Perguntas por mim?
Nunca nasci ou morrerei;
Eu estou e sou assim!
Nunca nasci ou morrerei;
Eu estou e sou assim!
Aqui sempre continuarei.
Duchamp quis "... transformar todas as pequenas manifestações externas de energia, em excesso ou desperdiçadas, como por exemplo... o crescimento dos cabelos ou das unhas, a queda da urina ou das fezes, os movimentos impulsivos do medo, do assombro, do riso, a queda da lágrima, os gestos da mãos, o olhar frio, o ronco ao se dormir, a ejaculação, o vômito, o desmaio, etc".
Eu então gostaria de propor aqui exatamente o mesmo, desejando a participação de todas e todos, valendo tudo, incluindo o meu NãO FiQuE SãO ou até mesmo qualquer livro de Oscar Wilde. Eis a minha lista:
Quero hoje ouvir a verdade que grita a vagina aberta até me fartar, por entre suas barbas hirsutas meter-me calando-a com minhas fálicas falácias e gozarmos juntos do silêncio ruidoso que fazem os corpos roçando-se. É o que faremos para matar o tédio, spleen e ideal. Um amante que não ousa dizer teu nome. Vou revirar-te as formas, espremer-te o conteúdo; saber-te as fraquezas na carne a maltratar: no suor que sorverei, nas redondas tetas que maleáveis pedem meus dentes que teus dentes sujam com meu sêmen seco. Flagro a fragrância que em nossa alcova deflagra teu tenro pomo, àquela hora já entediado do amor sáfico, ele entra em meu olfato e me torna besta furiosa, libidinosa e pagã. Assim dói? É? Fico feliz... Defloro-te a ampla vulva colhendo-te no horror do ato consumado sobre o nosso sangue coagulado (o meu, o teu e o do feto moribundo) e te arrombo o cu mutilando as nádegas maciças; amarro e violo, estupro mesmo, e você gosta, gosta... Chupo um cigarro e você me chupa, resmunga ao redor da extremidade que assim desse ângulo te faço lembrar do apolíneo do teu pai; trago forte e quero explodir em ti ao lembrar nosso filho morto que nunca poderei foder, até matar ou matar, até foder... ah, doeria mais nele do que em mim! Não, não. Não chore , mulher, que é coisa para sádicos além de uma vulgaridade. Isto tudo não passa de um passatempo. Poderíamos morrer agora, de pequenas mortes formidáveis. Plásticos e artísticos, elásticos. Sem látex latejantes. Vamos, pode morder... assim! Arranque para você um pedacinho só. Você pode chamá-lo de Prepúcio pois eu sei que não lhe sai da cabeça... De cabeça para baixo com os buracos a mercê ela fica uma graciosidade, presa e desconfortável assim então, uma tentação irresistível; resisto a tudo menos às tentações. Assim repenetro-lhe a vagina até o joelho e ela grita, piso-lhe os cabelos e ela mia, taco-lhe no cu o cigarro e ela arrebita. Somos festa móvel, particular e impublicável. E isto será bom para todos nós.

Ando nas ruas de Ruanda; Orra, Andorra, anda!
Fim de noite e eu ouvindo Erik Satie, as teclas entre o computador e eu. Na boca um gosto fraco de café forte. Fumaça de cigarro entre os olhos e a tela, em espiral. Frio feito França. Teclo um OI para mim: harmonia. Ela nasceu da união de Marte com Vênus, a guerra e o amor. Sinto muito os dois agora. Estou escrevendo sem papel ou caneta, eu estranho um pouco o processo, nunca gostei disso. Crio com sentimento, consentimento é criar sem sentir; é preciso um esforço descomunal, incomum só que dos dois modos é normal. Estou a lembrar do sexo que fiz na noite de véspera, intenso como a lembrança do que foi ontem, hoje. Relaxo os ombros, o pescoço estala à esquerda ao me endireitar. O telefone toca uma vez e pára, é o suficiente. Não é para mim, se não me engano. Quanta ternura pode haver no olhar de uma cão? Só quer comida ou carinho, não está interessado no porquê foi recolhido da rua ou em onde será enterrado quando morrer... Quero aprender com este olhar feroz de manso animal. Sei um pouco como é ao pensar nisso, não posso esquecer de lembrar desse poder. Teclo “salvar”. De repente sinto-me em grande perigo e me ponho aflito. Sou do tipo que treme sujando de cinzas a página(o teclado), tremo ao terminar de urinar, ao começar a beber qualquer conhaque, até de frio. A música devagar diminui o ritmo, torna-se mais grave e silencia. Recomeça quando eu acendo outro cigarro com um fósforo, que enche deste