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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

12 de outubro de 2009

língua ordinária


a minha língua é da boca pra fora
e como tudo o que é rápido vírgula
a língua também se levanta, demora
e quando ela se agiganta é maiúscula
que a mesma língua que se janta devora
pois toda língua é longa, dentro embora vernácula
  
e quando natural
a língua é bela
e rebelde e oral
e tudo mais que falamos dela:
  
língua de fora, gringa
língua que aflora, xinga
língua curvilínea, swinga
língua sanguínea, pinga
língua de fogo, vinga
língua de jogo, ginga
  
taumaturga
a língua que conjuga
é a língua que quis
demiurga
a língua que refuga
é a língua que fiz
dramaturga
a língua que subjuga
é a língua que diz
  
na sua própria língua
ela, língua, debate
cada língua a se debater na própria boca
uma língua deitada de prazer
sobre a língua que nos fala de um vate
ela entre ativa e passiva
é língua dentada de me dizer, boca à boca
o amor à língua, lasciva e rouca
falando agressiva, sublingual
pouca a pouca, da língua louca de te morder
tudo o que não é oral
ou babel barroca
  
a língua à solta
linguagem que ama
não míngua, açoita
língua e idioma
bem aqui, ali igual
linguajar predileto
a língua normal
língua e dialeto
  
a língua que veneno destila
a língua glândula, palavra, papila
língua gula a língua que engole
língua mole, sem nome
língua que se come
língua de fome

grave a língua, língua aguda
trave a língua: linguaruda
língua rude faz alarde
a língua ilude, estala e arde
mas não se cala
  
a língua da dança
é a língua que não se cansa
a língua da criança
é a língua que não se alcança
  
descubra a língua escarlate
o disparate da língua rubra
aconselha a língua carmim
o latim da língua vermelha
lambem a língua a estalar
e também a estar lá
a fala, o falo, a goela, o grelo
  
num canto beijam-na
e é supérflua a saliva
que racha líquida a chupar léguas
e se desejam-na iníqua, molhada e muscular
contígua à mandíbula, profícua no paladar
quase mordida de lira a ladrar
é inócuo calar a perpétua cantiga
linha contínua da arte antiga
que parte de uma língua

29 de setembro de 2009

Ars Amatoria

Aqui o amador semi-pensa
e uma vez seu gozo vencido, fuma
em lânguida convalescença.

Com a pequena morte se acostuma
no seu leito a rolar, no peito
o que não é gozado porra nenhuma.

Ele teve seu desejo satisfeito
e dorme na noite ilimitada, enorme
pelo cheiro de amor perfeito.

Até que um sonho ruim o informe
da densa aurora, já presença
para que novo tesão se transforme.

15 de setembro de 2009

15 cigarros e um pensador (que fuma muito)

Durante a inspiração do 1º cigarro pensei que todas as portas deveriam ser arrancadas dos seus batentes e empilhadas numa imensa fogueira, poupando tão somente as dobradiças para que sirvam de recordação daquela triste e assustadora época; Durante a inspiração do 2º cigarro pensei em todas as lâmpadas do planeta que não seriam jamais acesas pelas vaginas das mulheres frígidas; Durante a inspiração do 3º cigarro pensei em todos os problemas que tive com as drogas que não pude encontrar, da necessidade de psicanálise à incompreensão da pintura moderna; Durante a inspiração do 4º cigarro pensei que um cego sempre descreve o que ouve e nunca o que houve; o que houve é cego, o que não ouve é surdo; Durante a inspiração do 5º cigarro pensei que Alberto Caieiro, Ricardo dos Reis e Álvaro de Campos não são a mesma pessoa mas ainda sim são o Pessoa mesmo; Durante a inspiração do 6º cigarro pensei no umbigo que Eva, a primeira dama, não teve, e no cabaço que Maria, a imaculada senhora, perdeu da forma mais profana e incestuosa possível durante o parto; Durante a inspiração do 7º cigarro pensei que se no passado os escoteiros tivessem se associado às bandeirantes atualmente viveríamos numa era de alegria e experiência e, quem sabe, que no futuro teríamos institucionalizada a anarquia; Durante a inspiração do 8º cigarro pensei que se critica um final feliz num filme de cinema mas não se abre mão dele na vida pessoal a despeito da Arte, só porque vemos um piolho nos outros e não vemos um escorpião sobre nós mesmos; Durante a inspiração do 9º cigarro pensei que reconhecer a impermanência de tudo é a certeza da perduração do todo, sobretudo no caso de Deus ter um sexo, dois ou três, não interessa, sendo piedoso cogitar sua divina e onipresente insatisfação; Durante a inspiração do 10º cigarro pensei na música como uma arquitetura em movimento e na dança como um terremoto ensaiado; Durante a inspiração do 11º cigarro pensei que mais excitante do que a amiga da minha mulher e do que a mulher do meu amigo é o meu amigo voyeur excitado com a visão dessas três mulheres comigo; Durante a inspiração do 12º cigarro pensei que o título impopular que tornaria uma peça de teatro mais popular, e pães no circo lota, é “Foda-se o dia das mães!”; Durante a inspiração do 13º cigarro pensei que o aborto espontaneamente induzido deveria ser legalizado e amplamente difundido, até mesmo nos casos em que o feto não passa de um ciclope anão, herbívoro e caolho; Durante a inspiração do 14º cigarro pensei no metafísico problema da causalidade já que não haveria Sócrates sem Platão, Jesus sem Paulo, Borges sem o Outro; nem antes nem depois, nem dantes nem virgílios; Durante a inspiração do 15º cigarro pensei na sordidez da condição humana que só é solidário no câncer, na Copa do Mundo de futebol e em se tratando, naturalmente, de linchamento.

(www.samilill.com)

9 de setembro de 2009

Isto não é um Magritte

a reprodução interdita
e a traição das imagens
memória e meditação
e imagens recorrentes
ora a rocha ora o castelo
ora a porta ora a janela
maçãs verdes e chapéus-coco

três condições humanas e/ou três impérios das luzes:
a liberação dos terapeutas
a descoberta da escala do fogo
a queda da vida como conhecemos

entre a vingança e a vitória estão
a grande família e a grande guerra
objetos ordinários em contextos inusuais

o amor desarmado
é uma perspectiva amorosa
dois pares de amantes
é o princípio do prazer

do lado de lá
a travessia difícil
o caminho do céu
um torso de mulher
e os filhos do homem
a procura da verdade e do absoluto

os caçadores da noite
jóqueis perdidos no espelho falso
os destroços das sombras
mão alegre e leitura defendida

o mês da colheita
a chave dos campos
plural é uma voz dos ares
duas vozes do sangue singulares
uma grande folha caída de várias árvores

clarividência não é óleo sobre tela
pois este é um poema de tinta sobre papel
de som pelo ar ou de pixels sobre vídeo
ou isto não é uma poema

30 de agosto de 2009

Subentendidos


Living is easy with eyes closed

Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone
But it all works out
It doesn't matter much to me
Lennon / McCartney

O cara pára ao meu lado na primeira esquina, na saída do cinema. Espero o farol de pedestres abrir para atravessar a rua, ao lado da namorada, de mãos dadas. Estamos fumando e carrego uma sacola com um bom vinho. Nem estamos tão bem vestidos assim. São 23h30. Ele nem está tão mal vestido assim. Mas está bem ao meu lado, perto, temos a mesma altura, talvez a mesma idade. Ele fala comigo, mas mal consigo distinguir o que diz, não porque não saiba falar ou porque esteja bêbado, não é o caso; aparentemente, pronuncia mal a frase por certo constrangimento, talvez constrangido por me constranger. Ambos entendemos:

- Você ...dinheiro... comer? (eu penso: "comer", um eufemismo para "beber") - E faço aquela cara.
- Não tenho. (ele pensa: "não tenho", um eufemismo para "não quero te dar") - E faz aquela cara.
- Por favor, abra o coração... (eu penso: "coração", um eufemismo para "carteira") - E fazemos uma cara.
- Estou mesmo sem! (eufemismo para "estou me sentindo ameaçado, vá tomar no cu ou chamo a polícia") - E ele entende.
- Deus te abençoe... (eufemismo para "vá para o inferno, eu podia te roubar seu burguesinho de merda") - E eu entendo.

