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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

6 de maio de 2010

Europa


Europa I - Cá Em Lisboa

Aqui desagüei com o Tejo, estou na enseada amena,
de melancolia e de azulejo, valha aqui a minha pena;
é a terra de Luís de Camões, do Fernando Pessoa como ortônimo,
de Jorge de Sena e suas opiniões, de Mário Cesariny ainda anônimo;
Alfama-Baixa é um excelente eixo, lisboeta ou olisiponense,
Chiado-Bairro Alto onde me deixo, alfacinha ou lisbonense;
Torre de Belém e Descobridores me interessam,
Flano do Aqueduto para o lado do Paço e da Sé,
Vasco da Gama e 25 de Abril que me atravessam,
vou ao Carmo e aos Jerônimos mesmo sem fé;
noto que na Avenida Liberdade eu me alforrio,
 entre a do Ouro e da Prata a Rua Augusta,
anoto nas praças dos Restauradores e do Rossio,
entre Alta e Baixa o Elevador de Santa Justa;
do Castelo de Mouros vejo as pombas no céu,
no Palácio das Necessidades vou ao banheiro,
no Palácio da Ajuda grito pedindo mais papel,
a estátua de Pombal estava cagada por inteiro;
as almas e os balões assinalados,
nas praças com tantas cantigas de roda,
infância dos versos abrasileirados,
quase cume da cabeça de Europa toda;
homens e mulheres de bigodes tristonhos,
uma cidade em cada parte de que é a soma,
um olho é horizonte e o outro é de sonhos,
tudo tem igual no Brasil menos o idioma;
de tantas andanças já cansado, sento a tomar um gelado imperial,
levanto-me em busca do fado, perco os meus rumos em Portugal.


Europa II - Desde Madrid

O miolo dessa Espanha, perto do rio Manzanares,
a sua língua me assanha, todos esses linguajares;
o povo tão risonho, em lugar tão singelo,
el oso y el madroño, de Madrid al Cielo;
tão negro é esse touro, em Las Ventas ruminantes,
preto é o século de ouro, como a estátua de Cervantes;
entre Atocha e San Jerónimo um mote,
um lugar de tantas memórias confusas,
aqui onde primeiro se imprimiu Quijote,
é o Barrio de las Letras y de Las Musas;
Apolo e Cibeles de uma vez, são fontes de doces sussurros,
vou à Chocolatería San Ginés, provar chocolate con churros;
encontro na Estación de Atocha, ou del mediodía o Invernadero,
já era a estação que desabrocha, ou a primavera para ser sincero;
é o corpo dessa Península Ibérica,
Real Academia de la Lengua Española,
esta com tradição menos desidérica,
com a qual a fala popular se estiola,
melhor é o Flamenco de veia histérica,
de cante e baile e toque de castanhola;
caminhando saio para dar um giro,
nos literários Café Gijón y Comercial,
fumo pelo Parque del Buen Retiro,
vendo estanque y Palacio de Cristal;
e no Campo del Moro eu até piro,
não acredito ao ver o Palácio Real;
desde as Fuentes de Neptuno, ou mesmo desde a Gran Vía,
achei sempre algo oportuno, sentar para tomar uma sangría;
del Prado o de la Castellana son mis paseos,
gentes na Plaza de Colón ou na Plaza Mayor,
de mi mujer en casa yo recuerdo con deseos,
uma saudade dela que a cada dia fica pior;
contra o azul do céu, sou um artista a se inovar,
Lorca e Dalí e Buñuel, os carmins de Almodóvar;
as perdições à parte, os descaminhos que perfaço,
no Tríangulo del arte, eu vi o Guernica de Picasso;
um lugar que me edifica, é a única capital do mundo aliás,
onde se exibe em praça pública, uma imagen de Satanás;
o que disto tudo ainda me ficará,
estas recordações me bastarán?,
pela Puerta del Sol ou de Alcalá,
as más lembranças no pasarán!


