigado a agradecer
e sou de nada a agradecer,
já que vivemos numa democracia,
já que esta é a ditadura da maioria,
porque não devo ser melhor do que ninguém
e porque não posso ser pior do que ninguém
só me resta ser exatamente como ninguém,
exatamente como qualquer um sobre a face desta terra de Deus,
exatamente o Um como qualquer deus sobre a terra desta face,
e no entanto todo o mesmo ainda continua
e no entanto continuo ainda o todo mesmo
e no entanto continua todo mesmo o ainda.
A vida que sente náuseas pela própria mesmice.
A vida é só um ato falho que a nossa sorte comete.
A vida de águas paradas da infância até a velhice.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete
por um eterno retorno ao primeiro verbo do primeiro dia,
por um retorno eterno ao primeiro verso da primeira poesia,
por mais uma profana homília,
por mais um andar dos prédios, por mais um andar em círculos,
por mais circularem os tédios, por mais secular uns ridículos,
por mais uma Sagrada Família,
por mais um gole de petróleo, por mais um trago de fumaça,
a não poder carregar uma outra imagem,
a não poder andar com outros sapatos,
por menos um imbróglio, por menos uma arruaça,
a não poder me armar de coragem,
a não poder pagar por sonhos mais baratos,
mas tendo de decorar as mesmas ladainhas sem sentido,
mas tendo de ter as mesmas vitórias ao pé do ouvido,
sempre transmutando as mesmas poluições, poluções;
sempre transando as mesmas emoções, emulsões;
sempre transitando as mesmas intuições, instituições;
sempre transportando as mesmas noções, nações;
por ter comido da árvore da paciência
minha cara sua
por alguma comida,
por ambicionar comer da árvore da lida
minha vergonha nua
por subsistência,
porque se devora essa mitologia crua,
porque minha fome é a deles e a tua,
porque nossa história como que jejua
e cumprido está o plano inclinado da nossa descida;
e comprida é a profana escalada da nossa descendência.
Nesse caminho, linha reta, as coisas se repetem
nesse caminho, linha reta, as coisas não acontecem
nesse caminho, ponto a ponto, o nada não muda
nesse caminho, ponto a ponto, um nada nos saúda
enquanto as horas durarem um dia,
enquanto os dias passarem da hora,
enquanto nossa duração for tardia,
enquanto nossa tarde ainda vigora,
enquanto ainda existir um todavia,
enquanto nós aqui existimos agora
uma vida alienada
nada a se fazer
na água parada,
pró-fundo o lazer
com que morre afogada
e pára de se debater.
A vida gira em grosas em eterno equinócio.
A vida como uma volta ao lar que não se complete.
A vida que maquinalmente é movida a ócio.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete.
Desde então nós convivemos com o abandono
pois não existe nada além da diversão que nos conforte,
desde que não contamos com a dor e a miséria e o sono,
pois queremos chegar inadvertidamente à morte:
um tempo que sabemos não ter começo;
uma época cujo meio é tudo o que sou;
um tempo com o outro lado do avesso;
uma época que afinal nunca se passou;
um tempo no qual eu ainda permaneço,
era reincidentemente sem fim
pois é lá do tédio que viemos,
é pois para lá que voltaremos,
era sem saída esse nosso jardim...

Sábado, Junho 6

Psiconauta

A realidade é aquilo que não some
quando já não se pensa mais nela.
Philip K. Dick

Experiência não é o que acontece a um homem;
é o que um homem faz com o que acontece a ele.
Aldous Huxley


Enteogênico trago o fumo
Navego e naufrago e me aprumo e apago
A natureza (marinha) da (minha) existência
Abro as comportas da percepção
Peresigo a sombra da minha respiração
Boca a boca, com que me dito a ação
Mas turba a ação, desde um caos maravilhoso
Alterando outra alteridade sem piedade
E se falo com Deus sou piedoso
E se fala Deus comigo sou louco
Atinjo o fundo, ou ele me atinge
Uso o espiritual, o recreacional
Pouco a pouco há pouco
Uso muito mais do que podia
Ora jejuo, ora me alimento
Tento hipnose e glossolalia
Enjôo mais do que não experimento
Tento uma projeção austral
Ou de cinema autoral, e sonho lúcido
Com os Estados Alterados da América
Pois o enfadonho não desabou
Psicotópica era velha a nova era
Tudo meu eu, meu eu nada, pratica borboleta
Desde Bertyoga em ondas cerebrais
Do homem almar, o Mar de Davis
Afogado em Antártica ou em Brahma
Qual zentropia que respiro sentado
Como uma flor de lótus apetitosa
Depravação sensorial de lírio, de rosa
Como cannabis como canibal
Tortura por cócegas, sessão de anedotas
E um ritual besta de culto ao capeta
Intersecção dos cus juntos com xoxotas
Intersucção de um mamilo ou caralho
Café velho com remédios tarja preta
Suspenso pelos piercings ou plus ultra
Lance de dados e mesas de baralho
Dances de lado que não me atrapalho
Realismo histérico e kharma sutra
Vaca atolada servida frita sem mugidos
Deficiência de vitaminas ou autoflagelação
Objetos geométricos brilhantes e coloridos
Sob as três vistas vesgas da observação
Árvores no céu da boca e do inferno
Divorciados da queda do ar
Pau d’água que dá frutos do mar
O ser e o não-ser moderno
Bestiário místico por domar
Auto-indulgência por doar
Eu devo estar acordando, me belisca
Cogumelo mágico, peiote e mescalina
Para fisgar ao peixe que pesca a isca
Sob um feixe de farol que me alucina
Monóxido de carbono e luz que pisca
Preto e branco, entre ambos os halos, sina
Tenho visões de mensagens sublunares
Ouço vozes que gaguejam, que praguejam
Que dementes mencionam mais dimensões
Em dose cavalares, revoluções interdisciplinares
Novas possessões, novíssimos círculos
Expandindo a mente com as ficções mais belas
E viajarei pelos sete bares, pelas verdades paralelas
Tomando tombos tão ridículos que não acredito
Gozando o que fico sabendo, sendo maldito
No que me cago e vomito lagartos elásticos
Seres fantásticos, memórias que apago
Lembranças que recupero, assim espero
Nessa chama que chamo xamânica
Que me torra a casca, serafim de ayahuasca
No vago redemoinho dessa linguagem oceânica
Bem consciente de estar submerso
E eis que do meu diário de bordo, transbordo
Como o homem que bebeu o universo

