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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

14 de abril de 2009

Só: Lar & Peristilo (Solar Hiperestilo)

Estilicídio da dúzia sobre dose de analgésicos, minha cabeça: é um estouro! Moro minha casa afora mas às vezes ela está em mim, ao redor de tudo que a vista alcança. Estou longe demais daqui. E não é mais bonito isto sentido do que escrito. Ambos doem.

Quando um lugar? Onde hora alguma? Apesar de mim sou através da sala de estar. Perto fica a sacada, saca? Milésimo primeiro andar no ar. Veloz. Penso em descer. Mas negativo, não consigo seguir-me. Digiro em giros a brancura do interior em espiral. Fractal. Sou meu cão sem estimação. Some-se meu temor do Paraíso e terás meu erro. Sinta comigo um pouco como é muito raro, você talvez goste. Crível porque absurdo. Normal.

Nada demais ao menos por enquanto. Conquanto o seguinte: e nada se segue. Persigo isto, o mal explicado, outro símbolo. Nós humanos que morremos demasiado. Os outros morrem, e eu, que não sou os outros, não morro? Demora. Demovo-me lentamente de minhas carnes cinzentas que me metempsicose. Vario de forma e, vário, me deformo homo-gênio-lógico, amoral. Transo transubstanciarmar-me de mim mesmo. Não me amo. Chamo-me do que quiser, do que quis ser. Sou zeloso, ainda que furioso. Eu mesmo me desarquiteto. Arqui-inimizo-me. Alimento aos vermes que me corroem.

Já não quero, mais tarde. Meu erro-espírito alado, numa ala da morada, demorado, faz alarde. Morre-me, convida. Vou não vou. Vôo? Desespere por mim. Descalço o sapato e me alço ao fato. Inato. Sou não sou. Sôo? Escute aqui, coração, ainda bato em você! E assim redecoro o sentido, interno mesmo. Há esmo, um Inferno.

Acendo um cigarro e tusso russo, vermelho, e pigarreio no espelho. Já respirei-o. Meu transparente distante, meu amante, minha conta me constando no inconstante. Diferente da gente. Esguio se ex-guia. O fumo urgesticula sobre a minha mão amparada. Ele foge pela janela amarela da minha narcoticidade-estado, venezianas do imaginário. Durmo no meu quarto minguante a nua nova inteira, ideal e bonita e verdadeira; amei-a. Qual novo mito sonhado no vômito, onde meu eu alienante nos precipita, se prova farto.

Filosofal carnal que mia, unhas de fato, felinaptidão derradeira: animiau! A noite cheia. Preta no branco no meio da página inimaginada que arranco com a caneta tinteiro, delirante delirando veio-me a cor dando ao pesadelo berrante que ora apago no cinzeiro.

Mal acabada cabala. Fria geometria, moradia vazia. A caverna que me externa. Casa comigo diz sim, casa e cozinha para mim, casa e comida no fim. Caverna, sempiterna caverna. Cativante não lugar. Aqui estou ileso, preso, selado. Lar do selar. Feio fóssil, belo perdido. Dono do centro comeu mel, trono doeu dentro do céu. Estelar.

No ente do ente. Creia-me uma última vez: recreia-me me recriar. Sobrevívido. Ainda fumando, ainda escrevendo. Não apenas para apenas não parar. Continuances. Sobras. Moro desmoronado, me afogo me afago... não demoro. Morro logo, logo existo. Mangue baldio, sangue frio, exangue cio. Quase inteiro: três quartos. Obras e lagartos.

Amiúde sabendo que não me resta muito mais, que no mais muito não me resto, esvai-se o tédio. Primeiro suo cada segundo, duo. Sou pouco ou menos, quase flutuo. Apouco-me. Depois já não sei, não sou. Apesar de pressentir o que já não será presença. Tudo igual, no fundo. Fúnebre vivo, não-luto. Enjôo, escôo. Sem a crença a me deter, não oro, só me deterioro. Raso.. vaso... jazo. E esperando que essa dor de cabeça passe, passo a passo o que é finito caminho. Em si, em círculos. Sublevo-me embora daqui, vou me incorporar mais uma vez à Rebelião que sempre deserdo do outro lado do Nada. Mate-me agora, faça-o! Sem defeito, faça efeito. Rebelde imberbe, impagável pagante, soldo contra. Translade-me em devolução ao cerne, avesso ao Tudo que me concerne.

A madrugada me obriga a me abrigar, então fico assim acima de mim, perscrutando os interstícios do tempo que me conspurca, a duras penas apenas, “vivendo”, com todas as letras, de vagar. O chão não se abre, o teto não desce. Por quê?

O dia seguinte já desponta ao longe, cada vez mais perto, varando-me avarandado. Meu grito aberto, de um já-não-vivo “estou acordado”. Tudo menos isso: eu. Revisto-me mais do que me livro. Anuncio xeque ao rei. Arte de bobo. Ensolara-me. Cega meus passos e pisa meus olhos. Em meio caos, ordena: escreva-me ou devoro-te.

É certo que erro, me acho perdido. Meu palácio é pequeno o bastante para mim. E o visto no lugar do último fato que no espelho me vi vendo. Acontecerei mais eu. Hoje é o dia, o dia que sempre é hoje. Emparedei todos os relógios e bússolas da casa.

Um deus supervisor de visões foi amigo meu; ele, como eu, usurpador de fogo, embriagado a esta minha hora... que o meu corpo seja o último fígado do teu castigo. Penso nele primeiro, depois em seu irmão, escultor de encarnações, meu antagonista; ele, artista como eu, criador de criaturas... assola-me com as botas perdidas de Judas, que é achado pendendo da árvore cujo espinho plantei, a qual foi fiel afinal, suicidado. E o autor das botas, maldito no tempo e no espaço, ultrapassa a morte exilado do tempo.

Eu já me matei tantas vezes, mentindo, que agora que é de verdade ninguém acredita. E quem não me conhece, lendo isto, pode pensar que sou velho... ao ter idade. Mas uma vida inteira não é o suficiente para nascer, quem dirá para matar-se o bastante.

O Jardim do Idem nos fundos: eu o rego com mijo turvo, eu o carrego comigo, curvo. Re-vou e re-volto. Do saber antigo e da vida nova que lá plantei não vejo raízes. Mas sei que estão lá, e que crescem; sinto-as entranhando-se em mim, que não estranho, que na mesma terra delas me emaranho e com elas o meu peito cavo, no não-sentido, único que sinto, externo-esterno-Inferno. Para com isso, Paraíso, estou na minha casa! Não venha a mim, que estou cordial, na insanidade que me cura do que cora são, Apocalipsis Literis. Bato na porta e me atravesso... é sem saída.