Europa III (Além e Aquém, Barcelona e Gaudí)

Mais Além de Madri

Barcelona não quer ser Espanha,
autônoma é a comunidade,
a língua tão próxima, mas como é estranha,
 apesar da comunicabilidade;
embora possam ser bons anfitriões, levam fama de maus aldeães,
até mesmo para os meus padrões, como são rudes os catalães...
uma jarra de sangria e é para já,
em seguida vem logo a caçarola, e que o café não seja instantâneo,
o plano e os deltas de Besòs e Lobregat,
do mais alto da serra da Collserola, até o litoral no Mediterrâneo...
a caminhada com essa escrita se entrecorta,
y al caminar estos mis papeles se surcan,
tal é o ficcional Parque do Labirinto da Horta,
el jardín de los senderos que se bifurcan
las estrechas pero tan animadas
callejuelas tanto del barrio gótico como las del Borne y del Arrabal;
 gárgola  animal tan fantástico como Sta. Cruz y Eulalia la Catedral
del claustro con piedras ajardinadas;
 …desde as velhas ruínas romanas, passando pela cidade medieval
até os bairros do modernismo apoteótico, nas Ramblas ia eu
comer na Boquería, entre Molino e Liceu, nas Ramblas eu ia...
Allí se encuentran kioscos de prensa, de flores,
de pájaros y animales domésticos, actores,
cafeterías, comercios y restaurantes;
mientras cerca del puerto costumbran a instalarse mercadillos,
así como muchos pintores y dibujantes…
até o Portal de la Paz, a descer eu me propunha,
a subir eu voltava atrás, até a Plaza de Cataluña;
a partir do monumento a Colón pelas seis praias de areia
até a Villa Olímpica...
depois das seis os seios de fora que o sol ainda bronzeia
…que cidade magnífica!
la Ciudadela de puertas adentradas
por extravagante la Avenida Diagonal
o la Gran Via de les Cortes Catalanas
 Montjuic tiene su vista excepcional,
el Paseo de Gracia por las mañanas,
Dalí y Picasso y Miró de tantas quijotadas…
Palau de la Música será mais que moderno,
hospitaleiro como a fachada da Casa Fuster,
no Hospital de Sant Pau quase me interno,
grandes méritos de Domènech i Montaner...
na Ciutat Vella ficam
Sta.Caterina-Born, el Raval,
el Gòtic y la Barceloneta;
as gentes coloridas fornicam,
loucos de dar com pau,
loucas de dar com boceta...
bebo a alpendres e palmeiras,
na Plaza Real daquelas cervecerías,
rojo y amarillo nas bandeiras,
falsa numismática pelas tabacarias;
tourada e sardana são ambos insanos,
a primavera vem aqui fazer topless,
lugar onde se erguem castelos humanos,
a um lugar assim só hei de dar olés.