Quinta-feira, Junho 4

Existismo

porque se morre apenas uma vez
estou ansioso
e no entanto
não me suicido
pois só se vive igualmente uma

a vida é simultâneamente
longa e trágica
como alguma dor
e a morte ao mesmo tempo é
cômica e curta
tal qual um prazer

morrer ou viver
são formas demasiado inexatas
e simplesmente complexas
do meu próprio e alheio Eu
que hoje já não tenho preferências
tanto que quando de um dia e local
tão imprecisos quanto o livre-arbítrio
questionado de súbito pelo Nada
com o Todo atento a tomar nota
se para ali e então afinal escolho
“ser” ou “não ser”
foi e será o melhor não responder
por querer demais aos três

Sábado, Maio 30

Enormíssimo Cronópio

Criaturinha verde que me amadurece o ser e que, úmida, faz secar a boca atônita de te reler, pois não te declamo, senão respiro. Com os teus poliédricos olhinhos de gato em penúria eu vagabundeio uma leitura opiácea do microcosmo que me contas fantástico, por mágica com barbas de negra mandala primaveril a mascararem quase dois metros de alta outra realidade, a mesma de Buenos Aires e Paris, com dentes feios e fomes aleatórias, famas elásticas, não importa... não se contentam em significar, Julio, que me dizes muito e é aqui em qualquer lugar, agora em qualquer tempo. Entre os teus e os meus cigarros, saio do hospício onde se usa encerrar nossos heróis poetas e minotauros, cujos sonhos tomados aos crepúsculos revolucionários examinam o bebop pugilístico de prosseguir a perseguir, ora em livros mesmo, ora em outras liberdades, nossas incontáveis solidões, mulheres e cidades. A presença que imagina a si mesma anda por aí, estritamente não profissional, em territórios violentamente doces, com suas armas secretas contra os vampiros multinacionais. Em todos os jogos o jogo sem fim com humor sem princípio, final de fogo onde anda a tua fala, voz grave sem solenidade, voz terna pela eternidade. Tu me sublinhas, caro amigo. Fui te visitar aí no cemitério lotado, casa tomada por ti, vigiado sempre por corvos que você (nuncamais) traduziu e que agora te traduzem, a lápide branca de casal sob pedrinhas, moedas escuras e pétalas cansadas, entre um sem número de papéis molhados pelo noturno céu da véspera, com um caleidoscópio de desenhos e outros textos para ti e/ou teus mesmos; então me deito um pouco contigo, che, meu velho mestre sem método, penúltimo dos titãs não-ortodoxos que fez algum sentido; e deitado vejo de olhos abertos o teu coração de pelúcia e em panorama o teu esqueleto mais livre do que o meu; e quando fecho os olhos, cobrindo de fosfenas minha vigília, anoto aquelas datas de teu nascimento e morte: aí penso na I Guerra e penso na Declaração de Caracas. Apenas o creio porque é mais fantástico, Cortázar. Tudo me parece uma irônica amarelinha imaginária, ou uma mera épica piada de mau gosto. E os tempos não são outros. Saio contigo da labiríntica necrópole para um não menos granítico café na esquina onde, marmóreos, nós tomamos dois dedos de prosa poética sobre os dois euros da conta. E... sim, sim, escrevo no computador e... verdade, irmão... dois Kirchners, primeira-dama e primeiro-senhor... seguro... Que te passa, compadre? Asma? Incredulidade? É que você já devia ter se dado conta de que, morrido um contista num ponto, diminuído fica ele do último conto. E o mundo cada vez mais tonto.

Quarta-feira, Maio 27

Nico & Tina

Olham para o cinzeiro na parede
O cigarro curto no número três
O cigarro longo no número seis
Um café para aumentar a sede

Intervalo do trabalho a dois
Espaço de fumantes
Combinam de se ver depois
Tempo de amantes

Fumar

Fumar é mais do que um vício
É um exercício cansado
Verbo demorado e difícil
Participado particípio
Eu fumo até por princípio
Início de precipício

Fumar ilude
Na não-virtude do não-ilícito
Decrepitude da juventude
Mais do que um estado de espírito
É um estado de saúde

Sábado, Maio 23

Action Writing

Cinzeiro de pedra cheio de pontas atirado à página com força pela mão direita, espatifado na diagonal que termina no canto inferior-esquerdo. Os filtros de cigarro em tons pastéis, como parcas migalhas sobre o branco sem cavalete do sulfite, pedem meio cálice de vinho barato com a superfície empoeirada, em esparsas gotas contadas no início, logo em fios de líquida púrpura nas horizontais inferiores, depois aos borbotões no meio da cena e, finalmente, a própria taça feita dezenas de pequenas armadilhas para alguém que se habilite a lê-lo com as mãos. E como o vermelho ainda não estivesse ao gosto do esperado em gesto, se acrescenta um tórax humano sem camisa rolando frente e verso convulsivamente em frenesi pela extensão longitudinal da página. Canetas também são bem-vindas aqui, umas duas ou três esferográficas azuis bem cheias e com tampa, batidas no liquidificador e derramadas no ventilador de frente para a obra em pé. Os pés, pensando nisso ali “escrito”, também podem cumprir algum papel, no que se acrescentam pegadas de botas que pulam e pulam e pulam numa raiva aleatória de asfalto e grama e merda de cachorro. O que vem bem a calhar, pois lhe confere um apelo olfativo que interessaria demasiado, ainda que também repugne. Assim é com dois ou três escarros como sóis pelo alto, e um jato de urina quente que primeiro dissolve o todo anterior e, por último, o enverniza. A aparência geral agora está mais de acordo consigo mesma do que o próprio autor e, como se isso pudesse desgostar o leitor, o artista ejacula sobre a superfície tanto quanto lhe é possível; branco que o satisfaz bastante, mas que por perder mais e mais substancia e consistência a cada minuto teve de ser substituído por tinta comum, de aparência até mais intensa, deve-se dizer; mas menos saliente e com menor relevo, o que mais tarde poderia trazer algum arrependimento caso não se fizesse substituir pela cor original da base, o que se foi tentado em excesso, até atravessá-la por completo em meia dúzia de trechos que permitiam ver do outro lado. As franjas das bordas desses buracos não apenas deixadas como estão, senão desfiadas desde o centro geométrico até as extremidades, tanto pelo lado da frente como pelo de trás. Mas uma penúltima olhada revela que ainda não está digno de se assinar, é mesmo um fracasso absoluto. Um fiasco. Provavelmente só falta o fogo, que começa a operar em baixo e sobe célere; quando de um jeito ou de outro vem o arrependimento e a certeza de que tudo aquilo expressa tudo isso muito bem, e que apenas com um balde de água, antes que seja tarde, a obra estará terminada.

