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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

31 de janeiro de 2006

SÓ SOB O SOL

O imperecível Perú. Sigo de ônibus, carro, motocicleta: burro, jumento, cavalo. Vou pela Cordilheira dos Andes, depois do lado de lá. O caminho subindo e subindo enquanto a temperatura vai caindo e caindo. Sendas: dê o kú! Minha vida meus mortos meus caminhos tortos. Névoa, neblina, nevoeiro. Índios. Dura vida, dura a vida. É subida que não acaba mais, só se sobe. Barro e barranco. Rios gelados desfilam entre os desfiladeiros. Elevam-me. Pedra sobre pedra sob pedra. Paisagens. Convivem incas e incapazes. Sacrifício. Aqui no alto não há asfalto. Sigo. Grilos, cigarras, pernilongos. Devagar quase parando apenas quase parando de vagar. Milhas e milhas em milhas. Milho, batata, mandioca. Íngreme. Antes delirantes. Café amargo. Estrada e estrada. Casebres, casinhas, casinholas. Não paro não fico não me mumifico. Pão e empanada. Frio o vento veloz é assovio. Sombras. Borboletas e mariposas. O caminho é pedra e gozo, pedregoso. Palha e pólem. Criollos, gentios, mestiços. Décimo quinto mundo. Pressão do ar. Enxaqueca. Quem te mata mate quente. Fogueira, fogo, fogareiro. 0º. Rumo ao topo, alto e plano, altiplano. Folhas de coca: masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca, masca. Tomam-se altitudes. O Perú é inverossímil. Buzco Cuzco. Uma cidade perdida. Achei-te, custo a crer; digo e, dito, acredito. Perco-me de novo na rua. Vou por aí me mexer. Populares, poupo os lares. Tudo é quadrado. Tanta plaza tanta iglesia. Cães e pombos. Engraxates, fotógrafos, ambulantes. Alamedas e bulevares. Pedrarias, escadarias. Ouro. Esquinas dessa cor quente decoradas colonialmente. Varandas vêem-me andar avarandado. Claro-escuro, doce-amargo. Céu de metal. Homo faber. O olho culto: a saia, o decote e o mistério do oculto. Relativa liberdade absoluta; absoluta liberdade relativa. Pobres podres pobres... quem quer pão levante a mão. Esmola. Saio por aí. Aqui a grana. Curto longamente. Divirto-me. Grana, grana, grana. Hotel quinze estrelas. Tolo, atolo-me em ouro enquanto há plata, impraticável. Esbanjo e dilapido, devasto. Frio traz tosse, tosse catarro, tusso e escarro, piso Pizarro. Da varandinha colonial miro um cão a correr alegremente por entre as flores do jardim multicor da Praça de Armas em paz, enquanto degusto o revigorante chá de coca que transporta meu olhar através das cores tremeluzentes da tremulante bandeira da Municipalidade de Cuzco para as andinas elevações de terra circunvizinhas de onde se eleva a erva em silencioso brado ufano de tantas dores: Viva el Perú glorioso! Sentado só a beber meu trago e o som que não faz meu pensamento sem ninguém esperar a fumar sombrio enquanto tento digerir o absurdo de minha incompreensível existência. De que sou feito, ainda não sei. Encrencas, brigas, confusão. Pazes, amizades. Ponta de faca, faca fina ferimento, vou fazer meu fumo fino, fino fraco fedorento. Maconhas... maconhas... maconhas... Baseado em fatos reais, realizado em baseados fatais. Eu fumo mas não trago quem traz é meu amigo. Um tapa na Maria Joana ela pisca e não reclama trago ela para dançar. Música e festa. Dança e gritaria. Barulhos: todos serão ruídos. Rodando e rodando. Transe gentio. A animalidade todo espírito humano. Bárbaros. Um eu pagão, selvagem, demoníaco. Borracho de me borrar. Just Fecal graffitti: cagar é a lei deste mundo, cagar é a lei do universo, cagou João Paulo II, cagou quem fez este verso. Cagando de pau duro. Quando bato punheta teu cú relampeia, privada estremece, caí caco de “teia”, se não tem vaselina eu ponho com areia, boceta apertada comigo laceia. Sexo é algo tão inevitável quanto a puberdade. O corpo é o melhor alimento para a alma. Sexo e droga, bares G.L.S.D. Buy someone now. Prostíbulos, puteiros, zonas. Neon, luzes, luzes vermelhas. Cheiro