Aí caminho até a próxima esquina, comentando esses eufemismos com a namorada. É foda isso e é foda aquilo. Pensamos. Rimos. Ou rimos antes de pensar. E um outro cara, um cara de pau, tosco e inconveniente, nos pára e, se dirigindo também a mim, pede dinheiro para comer. Constranjo-o:

- Não, cara. Eu sei que é pra você gastar com pinga! (eufemismo para "vocês trabalham em equipe, porra?") - E acho que entendi.
- Então me dá um cigarro... (eufemismo para "pensa que vai se livrar de mim tão fácil?") - E eu dou. - Quem entende?

13 de julho de 2009

Credo Quia Absurdum Est

Aqui mera como lê prosa. Pelo ar passa borboleteando as orelhas o absurdo. Eu abambalhado mordia os dentes, mastigando a boca. Adrêgo ou adrede, doido e doído. Ai, ai, ai! Passa um centauro à cavalo. E uma revoada de pardos "ais" eu escuto cantar, oram de peito canoro. Passo por um busto cor de escorbuto; a fé singular de fezes. He, he, he! Sui generis os ratos suicidas leptospirados. Também não deixa de ser espantoso o engraxate de pés descalços e espantante o tórax bochechudo da mulher Baudelaire. Eis a penúltima versão da realidade. Gosto daqui mesmo sendo nacioniilista. O que eu preferiria numa hora como agora, ser imortal ou poder voar? Daí que sobrevôo os miserábles Chinaskis caídos na calçada. O ser humano não toma atitude, toma sol e toma pinga, toma no cu. Mucho mal hecho. Penso em vitupérios, infâmias, maledicências. Qualquer MERDA et coetera. Insano estou que soul. Se eu urinasse ao meu redor nem saberia por onde sair. Com a cabeça quebrada sou um poeta de gesso, evidente. Com a cabaça que brada, sou um pó! eta! de éter, ou vidente. Sim: vejo dentes, Dantes e dândis sobrevoando lençóis freáticos como se fossem peixes com asas. Deixo toda e qualquer imagem ativa planar por sobre o cérebro de vidro das plantas translúcidas que me carregam para o prado que brado com suspiros doces. Pastando entre a peste, presto atenção nas tranças amarelas que jogo de minha torre tórrida, ansiosa por romances pendurados que desfaçam os nós da mente. Vejo lábios lancinantes como lanças me furando o coração, até que desce por entre as minhas pernas uma camada de limbo para que se lamba ao fim da tarde! E me escondo atrás do andarilho estacionado entre as ausências da razão. Libélula, luas bolas e lulas belas pelo mar que sou! Grito o eco dentro da gruta grossa em forma de planeta plano, pois o verdadeiro ab surdo é o sem ti do mudo, frente ao pano sob estrelas recém nascidas. Num céu escuro de escondidos.
co-escrito com Carole Colore

30 de junho de 2009

Labirinteratura

este seu itinerário
será tão comprido
que o bibliotecário
já demasiado lido
imerso no cenário
estará lá perdido?

ele é o funcionário
que se acha sabido
com um ar literário
até mesmo exibido
mas um calendário
embaralha o olvido.

ele faz aniversário
parece rejuvenescido
sob o pó centenário
é um recém-nascido
será só temporário
ou terá sobrevivido?

é tão extraordinário
estar no lugar devido
que só no imaginário
terá por lá aparecido
e se acha no fichário
ou entrado ou saído.

o caminho arbitrário
revela o intrometido
e faz dele adversário
pelo monstro comido
ou herói involuntário
guiado e perseguido?

26 de junho de 2009

Não

Não me olhes assim... Eu não morrerei contigo e não envelhecerei ao teu lado. Nós não teremos netos, nem sequer filhos. Não vamos ter uma história juntos, sem apoio mútuo ou mesmo alguma compreensão. Por isso não haverá brigas. Nunca teremos uma única crise que seja. Jamais discutiremos a nossa relação. Logo, é impossível que haja traição e muito menos que enjoemos um do outro. Porque eu não te darei a mão, não andarei ao teu lado e não te guardarei do mal. É melhor para ti. Já será bom que não queiras querer-me bem, de nada vale. Não adianta, pois nunca serei teu e nunca serás minha. Definitivamente, não. Nós não seremos felizes juntos. É muito simples: eu não me casarei contigo. Assim também não seremos infelizes juntos. Tu não entrarás em minha vida. Esqueças completamente o noivado, mas antes dele todo o nosso longo namoro. Sem planos para o futuro. Sem futuro. Nada vamos compartilhar. Sem romance. Coisa alguma se consumará entre nós. Não faremos amor, e nem mesmo sexo. Nós não misturaremos os objetos pessoais que já não nos pertenceriam mais. Nenhuma data ou lugar será marcante, não teremos uma música, livro ou filme. Então não desenvolvas qualquer expectativa ou crie esperanças. É impossível. Não há qualquer ilusão. Nada em ti me inspira, enlouquece ou anima. Apenas. É que não começaremos nada. Não conhecerei teus amigos e amigas, teus pais. É inútil. Tu não me moves ou transportas, não sinto nada por ti. Isto é triste? Não há um só programa que faremos a dois. Não te lerei ou escreverei poemas. E eu não vou te beijar, nunca. É melhor que não esperes nem um abraço de mim. Não haverá atração, interesse ou flerte. Tudo sem aproximações, toques, posse. Longe dos olhos, e fora de alcance. Não há qualquer emoção. Então, nada digas. Não ligo para ti pois jamais pedi teu telefone. Não me apresento, e nem cogito. Diria-te “adeus” agora como se jamais me tivesses dito um dia qualquer “olá”. Não nos veremos uma segunda vez para não lamentarmos o fim daquilo tudo que podíamos e não quisemos iniciar porque nem mesmo houve este primeiro encontro. Eu fecharia teus olhos para que quando os abrisse eu já nem estivesse mais aqui, e seria mesmo como se eu nunca houvesse estado. Queres saber se terminamos? Não. Eu vou embora da tua vida e só termino contigo se algum dia voltarmos a nos encontrar.

19 de junho de 2009

Iconolatria

para Robinson Machado
Depois da última pincelada, vislumbrei inédita e com cem inúteis precedentes uma cor dolorida numa dor colorida que não deixava de todo de me esboçar. Tomado de assalto pela abstração do projeto completo, fui artificial. Como me expressar melhor, senão prudentemente, através do que expressamente comunica-se sem intermediários com a minha sensibilidade? Fato é que minha atitude, assim mesmo, não se me afigurava passiva, já que a própria estranha cor fantástica participava da minha criatividade. Destacada do conjunto, ao centro dos semitons de relativa familiaridade ou relativa estranheza, o que dá no mesmo, a mesma sabia-me a si mesma um pigmento insuportável, emancipado do suporte; no que, enquanto o elemento fundamental, as outras cores no geral, aplicavam-se em fazer sentido, ela, com estudada naturalidade e simplesmente, se fazia sentir. Seria um quadro prestigiado porque prestidigitado? Sei que vai valer alguma coisa quando eu estiver grisalho, ou careca, ou morto. A morte é, como nunca e definitivamente, a mais inesperada das derrotas, embora a priori também seja tão efêmera e fugaz quanto nos parece a moda; já a vida, esta poética que a posteriori nos é erroneamente atribuída, constitui um completo e opulento triunfo, mesmo apesar de sempre parecer uma derrota. Eu posso ainda não ser o artista que gostaria, mas por assim dizer escrevo o que gostaria de ler; não sou um bom crítico, mas faço uma autocrítica.