Terça-feira, Maio 19

Adorígine

desperto muito longe
longe como a aurora
aurora do mesmo dia
dia de ontem sempre
sempre sem memória
memória só de sonho
sonho só caminhando
caminhando perdido
perdido e para frente
frente a fome sentida
sentida até nas costas
costas para trás ficam
ficam os olhos no ser
ser passo a passo meu
meu nariz a me guiar
guiar através do chão
chão de passos tortos
tortos pois não pararão
pararão talvez no mar
mar o que é sem volta
volta ao mundo talvez
talvez infinito demais
demais para se ir a pé
pé de calo incansável
incansável não chegar
chegar de onde se vem
vem comigo a vontade
vontade só de ser livre
livre como um nômade
nômade sem ter opção
opção de ficar no lugar
lugar onde se vai aflito
aflito pois existe acolá
acolá sendo onde existe
existe antes de onde vai
vai com o vento levado
levado até quanto pode
pode ser que nunca pare
pare nem para se dormir
dormir é não estar aqui
aqui onde agora desperto

Sexta-feira, Maio 15

Barr Oco

Fala-se demais em boemia
Bebe-se mesmo muito pouco
Basta um copo de filosofia
Deixa qualquer um louco

Evite a boemia
Não se arrisque
Não beba de barriga vazia
Antes ao menos petisque
Não beba durante o dia
Não pague barato por uísque
O que Tom Waits faria?

Vive-se de lazer
Morre-se de cirrose
Ser ébrio não é beber
A boemia é dose

Segunda-feira, Maio 11

Cracolândia


Ester, quinze anos, sem emprego fixo
Desfila preta e suja e não se perfuma
Rubro luxo que achou na boca do lixo
Hoje transa por dez para ver se fuma

Paco, de menor, tem uma história feia
Traz nas costas as marcas da passagem
Aprendeu lá a reagir assim em cadeia
E veio de longe para a sua curta viagem

Esqueléticos, pele e osso
A vida de altos furtos e baixo meretrício
Com a corda no pescoço

Ser Ester é estar a toa desde o início
Fazer o que faz descalça sobre a calçada
Tem vírus no meio e por fim o vício
O coração tão mole e a alma empedrada

A pedra do reino de Paco é do chão
Chão de asfalto, no mundo da rua
Paco não improvisa um pito em vão
Cachimbo da guerra, senta a pua

Uma colher sobre a chama
Cocaína, água mais bicarbonato de sódio
E quinze minutos de fama

Nossos heróis protagonizam o episódio
Paco viola Ester pois se acha com sorte
Ester corta Paco porque sente com ódio
E se abraçam sem outro que os conforte

Aí vem o Estado e os mata, a Prefeitura limpa
Por angústia, depressão e agressividade
Cidadãos de bem olham e aprovam, é supimpa
Os efeitos colaterais de toda esta cidade

Terça-feira, Maio 5

Pirada Gutural

Quando o sol se punha, na tarde de sábado, dia 2 de maio, em São Paulo, começava a aguardada quinta edição da tão propagandeada Virada Cultural, que reúne anualmente cerca de quatro milhões de pessoas, ao longo das 24 horas que dura o evento, em busca de ao menos uma parte da felicidade gratuita que lhe é negada pelo restante do ano. A Prefeitura oferece de uma só vez uma programação com 800 atrações, que caberiam melhor em um calendário inteiro, mas é comprimida e enlatada em uma única data que, exatamente por esse motivo, torna-se memorável.

Esta reportagem pretende trazer à tona desde o cerne o que a cidade não digere desse prato mal lavado que todos engolimos, já tão tipicamente inserido no cardápio do nosso dia-a-dia de só um dia por ano. É o relato deste poeta, um estudante paulistano de jornalismo que esteve andando toda a madrugada pelo centro agudo desta crônica.

Há mais ou menos dois mil anos o poeta romano Juvenal escrevia em seu livro hoje muito conhecido, que chamou de Sátiras: “...Já há muito tempo, desde quando ainda não vendíamos nossos votos para ninguém, o Povo tem abdicado de seus deveres; para um Povo que teve nas mãos o império, senado, legiões – tudo, agora se contenta e ansiosamente aguarda por apenas duas coisas: pão e circo.” Bem, já se viu que fizemos progressos políticos: hoje o circo é anual, e o pão de hoje só amanhã.

E como canta um músico meu amigo, que não foi convidado para essa festa que uns homens armaram para nos convencer, “paulistano quer show... gosta de escândalo!” É por volta da meia-noite que começa de fato o espetáculo, que a Éssepê udigrudi sai de todos os bueiros e latrinas, dos cantos que esta noite cantam em coro.

A polícia pôs na rua 2500 homens a mais do que o de sempre, um para cada 1600 cidadãos. E no dia seguinte o prefeito anunciou não ter sido registrada nenhuma ocorrência grave. O que, pelas estatísticas oficiais, provaria que o paulistano é pacifista e/ou facilmente controlado pela violência monopolizada pelo Estado. Mas o que eu observei de bem perto foi um sem número de crimes, observados de mais perto ainda pela polícia; sempre em quartetos, ora um que passava a pé conversando animadamente, ora outro em volta da viatura parada na esquina a olhar o mulherio. Ninguém fez nada diante de brigas, roubos e vandalismo. Enquanto gangues de assaltantes faziam a festa; bandos armados com paus redefiniam terror; jovens bárbaros faziam suas necessidades de cima do viaduto sobre os passantes em baixo, que necessariamente passavam mal.

O transporte público estava especialmente ruim: poucos ônibus, a maioria com itinerário alterado; a estação República do metrô fechada, dizem que devido à passagem do “Megatatuzão”... o diabo! Os roqueiros estavam do lado de cima. A cidade, pouco mais iluminada que o normal, não estava bem sinalizada, como depois se divulgou; os poucos avisos e informativos estavam estrategicamente afixados nos lugares mais escondidos, perfeitos para urinar ou vomitar. E o público sem privada.