odor o meu ar. Tantos pensamentos cinzentos no cinzeiro, já é hora de o esvaziar. O que eu gostaria de pensar agora? Certamente não em algo útil como uma pergunta. Poesia talvez. Levanto-me da cadeira no meio desta grase para folhear algo na estante. Três velhos livros chatos: nA Arte Poética Aristóteles diz que “O poeta faz simulacros com simulacros, assim afastado do vero a enorme distância. Vive, pois, no erro e não tem utilidade alguma.”; em uma Introdução À Poética Clássica encontro Theóphile Gautier dizendo “ Não sei quem disse, não sei onde, que a literatura e as artes influem sobre os costumes. Seja quem for, trata-se indubitavelmente de um grande tolo; é como se disséssemos que as ervilhas produzem a primavera.”; um Dicionário De Arte Poética tenta definir, “Utilitarismo – conceito de literatura, como de toda arte, voltada para fins didáticos ou pedagógicos, com a aplicação do preceito latino do utile dulce, combinação do útil com o agradável.” Então a brasa do meu cigarro pendendo comprida no cinzeiro cai para dentro com um mínimo de ruído. E o nosso pianista se levanta para ouvir saindo da platéia uma ruidosa salva de palmas. Eu acho que consigo transformar isto em um bom começo.

Eu estava semiacordado, não tinha remelas mas tinha na boca a saliva azeda e densa de cada manhã, via-me no espelho retrovisor do carro, os cabelos brancos e a cara de sono. Era noite e a rua escura paralela à rodovia onde estacionei sob uma ponte está deserta. Construções antigas abandonadas, em ruínas, sujas e pixadas em preto e branco e azul. Sentia-me absorto em meio ao lugar, ao silêncio e à quietude, e à paralisia de que me via refém. Como não dormia há quinze dias, devo ter dormido muito; não tenho relógio, que dia é hoje e que horas são? Confusão tranqüila, vento parado, mornas variações; rápidos pensamentos que passavam por mim naquele instante... teria sonhado? Olhando ao redor não via mais nada, nenhum movimento. Até que, na esquina à esquerda, mais distante, dobraram dois homens que vinham seguindo a calçada em minha direção e fiquei a olhá-los assim, pé ante pé, caminhando na escuridão por uns minutos até ver-lhes os rostos desconhecidos, eram desconhecidos. Eles olhavam para mim. Desviei deles o olhar em um impulso de ver no espelho que olhar tinha eu, que visão de meus olhos eu lhes oferecia; no canto direito do espelho vi outro homem, vindo por traz do carro, lentamente. Nos demais espelhos, conferi que vinham mais outros, um trio. Tinham todos o mesmo caminhar impessoal e ininteligível que atônito apreendi. Surgiam outros, vários, de olhar inexpressivo, duros e severos como se tivessem um objetivo só. Fui logo tomado de uma angústia que aumentava a cada passo daquela gente vinda de todos os cantos. Eu assistia passivamente o desenrolar da cena, temeroso do que viria a seguir, mas ansioso pelo fim do suspense criado pela eminente iminência do desfecho próximo. Abalava-me tanto com meus nervos frágeis de paranóico que o carro todo pôs-se a chacoalhar, tremia junto com as ruas e as paredes no entorno, o céu em seguida, incoerente; e a insensatez do que via não correspondia à mera realidade, eu sabia. Foi só quando tudo começou a girar e girar e girar que desdenhei de meus sentidos e suspeitei do sonho, talvez da loucura. Cercado pelas pessoas paradas em volta eu nada entendia e tudo o que via eram as imagens tornando-se líquidas à medida em que se desfaziam meus nervos e minha razão. Eu estava girando em meio ao horror daquela fantástica situação, afundando perdido, vencido, à deriva nas turbulentas águas do não sentido onde me dei conta do trágico redemoinho humano que me sugava em espiral. Emoções impensáveis; passado e futuro num presente contínuo ainda passaram por mim... Era a crise, era o caos, era a descarga que acabava por submergir a merda da minha mente com aquele ruído esdrúxulo característico. Pronto! Eu estava do outro lado. Voltando à superfície na calmaria do exausto pensamento. Dispersando o medo. Dissipada a fobia de linchamento, abro os olhos recordando-me bem, agradecido àqueles gentis homens que tão bons e solidários ofereciam-se para empurrar o carro que não saía do lugar.