O quadro inteiro ainda não era eu, dentro embora me expressasse para além de mim, para fora. Não chegando a constituir simulacro, emoldurava o indiscernível desde o próprio cerne misteriosamente óbvio, aos brados no que calava de mais profundo seu exterior, estando imerso no ser superficial. Realce que me imiscuía na tessitura mesma do relevo menos aparente, aparentado sobremaneira no aspecto, a pretender apenas sutilmente demonstrar-se. O inusitado é que me contrastava. Utilizando-se não somente da aquarela de experiências que as demais cores combinadas nos propõem, como sombras, calor ou frio, e profundidade; esta ia muito além, pois estava munida mesmo de autoconscientes e apaixonados argumentos ambiciosos, carregando inadvertidas lembranças e previsões, com seus mil e um vigorosos instintos e uma racionalidade monstruosa; mostrando-se igualmente impregnada de um irascível vigor metamorfo, conforme se recombinava parecendo onírica ou mutante a cada abotoar e desabotoar de meus olhos incrédulos, e mais... no durar de um mesmo olhar, parecia ir além de mim e de si mesma, dando mostras de que podia reconfigurar meus olhos e a própria luz. Apesar de tudo já se me configurar desde o princípio como uma improbabilidade, no que cheguei a propriamente duvidar que ela sequer existisse, ainda pude, contrariado, discernir mais além, constatando não apenas que a cor estava viva, mas que era o esboço sensorial de um deus pictórico. Observado de muito perto ou de muito longe, eu não me via, mas ele sim. Cuidado com a arte: é frágil! Roubada para enganar-te: é plágio! Nenhuma arte de verdade é tão autêntica como a falsa.

Difícil de apreender à primeira vista, mostrava-se, após uma exposição mais atenta, apenas como algo muito fácil de não se entender. A melhor das metáforas é uma certa anti-ironia, porque não diz uma coisa querendo não dizer outra. Não há diferença entre caricatura e alegoria. Foi um exercício meticuloso de acaso, um improviso calculado em cada erro seu completamente inesperado, ou mesmo um imprevisto ensaiado; por absurda absoluta coincidência, quis-me desde o início assim acidental. O mérito desse método de com nada mais se parecer era assim um pouco muito meu também, ao menos me parecia. O que nos mostra como algures, alhures se nos mostra. A tal cor quase não era, posto que pudesse ser, desde que não se deixasse que o fosse. Na arte, como em tudo o mais, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, mas é absolutamente desnecessário fazer a omelete, uma vez que já se tenha quebrado os ovos. Angustiava-me em cada pequenina aflição que me infligiam seus múltiplos pormenores, infringidos meus recatos recônditos fustigados pelo horror com que, vencido e conquistado, me apaixonei por aquilo, como quem se entrega ao colo da mãe, ao braço do pai, à boca do derradeiro amor. Antes mesmo de eu me atrever a cheirá-la, tocá-la ou lambê-la, escravizei por completo minha visão obediente àquela mancha plurincolor, como ela mesma se fazia cada vez mais e mais dependente de mim; ao ponto de ambos não sabermos mais se juntos éramos os mesmos ou outros diversos, se éramos ainda um pouco eu ou algo daquele ponto. Não como híbridos ou amálgamas, interpenetrávamos-nos amiúde como se o detalhe do quadro e o meu olho em detalhe fossem uma simbiose ímpar de desejo objetivo e objeto de desejo, para sempre fatal e irretroativamente mútuos. E a maior solidão que encarnávamos era a de sermos totais.

A representação do imaginado que vivi outra coisa não queria expressar, desperdiçando a si mesma ao me consumir as autorias atribuídas, simbolizando tudo e significando nada, além do que, vez e outra, o contrário mesmo não se nos fazia inverossímil, dadas as supostas inteligibilidades passivas de apreciação na revisão geral da obra em questão, sendo irrelevante saber se esta era figurativa ou abstrata, fato é que me parecia um auto-retrato pouco vaidoso de mim, embora eu mesmo estivesse muito vaidoso dele, de tê-lo feito. Sempre quis saber pintar a verdade nua, vestindo-a com arte; ou pintá-la vestida com arte tal que se sentisse nua. Qualquer outro pensamento seria ridículo, se não fosse ao menos divertido. É que todo poema é um poema dentro de todo poema. O fato é que cintilava maravilhas a tal cor, e desde o seu próprio ponto de vista muito pessoal piscava para mim; sabia mais sobre o seu autor do que ele mesmo podia compreendê-la. Em vista de quando perscrutava minha tênue existência a me olhar, punha-me nu e efêmero diante da voracidade com que me contemplava, notadamente assenhoreando-se de meu destino, comigo na mira. Tenho para mim que se apiedava. Em contraste com os indeléveis novos tons além e aquém de nós, particularmente no ponto de convergência em que o próprio eu observador dilui um tanto o onipotente borrão original, de repente displicente a pintura assina-se a si própria; assinalando-me com precisão numa auto-intervenção, a verter com verve sobre si a arte necessária de uma só lágrima, perfeita para borrar a expressão do artista a desaperfeiçoar sua obra-prima, em conformidade plena com o estilo desbotado com que eu mesmo sempre costumo me pintar.

4 de junho de 2009

Existismo

porque se morre apenas uma vez
estou ansioso
e no entanto
não me suicido
pois só se vive igualmente uma

a vida é simultâneamente
longa e trágica
como alguma dor
e a morte ao mesmo tempo é
cômica e curta
tal qual um prazer

morrer ou viver
são formas demasiado inexatas
e simplesmente complexas
do meu próprio e alheio Eu
que hoje já não tenho preferências
tanto que quando de um dia e local
tão imprecisos quanto o livre-arbítrio
questionado de súbito pelo Nada
com o Todo atento a tomar nota
se para ali e então afinal escolho
“ser” ou “não ser”
foi e será o melhor não responder
por querer demais aos três

30 de maio de 2009

Enormíssimo Cronópio



Criaturinha verde que me amadurece o ser e que, úmida, faz secar a boca atônita de te reler, pois não te declamo, senão respiro. Com os teus poliédricos olhinhos de gato em penúria eu vagabundeio uma leitura opiácea do microcosmo que me contas fantástico, por mágica com barbas de negra mandala primaveril a mascararem quase dois metros de alta outra realidade, a mesma de Buenos Aires e Paris, com dentes feios e fomes aleatórias, famas elásticas, não importa... não se contentam em significar, Julio, que me dizes muito e é aqui em qualquer lugar, agora em qualquer tempo. Entre os teus e os meus cigarros, saio do hospício onde se usa encerrar nossos heróis poetas e minotauros, cujos sonhos tomados aos crepúsculos revolucionários examinam o bebop pugilístico de prosseguir a perseguir, ora em livros mesmo, ora em outras liberdades, nossas incontáveis solidões, mulheres e cidades. A presença que imagina a si mesma anda por aí, estritamente não profissional, em territórios violentamente doces, com suas secretas armas contra os vampiros multinacionais. Em todos os jogos o jogo sem fim com humor sem princípio, final de fogo onde anda a tua fala, voz grave sem solenidade, voz terna pela eternidade. Tu me sublinhas, caro amigo. Fui te visitar aí no cemitério lotado, na casalápide tomada por ti, vigiado sempre por corvos que tu (nuncamais) traduzistes e que agora te traduzem, a página branca de pedra de casal sob pedrinhas, moedas escuras e pétalas cansadas, entre um sem número de papéis molhados pelo noturno céu da véspera, com um caleidoscópio de desenhos e textos para ti; então me deito um pouco contigo, che, meu velho mestre sem método, penúltimo dos titãs não-ortodoxos que fez algum sentido; e deitado vejo de olhos abertos o teu coração de pelúcia e em panorama o teu esqueleto mais livre do que o meu; e quando fecho os olhos, cobrindo de fosfenas minha vigília, anoto aquelas datas de teu nascimento e morte: aí penso na I Guerra e penso na Declaração de Caracas. Apenas o creio porque é mais fantástico, Cortázar. Tudo me parece uma irônica amarelinha imaginária, ou uma mera épica piada de mau gosto. E os tempos não são outros. Saio contigo da labiríntica necrópole para um não menos granítico café na esquina onde, marmóreos, nós tomamos dois dedos de prosa poética sobre os dois euros da conta. E, sim, sim, escrevo no computador, che. E, sim, é verdade, irmão... Dois! Dois Kirchners! Primeira-dama e primeiro-senhor... Seguro que sí, compadre. Que te pasa? Asma? Incredulidade? Mas tu já não devias se ter dado conta de que quem ouve de haver partido num ponto sempre fica diminuído do próximo conto?