Banheiro público somente químico, improvisado e escasso. Era mesmo a coisa mais infreqüente encontrar um pelo caminho. Em geral ficavam próximos aos locais onde havia shows de música, tendo sido muito úteis àquelas pessoas que subiram neles para ver melhor aos seus artistas favoritos. Já as lixeiras, todos sabemos como já não são suficientes, tanto no centro como no resto, e não vi uma lixeira extra sequer, resultando que os garis trabalhavam sem parar, mesmo não sabendo por onde começar, perdidos em meio aos rios de lixo em que se converteram todas as ruas. Muita latinha e garrafa quebrada pelo chão, o povo deixava cair acidentalmente em qualquer lugar. Ambulâncias vi muito poucas durante toda a noite, as que vi estavam trabalhando, as sirenes ligadas tentando inutilmente passar pela multidão.

Com todos os lugares lotados e loucos, passei a noite indo de um ponto a outro entre os bairros da região central. O que eu já esperava e, na verdade, já tinha até mesmo programado: não me programei... até tentei. Desde quando foi anunciada a programação, semanas atrás, dei-me conta de que não havia nenhum evento isolado que fosse realmente interessante, pelo menos ao ponto de fazer com que eu planejasse me mover até lá. Então, desde logo o plano era só andar bêbado por aí, flanando, a encontrar amigos, reparar na arquitetura, olhando as pessoas e ouvindo música ao longe, pelo coração de Sampa. Eis uma idéia de diversão. Esta cidade deveria ser muito melhor ocupada por nós, que pertencemos a ela tanto quanto ela nos pertence; principalmente este centro paulistano, já e ainda decadente, bem como todos os parcos espaços urbanos públicos, dia e noite. São Paulo deveria sair do horário e assumir que é 24.

Haveria inclusive mais oportunidades para fotografar a cidade de noite, já que, naquela noite, estando em inúmeras horas e lugares certos para todas as fotos que eu poderia ter tirado, poderiam ter tirado a câmera de mim; e aí eu teria estado no lugar e hora errados, e não teria voltado com a matéria (fatos sem fotos).

Dizem que o caos não tem forma, deve ser porque não é do nada que eu o via se formando e deformando sob as árvores e pontes e marquises, sob o céu da metrópole; não mesmo, a semente sempre esteve ali. A noite avançava e a urbe mostrava seu lado mais selvagem, como poucas vezes vi, da mais intensa sujeira e barulho, ou seja, da mais intensa humanidade; milhões de individualidades se acotovelando, descontroladas todas; pessoas... na primeira curva do terceiro milênio, neste Sul de mundo, o Terceiro Mundo. E se Sampa não pertence ao chamado Brasil profundo, é porque é mais no fundo da imundície mesmo, terra, água e ar. São Paulo é o pulmão do Brasil. Com um tipo de tumor que não se poderia dizer maligno, mas anárquico. Dava para sentir a tensão na atmosfera carregada e maciça, fatiável, um ensaio de revolução, de bolso.

No brasão da bandeira da cidade se pode ler seu lema, a inscrição latina que diz “non ducor duco”, que quer dizer “não sou conduzido (à loucura), conduzo”. O relógio marcava um infinito vertical, dois pontos: zero-zero. Com o domingo amanhecendo, eu sentia nos meus ossos a ressaca da cidade; mais lixo em evidência, tudo tão plástico... metálico, vítreo, de todas as cores da própria cidade. E todas as esquinas eram mananciais de onde brotava gente, isso sem parar de ir gente embora para caber ainda mais. Paulistanos, paulistas, brasileiros, turistas. Alguns não iam nem vinham, ficavam. Ficaram lá. Gente que nunca antes vi vivas, nunca antes vi tanta gente caída pelas calçadas, escadas e cantos. Será que sem teto sem para onde ir? Sem dinheiro ou energia ou lucidez para voltar? Sem vida? Vou para casa tomar um café com pão já que o mundo ainda não acabou. Já que a festa não acaba nunca. Faltavam ainda umas dez horas para acabar, certo? Errado! Está só na metade. A Virada Cultural e a final do Campeonato Paulista (na qual a vitória do Corinthians e a festa subseqüente eram previsíveis) terminam juntinhas, como se a primeira festa, que termina, passasse o bastão para a seguinte, para quem a maratona de imprevisíveis continua, sem fim, até chegar segunda-feira. Continuo torcendo, mesmo que completamente virado: “Salve o prefeito... O brincalhão dos brincalhões... Eternamente... até chegar às eleições”.

Quinta-feira, Abril 30

Saída

Cinco minutos eram, há mil anos,
Quarenta onças da mais fina areia.
Fito as estrelas. O passado eterno
E o futuro infinito: asas imensas
Se fecham sobre nós – e então morremos.
Vladimir Nabokov



ouço uma voz rouca, moribunda
ou que acaba de ressuscitar
está falando comigo, me circunda
e não se trata de deus ou avatar
ou outro amigo imaginário
mas vem do veneno puro
menos labiríntica tatuagem
ou sangue do mais escuro
na pele do rito de passagem
o mapa que marca o calvário
daquele povo não-bíblico, sem espírito de grupo
que no entanto dança, sem espírito de ovelha
em meus ouvidos que com ritmo ocupo
daquilo que nunca se ajoelha

convinha me achar
vieram me convidar
e fecho os olhos quando
um deserto cor de laranja
com montanhas de tempo
de fundo do mar do passado
faz com que eu reveja tudo
o que eu não sabia ainda, que
“todos os desertos são uma ilha”
quando pergunto para cima:
- caminho?
e respondem para baixo:
- nada!
e
livre, então...
ou borboleta
até me cansar
atravesso aqui
o mais longe que há
depois faço sombra
mas tenho um elefante
sentado no meu peito
mas ainda tento me acocorar
pois as costas não são chegadas a doer
mas o coração partido
e
estou quase só
e no céu uma estrela me vê
e ela é duas:
um rubi, flor dos milênios
uma rosa, gema da estação
as duas estrelas são fetos
abortos gêmeos no formol
as duas estrelas são profecias
páginas de água, frente e verso
e
chove devagar a velocidade
da nuvem no meu rosto
que tudo encobre
e sua máscara é a realidade
que odeio com toda minha expressão
pois é maciça como a morte
que me fratura o ser
já que ainda sinto
ainda dói
e estou
e
como quando sonho
e perco os pés dentro da música
como onde caio
e acho um buraco fora do canto
não tem eu
nem ar nem caos
no começo
apenas o mesmo pó
do final
afinal toda explicação
é superstição
e toda a ignorância tende à fé
seja no cume do começo
seja no fim do fundo
então vou para o espaço
e não o meço
então perco meu tempo
e não o conto
e
desde que perdi meus filhos
eu ainda era criança
desde que meus pais nasceram
eu já estava morto
assim não espero coisa alguma
mas me rebelo contra aquilo que é
pois não posso ser
nem eterno nem efêmero
o suficiente para não fazer parte
do que eu toco, do que me toca
seja animal, vegetal ou mineral
outro ou eu mesmo
ou humano, ou fantasma
na paisagem imensa, sem fim
menor do que eu, dentro de mim