Mas Aquém de Gaudí

Contestado como artista, catequista a ser beatificado,
comprovado nacionalista, urbanista foi atropelado...
edificante organismo esqueletal
a Casa Batlló de improvável ossatura
ou Casa dos Ossos obra tão visceral
mais se parece com uma escultura
do que um edifício convencional;
em cada janela ovalada em cada curva da fachada
como mosaico é decorada feito de cerâmica quebrada;
que começa em camadas de laranja dourado
movendo-se para um tom de azul esverdeado
o louco telhado é qual dinossauro arqueado
e às costas de um alado dragão assemelhado...
La Sagrada Família, mais modernista dos Hades,
outra cidade da homília, novo tonel das Danaides;
peca pelo excesso,
trabalho expiatório, templo em progresso, profano e alucinatório
peca pelo excelso;
caleidoscópica hagiografia cartesiana, coloridos harmônicos cristais,
heresia hiperbolóide humana, criptograma comungando catedrais;
a Natividade  já está acabada;
quando terminar a construção,
com a Paixão em andamento,
terá de se começar a restauração,
a Glória ainda não iniciada;
castelos de areia suspensos, de estética fantástica e assombrosa,
ninhos de cupins imensos, de estrutura louca e maravilhosa...
autor de sete obras muito pessoais
como a Cripta da Colonia Güell,
recriando cúpulas gravitacionais
na Casa Vicens e no Palau Güell,
modelos em escala tridimensionais;
na Casa Milà a fachada
se parece com ondas de lava ou a uma duna de areia
na Pedrera o telhado com uma aparência cava
quase lunar ou de idéia
favos de abelha atarefada
 de alto a baixo me dava visão de cobras muito feia
percorrido de lado a lado o edifício ainda terminava
em montanha de neve cheia
estilo art déco mobiliada;
o ferro forjado dos balcões simula plantas trepadeiras,
no terraço como alucinações grandes bicos de chaleiras;
improváveis chaminés com cacos de garrafas faceiros,
parecendo com elmos sobre as cabeças de guerreiros...
e o Parc Güell é uma cidade-jardim,
com vista para a cidade e seus jardins,
percorro-o e de nada mais estou afim,
perco-me bem no meio sem mais fins;
o meio do parque é uma praça circular vazia,
cuja borda serve de banco e sinuosa ondula,
como uma serpente de mosaicos coloridos,
a praça é sustentada por qualquer maçonaria,
uma cabeça de leão faz as vezes de gárgula,
de água apenas são seus medievais grunhidos,
colunas qual estalagmites de grotesca assimetria,
dóricas palmeiras inclinadas ao vento que tremula,
em cavernosos abismos de medo desprovidos,
no teto quatro rosetas as estações do ano se veria,
e outros símbolos que o conjunto não dissimula,
sem um único ângulo reto poder ser definido;
assim mesmo é obra que com razão se abarque,
não é preciso ser de muita ciência ou literatura,
é de entendimento tão fácil quanto acessibilidade,
a este lugar chega a escadaria da entrada do parque,
disposta simetricamente ao redor de uma escultura,
de salamandra feita emblema do jardim e da cidade...
muito e pouco, espanhol ou catalão;
gênio ou louco, arquiteto e arquichão.


Europa IV - (Que Vóz) Paris

Civitas Parisiorum,
luzes da Cidade das Luzes, liberdade das cruzes.
De Montmartre e Montparnase & Père-Lachaise à gogo;
Boa parte de Clóvis e Luíses.
Amor eterno e guilhotina, bastões vermelhos e bateaux mouches;
Rive Gauche ou Rive Droite;
Moi-sur-Seine, com Gitanes com Galoises;
o acordeonista toca rouxinol, Piaf canta L’Accordeoniste.
Parirá em Brumário? Parirá em Maio!
Outono de 2005, Primavera de 2007;
lema de liberdade, tema às revoluções,
lema de igualdade,
tema às decaptações, lema de fraternidade.
Pigalle de putaria em néon, sagrado coração do moinho vermelho,
nossa senhora sem 200 sinais vitrais, acossado por 400 golpes,
atirada à nova onda ela não afunda,
bela da tarde ascende ao cadafalso,
o demônio das onze horas perdeu o último metrô,
miano bistrôs e quarteirão latino, panteão de comedores de pão,
14 Baguettes de Bagatelle 14 Bis.
Baudelaire por boulevards; Ballet na Opéra Garnier;
Musique na Opéra de la Bastille;
Deu-me na telha no Jardins de Tulherias;
Soma Luco no Jardim de Luxemburgo;
Cartesiano que vem quem sabe; De belle époque e de art nouveau;
Moi j'suis d'Paname, Parigot;
Francamente um francelho; Eu é um outro Rimbaud.
Voyeuricidade, um tanto multicultural, entretanto cosmopolita,
Paris é uma ilha, filha do seu país, avós da cidade não têm eco,
uma volta à França que morre na Champs-Élysées.
Pompidou-lhe uma: pós-modernismo;
Pompidou-lhe duas: high-tech.
Visitei o túmulo de beijos de Wilde...
abolição de dados que sempre lançará o azar;
de bicicleta, taxi e metrô se ronda...
vi o túmulo de Cortázar; até o túmulo da Gioconda.
Putes que paris! Flanerie et tout va bien…
Expressão impressionante! D’accord? Je ne ce pás!
Manetmonetdegas. Proustrado de tanto andar;
com certo café-concerto conserto a fé; Le rouge et le Renoir.
Rodin entra pelo Museu Orsay pela Porta do Inferno,
Mona Lisa e Vénus de Milo... Deus me Louvre!
Que o tórrido Sol torre Eiffel, assim eu arco com o triunfo.
Merde, alors!