23 de maio de 2009

Action Writing

Cinzeiro de pedra cheio de pontas atirado à página com força pela mão direita, espatifado na diagonal que termina no canto inferior-esquerdo. Os filtros de cigarro em tons pastéis, como parcas migalhas sobre o branco sem cavalete do sulfite, pedem meio cálice de vinho barato com a superfície empoeirada, em esparsas gotas contadas no início, logo em fios de líquida púrpura nas horizontais inferiores, depois aos borbotões no meio da cena e, finalmente, a própria taça feita dezenas de pequenas armadilhas para alguém que se habilite a lê-lo com as mãos. E como o vermelho ainda não estivesse ao gosto do esperado em gesto, se acrescenta um tórax humano sem camisa rolando frente e verso convulsivamente em frenesi pela extensão longitudinal da página. Canetas também são bem-vindas aqui, umas duas ou três esferográficas azuis bem cheias e com tampa, batidas no liquidificador e derramadas no ventilador de frente para a obra em pé. Os pés, pensando nisso ali “escrito”, também podem cumprir algum papel, no que se acrescentam pegadas de botas que pulam e pulam e pulam numa raiva aleatória de asfalto e grama e merda de cachorro. O que vem bem a calhar, pois lhe confere um apelo olfativo que interessaria demasiado, ainda que também repugne. Assim é com dois ou três escarros como sóis pelo alto, e um jato de urina quente que primeiro dissolve o todo anterior e, por último, o enverniza. A aparência geral agora está mais de acordo consigo mesma do que o próprio autor e, como se isso pudesse desgostar o leitor, o artista ejacula sobre a superfície tanto quanto lhe é possível; branco que o satisfaz bastante, mas que por perder mais e mais substancia e consistência a cada minuto teve de ser substituído por tinta comum, de aparência até mais intensa, deve-se dizer; mas menos saliente e com menor relevo, o que mais tarde poderia trazer algum arrependimento caso não se fizesse substituir pela cor original da base, o que se foi tentado em excesso, até atravessá-la por completo em meia dúzia de trechos que permitiam ver do outro lado. As franjas das bordas desses buracos não apenas deixadas como estão, senão desfiadas desde o centro geométrico até as extremidades, tanto pelo lado da frente como pelo de trás. Mas uma penúltima olhada revela que ainda não está digno de se assinar, é mesmo um fracasso absoluto. Um fiasco. Provavelmente só falta o fogo, que começa a operar em baixo e sobe célere; quando de um jeito ou de outro vem o arrependimento e a certeza de que tudo aquilo expressa tudo isso muito bem, e que apenas com um balde de água, antes que seja tarde, a obra estará terminada.

19 de maio de 2009

Adorígine

desperto muito longe
longe como a aurora
aurora do mesmo dia
dia de ontem sempre
sempre sem memória
memória só de sonho
sonho só caminhando
caminhando perdido
perdido e para frente
frente a fome sentida
sentida até nas costas
costas para trás ficam
ficam os olhos no ser
ser passo a passo meu
meu nariz a me guiar
guiar através do chão
chão de passos tortos
tortos pois não pararão
pararão talvez no mar
mar o que é sem volta
volta ao mundo talvez
talvez infinito demais
demais para se ir a pé
pé de calo incansável
incansável não chegar
chegar de onde se vem
vem comigo a vontade
vontade só de ser livre
livre como um nômade
nômade sem ter opção
opção de ficar no lugar
lugar onde se vai aflito
aflito pois existe acolá
acolá sendo onde existe
existe antes de onde vai
vai com o vento levado
levado até quanto pode
pode ser que nunca pare
pare nem para se dormir
dormir é não estar aqui
aqui onde agora desperto

5 de maio de 2009

Pirada Gutural

Quando o sol se punha, na tarde de sábado, dia 2 de maio, em São Paulo, começava a aguardada quinta edição da tão propagandeada Virada Cultural, que reúne anualmente cerca de quatro milhões de pessoas, ao longo das 24 horas que dura o evento, em busca de ao menos uma parte da felicidade gratuita que lhe é negada pelo restante do ano. A Prefeitura oferece de uma só vez uma programação com 800 atrações, que caberiam melhor em um calendário inteiro, mas é comprimida e enlatada em uma única data que, exatamente por esse motivo, torna-se memorável.

Esta reportagem pretende trazer à tona desde o cerne o que a cidade não digere desse prato mal lavado que todos engolimos, já tão tipicamente inserido no cardápio do nosso dia-a-dia de só um dia por ano. É o relato deste poeta, um estudante paulistano de jornalismo que esteve andando toda a madrugada pelo centro agudo desta crônica.

Há mais ou menos dois mil anos o poeta romano Juvenal escrevia em seu livro hoje muito conhecido, que chamou de Sátiras: “...Já há muito tempo, desde quando ainda não vendíamos nossos votos para ninguém, o Povo tem abdicado de seus deveres; para um Povo que teve nas mãos o império, senado, legiões – tudo, agora se contenta e ansiosamente aguarda por apenas duas coisas: pão e circo.” Bem, já se viu que fizemos progressos políticos: hoje o circo é anual, e o pão de hoje só amanhã.

E como canta um músico meu amigo, que não foi convidado para essa festa que uns homens armaram para nos convencer, “paulistano quer show... gosta de escândalo!” É por volta da meia-noite que começa de fato o espetáculo, que a Éssepê udigrudi sai de todos os bueiros e latrinas, dos cantos que esta noite cantam em coro.

A polícia pôs na rua 2500 homens a mais do que o de sempre, um para cada 1600 cidadãos. E no dia seguinte o prefeito anunciou não ter sido registrada nenhuma ocorrência grave. O que, pelas estatísticas oficiais, provaria que o paulistano é pacifista e/ou facilmente controlado pela violência monopolizada pelo Estado. Mas o que eu observei de bem perto foi um sem número de crimes, observados de mais perto ainda pela polícia; sempre em quartetos, ora um que passava a pé conversando animadamente, ora outro em volta da viatura parada na esquina a olhar o mulherio. Ninguém fez nada diante de brigas, roubos e vandalismo. Enquanto gangues de assaltantes faziam a festa; bandos armados com paus redefiniam terror; jovens bárbaros faziam suas necessidades de cima do viaduto sobre os passantes em baixo, que necessariamente passavam mal.

O transporte público estava especialmente ruim: poucos ônibus, a maioria com itinerário alterado; a estação República do metrô fechada, dizem que devido à passagem do “Megatatuzão”... o diabo! Os roqueiros estavam do lado de cima. A cidade, pouco mais iluminada que o normal, não estava bem sinalizada, como depois se divulgou; os poucos avisos e informativos estavam estrategicamente afixados nos lugares mais escondidos, perfeitos para urinar ou vomitar. E o público sem privada.

Banheiro público somente químico, improvisado e escasso. Era mesmo a coisa mais infreqüente encontrar um pelo caminho. Em geral ficavam próximos aos locais onde havia shows de música, tendo sido muito úteis àquelas pessoas que subiram neles para ver melhor aos seus artistas favoritos. Já as lixeiras, todos sabemos como já não são suficientes, tanto no centro como no resto, e não vi uma lixeira extra sequer, resultando que os garis trabalhavam sem parar, mesmo não sabendo por onde começar, perdidos em meio aos rios de lixo em que se converteram todas as ruas. Muita latinha e garrafa quebrada pelo chão, o povo deixava cair acidentalmente em qualquer lugar. Ambulâncias vi muito poucas durante toda a noite, as que vi estavam trabalhando, as sirenes ligadas tentando inutilmente passar pela multidão.

Com todos os lugares lotados e loucos, passei a noite indo de um ponto a outro entre os bairros da região central. O que eu já esperava e, na verdade, já tinha até mesmo programado: não me programei... até tentei. Desde quando foi anunciada a programação, semanas atrás, dei-me conta de que não havia nenhum evento isolado que fosse realmente interessante, pelo menos ao ponto de fazer com que eu planejasse me mover até lá. Então, desde logo o plano era só andar bêbado por aí, flanando, a encontrar amigos, reparar na arquitetura, olhando as pessoas e ouvindo música ao longe, pelo coração de Sampa. Eis uma idéia de diversão. Esta cidade deveria ser muito melhor ocupada por nós, que pertencemos a ela tanto quanto ela nos pertence; principalmente este centro paulistano, já e ainda decadente, bem como todos os parcos espaços urbanos públicos, dia e noite. São Paulo deveria sair do horário e assumir que é 24.