e um deus mais fraco do que ateu
da caverna funda o carvão
com que livre desenho a mão
no meu próprio buraco em breu
com a técnica mais moderna
o macaco (deus me livre)
que no fundo sou eu

Sexta-feira, Abril 24

Ação

Tudo era parado. Situação: as pessoas imóveis tanto quanto o próprio sangue das coisas. Algo hipoteticamente externo, como um autor, por exemplo, poderia descrever tudo facilmente. Tomemos como objeto este ambiente, o cômodo. Um quarto regular, três por seis, digamos... daquilo que neste universo particular se poderia chamar de metros. Assim seja. O piso de um material plástico imitando madeira. Cada parede menor mais a metade da parede maior adjacente pintadas de uma cor, verde a de um lado, lilás a do outro. O restante das paredes branco, o teto e suas molduras em gesso incluso. Uma porta para o banheiro contíguo; nele o piso frio, cinza, e os azulejos azuis marinho até o teto, tudo “combinando”; o padrão dos desenhos deles é irrelevante, pois aqui nada significariam. O chuveiro descuidadamente ainda sem box. O mesmo cinza da louça do vaso sanitário no mármore da pia, esta embutida em um gabinete de madeira na parede, sobre o qual há um espelho. Parado até o ar dos dois ambientes. Um segundo espelho na parede em frente à porta do banheiro enfrenta o primeiro. E, afinal, a outra porta, mero acesso ao próprio quarto. Cúbico, de ângulos retos. Ambas as portas sanfonadas, de cor ocre, uma ao lado da outra. E a janela de ferro, com basculantes, branca. Isto tudo dado aí constituindo a parte que nos cabe do tal imóvel. E como não poderia deixar de ser, o imóvel também estava parado, obviamente. Talvez alguém julgue importante arrolar a mobiliário, ou mesmo outros objetos... Uma cama de casal com cabeceira, de ferro, na cor branca; de cada lado dela um criado-mudo em madeira, com duas gavetas cada. Um terceiro criado-mudo branco, de metal, usado sob um televisor de vinte polegadas e um vídeo-cassete velhos, está localizado ao lado da porta de entrada, enviesado numa quina. Ao seu lado uma sapateira branca, e ao lado dela uma mesa para computador, os dois de madeira. Sobre a mesa, um computador e um aparelho de som. Tudo está silencioso, apesar da maioria dos itens estarem plenos de existência, de utilidade, ou mesmo ligados e funcionando. Neste ambiente pode-se dar pela falta de um guarda-roupa, o que seria plausível... mas explicável, dado que este se localiza em outro quarto da casa, com roupas dentro, inclusive, como seria de se esperar; este outro quarto estando inabitado, caso diverso do de um terceiro quarto da residência, onde alguém dorme, parado. Assim como tudo o mais dentro ou fora do ambiente parado que elegemos para descrever nesse mundo particular a imobilidade da parada completa. Completando o ambiente temos alguns livros, discos de música e vídeo; um tabuleiro de xadrez e um crânio humano de plástico; pares de sapatos, tênis e chinelos, guardados na sapateira; um sem número de lembrancinhas guardadas nas gavetas dos criados-mudos; inúmeros papéis e canetas aqui e ali; máscaras, pôsteres de filmes e murais com fotos e cartões postais nas paredes; ventilador de teto com luminária; um cinzeiro, um telefone, uma bússola, um relógio. Estes dois últimos a marcar com absoluta precisão, parados, data e horário, bem como o local descrito: dia 24 de abril de 2009, às seis horas e vinte e quatro minutos; amanhece na cidade de São Paulo, Brasil, na Latitude 23°31'48" ao Sul e Longitude 46°37'48" a Oeste, a 640 metros de altitude do nível médio do mar. Talvez por coincidência, neste dia e mês, em 1184 a.C., na atual Turquia, segundo a lenda, os gregos entraram na cidade de Tróia usando um grande cavalo de madeira, e em 2003 d.C., nos Estados Unidos, foi completada a seqüência humana do genoma (do grego: ge-o que gera, e -ma: ação). Talvez não por coincidência, “agora”, na hora mesma em que surge o Sol, “aqui”, além do já descrito, o ambiente possui um colchão, com lençóis e travesseiros amarrotados. Igualmente parados, como tudo. Inclusive um ser humano de 46 cromossomos, do sexo masculino, pesando sessenta quilos e medindo cento e setenta e sete centímetros de altura, ele tem vinte e nove anos de idade completos; está deitado de bruço, com os olhos fechados, quase dormindo. Tanto seu metabolismo como suas demais funções vitais encontram-se parados, apesar de existentes, ou seja: vive. Quando de súbito alguma terrível mola-mestra oculta no espaço e no tempo impetuosamente põe em movimento de novo tudo o que ainda há pouco se encontrava convenientemente parado. É um completo absurdo, mas provavelmente real. Uma hipótese pouco plausível supõe que o ser humano inadvertidamente tenha se levantado apenas para escrever este texto, que por certa coincidência ou incerta conveniência eu releio e ato ao movimento.

