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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

17 de julho de 2010

língua ordinária


a minha língua é da boca pra fora
e como tudo o que é rápido vírgula
a língua também se levanta, demora
e quando ela se agiganta é maiúscula
que a mesma língua que se janta devora
pois toda língua é longa, dentro embora vernácula

e quando natural
a língua é bela
e rebelde e oral
e tudo mais que falamos dela:

língua de fora, gringa
língua que aflora, xinga
língua curvilínea, swinga
língua sanguínea, pinga
língua de fogo, vinga
língua de jogo, ginga

taumaturga
a língua que conjuga
é a língua que quis
demiurga
a língua que refuga
é a língua que fiz
dramaturga
a língua que subjuga
é a língua que diz

na sua própria língua
ela, língua, debate
cada língua a se debater na própria boca
uma língua deitada de prazer
sobre a língua que nos fala de um vate
ela entre ativa e passiva
é língua dentada de me dizer, boca à boca
o amor à língua, lasciva e rouca
falando agressiva, sublingual
pouca a pouca, da língua louca de te morder
tudo o que não é oral
ou babel barroca

a língua à solta
linguagem que ama
não míngua, açoita
língua e idioma
bem aqui, ali igual
linguajar predileto
a língua normal
língua e dialeto

a língua que veneno destila
a língua glândula, palavra, papila
língua gula a língua que engole
língua mole, sem nome
língua que se come
língua de fome

grave a língua, língua aguda
trave a língua: linguaruda
língua rude faz alarde
a língua ilude, estala e arde
mas não se cala

a língua da dança
é a língua que não se cansa
a língua da criança
é a língua que não se alcança

descubra a língua escarlate
o disparate da língua rubra
aconselha a língua carmim
o latim da língua vermelha
lambem a língua a estalar
e também a estar lá
a fala, o falo, a goela, o grelo

num canto beijam-na
e é supérflua a saliva
que racha líquida a chupar léguas
e se desejam-na iníqua, molhada e muscular
contígua à mandíbula, profícua no paladar
quase mordida de lira a ladrar
é inócuo calar a perpétua cantiga
linha contínua da arte antiga
tudo o que é parte da língua
   tudo o que é              parte da língua