Haveria inclusive mais oportunidades para fotografar a cidade de noite, já que, naquela noite, estando em inúmeras horas e lugares certos para todas as fotos que eu poderia ter tirado, poderiam ter tirado a câmera de mim; e aí eu teria estado no lugar e hora errados, e não teria voltado com a matéria (fatos sem fotos).

Dizem que o caos não tem forma, deve ser porque não é do nada que eu o via se formando e deformando sob as árvores e pontes e marquises, sob o céu da metrópole; não mesmo, a semente sempre esteve ali. A noite avançava e a urbe mostrava seu lado mais selvagem, como poucas vezes vi, da mais intensa sujeira e barulho, ou seja, da mais intensa humanidade; milhões de individualidades se acotovelando, descontroladas todas; pessoas... na primeira curva do terceiro milênio, neste Sul de mundo, o Terceiro Mundo. E se Sampa não pertence ao chamado Brasil profundo, é porque é mais no fundo da imundície mesmo, terra, água e ar. São Paulo é o pulmão do Brasil. Com um tipo de tumor que não se poderia dizer maligno, mas anárquico. Dava para sentir a tensão na atmosfera carregada e maciça, fatiável, um ensaio de revolução, de bolso.

No brasão da bandeira da cidade se pode ler seu lema, a inscrição latina que diz “non ducor duco”, que quer dizer “não sou conduzido (à loucura), conduzo”. O relógio marcava um infinito vertical, dois pontos: zero-zero. Com o domingo amanhecendo, eu sentia nos meus ossos a ressaca da cidade; mais lixo em evidência, tudo tão plástico... metálico, vítreo, de todas as cores da própria cidade. E todas as esquinas eram mananciais de onde brotava gente, isso sem parar de ir gente embora para caber ainda mais. Paulistanos, paulistas, brasileiros, turistas. Alguns não iam nem vinham, ficavam. Ficaram lá. Gente que nunca antes vi vivas, nunca antes vi tanta gente caída pelas calçadas, escadas e cantos. Será que sem teto sem para onde ir? Sem dinheiro ou energia ou lucidez para voltar? Sem vida? Vou para casa tomar um café com pão já que o mundo ainda não acabou. Já que a festa não acaba nunca. Faltavam ainda umas dez horas para acabar, certo? Errado! Está só na metade. A Virada Cultural e a final do Campeonato Paulista (na qual a vitória do Corinthians e a festa subseqüente eram previsíveis) terminam juntinhas, como se a primeira festa, que termina, passasse o bastão para a seguinte, para quem a maratona de imprevisíveis continua, sem fim, até chegar segunda-feira. Continuo torcendo, mesmo que completamente virado: “Salve o prefeito... O brincalhão dos brincalhões... Eternamente... até chegar às eleições”.

24 de abril de 2009

Ação

Tudo era parado. Situação: as pessoas imóveis tanto quanto o próprio sangue das coisas. Algo hipoteticamente externo, como um autor, por exemplo, poderia descrever tudo facilmente. Tomemos como objeto este ambiente, o cômodo. Um quarto regular, três por seis, digamos... daquilo que neste universo particular se poderia chamar de metros. Assim seja. O piso de um material plástico imitando madeira. Cada parede menor mais a metade da parede maior adjacente pintadas de uma cor, verde a de um lado, lilás a do outro. O restante das paredes branco, o teto e suas molduras em gesso incluso. Uma porta para o banheiro contíguo; nele o piso frio, cinza, e os azulejos azuis marinho até o teto, tudo “combinando”; o padrão dos desenhos deles é irrelevante, pois aqui nada significariam. O chuveiro descuidadamente ainda sem box. O mesmo cinza da louça do vaso sanitário no mármore da pia, esta embutida em um gabinete de madeira na parede, sobre o qual há um espelho. Parado até o ar dos dois ambientes. Um segundo espelho na parede em frente à porta do banheiro enfrenta o primeiro. E, afinal, a outra porta, mero acesso ao próprio quarto. Cúbico, de ângulos retos. Ambas as portas sanfonadas, de cor ocre, uma ao lado da outra. E a janela de ferro, com basculantes, branca. Isto tudo dado aí constituindo a parte que nos cabe do tal imóvel. E como não poderia deixar de ser, o imóvel também estava parado, obviamente. Talvez alguém julgue importante arrolar a mobiliário, ou mesmo outros objetos... Uma cama de casal com cabeceira, de ferro, na cor branca; de cada lado dela um criado-mudo em madeira, com duas gavetas cada. Um terceiro criado-mudo branco, de metal, usado sob um televisor de vinte polegadas e um vídeo-cassete velhos, está localizado ao lado da porta de entrada, enviesado numa quina. Ao seu lado uma sapateira branca, e ao lado dela uma mesa para computador, os dois de madeira. Sobre a mesa, um computador e um aparelho de som. Tudo está silencioso, apesar da maioria dos itens estarem plenos de existência, de utilidade, ou mesmo ligados e funcionando. Neste ambiente pode-se dar pela falta de um guarda-roupa, o que seria plausível... mas explicável, dado que este se localiza em outro quarto da casa, com roupas dentro, inclusive, como seria de se esperar; este outro quarto estando inabitado, caso diverso do de um terceiro quarto da residência, onde alguém dorme, parado. Assim como tudo o mais dentro ou fora do ambiente parado que elegemos para descrever nesse mundo particular a imobilidade da parada completa. Completando o ambiente temos alguns livros, discos de música e vídeo; um tabuleiro de xadrez e um crânio humano de plástico; pares de sapatos, tênis e chinelos, guardados na sapateira; um sem número de lembrancinhas guardadas nas gavetas dos criados-mudos; inúmeros papéis e canetas aqui e ali; máscaras, pôsteres de filmes e murais com fotos e cartões postais nas paredes; ventilador de teto com luminária; um cinzeiro, um telefone, uma bússola, um relógio. Estes dois últimos a marcar com absoluta precisão, parados, data e horário, bem como o local descrito: dia 24 de abril de 2009, às seis horas e vinte e quatro minutos; amanhece na cidade de São Paulo, Brasil, na Latitude 23°31'48" ao Sul e Longitude 46°37'48" a Oeste, a 640 metros de altitude do nível médio do mar. Talvez por coincidência, neste dia e mês, em 1184 a.C., na atual Turquia, segundo a lenda, os gregos entraram na cidade de Tróia usando um grande cavalo de madeira, e em 2003 d.C., nos Estados Unidos, foi completada a seqüência humana do genoma (do grego: ge-o que gera, e -ma: ação). Talvez não por coincidência, “agora”, na hora mesma em que surge o Sol, “aqui”, além do já descrito, o ambiente possui um colchão, com lençóis e travesseiros amarrotados. Igualmente parados, como tudo. Inclusive um ser humano de 46 cromossomos, do sexo masculino, pesando sessenta quilos e medindo cento e setenta e sete centímetros de altura, ele tem vinte e nove anos de idade completos; está deitado de bruço, com os olhos fechados, quase dormindo. Tanto seu metabolismo como suas demais funções vitais encontram-se parados, apesar de existentes, ou seja: vive. Quando de súbito alguma terrível mola-mestra oculta no espaço e no tempo impetuosamente põe em movimento de novo tudo o que ainda há pouco se encontrava convenientemente parado. É um completo absurdo, mas provavelmente real. Uma hipótese pouco plausível supõe que o ser humano inadvertidamente tenha se levantado apenas para escrever este texto, que por certa coincidência ou incerta conveniência eu releio e ato ao movimento.

