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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

8 de novembro de 2006

Suicídio: modo de usar

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.
Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão
fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões,
se o espírito tem nove ou dez categorias, vem depois.
São apenas jogos: primeiro é necessário responder.
Albert Camus

Se queremos realmente morrer, não percamos tempo escolhendo um local. O hotel é um local absolutamente adequado. Não esquecer de reservar o quarto, pagar dois dias adiantados e prevenir a portaria de que não queremos ser incomodados durante esses dois dias... temos de estar seguros de, pelo menos, um dia de tranquilidade. Quanto mais tarde for a descoberta do corpo, menores serão as chances de reanimação. Devemos absorver, de preferência, uma refeição leve a fim de que o estômago não esteja nem vazio, o que o tornaria extremanente sensível à dose maciça de medicamentos, nem cheio demais. Para reduzir ainda mais os riscos de vômitos, podemos tomar um remédio contra enjôo logo depois da refeição e cerca de uma hora antes de absorver os medicamentos mortais. É prudente testar antes o efeito desse medicamento antienjôo. A ação sedativa deve ser muito forte, se quisermos continuar executando bem o restante das operações. As doses mortais são proporcionais à corpulência do indivíduo. É preciso também considerar a eventual tolerância ao produto. Se somos habitualmente tratados com barbitúricos ou com morfina, convém aumentar as doses recomendadas. Conservaremos os medicamentos num local fresco, por exemplo, na parte de baixo do refrigerador. A propósito, é bom observar a data de fabricação e o prazo de validade. Seria uma ingenuidade pensar que os produtos cuja data de validade estiver ultrapassada são mais tóxicos e, assim, mais eficazes. Eles podem ter perdido a eficiência imediata e ganhado "toxicidade parcial", o que levaria ao fracasso e a seqüelas imprevisíveis. Podemos dissolver os comprimidos em pequena quantidade de água (realizar esta operação pouco antes do uso) e bebê-los com um pouco de mel ou de café se o gosto for muito amargo. É recomendado associar álcool e barbitúricos. O efeito deles, assim como o de outros medicamentos, é potencializado pelo álcool, numa proporção de até 50%. Alguns autores estimam que a água gasosa acelera a absorção das substâncias pelo estômago e recomendam sua associação com o álcool. Para evitar uma reanimação indesejável, tomaremos o cuidado de destruir as embalagens dos medicamentos utilizados. Teremos também feito desaparecer (e não simplesmente jogado na lixeira, que será, sem dúvida alguma, revistada) toda a correspondência, receitas fictícias ou de camaradagem e todos os documentos que indicam cumplicidade voluntária ou involuntária na preparação do suicídio. Dentro do mesmo espírito, não é inútil deixar uma nota retirando a responsabilidade de eventuais testemunhas ou dos próximos. Nenhuma dessas precauções é supérflua em caso de intervenção do serviço médico que, sabemos, "intervém ao mesmo tempo que a polícia, já que esta última está ligada na mesma freqüência de rádio e, em conseqüência, tem conhecimento de todas as intervenções do serviço médico. Elas visam igualmente a simplificar as formalidades posteriores ao falecimento. As únicas formas requisitadas para a validade de um testamento comum (totalmente manuscrito) são as seguintes: o documento deve estar inteiramente escrito, datado e assinado pela mão da pessoa que faz o testamento (o qual deve ter pelo menos 16 anos de idade). Pode ser escrito em qualquer papel, em várias folhas de papel separadas, sob a condição de que cada uma tenha data e assinatura e que a ligação entre elas seja aparente. Notemos, finalmente, que uma jurisprudência muito antiga exclui a possibilidade de que a morte por suicídio invalide um testamento sob alegação de "loucura".

Claude Guillon & Yves Le Bonniec