Europa V - Vene(no)za

cidade que evoca uma minha estranha natureza, ela é que me passeia com tão natural estranheza; à deriva no mar a sereníssima, terraferma de ła mia veneta, aquela velha república marítima, idílico renascimento do poeta; piazza di San Marco é um pombal, transe figura ativa máscara, leão alado um fantástico animal, pão do pescador iguaria rara, serpenteia mágico o Grande Canal; balneário cursivo e itálico, cidade de água a tônica dominante, Ca’ d’Oro e Ca’ Rezzonico, Petrarca cantou o que cantou Dante; lazareto em quarentena, gangrena o meu soneto, cornetto que envenena, obscena é um amuleto, coreto em festa terrena, serena como esqueleto; desde hoje imagino quanta era a sua grandeza, mas já não posso imaginar como era a limpeza; tanta beleza me causa alguma enfermidade, Von Aschenbach e Tadziu reencontrados, Justiça a representação feminina da cidade, arquipélago de pensamentos constelados; lar primevo daquele primeiro ghetto, a comida é pouca e cara mas muito boa, a perspectiva do furioso Tintoretto, alagada de maré alta ou baixa na lagoa, de gondola de battello de vaporetto; de tanto Fédon de tanto fedor, perco-me em labirinto de giros, cozinha atípica de tanto sabor, dou com a Ponte dos Suspiros; do vento Scirocco do vento Bora, bizantino e maneirista e barroco, desde o ocaso ou desde a aurora, do vento Bora do vento Scirocco; uma vez aqui pude pensar com mais clareza, poucas vezes antes pude admirar tanta beleza; visão de Mann e Byron morando logo ali no Lido, a Basilica di San Marco com o alto Campanário, na Torre dell’Orologio todo meu tempo decorrido, lugares que já não fazem parte só do imaginário; em momento algum da vida tive alguma certeza, mas aqui soube que ainda faria qualquer proeza; rainha do Adriático a noiva minha, estandarte da Commedia dell’arte, minha noiva do Adriático a rainha, dell’arte da Commedia estandarte; a obra de Vivaldi poucos alcançam, Giudecca é onde me deito dormente, aqui Pound e Stravinsky descansam, Onde Satã devora Judas eternamente; sobre a Ponte di Rialto uma serenata, andemos alguma sombra beber, sob a Ponte dell’Accademia uma regata, ao renascimento deixai renascer, sobre a Ponte degli Scalzi uma passeata; a besta a solta em Campo di San Polo, incontornável o Campo della Salute, escalo o Palazzo Contarini del Bovolo, melhor que contra a peste não relute; tanta emoção sinto aqui que me dá até fraqueza, tenho ganas de me deixar levar pela correnteza; normale è più ludico, náutico sapore di sale, morale quando angelico, bélico original o Arsenale, Carnevale tão psicodélico, gótico é o Palazzo Ducale; a capital primeira do Capitalismo, de Marco Polo um primeiro mundo, cândida da desventura do otimismo, o fez saber que não havia o segundo; Iago e Desdemona e Otelo, amores pseudoplatônicos amores, encena-se a teoria do belo, Casanova e outros conquistadores, ou Arlequim ou Polichinelo; apontada como cidade das pontes, rico vidro é o cristal de murano, osterias e bodegas tem aos montes, de lá voltei um pouco veneziano; daqui me vou para viver alguma tristeza, não me parece o fim a morte em Veneza.

Europa VI - Tino Em Flor (Florentino)

Na região da Toscana, está o berço do Rissorgimiento...
Um capítulo da história humana, a cidade monumento;
mecenato dos Médicis, rio Arno que copia do céu a mesmice...
doce estilo novo que amarga a velhice, numismática flor-de-lis...
antiquarios modernos, as melhores gelaterias,
cafés tão sempiternos, entre tantas livrarias...
Galeria dos Ofícios, entre tantas igrejas e a Velha Ponte,
palazzos Velho, Pitti e Strozzi conte, mármore dos edifícios...
Dante, Giotto, Donatello; Da Vinci, Petrarca, Uccello;
fora estão os montes Apeninos, a cor dos mais velhos afrescos...
Della Francesca, Vespúcio; Fra Angelico, Boccaccio;
dentro as piazzas e os giardinos, para os novos olhares grotescos...
Botticelli e Maquiavel; Michelangelo e Galileu
luxo de joalheria,
vidro e cerâmica para o artesão,
pégasos e centauros juntos estão,
gasta ourivesaria...
tabernas empoeiradas, pitorescas trattorias,
bibliotecas organizadas, festivas as pizzerias...
noite clara de mistério,
Catedral Sta. Maria del Fiori e além dela,
também a Basílica de Sta. Maria Novella,
são Duomo e Batistério...
aos artistas renomados,
parla David com todos nesta cidade do lírio,
Medusa e Perseu ambos comigo petrificados,
 de urbanidade e delírio