23 de abril de 2009

Doppelgänger

Eu apareço
Só para mim
É o começo
Do nosso fim
Eu lhe surgi
E de repente
Era o que vi
Eu diferente
Eu fui tocado
Pelo outro eu
Um eu errado
Não era meu
Eu te pertencia
Pois era vosso
Ele me possuía
E era só nosso
Eu me visito
Bom vizinho
Mas te evito
Até sozinho
Eu me vejo
Não é reflexo
Eu o desejo
Fazemos sexo
Eu te espionava
Eu era observado
A gente gostava
Agente duplicado

14 de abril de 2009

Só: Lar & Peristilo (Solar Hiperestilo)

Estilicídio da dúzia sobre dose de analgésicos, minha cabeça: é um estouro! Moro minha casa afora mas às vezes ela está em mim, ao redor de tudo que a vista alcança. Estou longe demais daqui. E não é mais bonito isto sentido do que escrito. Ambos doem.

Quando um lugar? Onde hora alguma? Apesar de mim sou através da sala de estar. Perto fica a sacada, saca? Milésimo primeiro andar no ar. Veloz. Penso em descer. Mas negativo, não consigo seguir-me. Digiro em giros a brancura do interior em espiral. Fractal. Sou meu cão sem estimação. Some-se meu temor do Paraíso e terás meu erro. Sinta comigo um pouco como é muito raro, você talvez goste. Crível porque absurdo. Normal.

Nada demais ao menos por enquanto. Conquanto o seguinte: e nada se segue. Persigo isto, o mal explicado, outro símbolo. Nós humanos que morremos demasiado. Os outros morrem, e eu, que não sou os outros, não morro? Demora. Demovo-me lentamente de minhas carnes cinzentas que me metempsicose. Vario de forma e, vário, me deformo homo-gênio-lógico, amoral. Transo transubstanciarmar-me de mim mesmo. Não me amo. Chamo-me do que quiser, do que quis ser. Sou zeloso, ainda que furioso. Eu mesmo me desarquiteto. Arqui-inimizo-me. Alimento aos vermes que me corroem.

Já não quero, mais tarde. Meu erro-espírito alado, numa ala da morada, demorado, faz alarde. Morre-me, convida. Vou não vou. Vôo? Desespere por mim. Descalço o sapato e me alço ao fato. Inato. Sou não sou. Sôo? Escute aqui, coração, ainda bato em você! E assim redecoro o sentido, interno mesmo. Há esmo, um Inferno.

Acendo um cigarro e tusso russo, vermelho, e pigarreio no espelho. Já respirei-o. Meu transparente distante, meu amante, minha conta me constando no inconstante. Diferente da gente. Esguio se ex-guia. O fumo urgesticula sobre a minha mão amparada. Ele foge pela janela amarela da minha narcoticidade-estado, venezianas do imaginário. Durmo no meu quarto minguante a nua nova inteira, ideal e bonita e verdadeira; amei-a. Qual novo mito sonhado no vômito, onde meu eu alienante nos precipita, se prova farto.

Filosofal carnal que mia, unhas de fato, felinaptidão derradeira: animiau! A noite cheia. Preta no branco no meio da página inimaginada que arranco com a caneta tinteiro, delirante delirando veio-me a cor dando ao pesadelo berrante que ora apago no cinzeiro.

Mal acabada cabala. Fria geometria, moradia vazia. A caverna que me externa. Casa comigo diz sim, casa e cozinha para mim, casa e comida no fim. Caverna, sempiterna caverna. Cativante não lugar. Aqui estou ileso, preso, selado. Lar do selar. Feio fóssil, belo perdido. Dono do centro comeu mel, trono doeu dentro do céu. Estelar.

No ente do ente. Creia-me uma última vez: recreia-me me recriar. Sobrevívido. Ainda fumando, ainda escrevendo. Não apenas para apenas não parar. Continuances. Sobras. Moro desmoronado, me afogo me afago... não demoro. Morro logo, logo existo. Mangue baldio, sangue frio, exangue cio. Quase inteiro: três quartos. Obras e lagartos.

Amiúde sabendo que não me resta muito mais, que no mais muito não me resto, esvai-se o tédio. Primeiro suo cada segundo, duo. Sou pouco ou menos, quase flutuo. Apouco-me. Depois já não sei, não sou. Apesar de pressentir o que já não será presença. Tudo igual, no fundo. Fúnebre vivo, não-luto. Enjôo, escôo. Sem a crença a me deter, não oro, só me deterioro. Raso.. vaso... jazo. E esperando que essa dor de cabeça passe, passo a passo o que é finito caminho. Em si, em círculos. Sublevo-me embora daqui, vou me incorporar mais uma vez à Rebelião que sempre deserdo do outro lado do Nada. Mate-me agora, faça-o! Sem defeito, faça efeito. Rebelde imberbe, impagável pagante, soldo contra. Translade-me em devolução ao cerne, avesso ao Tudo que me concerne.

A madrugada me obriga a me abrigar, então fico assim acima de mim, perscrutando os interstícios do tempo que me conspurca, a duras penas apenas, “vivendo”, com todas as letras, de vagar. O chão não se abre, o teto não desce. Por quê?

O dia seguinte já desponta ao longe, cada vez mais perto, varando-me avarandado. Meu grito aberto, de um já-não-vivo “estou acordado”. Tudo menos isso: eu. Revisto-me mais do que me livro. Anuncio xeque ao rei. Arte de bobo. Ensolara-me. Cega meus passos e pisa meus olhos. Em meio caos, ordena: escreva-me ou devoro-te.

É certo que erro, me acho perdido. Meu palácio é pequeno o bastante para mim. E o visto no lugar do último fato que no espelho me vi vendo. Acontecerei mais eu. Hoje é o dia, o dia que sempre é hoje. Emparedei todos os relógios e bússolas da casa.

Um deus supervisor de visões foi amigo meu; ele, como eu, usurpador de fogo, embriagado a esta minha hora... que o meu corpo seja o último fígado do teu castigo. Penso nele primeiro, depois em seu irmão, escultor de encarnações, meu antagonista; ele, artista como eu, criador de criaturas... assola-me com as botas perdidas de Judas, que é achado pendendo da árvore cujo espinho plantei, a qual foi fiel afinal, suicidado. E o autor das botas, maldito no tempo e no espaço, ultrapassa a morte exilado do tempo.

Eu já me matei tantas vezes, mentindo, que agora que é de verdade ninguém acredita. E quem não me conhece, lendo isto, pode pensar que sou velho... ao ter idade. Mas uma vida inteira não é o suficiente para nascer, quem dirá para matar-se o bastante.

O Jardim do Idem nos fundos: eu o rego com mijo turvo, eu o carrego comigo, curvo. Re-vou e re-volto. Do saber antigo e da vida nova que lá plantei não vejo raízes. Mas sei que estão lá, e que crescem; sinto-as entranhando-se em mim, que não estranho, que na mesma terra delas me emaranho e com elas o meu peito cavo, no não-sentido, único que sinto, externo-esterno-Inferno. Para com isso, Paraíso, estou na minha casa! Não venha a mim, que estou cordial, na insanidade que me cura do que cora são, Apocalipsis Literis. Bato na porta e me atravesso... é sem saída.

5 de abril de 2009

Peça Explicação

O teatro é inútil, a não ser para realizar sobre o palco o quão bem ou mal estamos todos encenando aqui fora. Arte em desuso pela mimética e diegética vida; não porque a represente impropriamente, mas porque nos apresenta, a nós, como representação. A vida precisa subir ao mesmo palco, elevar-se ao nível desse inútil, usar o teatro e teatralizar seu uso. O artista em gesto e palavra sobre o palco é a melhor audiência, dentre todos os públicos é o mais privilegiado, pela perspectiva que tem da platéia desde o palco onde vive, pois assiste melhor à vida que imóvel e silenciosa atua com arte na platéia, artísticas mentes. Arte maior é prestar atenção à cena e vida melhor é ter suas falas de cor, assim, de um lado, uns, pensando que encenam, fazem vida, e do outro, os outros, fazendo arte, encenam que pensam. Reflexão distorcida de uma idéia é o mundo, outro mundo a distorção. O espelho da arte é não ser um deles ou nada que o aparente e a arte do espelho é estar entre os dois, transparente.

