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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

21 de março de 2008

Remetente Desconhecido

Borderland, 30 de fevereiro de 2967.

Caro, Destinatário

Envio em anexo a esta missiva um envelope selado para tua resposta, em breve.

Ocorre que não me tens respondido, motivo pelo qual me sinto decepcionado e, não se surpreenda, o tom das minhas palavras pode mesmo acusar alguma irritação, além, naturalmente, de acusar você.

Desde que te conheci não escondo minha obsessiva admiração irrestrita por ti; também é sabido que nisso nunca fui correspondido. Às vezes cogito o disparaste de ser possível que você não se lembre mais de mim. Seria isto possível? Acharia absurdo.

Enquanto estávamos próximos um do outro, o mesmo não se operou. Assim, tenho inúmeras boas recordações das sensações que compartilhamos juntos, momentos de completa empatia e absoluta compreensão mútua. E uma vez que nos afastamos, tento a partir de então travar contato contigo, me reaproximar estreitando os laços de uma relação outrora promissora e agora etérea, mas não tenho tido réplica. Ages como se mal me conhecesses, com desprezo e até com desdém. Ignoro sinceramente o motivo.

Não houvesse os meios contemporâneos de saber da tua vida, de acompanhar cada passo que você dá sem saber que estou em teu encalço, eu poderia até mesmo ficar preocupado com a tua saúde e segurança que os tempos andam cada vez mais civilizados e igualmente violentos. Dessa forma, sei não haver qualquer fato externo que te proíba de me responder às cartas, e qualquer motivação interna estaria em completa discordância com aquilo que me fizestes pensar de você, o que dissestes pensar sobre mim e o tanto que nos queremos bem. Estimo-te demais, confesso até que te amo.

Configura-se um mistério total para mim a razão de tamanha ingrata desfeita. Está parecendo falsidade o que apreendo da tua estranha conduta. Julgo-te por omissão.

A par da realidade, estou desesperado por me ver impedido de realizar meus devaneios quanto a ti. Vejo-me impedido de satisfazer plenamente instintos e desejos. Minha alma sofre por ter chegado ao limite de suas forças. Por estas razões você pode considerar o conteúdo desta correspondência como uma clara e direta ameaça de morte. Pode parecer perverso, mas recorrerei a todos os meios para ter você de novo.

Esta é a última carta que te escrevo até que me escrevas uma carta de volta. Decidi-me e estou irredutível quanto a te fazer saber que você não pode viver sem mim.

Digo-te afinal o que me digo quando diante do espelho não sou bastante sincero: aquilo que és finge. Aguardo a tua resposta, você sabe o endereço. Caso eu não receba até amanhã a tua carta, irei atrás de ti; então, caso pense em não me escrever ou mesmo não pense em me escrever de maneira alguma, fuja! Escreva-me ou devoro-te.

Apaixonadamente,
do teu Borderline.