Quinta-feira, Abril 23

Doppelgänger

Eu apareço
Só para mim
É o começo
Do nosso fim
Eu lhe surgi
E de repente
Era o que vi
Eu diferente
Eu fui tocado
Pelo outro eu
Um eu errado
Não era meu
Eu te pertencia
Pois era vosso
Ele me possuía
E era só nosso
Eu me visito
Bom vizinho
Mas te evito
Até sozinho
Eu me vejo
Não é reflexo
Eu o desejo
Fazemos sexo
Eu te espionava
Eu era observado
A gente gostava
Agente duplicado

Sábado, Abril 18

Sóis Me Amar

É nosso sol
No meu espelho
A luz alheia
No teu olhar
Eu do farol
Tu de sereia
Tenho o joelho
Tens o mar

Que nada o sol
Libertado como idéia
Fisgado pela reflexão
Rio por não ser eu no anzol
O ideal livre de prosopopéia
Na minha mão

Sonâmbulo se põe o sol
Vela nesta noite profunda
Louco mundo defronte
Luar sob o nosso lençol
A minha água de fonte
E a tua luz que flutua
Nossa nascente se inunda
Enquanto é dia na lua

Terça-feira, Abril 14

Só: Lar & Peristilo (Solar Hiperestilo)

Estilicídio da dúzia sobre dose de analgésicos, minha cabeça: é um estouro! Moro minha casa afora mas às vezes ela está em mim, ao redor de tudo que a vista alcança. Estou longe demais daqui. E não é mais bonito isto sentido do que escrito. Ambos doem.

Quando um lugar? Onde hora alguma? Apesar de mim sou através da sala de estar. Perto fica a sacada, saca? Milésimo primeiro andar no ar. Veloz. Penso em descer. Mas negativo, não consigo seguir-me. Digiro em giros a brancura do interior em espiral. Fractal. Sou meu cão sem estimação. Some-se meu temor do Paraíso e terás meu erro. Sinta comigo um pouco como é muito raro, você talvez goste. Crível porque absurdo. Normal.

Nada demais ao menos por enquanto. Conquanto o seguinte: e nada se segue. Persigo isto, o mal explicado, outro símbolo. Nós humanos que morremos demasiado. Os outros morrem, e eu, que não sou os outros, não morro? Demora. Demovo-me lentamente de minhas carnes cinzentas que me metempsicose. Vario de forma e, vário, me deformo homo-gênio-lógico, amoral. Transo transubstanciarmar-me de mim mesmo. Não me amo. Chamo-me do que quiser, do que quis ser. Sou zeloso, ainda que furioso. Eu mesmo me desarquiteto. Arqui-inimizo-me. Alimento aos vermes que me corroem.

Já não quero, mais tarde. Meu erro-espírito alado, numa ala da morada, demorado, faz alarde. Morre-me, convida. Vou não vou. Vôo? Desespere por mim. Descalço o sapato e me alço ao fato. Inato. Sou não sou. Sôo? Escute aqui, coração, ainda bato em você! E assim redecoro o sentido, interno mesmo. Há esmo, um Inferno.

Acendo um cigarro e tusso russo, vermelho, e pigarreio no espelho. Já respirei-o. Meu transparente distante, meu amante, minha conta me constando no inconstante. Diferente da gente. Esguio se ex-guia. O fumo urgesticula sobre a minha mão amparada. Ele foge pela janela amarela da minha narcoticidade-estado, venezianas do imaginário. Durmo no meu quarto minguante a nua nova inteira, ideal e bonita e verdadeira; amei-a. Qual novo mito sonhado no vômito, onde meu eu alienante nos precipita, se prova farto.

Filosofal carnal que mia, unhas de fato, felinaptidão derradeira: animiau! A noite cheia. Preta no branco no meio da página inimaginada que arranco com a caneta tinteiro, delirante delirando veio-me a cor dando ao pesadelo berrante que ora apago no cinzeiro.

Mal acabada cabala. Fria geometria, moradia vazia. A caverna que me externa. Casa comigo diz sim, casa e cozinha para mim, casa e comida no fim. Caverna, sempiterna caverna. Cativante não lugar. Aqui estou ileso, preso, selado. Lar do selar. Feio fóssil, belo perdido. Dono do centro comeu mel, trono doeu dentro do céu. Estelar.

No ente do ente. Creia-me uma última vez: recreia-me me recriar. Sobrevívido. Ainda fumando, ainda escrevendo. Não apenas para apenas não parar. Continuances. Sobras. Moro desmoronado, me afogo me afago... não demoro. Morro logo, logo existo. Mangue baldio, sangue frio, exangue cio. Quase inteiro: três quartos. Obras e lagartos.

Amiúde sabendo que não me resta muito mais, que no mais muito não me resto, esvai-se o tédio. Primeiro suo cada segundo, duo. Sou pouco ou menos, quase flutuo. Apouco-me. Depois já não sei, não sou. Apesar de pressentir o que já não será presença. Tudo igual, no fundo. Fúnebre vivo, não-luto. Enjôo, escôo. Sem a crença a me deter, não oro, só me deterioro. Raso.. vaso... jazo. E esperando que essa dor de cabeça passe, passo a passo o que é finito caminho. Em si, em círculos. Sublevo-me embora daqui, vou me incorporar mais uma vez à Rebelião que sempre deserdo do outro lado do Nada. Mate-me agora, faça-o! Sem defeito, faça efeito. Rebelde imberbe, impagável pagante, soldo contra. Translade-me em devolução ao cerne, avesso ao Tudo que me concerne.

A madrugada me obriga a me abrigar, então fico assim acima de mim, perscrutando os interstícios do tempo que me conspurca, a duras penas apenas, “vivendo”, com todas as letras, de vagar. O chão não se abre, o teto não desce. Por quê?

O dia seguinte já desponta ao longe, cada vez mais perto, varando-me avarandado. Meu grito aberto, de um já-não-vivo “estou acordado”. Tudo menos isso: eu. Revisto-me mais do que me livro. Anuncio xeque ao rei. Arte de bobo. Ensolara-me. Cega meus passos e pisa meus olhos. Em meio caos, ordena: escreva-me ou devoro-te.

É certo que erro, me acho perdido. Meu palácio é pequeno o bastante para mim. E o visto no lugar do último fato que no espelho me vi vendo. Acontecerei mais eu. Hoje é o dia, o dia que sempre é hoje. Emparedei todos os relógios e bússolas da casa.

Um deus supervisor de visões foi amigo meu; ele, como eu, usurpador de fogo, embriagado a esta minha hora... que o meu corpo seja o último fígado do teu castigo. Penso nele primeiro, depois em seu irmão, escultor de encarnações, meu antagonista; ele, artista como eu, criador de criaturas... assola-me com as botas perdidas de Judas, que é achado pendendo da árvore cujo espinho plantei, a qual foi fiel afinal, suicidado. E o autor das botas, maldito no tempo e no espaço, ultrapassa a morte exilado do tempo.

