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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

27 de dezembro de 2010

Três meias noites

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Última Meia Noite - Comprei um livro hoje aqui em Buenos Aires, o segundo dos dois volumes da poesia completa do surrealista André Breton, bilíngue; e reparei que o texto da quarta capa trazia um erro tipográfico essencial, justo nas datas de nascimento e morte do autor: 1986-1966. É como se ele houvesse estado no mundo por vinte anos; morto durante vinte anos, antes de poder nascer. E quando é que se morre, realmente, nesses casos? Sinto-me então um pouco assim: nessa metamorfose imprescindível como rito de passagem para um vir-a-talvez-ser qualquer. Estamos vivendo os primeiros dias do último ano da primeira década do vigésimo primeiro século (possivelmente o último século), depois de Cristo (provavelmente o último Cristo) e, logo hoje, comentei comigo mesmo que queria morrer. Não estava triste, dentro embora dentro de mim eu mesmo me consolasse um pouco ao admitir uma não-tristeza tal. Contra-argumentava com meus motivos, para os outros um pouco estúpidos, por fim; mas estupidezes para mim suficientemente motivadoras, neste caso. Lógico porque absurdo. Neste dia eu mal comi, mais fumei. Andei pela cidade, por onde estava sem saber se voltaria para casa, em São Paulo, onde concluiria este texto quase um ano depois. Ensimesmado com tudo, perplexo com a nenhuma epifania das horas morrendo esmagadas sob meus passos desde o sempre de onde saí, misturo-me às anônimas ruas. Perdendo tempo, eu acho. Ou não acho... que sei eu? Fato é que não conseguia matar a mim mesmo, porque não fazia sentido algum, afinal de contas, já que eu tampouco conseguia deixar de morrer a mim mesmo, de uma forma ou de outra. Viver era isso, por volta da meia noite. E eu ali, indo por aí. As minhas unhas e cabelos a crescer muito lentamente, mas no entanto de forma tão obstinada que eu quase podia ouvi-los. Sim, meu amor... é inevitável que tudo isso saia de mim. Estou perdido. Mas cante aí seu tango assim mesmo, mesmo morto; cante mesmo que eu não saiba dançar, mesmo vivo. Eu estou aqui e ando. O que não se dá somente porque a flanar se vai ao longe. Não. Seria preciso fazê-lo por música, como é aqui, debaixo do meu chapéu. Passo após passo, nesse dois por quatro. Pois sim, Discepolín... el tango és un pensamiento triste que se baila.

Penúltima Meia Noite - Ouçam algo mais: sabem que isto não é tudo, não? A parte mais escabrosa eu deixei à parte. Está óbvio. Quem não imagina quantas vezes, andando pelas ruas, entre uma e outra meia noite, tenho de parar para, além de dormir e comer, mijar e cagar? É que mesmo assim cantado ou escrito, eu, em uma palavra, necessito-o. Sim, é monstruoso... mas escatológico jamais! Mas sei que prefeririam ser poupados dessa espécie de detalhes, com o que só anuo por tampouco eu ser dado a esse tipo de hiperrealismos. É que, tanto quanto mijar e cagar, preciso que me digam onde está minha poesia. Reconheço por aí quando encontro o que é, apesar de tudo, poético, como um canto de tango faminto, ou até como um faminto como eu que como cada canto em mim porque isso também pode ser um pouco poético, apesar de doloroso, algo inadvertidamente canibal porque literalmente onívoro, como a poesia. A fome, tal qual a meia noite, tudo olha e nada deixa de devorar. Alimenta-se de mim do mesmíssimo modo impossível como eu mesmo gostaria de poder somente sonhar ao invés de apenas dormir, ou de voar alto em lugar de caminhar, e de tão somente alucinar ao invés de ver e ouvir, ou ainda de cantar mil versos quando é preciso relesmente me comunicar, e, afinal, só comer poesia, ainda que depois de tudo fosse preciso mijar e cagar essa mesma poesia. Não é por necessidade de expressão, é a impressão que tenho de tudo. Como é possível escrever um texto perfeitamente lógico, claro e inteligível se mal consigo andar em linha reta? Como é possível viver uma vida absolutamente plausível, sem rasuras, quando sequer posso mal e mal me ater a fazer as letras caberem nas palavras que com todas as forças espremo entre estas linhas? Em suma, é preciso continuar vivendo para escrever, não parar de escrever para continuar a viver. Para mim o duro é durar... quero dizer, fazer duráveis as palavras quando é tão difícil estar aí. Mas chega de drama, providenciemos algo mais evidentemente literário, algo mais mágico ou fantástico quiçá, para que nos entretenhamos. Mais lêmures e menos lamúrias... que a madrugada ama drogada para que em seus leitores haja e aja a paciência.

Antepenúltima Meia Noite - Canto um tango com fome sob o olhar da meia noite, onde a idade do tempo sorri assídua e desdentada, com sinceridade até, mas não aplaude ou dá gorjeta. Ou porque por sorte é surda ou porque por isso não passo o chapéu. Por quê? Faz um frio negro atrás do futuro. Vêem-se invernos, viram verão. Não amoleço quem vem e volto duro. A cada vez que não os convido um ser da raça dos sóis penetra brincalhão nesta outra inauguração do meu dia. É apenas assim que me permito chorar, ou quando finjo. A manhã pianíssima sacode todas as flores por cima do muro do quartel general da minha paz de espírito, fenômeno tão imperdível que o fotografo para o meu portfólio, mesmo sem chegar a achar revelador. Afinal não é uma terra de oportunidades, mas de oportunismo. Um lance de degraus jamais engolirá cada passo. Mal amado subo em minha torre afogada, ainda na casa inicial. Aí faço um café negro na frente do meu passado. A vigília, qual e tal qualquer sono ou sonho, é de um orvalho sujo, mas alguém pode ter um pesadelo com isso. Cante outra coisa, mas bote no papel. Siga as calçadas, mesmo descalço. A sua cidade dorme, muito longe de si suores adentro. Não há ouvidos bons o bastante para isso, tudo é olvido. Ninguém mais se desvia da estrada de lençóis brancos. Você está só, assim como eu. Confesso-o agora, confesse também. Estamos nisso juntos, da esquerda para a direita e de cima para baixo, linha após linha. E que os seus olhos doam como doem meus dedos bem agora. Uma vez que já estou de pé na contramão, o avanço já é suficiente descanso. Abduz-me todo este caminho estranho onde não sem alguma frequência minhas antenas chegam a encontrar o sexo oposto, para o qual o meu infrequentemente está indisposto. E é sangrenta de lambuzar a cor dessa mulher magenta, e é nojenta de menstruar a flor dessa mulher magenta... assim com o seu sem-número de atrativos para este meu cérebro sério por trás das sentinelas dos meus sentidos sentindo nela um coração purinho como o meu, em apuros, pois nunca ora e ora suspira ora entra em silêncios, o que me deixa fora de mim. Algo utilíssimo quando os cigarros e os minutos se jogam sobre a gente em efeito dominó. E logo ecoam meses e anos quando anoiteço e o pão de cada dia adia de novo o jantar para depois do cantar. Eis o que eu faço para viver, ou ao menos vivo para fazer. E depois da fome há cada vez menos eu, mas cada vez mais meias noites vêm surdamente apreciar meu tango. Por isso recolho-me aos cantos. E me digo: continue, poeta. Apenas escreva e deixe ler e reler. Temos todo o tempo do mundo.