de fezes e esperma, vaginas sujas, lubrificante e amor. Não existe amor, é o medo da Aids que nos une. Lenocínio. Gozar. Libido sentiendi. Orgasmos or not. Gozo a noite e o dia; alegria... Rio com as putas, apalpo-lhes os dons e lhes pago bebida, com elas vou para a cama e deixo sempre uma nota além do preço quando me levanto. Vivo a vida inigualável. Gatinhas e gatinhos. Matronas e ninfetas; machões, latin lovers e efebos de quinze anos. Contraí a hipocrisia das putas e as doenças das donzelas. Sifilização Ocidental. Um branco em meio a nativos, entre gringos outros. Eu, branco centauro desmontado deus, pele e cabelos brancos, idolatria, endeusado fetiche; totemismo, Eros e Vênus e Dioniso, mitolorgia. “O rebolado dele é ultrajante... sigam-no!” Durmo até tarde; a única coisa que me faz acordar cedo é sexo. Bebo meu meio grogue. Pago, desembolso, gasto. Não posso conceber a monumental estupidez que encontro numa cerveja gelada. Um respiro, arroto pulmonar. Tragar, não pensar, só existir. Charas. Cigarros, charutos, cigarrilhos. Foi bom para mim. Praticamente não há mais prata. Aproveitei enquanto durou, mole mole mole, fiquei duro. Repudio a tão procurada aurea mediocritas que Aristóteles roubou de Pitágoras tão fácil e hedonísticamente, e que de forma tão exageradamente ascética foi descrita nas Odes de Horácio; O equilíbrio exige movimento e eu não perco mais meu tempo me equilibrando na corda bamba chamada meio-termo. Caio na vida. Perfeitamente adaptado à cidade, acho que agora não posso mais me considerar um viajante; então posso sentir-me à vontade para dar uma de turista. Pago um fotógrafo para registrar-me num cafe, tomo um chá de coca, compro uns postais, uns souvenirs, ando pelas ruas, alamedas e travessas, subo e desço as escadarias, fumo um cigarro meditativo numa igreja vazia, mijo num canteiro, observo as pessoas. Ruas e praças bem projetadas formam esquinas de ângulos retos, um mapa que se pode chamar de geométrico. As crianças jogam rayuela. Cães dormem sob os bancos das praças. Tudo tranqüilo como sempre, movimentado de mormaço, uma ou outra buzina de táxi, repleto de gringos. Sobre os prédios baixos a paisagem me alcança junto com a visão de outros tempos imemoráveis. Nunca me esquecerei daqui. Até aqui Cuzco foi minha última fronteira, hão de haver outras, agora preciso voltar antes de seguir. O dia amanhecendo me transporta para a cabeça a idéia de recomeço, eu agradeço; à partir desta idéia minha cabeça começa a se repovoar de pensamentos. Um homem me pára na rua oferecendo-me uma passagem de trem (15% de desconto). Por que não? Macchu Pichu, aí vou eu... não é longe da cidade mas não tão perto assim. O trem não é muito antigo e a viagem sossegada, motivos suficientes para não tê-lo tomado antes, mas hoje é diferente; volto a deixar-me conduzir pela vida. Caminho o caminho o resto do caminho, nenhum contratempo e nenhuma aventura, é só pagar e entrar. Eis-me aqui na montanha velha, em meio às ruínas, solitário no solo sagrado de um povo vencido, sem ecos do sangue derramado de um e outro lado, o caos reconquistado; vago devagar; aprecio o que restou da cultura infinitamericana original. A Civilização Ocidental já teve fim uma vez...


Perdido neste distante voluntário abandono
Caminhando colho frutos entre as flores
Rememoro beijos que dei não sou mais dono
Deitado sobre o pétreo movimento plenos amores

Eterno retorno signo Sol minha estação mental
Novamente chegastes meu eu neste mundo antigo
Mariposa que enluara minha incauta sombra ancestral
Amarelo esclarece a luz peruana onde me abrigo

Já tão nostálgica bruma que ouço
Sem palavra venta para lá o horizonte
Hélico céu entrevisto do calabouço
Restitui-me a cor pálida à inculta fonte

Dia perfeito ainda se vai enquanto brilha
Maravilhas numa derradeira visão
Sozinho volto triste pela mesma trilha
De tão rara beleza que contraria a razão