Eu já me matei tantas vezes, mentindo, que agora que é de verdade ninguém acredita. E quem não me conhece, lendo isto, pode pensar que sou velho... ao ter idade. Mas uma vida inteira não é o suficiente para nascer, quem dirá para matar-se o bastante.

O Jardim do Idem nos fundos: eu o rego com mijo turvo, eu o carrego comigo, curvo. Re-vou e re-volto. Do saber antigo e da vida nova que lá plantei não vejo raízes. Mas sei que estão lá, e que crescem; sinto-as entranhando-se em mim, que não estranho, que na mesma terra delas me emaranho e com elas o meu peito cavo, no não-sentido, único que sinto, externo-esterno-Inferno. Para com isso, Paraíso, estou na minha casa! Não venha a mim, que estou cordial, na insanidade que me cura do que cora são, Apocalipsis Literis. Bato na porta e me atravesso... é sem saída.

Quinta-feira, Abril 9

o Bom, o Certo, o Verdadeiro (a Estética, a Ética, a Lógica)

Três horas de noite te levam longe nesta cidade
& onde está não imagina mas reconhece o aqui
& lá você se permite ser o senhor da crueldade
& se esquece que não há volta sentir tal frenesi

Três estranhos te acham interessante à distância
& logo te convidam para sentar com eles à mesa
& discutem excitados sobre o prazer da errância
& súbito você está sendo levado pela correnteza

Três sodas italianas de maçã verde com absinto
& as remelas amanhecem como de vidro em pó
& o enjôo ensolarado da ressaca te faz faminto
& você acha apenas ruína nos bolsos do paletó

Três dias mais tarde te fazem estar desaparecido
& você sente melancolia por não ter um alguém
& sozinho vai por aí mais ou menos arrependido
& sofre tanto por ter partido ou não ter ido além

Domingo, Abril 5

Peça Explicação

O teatro é inútil, a não ser para realizar sobre o palco o quão bem ou mal estamos todos encenando aqui fora. Arte em desuso pela mimética e diegética vida; não porque a represente impropriamente, mas porque nos apresenta, a nós, como representação. A vida precisa subir ao mesmo palco, elevar-se ao nível desse inútil, usar o teatro e teatralizar seu uso. O artista em gesto e palavra sobre o palco é a melhor audiência, dentre todos os públicos é o mais privilegiado, pela perspectiva que tem da platéia desde o palco onde vive, pois assiste melhor à vida que imóvel e silenciosa atua com arte na platéia, artísticas mentes. Arte maior é prestar atenção à cena e vida melhor é ter suas falas de cor, assim, de um lado, uns, pensando que encenam, fazem vida, e do outro, os outros, fazendo arte, encenam que pensam. Reflexão distorcida de uma idéia é o mundo, outro mundo a distorção. O espelho da arte é não ser um deles ou nada que o aparente e a arte do espelho é estar entre os dois, transparente.

