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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

28 de junho de 2006

SOM CINZA

Fim de noite e eu ouvindo Erik Satie, as teclas entre o computador e eu. Na boca um gosto fraco de café forte. Fumaça de cigarro entre os olhos e a tela, em espiral. Frio feito França. Teclo um OI para mim: harmonia. Ela nasceu da união de Marte com Vênus, a guerra e o amor. Sinto muito os dois agora. Estou escrevendo sem papel ou caneta, eu estranho um pouco o processo, nunca gostei disso. Crio com sentimento, consentimento é criar sem sentir; é preciso um esforço descomunal, incomum só que dos dois modos é normal. Estou a lembrar do sexo que fiz na noite de véspera, intenso como a lembrança do que foi ontem, hoje. Relaxo os ombros, o pescoço estala à esquerda ao me endireitar. O telefone toca uma vez e pára, é o suficiente. Não é para mim, se não me engano. Quanta ternura pode haver no olhar de uma cão? Só quer comida ou carinho, não está interessado no porquê foi recolhido da rua ou em onde será enterrado quando morrer... Quero aprender com este olhar feroz de manso animal. Sei um pouco como é ao pensar nisso, não posso esquecer de lembrar desse poder. Teclo “salvar”. De repente sinto-me em grande perigo e me ponho aflito. Sou do tipo que treme sujando de cinzas a página(o teclado), tremo ao terminar de urinar, ao começar a beber qualquer conhaque, até de frio. A música devagar diminui o ritmo, torna-se mais grave e silencia. Recomeça quando eu acendo outro cigarro com um fósforo, que enche deste odor o meu ar. Tantos pensamentos cinzentos no cinzeiro, já é hora de o esvaziar. O que eu gostaria de pensar agora? Certamente não em algo útil como uma pergunta. Poesia talvez. Levanto-me da cadeira no meio desta grase para folhear algo na estante. Três velhos livros chatos: nA Arte Poética Aristóteles diz que “O poeta faz simulacros com simulacros, assim afastado do vero a enorme distância. Vive, pois, no erro e não tem utilidade alguma.”; em uma Introdução À Poética Clássica encontro Theóphile Gautier dizendo “ Não sei quem disse, não sei onde, que a literatura e as artes influem sobre os costumes. Seja quem for, trata-se indubitavelmente de um grande tolo; é como se disséssemos que as ervilhas produzem a primavera.”; um Dicionário De Arte Poética tenta definir, “Utilitarismo – conceito de literatura, como de toda arte, voltada para fins didáticos ou pedagógicos, com a aplicação do preceito latino do utile dulce, combinação do útil com o agradável.” Então a brasa do meu cigarro pendendo comprida no cinzeiro cai para dentro com um mínimo de ruído. E o nosso pianista se levanta para ouvir saindo da platéia uma ruidosa salva de palmas. Eu acho que consigo transformar isto em um bom começo.