2 de abril de 2009

0,666

Hoje faltei ao trabalho e estou feliz. Ouvindo agora o "In Utero" do Nirvana, cantando junto. A vida está punk... quero dizer: perfeita, exceto pela Realidade. Consegui mais ou menos me reacostumar a acordar 8h30 da manhã, tomar meu desjejum e pegar ônibus e metrô para entrar no serviço às 11h; antes eu tomava meu café da manhã e ia dormir. Há um mês e meio sou suporte técnico de internet, saio às 17h20. O interessante é como voltei a conviver com relógios, dado que estive os últimos dois anos e meio sem emprego regular, já estando desacostumado. Qualquer um que trabalhe em central de atendimento descobre que o tempo passa diferente, não porque não passe, mas porque não se passa um minuto sem olhar os minutos passarem. É outra relação. Procure "angústia" num bom dicionário. O problema não é estar ali fazendo aquilo, e não outra coisa; é outra coisa, o estar ali não fazendo outra coisa além de problematizar meu ser-no-tempo. Sabe? Um coração normalmente bate umas oitenta vezes por minuto, ou seja, enquanto vejo um minuto agonizar, calculo que eu mesmo agonizo 0,666 vezes mais rápido. Aí, do outro lado da linha, a mulher solitária ligando de Brasília elogia minha voz; ou o garoto falando desde uma cidadezinha qualquer do Pará, louco para fazer um download de pornografia, diz satisfeito que meu conselho funcionou e a internet conectou; ou um octogenário Genaro, voz trêmula, ligando de Farroupilha no Rio Grande do Sul, me pergunta a razão da luzinha de led do seu micromodem, até então verde, ter ficado vermelha de repente. Por quê? Faço uma pausa grávida agora. Não para responder a pergunta, mas para trocar o disco, bem no meio de "I Hate Mysenf and I Wanna Die"; hora do disco 1 do "Epitaph", de Charles Mingus. Risos (não estou só escrevendo isso, estou rindo mesmo, agoraqui).
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Ontem foi primeiro de abril: soube que o Rubens Barrichello chegou em segundo lugar e está otimista para a temporada; que a Argentina perdeu de seis à um para a Bolívia, pelas eliminatórias da Copa do Mundo; o Google disponibilizava sua página inicial invertida, ressaltando que, de acordo com suas pesquisas, "os monitores de computadores modernos oferecem uma imagem de maior qualidade quando são colocados de cabeça para baixo. É semelhante ao que ocorre com os colchões, que precisam ser virados a cada seis meses"; já o Yahoo! anunciou o Ideological Research, um novo site de buscas na internet que mostra apenas os resultados compatíveis com a ideologia do usuário, poupando desgostos; por sua vez, uma operadora de telefonia celular ofereceu uma forma barata e ecológica de democratizar o acesso à internet, usar pombos equipados com microantenas, se o internauta estiver perto de um desses animais, obterá uma excelente conexão à rede, e acrescentou que os pombos foram manipulados geneticamente para ter características de lobo e ser mais resistentes ao frio e aos predadores. Mais risos... se todo dia fosse assim eu juro que não usava drogas. Falando nisso, o preço do cigarro vai aumentar 25%, e essa é verdade; minha marca acabou de aumentar de R$2,50 para R$2,75 e agora deve ir para quase R$3,50. Vou precisar parar de fumar. Imagine só... um maço por dia nunca foi tão intoxicante. Querem elitizar o câncer.
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Quando saio do trabalho, na Barra Funda, pego metrô lotadíssimo até a estação Vergueiro, onde como um cachorro quente de R$1,75 todo fim de tarde, antes de entrar na faculdade. É. Voltei a estudar, Jornalismo dessa vez. O bom é que agora o curso que faço é particular, e o meu completo desinteresse não produz em mim qualquer culpa por estar ocupando o lugar de alguém que precise da vaga muito mais do que eu. Ontem discuti geopolítica e a revolução cultural maoísta com o senhor chinês que vende dogs, hamburguers e yakisoba num trailer à entrada. Depois li a Folha de S. Paulo de anteontem inteira (eu disse INTEIRA), horóscopo, classificados e anúncios publicitários inclusos; fazia um trabalho em que precisava rastrear o porquê de cada item dalí eventualmente ter sido considerado de algum interesse para alguém além dos próprios autores da publicação; identifiquei e classifiquei cada um deles, meticulosamente, mas procurei um viés não ortodoxo só para tentar gerar alguma polêmica com o professor. O ruim é que, basicamente, o curso serve para ensinar o aluno a pensar e escrever. Preciso comentar? Melhor não. A aula de que tive ontem é a pior de toda semana, saí com dor de cabeça, prestissimo marcato assai subito sostenuto. A propósito, troco o disco ao fim de "Please Don't Come Back from the Moon" pelo Pássaro de Fogo, do Stravinsky, para ver se ressuscito. Bem... retomando: puta enxaqueca e fui para o bar com uns novos amigos, acabei tomando umas cervejas. Foi ótimo porque ri muito, mas depois fiquei péssimo, parecia que podia ouvir a minha cabeça crescendo. E veio uma longa volta para casa. Li em algum lugar que todos nós sempre estamos voltando para casa. Lembrei de vocês, a meia dúzia que me lê aqui, e pensei em como tenho passado o tempo todo anotando idéias que não tenho mais tempo para pôr no papel. Tenho apenas uma folga a cada seis dias de trabalho, que passo assistindo a trechos randômicos dos filmes legendados em espanhol que baixo da net durante a semana, enquanto durmo. Cansaço imenso... cheguei em casa e nem jantei, dei um beijo na namorada, que me esperava, e desmaiei. Ela ainda me fez uma massagem, eu ainda acordei no meio da noite para tentar uma overdose de analgésicos, mas acordei esquisito.
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Hoje tomei um bom banho e o café da manhã dos camaleões. Saí para comprar cigarros e nunca mais voltei (quem dera ter a sorte). Decidi não ir trabalhar. Levei a minha cachorrinha Dandi para dar uma volta, uma paquerada na matilha aqui de JaçanAngeles. Dei um beijo de despedida na minha namorada com cólica e voltei para cá. Liguei para o meu chefe para avisá-lo da caganeira que não tive e, desde então, pelado, estou aqui no computador, ainda agora. Nada de novo nos e-mails, no orkut e nos blogs. Mais uma pausa, vou almoçar agora; pronto, já voltei. Viu como sou rápido? Aproveito o silêncio para ler às últimas páginas do "El Arco y la Lira", do Octavio Paz, que roubei da biblioteca; para quem não conhece, é um livro de história e crítica literária, longo estudo do poeta e ensaísta mexicano sobre a Poesia e o ato de fazer poemas; é uma obra meio desconhecida, já que ninguém se interessa por isso, mas para mim, durante as últimas semanas, serviu como autêntica auto-ajuda. Eis o primeiro parágrafo:
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"La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; ejercicio espiritual, es un método de liberación interior. La poesia revela este mundo; crea otro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aisla; une. Invitación al viaje; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercicio muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausencia: el tedio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifanía, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expresión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin conciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo. Arte de hablar en una forma superior; lenguaje primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la idea. Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infancia, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. Juego, trabajo, actividad ascética. Confesión. Experiencia innata. Visión, música, símbolo. Analogía: el poema es un caracol en donde resuena la música del mundo y metros y rimas no son sino correspondencias, ecos, de la armonía universal. Enseñanza, moral, ejemplo, revelación, danza, diálogo, monólogo. Voz del pueblo, lengua de los escogidos, palabra del solitario. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritaria, colectiva y personal, desnuda y vestida, hablada, pintada, escrita, ostenta todos los rostros pero hay quien afirma que no posee ninguno: el poema es una careta que oculta el vacío, ¡prueba hermosa de la superflua grandeza de toda obra humana!"
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O disco acabou neste momento, a última faixa leva um nome sugestivo: Disappearance Of Kastchei's Palace and Magical Creations, Return to Life of the Petrified Knights, General Rejoicing. Risos, risos, risos. Hoje à noite vou para a aula, entregar o tal trabalho, talvez beber cerveja. É provável que passe a tarde terminando um outro livro muito bom que estou lendo, "A Morte de Virgílio", do Hermann Broch, que narra em quinhentas páginas de prosa poética o fluxo de consciência das dezoito últimas horas de vida do poeta latino. É provável que eu não ouça mais nada, permanecendo em silêncio... a tarde está calma. Que assim ela permaneça e que eu assim pormenasça. Sem pensar no futuro, sem futuro, sem pensar. Tudo está presente: será presença.