Quinta-feira, Abril 2

0,666

Hoje faltei ao trabalho e estou feliz. Ouvindo agora o "In Utero" do Nirvana, cantando junto. A vida está punk... quero dizer: perfeita, exceto pela Realidade. Consegui mais ou menos me reacostumar a acordar 8h30 da manhã, tomar meu desjejum e pegar ônibus e metrô para entrar no serviço às 11h; antes eu tomava meu café da manhã e ia dormir. Há um mês e meio sou suporte técnico de internet, saio às 17h20. O interessante é como voltei a conviver com relógios, dado que estive os últimos dois anos e meio sem emprego regular, já estando desacostumado. Qualquer um que trabalhe em central de atendimento descobre que o tempo passa diferente, não porque não passe, mas porque não se passa um minuto sem olhar os minutos passarem. É outra relação. Procure "angústia" num bom dicionário. O problema não é estar ali fazendo aquilo, e não outra coisa; é outra coisa, o estar ali não fazendo outra coisa além de problematizar meu ser-no-tempo. Sabe? Um coração normalmente bate umas oitenta vezes por minuto, ou seja, enquanto vejo um minuto agonizar, calculo que eu mesmo agonizo 0,666 vezes mais rápido. Aí, do outro lado da linha, a mulher solitária ligando de Brasília elogia minha voz; ou o garoto falando desde uma cidadezinha qualquer do Pará, louco para fazer um download de pornografia, diz satisfeito que meu conselho funcionou e a internet conectou; ou um octogenário Genaro, voz trêmula, ligando de Farroupilha no Rio Grande do Sul, me pergunta a razão da luzinha de led do seu micromodem, até então verde, ter ficado vermelha de repente. Por quê? Faço uma pausa grávida agora. Não para responder a pergunta, mas para trocar o disco, bem no meio de "I Hate Mysenf and I Wanna Die"; hora do disco 1 do "Epitaph", de Charles Mingus. Risos (não estou só escrevendo isso, estou rindo mesmo, agoraqui).
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Ontem foi primeiro de abril: soube que o Rubens Barrichello chegou em segundo lugar e está otimista para a temporada; que a Argentina perdeu de seis à um para a Bolívia, pelas eliminatórias da Copa do Mundo; o Google disponibilizava sua página inicial invertida, ressaltando que, de acordo com suas pesquisas, "os monitores de computadores modernos oferecem uma imagem de maior qualidade quando são colocados de cabeça para baixo. É semelhante ao que ocorre com os colchões, que precisam ser virados a cada seis meses"; já o Yahoo! anunciou o Ideological Research, um novo site de buscas na internet que mostra apenas os resultados compatíveis com a ideologia do usuário, poupando desgostos; por sua vez, uma operadora de telefonia celular ofereceu uma forma barata e ecológica de democratizar o acesso à internet, usar pombos equipados com microantenas, se o internauta estiver perto de um desses animais, obterá uma excelente conexão à rede, e acrescentou que os pombos foram manipulados geneticamente para ter características de lobo e ser mais resistentes ao frio e aos predadores. Mais risos... se todo dia fosse assim eu juro que não usava drogas. Falando nisso, o preço do cigarro vai aumentar 25%, e essa é verdade; minha marca acabou de aumentar de R$2,50 para R$2,75 e agora deve ir para quase R$3,50. Vou precisar parar de fumar. Imagine só... um maço por dia nunca foi tão intoxicante. Querem elitizar o câncer.
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Quando saio do trabalho, na Barra Funda, pego metrô lotadíssimo até a estação Vergueiro, onde como um cachorro quente de R$1,75 todo fim de tarde, antes de entrar na faculdade. É. Voltei a estudar, Jornalismo dessa vez. O bom é que agora o curso que faço é particular, e o meu completo desinteresse não produz em mim qualquer culpa por estar ocupando o lugar de alguém que precise da vaga muito mais do que eu. Ontem discuti geopolítica e a revolução cultural maoísta com o senhor chinês que vende dogs, hamburguers e yakisoba num trailer à entrada. Depois li a Folha de S. Paulo de anteontem inteira (eu disse INTEIRA), horóscopo, classificados e anúncios publicitários inclusos; fazia um trabalho em que precisava rastrear o porquê de cada item dalí eventualmente ter sido considerado de algum interesse para alguém além dos próprios autores da publicação; identifiquei e classifiquei cada um deles, meticulosamente, mas procurei um viés não ortodoxo só para tentar gerar alguma polêmica com o professor. O ruim é que, basicamente, o curso serve para ensinar o aluno a pensar e escrever. Preciso comentar? Melhor não. A aula de que tive ontem é a pior de toda semana, saí com dor de cabeça, prestissimo marcato assai subito sostenuto. A propósito, troco o disco ao fim de "Please Don't Come Back from the Moon" pelo Pássaro de Fogo, do Stravinsky, para ver se ressuscito. Bem... retomando: puta enxaqueca e fui para o bar com uns novos amigos, acabei tomando umas cervejas. Foi ótimo porque ri muito, mas depois fiquei péssimo, parecia que podia ouvir a minha cabeça crescendo. E veio uma longa volta para casa. Li em algum lugar que todos nós sempre estamos voltando para casa. Lembrei de vocês, a meia dúzia que me lê aqui, e pensei em como tenho passado o tempo todo anotando idéias que não tenho mais tempo para pôr no papel. Tenho apenas uma folga a cada seis dias de trabalho, que passo assistindo a trechos randômicos dos filmes legendados em espanhol que baixo da net durante a semana, enquanto durmo. Cansaço imenso... cheguei em casa e nem jantei, dei um beijo na namorada, que me esperava, e desmaiei. Ela ainda me fez uma massagem, eu ainda acordei no meio da noite para tentar uma overdose de analgésicos, mas acordei esquisito.
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Hoje tomei um bom banho e o café da manhã dos camaleões. Saí para comprar cigarros e nunca mais voltei (quem dera ter a sorte). Decidi não ir trabalhar. Levei a minha cachorrinha Dandi para dar uma volta, uma paquerada na matilha aqui de JaçanAngeles. Dei um beijo de despedida na minha namorada com cólica e voltei para cá. Liguei para o meu chefe para avisá-lo da caganeira que não tive e, desde então, pelado, estou aqui no computador, ainda agora. Nada de novo nos e-mails, no orkut e nos blogs. Mais uma pausa, vou almoçar agora; pronto, já voltei. Viu como sou rápido? Aproveito o silêncio para ler às últimas páginas do "El Arco y la Lira", do Octavio Paz, que roubei da biblioteca; para quem não conhece, é um livro de história e crítica literária, longo estudo do poeta e ensaísta mexicano sobre a Poesia e o ato de fazer poemas; é uma obra meio desconhecida, já que ninguém se interessa por isso, mas para mim, durante as últimas semanas, serviu como autêntica auto-ajuda. Eis o primeiro parágrafo:
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"La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; ejercicio espiritual, es un método de liberación interior. La poesia revela este mundo; crea otro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aisla; une. Invitación al viaje; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercicio muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausencia: el tedio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifanía, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expresión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin conciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo. Arte de hablar en una forma superior; lenguaje primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la idea. Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infancia, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. Juego, trabajo, actividad ascética. Confesión. Experiencia innata. Visión, música, símbolo. Analogía: el poema es un caracol en donde resuena la música del mundo y metros y rimas no son sino correspondencias, ecos, de la armonía universal. Enseñanza, moral, ejemplo, revelación, danza, diálogo, monólogo. Voz del pueblo, lengua de los escogidos, palabra del solitario. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritaria, colectiva y personal, desnuda y vestida, hablada, pintada, escrita, ostenta todos los rostros pero hay quien afirma que no posee ninguno: el poema es una careta que oculta el vacío, ¡prueba hermosa de la superflua grandeza de toda obra humana!"
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O disco acabou neste momento, a última faixa leva um nome sugestivo: Disappearance Of Kastchei's Palace and Magical Creations, Return to Life of the Petrified Knights, General Rejoicing. Risos, risos, risos. Hoje à noite vou para a aula, entregar o tal trabalho, talvez beber cerveja. É provável que passe a tarde terminando um outro livro muito bom que estou lendo, "A Morte de Virgílio", do Hermann Broch, que narra em quinhentas páginas de prosa poética o fluxo de consciência das dezoito últimas horas de vida do poeta latino. É provável que eu não ouça mais nada, permanecendo em silêncio... a tarde está calma. Que assim ela permaneça e que eu assim pormenasça. Sem pensar no futuro, sem futuro, sem pensar. Tudo está presente: será presença.

Sábado, Março 28

Quiromancia

Esta linha torta
Esta linha torta de estilo incorrigível
Esta linha torta de estilo incorrigível endireita minha mão
E não lhe importa se aceita ou rejeita a folhinha
Suporta uma ficção ilegível eleita pela razão
Satisfeita com o que escrevinha

Esta vinha morta
Esta vinha morta destila o imbebível
Esta vinha morta destila o imbebível da colheita daninha
A plantação terrível que se define pelo que definha a horta
O chão se recorta em vão que a ocasião perfeita sublinha
A floração da uvinha produtível que exorta o beberrão
Desta feita a erosão de sertão não se adivinha
Então caminha e deita o grão

Esta vizinha porta
Esta vizinha porta destina ao inacessível
Esta vizinha porta clandestina é o intransponível da adivinhação
Visão que não respeita o portão invisível a que está sujeita
Pois se aproveita do irrespondível em questão
E é o imprevisível que me transporta