Europa VII - amoRoma

Io mi ricordo das sete colinas.
Dos planos do Lácio, das margens do Tibre.
De Enéias no Submundo e da loba capitolina,
mãe adotiva minha e do irmão que mata irmão.
S.P.Q.R. quer dizer: Sono Pazzi Questi Romani.
Canela da bota submersa no Mediterrâneo.
Cidade que contém todo um país, capital do pecado capital.
Roma perdeu o Império, não a majestade.
O sangue aqui está em casa, e toda a glória é rasa.
Então, entre cappuccinos e cigarros, ciceroneio-me.
Tomo meu tomo e leio: aquele cristão fascistão do Papini;
e tomo um gelato pela dolce vita.
Estou conhecendo Mamma Roma, cinecittà aperta;
cidade das mulheres, de pernas abertas para os turistas.
Aqui sonho em esplêndido P&B, mezzo Fellini mezzo Mastroianni.
Antes que acorram crepúsculos em dourado e vermelho.
Tardes lúdicas no Circus Maximus.
Cidade antiga, medieval, renascentista.
Andei muito por aqui, até aqui, e estou boquicerrado,
pois quem tem boca vaia Roma.
Capitólio, entre Brutus e César; Templo de Júpiter, entre Nero e eu.
O tempo passa, a História continua.
Vi um elefante carregando um obelisco desde a Praça Veneza,
pela triunfal Via dei Fiori Imperiali, até o Coliseu.
Por menos meu amigo Ovídio foi expulso daqui.
Mamo da lupina urbe de brancas tetas como o próprio leite.
Olho e passo: é ao mesmo tempo inferno e paradiso.
O Mausoléu de Adriano e o Mercado de Trajano.
Manjo tudo, que me faz bem... pasta, pasta, pasta!
Entra pela Bocca della Verità, pela Cloaca Maxima sairá.
Aqui, ruas e prédios dão prazer de percorrer; tantas, tantos. 
Vide pontes, torres, muralhas, arcos, pórticos, colunas e passagens.
Vários templos, igrejas, basílicas, catacumbas, catedrais.
Palácios e castelos, museus e murais, termas e aquedutos.
Estatuária à frente, atrás, dos lados e até embaixo.
Sítio arqueológico em plena urbe,
ruínas que sobreviverão à cidade nova.
Anoto o que noto, poeta que inspira e se inspira de poeira.
Isto sim é o próprio velho, o autêntico,
exemplo heróico das eras, templo do tempo.
Doeu-me a vista nos quartos de Rafael,
o pescoço sob o teto de Michelangelo.
Confesso: um americano deslumbrado é o que sou.
Os daqui devem ser loucos... como se acostumaram?
Villas Borghese, Doria e Ada, onde os meus entressaias.
Aqui a Pirâmide de Caio, ali a Porta de San Paolo.
Sento e leio e fumo pelas piazzas incontornáveis,
della Repubblica, del Popolo, di Spagna,
Navona ou Campo dei Fiori.
Embebedo-me diante das mais lindas fontes barrocas;
e de costas para a Fontana di Trevi já repleta,
por sobre meu ombro uma moeda e um desejo, voltar...
Enquanto estive em Roma o Papa esteve em São Paulo,
o que me pareceu muito conveniente a ambos. Sim...
Volto para casa amanhã, mas amei-te e já tenho saudades,
ó Cidade Eterna! Numa pedra milenar, eu,
um dos últimos pagãos que lá estiveram, escrevi:
EU ME LEMBRO.