15 de março de 2009

A Uns Modernetes Que Ainda Passam

dada era reta e erra retardada
instabilidade globalizada e hiperinformação
assim a época se fez liquidada
progrediu na entropia a crise da representação

não é mais preciso inovar nem mesmo ser algo original
a repetição de formas passadas é não
apenas niilisticamente bem tolerada
dado esse esgotamento e deformação
como até é sedativamente encorajada
por modernolatria impura ou puro desespero cultural

quando o mal de mais um século é hiperbólico
onde a ética é uma estética do hedonismo
talvez por falta de um novo bardo parabólico

vanguardismo enlatado
ou massificado vandalismo
individualismo coletivizado
ou democratizado consumismo
relativismo desproporcionado
ou desacordado surrealismo

quando um sonsicealismo não é tão libertador
onde um capetalismo não é tão diabólico
talvez o fedorismo se desmonstre não ser terror

opera super isso e tal super a quilo supera superficial
ícones incipientes coletivos e sem rosto
incontinenti embalando sem conteúdo
homogeneização das relações e do gosto
tudo é significado e significado é tudo
um hermeneuta poderia fervir de profeta até o sinal

tudo o que é bólido desmancha no mar
temporada tardia contemporânea da minha tarde
defeitos raros rarefeitos para não durar
não se entra duas vezes na mesma modernidade

9 de março de 2009

meu Pai

meu pai foi morto
meu pai foi vivo
meu pai foi absorto
meu pai foi pensativo

meu pai foi com
meu pai foi sem
meu pai foi bom
meu pai foi bem

meu pai foi ateneu
meu pai foi samurai
meu pai foi meu
meu pai foi Pai

6 de março de 2009

Íntimos Épicos


Bom dia para se renascer
Sol matuto que sobe no céu
Zenite-mes ajornada toda revolvida
E boatar-de ama-dure-ser
Sol não por ocaso mausoléu
Da noite que se em luta é ab sol vida

Entre menopausa e menarca, gravidezes
No meio das coisas, do ovo às maçãs
Café ou chá tomados "en passant", xadrezes
Fêmeas culpas, de ninfetas ou anciãs
Atos após tolos míticalendários, entremezes
Hojemonicamente, ontens e amanhãs
Sai-se com o que é visto ou vê, às vezes

Ascendendo-me um momento
Trago comigo toda morte de um dia
Cobra me demora peçonhento
Veneno que provo a boa companhia
Duro no esfumaçante ou lento
Penso na vida inteira que o dia adia

16 de fevereiro de 2009

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medodequenãolhedevolvamoolhodaterceiradimen
sãoprimoirmãodebaudelairecomodizorobertopiva
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tuamortequetalvezdepoisdefalecidoquevenhaaglór
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5 de fevereiro de 2009

Sob a pele


O sol se punha lentamente no horizonte e o tédio da tarde parecia anunciar nos tons do amarelo ao vermelho do céu que ele se iria com a nossa paz medieval de casal. Segunda-feira de ressaca após um feriado movimentado, faltamos ao trabalho.

Cúmplices do que um do outro ainda não podíamos saber, sendo ainda tão recente a nossa união, eu me achava ameno e ela talvez fosse muita areia para o meu caminhão. Havíamos acabado de nos conhecer. Ela muito bonita e misteriosa, calada como eu, mas com um ar menos seguro do que quer, mas mais seguro do que é; olhos excitantes de quem oculta deliciosas crueldades. Ela me dera meu maior porre de vinho, meu maior banho de vinho, ao luar no luau, na praia em meio a fogueira a me tatuar nas costas com as unhas palavras obscenas numa língua secreta, língua dela na minha orelha a sussurrar encantamentos com que me seduziu, mãos mágicas a me preparar. Fizemos amor por três vezes entre a hora em que os violões que nos apresentaram descansaram e o nascer de mais um dia de sol, mas não antes dela me fazer ouvir uma série de acusações e julgamentos aos quais, bêbado, finji prestar atenção, chegando a me confessar admitindo-me culpado, mesmo sem saber do quê, logo jurei o que me pedia pois eu queria logo o que sabia que em seguida viria.

As mulheres eu não as entendo como nenhum homem entende, pois sou como os homens um homem qualquer, ela não, pois como todas as outras, é mulher.

Agora, no quarto de hotel, sobre o chão namorávamos depois de termos acordado tarde e fumado unzinho após o almoço farto, acariciávamos-nos as peles bronzeadas, lânguido eu de tanto comer e compenetrada ela de tanto fumar.

Atencioso querendo transar de novo eu descascava a pele das costas dela, como me pedira, queimada do sol. Tirava tiras, longas e finas umas, outras em blocos grandes com as duas mãos; deixava-a rosa e branca, bicolor em sua ambiguidade. E ela tirava do que tirava dela mais prazer do que eu poderia tirar: voluptuosa, dizia gostar quando eu a beliscava com os dedos em pinça, buscando na carne o início da pele, a sentir uma sua parte a se desvancilhar dela, o som elástico da derme desprendendo-se, as tremelicantes cóceguinhas que o ar lhe fazia ao tocar-lhe a camada mais sensível, aparentemente frágil e desprotegida.

Ambivalente no regozijo de femeazinha em meio às minhas ternas atenções, fazendo-me seu tenro escravo. Objeto lascivo desnudando-se sob olhar de quem se imagina sujeito.

Quando terminei afastei-me um pouco, com estudada seriedade, ficando apenas a alizar-lhe a coxa arrepiada; ela sentou-se se endireitando em frente ao cinzeiro, onde depositei seus restos. Pôs-se a brincar com os despojos, observando os minúsculos buraquinhos deixados pelos pelos, a estranhíssima transparência delicada... cheirava-as reconhecendo-se no perfume almiscarado quase sulfúrico que eu adoro, enquanto sentia nas pontas dos dedos sua textura a se grudar e desgrudar. Ela toda era eterna e tola. Interessante, eu achava, interessada.

Desinteressado eu achava graça comigo mesmo pois era mesmo graciosa em seu brincado. Do alto de sua sabedoria conquistada, aprendiz de seus apêndices, ela parou com tudo com o olhar aparando o nada; olhou-me uma vez afinal e agradeceu, “de nada” eu disse e ela, “como nada? há que se valorizar esse tipo de experiência”, disse como se para si dissesse; para mim não tomei a coisa e fiz-me enfadado; com birra acendeu com gestos bruscos um cigarro, entretendo-se com o queimar do fósforo até que se extinguisse meu desdém.

Novamente cativo ela me tinha atento a mirar-lhe os movimentos, ávido por qualquer migalha sua. Queria saber-me sempre suspenso na expectativa do que ela poderia fazer a seguir. Na tensão do tesão da atenção. Eu não fingia que não a via e ela empíricamente se exibia.

Ao final da chama o palito fez-se lápis de cor brasil, o qual ela usou para perfurar a pele extraída e logo rasgá-la e então mais uma vez se motivar. Com o cigarro podia torturar melhor. A coisa toda ia ficando como um torresminho indigesto, macabro em sua tonalidade de marrom amarelado. Seu sorriso maroto delineava-se mais e mais a cada novo fósforo que riscava, sádica. Masoquista, eu me encolhia. Queimava lúdica como a si mesma ensimesmada e lúbrica de si indefesa. De dar aflição, medo. Fazia-me encobrir por uma fumaça tórrida, torrando mórbida seus restos humanos. O que lhe resta de humano? Quando o ambiente pareceu esvaziar-se da vida consumida no cheiro de morte que nos preenchia achei que a reconhecia. Ela é assim, eu preciso reconhecer, estou vencido e muito aquém de seu juízo. Sentia-me fraco. Ela se divertia consigo torturando a mim. Percebi-me perdido, cativo. Tudo era já um aroma amargo de gente queimando... eu queria fujir, mas logo viria a desmaiar vitimado pela visão arrepiante diante do sombrio fumarento fio galgando lento o ar que subia-me à mente, impressionado que estava com o som crepitante do riso dela, que já completamente desvairada gargalhava, como se ao mesmo tempo pudesse ser bruxa e inquisidor.